terça-feira, 12 de junho de 2012

NINE DADS (EPISÓDIO 2)



Pela manhã seguinte foi complicado. Gustavo teve de subir numa escada para desgrudar um Matt adormecido do teto de seu quarto, o que lhe rendeu um bocado de esforço enquanto sua mãe ainda não tinha acordado. Também Matt não gostou de ser despertado.

— O que, são seis da manhã? Eu não tenho, tipo, família pra sustentar!

Demorou algum tempo até Gustavo persuadi-lo a voltar para o chão, lembrando-lhe de que não estava mais em sua dimensão e que era preciso se comportar de maneira a não levantar suspeitas de sua mãe, com quem Liebert não tinha, a princípio, nenhuma conexão direta.

— Oi, mãe, esse é o Matt. Ele apareceu durante a noite.
— Ah, sério? Pelo menos você tem um amigo por perto, querido — disse a mãe dele com voz de quem tinha chorado a noite inteira.
— Semana complicada, sra. Klein? — perguntou Matt, acrescentando com um sorriso animador enquanto descascava uma banana: — Tenho certeza de que a partir de hoje vai melhorar. A senhora deve pensar positivo!

A mãe de Gustavo disse algo como “É.” olhando para a fruta preferida dos primatas e saiu da cozinha com cara de quem ia chorar no cômodo ao lado. Matt percebeu a gafe quando a banana estava na metade e disse “Ôps”, desfazendo-se dela na lixeira ao lado. Gustavo sentou-se à mesa mexendo um copo de achocolatado com uma colher, e Matt o tomou para si.

— Ah, valeu! Era disso que eu estava precisando. Andei pensando agora há pouco, e não acho que vai ser muito difícil descobrir onde é que está o seu coroa Número 1. Talvez só precisemos de uma visitinha à escola.
— Espero que sim, porque não estou gostando muito de ver minha mãe aos prantos em casa. Prefiro ela gritando, sabe.
— Isso vai ser resolvido hoje... ou não! — concluiu Matt com outro sorriso animador. — Vamos à escola!

A escola não estava muito diferente naquele dia em relação aos dias anteriores... mas isso era óbvio. Como combinado, Matt acompanhou Gustavo de mochila nas costas e olhar vago, como todo bom aluno do Ensino Médio, até chegarem às portas do colégio, onde também estava Bruno.

— Beleza, Gust... Ah, oi, tudo bem? — ele estendeu a mão para Matt, que lhe deu um “high five”, e franziu o cenho desconfiado por um momento. — Por acaso eu não te conheço de algum lugar?

Bruno rodeou o rapaz, deu algumas farejadas (sem levantar a perna) e acrescentou:

— Tenho certeza de que a gente já andou de ônibus uma vez.
— Não é quanticamente impossível — disse Matt sorridente, e eles ouviram o sinal do primeiro período. — Acho que é agora que a gente entra... Legal te conhecer. Sou Matt.
— Bruno. Também é legal te...
— Beleza.

Ele puxou Gustavo pela alça da mochila antes que o outro garoto terminasse, e os dois entraram na escola sem dificuldades na portaria, onde as pessoas estavam muito ocupadas tentando passar os elmos dos estudantes pelo detector de metais. À porta da sala, antes que o professor chegasse, Matt e Gustavo acertaram os últimos detalhes da primeira “investigação” que iam realizar.

— Você deixa as suas coisas aqui dentro e, assim que puder, pula pela janela e desce agarrado na árvore que eu vi lá no pátio para o andar de baixo. Eu distraio as pessoas com uma encenação de Macbeth.
— Não é mais fácil eu pedir licença pra ir ao banheiro?
— Olha, também é possível, mas pode dar mais trabalho.
— Eu poderia sair no próximo período? Tipo, agora é aula de Sociologia e...
— E você é um nerdzinho??
— Não, é que nós teríamos uma prova oral, o que costuma ser bastante...
— E o nerdzinho tá com medo de passar vexame, é? Os 50,5 não são suficientes pro nerdzinho?
— Você sabe que essa discussão não tem a menor graça, né? E que também não faz sentido?
— Hummm, e a bonequinha tem algum problema com isso?
— Pare.
— “Look at me, I’m a little doll
     I comb my hair all night long
     Cause all that I can do is to be a… nerdzinho!”
— OK, você não tá me levando a lugar nenhum com esse raciocínio. Eu estou entrando na sala.
— Tá, nada!
— Será que você pode...
— Bote!
— Sério, eu to realmente puto.
— OK, entra. É Sociologia? Adoro Sociologia!

Matt puxou novamente o filho pela alça da mochila, dessa vez para dentro da sala, onde minutos depois entrou o professor do primeiro período.

— OK, turma, pensei em fazer as coisas de um jeito diferente hoje, já que muitos de vocês estão nervosos com essa história de “prova oral”, etc e tal, e como é mais prudente eu ser amigo de vocês do que ter os quatro pneus do meu carro esvaziados no meio da noite, vou facilitar um pouco aqui... Vocês me fazem uma pergunta, cada um, e eu respondo. Depois eu faço uma pergunta para cada um, e encerramos antes das nove. Certo? Vão pensando...

As pessoas em volta foram tropeçando em si mesmas para arranjar papel, caneta e alguma ideia interessante para questionar. Em cinco minutos, Matt tinha levantado a mão. O professor pediu silêncio aos demais e disse:

— Parece que temos um candidato — sempre quis usar essa frase! Vá em frente, sr....?
— Aldo. A pergunta é a seguinte: “Na ótica do neo-estruturalismo, como podemos articular os conceitos de Estado, religião e hierarquia com os contextos modernos de vida na era digital, em meio à mídia de massa, levando em conta os padrões de consumo e as representações de grupo das classes suburbanas brasileiras diante da ascensão da Coca Zero?”.

Houve uma pausa. O professor tirou os óculos, sentou-se e disse:

— Olha... acho até que é um negócio bem gostoso.

O período acabou antes do que eles imaginavam, assim foi possível para eles saírem para o pátio junto com o resto da turma e parecerem inocentes.

— OK, agora, enquanto todo mundo tenta passar pela portaria para matar os próximos quatrocentos períodos, você entra na sala da Diretora... e fuça! — disse Matt a seu filho.
— Apenas fuçar? Você quer que eu fuce a sala da Diretora sem motivo aparente? Digo, não estamos procurando por nada em especial?
— Não sei, errm... Quem sabe algo brilhante? Ou algo que indique que ela tem animais de estimação?
— Por que isso nos ajudaria a resgatar meu pai?
— OK, quer saber? Eu vou com você. Essa é minha função. É. Você, filho. Eu, pai. Nós vamos juntos. E fuçamos.

Assim, os dois esgueiraram-se para dentro do prédio e pelo corredor administrativo quando ninguém estava olhando e, com a ajuda de um pequeno clipe, abriram a porta do gabinete vazio da Diretora.

A sala era aparentemente normal, porém — vá saber — bem poderia esconder sinais de uma personalidade pervertida e malévola que gostava de envolver-se em sequestros de pessoas por intermédio de animais.

— É uma sala aparentemente normal — disse Matt em voz baixa, enquanto eles fuçavam as gavetas e forros das almofadas —, mas, vá saber, bem pode esconder sinais de uma personalidade pervertida e malévola que gosta de se envolver em sequestros de pessoas por intermédio de animais. Com esse tipo de gente, filho, nós temos que ser vigilantes. Nunca se sabe o que se passa na cabeça desses perturbados... A propósito, me passa aquele isqueiro?
— Para quê? — Gustavo obedeceu-lhe perguntando.

O Pai Número 2 tirou do bolso um cachimbo e um saquinho plástico com algo verde dentro.

— Observe, agora, filho — ele disse enquanto fazia o conteúdo do saco ir para dentro do cachimbo para ser queimado —: isto parece um cachimbo, bem como isto aqui se parece com maconha. E as duas coisas, combinadas com o isqueiro, parecem uma coisa muito ruim.
— EU TENHO UM PAI ALTERNATIVO MACONHEIRO??

Matt deu uma tragada e tossiu longamente antes de responder.

— Foi mal... Filho, veja pelo lado científico da coisa: Cannabis sativa ajuda a potencializar os poderes mágicos das pessoas.
— Você tem poderes mágicos porque você fuma???
— Meio por aí.
— Ou você fuma porque tem poderes mágicos?
— Eu prefiro não acreditar nessa hipótese.

Ainda perplexo, Gustavo ia ralhar um pouco mais com Matt quando ouviu passos rápidos aproximando-se da sala onde os dois estavam.

— Oh, merda, tem gente vindo. Apaga isso aí! — ele exclamou, mas o Pai #2 tão somente desapareceu com um “Puff”, e a Vice-Diretora abriu a porta.
— Eu posso saber o que você está fazendo aqui dentro? — ela já parecia puta num mau sentido em seu dia-a-dia; agora, vendo as gavetas e outras coisas reviradas, ficou mais zangada ainda num sentido igualmente ruim. — MAS QUE MERDA VOCÊ VEIO FAZER AQUI, NA SALA DA DIRETORA?
— Érr...
— E que cheiro de... Ah, você não se atreveria!
— Érr...
— VOCÊ FUMOU A MACONHA DA DIRETORA?!

Gustavo nada disse depois disso.

— Pode ficar aí, caladinho, esperando o seu destino cruel. Ou melhor, grite. Grite por clemência e por não saber o que está reservado para você! Fuck, yeah. Não, não. Fique aí sentado, tremendo, por não saber o que pode acontecer depois que eu voltar com a Diretora... e aí implore por clemência!

Ela deu uma risada satânica e saiu batendo a porta. Meio minuto depois, retornou com a Diretora. Esta ocupou sua própria poltrona, ordenou que Gustavo se sentasse na frente dela e disse simplesmente:

— Então, você veio fumar minha erva. Eu mandaria você COMER tudo, mas aí você ficaria mais chapado, e isso faria você ficar feliz, não? Pois, então... Acho que sei como ferrar a sua vida. Vice-Diretora cujo nome não vem ao caso, por favor me passe o Estatuto da Criança e do Adolescente.

A Vice-Diretora obedeceu. A Diretora abriu o livro, parou numa página e leu:

— “Art. 37462846398272: o adolescente que for pego consumindo a droga do seu gestor educacional será submetido à morte por afogamento em tanque de vidro, preso a camisa-de-força e envolvido por correntes, na data mesma em que foi dado o flagrante, o mais imediatamente possível. Parágrafo único: salvo se o adolescente em questão conseguir se libertar das correntes e emergir em menos de 3 minutos.”

“PÁ!”, ela bateu com o livro em cima da mesa, olhou Gustavo fixamente nos olhos e disse:

— Então... você acha que consegue? Hein, seu porquinho imundo?
— O que, entrar num tanque...?
— Com uma camisa-de-força.
— Com uma camisa-de-força e com...?
— Com correntes.
— Isso. Com correntes... Afogado... A coisa toda... E me libertar em menos de 3 minutos?
— Exatamente. Você consegue? Hein? Hein? Está sentindo o medo latejando nas têmporas??
— Olha... acho até que é um negócio bem gostoso.

A Diretora deu uma risada satânica e acrescentou:

— Na frente da escola toda?

O pânico tomou conta de Gustavo. Ele o sentiu em suas entranhas. Agarrou com força o braço da cadeira, suando frio, e perguntou:

— Não poderia ser de outra maneira?
— O Estatuto é bem específico, temos que fazê-lo imediatamente e, com certeza, seus colegas vão querer assistir.

A Diretora olhou empolgada para sua Vice.

— Sempre quis usar aquele tanque de vidro!

Na hora do recreio, um grande estrado foi montado no meio do pátio, e um tanque de vidro com a altura de dois homens foi trazido para lá. Encheram-no até a boca com água. Àquela altura, todos os alunos e funcionários que estavam por ali se aglomeraram em torno da construção e aguardaram o que eles sabiam se tratar da primeira execução por afogamento na sua escola, o que era com certeza uma grande honra.

Apenas Gustavo não estava gostando daquilo, e não era pelo risco à sua vida. Ele apenas não gostava de fazer coisas em público. Se ao menos, naquele momento, tivesse seu...

— Pai??

Matt tornou a materializar-se, dessa vez atrás dele enquanto ele era vigiado em cima do estrado, comendo uma tangerina.

— Foi mal, filho! Foi mal mesmo. Eu só queria te dizer que sinto muito e que estou triste por você estar prestes a ser executado por afogamento.
— Mas eu não acho que eles vão conseguir me executar, pai. Apenas estou morrendo de medo dessa gente toda! Se ao menos eu pudesse esquecer que eles estão aqui, ou pudesse me sentir mais à vontade com todos esses olhares sobre mim... quem sabe eu sobreviveria.

Matt ficou calado, pensativo. Depois disso não houve mais tempo para conversar. Os executores chegaram, colocaram Gustavo numa camisa-de-força e o acorrentaram da cabeça aos pés. Em seguida, içaram-no com cuidado e o depositaram dentro do tanque. A partir daquele momento, um cronômetro nas mãos da Diretora começou a contar o seu precioso tempo, que ele não aproveitou porque se sentia socialmente pressionado.

Todos aqueles olhares direcionados a ele! Todos aqueles gritos de “AFOGAAAA!!”, “Se fudeu, maconheiro!” e “Chatooo!” eram perfeitamente audíveis, mesmo ele estando debaixo d’água. Depois que um minuto já tinha se passado, Gustavo chegou à conclusão de que não aguentaria. Ia morrer ali, e seu pai continuaria no cativeiro com macacos.

Mas, de repente, todo mundo ficou pelado. Gustavo piscou os olhos para ver se era aquilo mesmo, e sim, todo mundo estava nu. Nessa hora as pessoas começaram a gritar; garotas, rapazes, professores e professoras estavam gritando, e a Diretora não soube o que fazer, porque seu capataz particular, o zelador Joe, estava na mesma posição de vulnerabilidade.

Então, enquanto todos se distraíam com a proteção de suas partes, Gustavo começou a se mexer para se livrar daquelas correntes. Não foi muito difícil. Em seguida, veio a camisa-de-força. Felizmente, ele não se esqueceu dos movimentos que aprendera na aula de piano, e assim conseguiu se libertar.

Quando ainda restavam-lhe cinco segundos, ele tomou impulso com as pernas e emergiu na boca do tanque dizendo:

— CONSEGUI!

Para sua sorte, a escola ficou tão ocupada pelas próximas horas em reunir mudas de roupa que sua infração foi esquecida. Mais tarde, quando toda nudez havia sido devidamente combatida, todos foram liberados para casa, e na saída Gustavo encontrou Matt esperando por ele.

— E aí, o que achou? — perguntou seu pai abrindo um pacote de bolachas Maria.
— O que, foi você? — indagou Gustavo sem acreditar.
— Dã, quem mais teria sido?
— Eu jamais pensei que todo mundo ficaria pelado instantaneamente por um motivo que não fosse natural!
— Eu falei: se não fosse pela Marijuana, meus poderes não teriam te salvado.
— Mesmo assim, eu sou contra você usar esse negócio. Mas valeu pelo empurrão, pai. Ajudou pacas!
— Não há de que, é meu trabalho. Maria?

Eles saíram rua afora comendo bolachas.

— No fim, não conseguimos nada com a Diretora — disse Gustavo um pouco desanimado.
— É, e eu também não acho que ela tenha qualquer coisa a ver com isso.
— Mas, então, por que mandou que eu...?
— Foi uma jogada impulsiva, eu sei. Não vai se repetir.
— Quer dizer que você não sabia o que estava fazendo? Você me mandou invadir o gabinete da Diretora da escola e fez com que eu quase morresse, sendo que sabia que isso não nos levaria a nada?
— Uhum. Foda, né?

Gustavo estava a ponto de xingar seu pai quando uma garota veio correndo atrás deles e os interrompeu.

— Esperem! Desculpa... Vocês não devem me conhecer. Meu nome é Jessie, errm... Eu estava escondida no banheiro feminino me cortando, quando ouvi a comoção no lado de fora. Vi você saindo daquele tanque, tipo... Uau, deixar todo mundo nu foi... coisa de mestre!

Ela parecia tão impressionada que Gustavo não teve coragem de dizer que não fora ideia sua. Em vez disso, pigarreou e falou:

— Ah, aquilo não foi nada. Devia ver como eu me divirto no cinema!

Os dois riram juntos.

— A propósito, meu nome é Gustavo, e gostaria que você conhecesse meu... amigo, Matt Liebert.

Matt estendeu a mão à garota com um “Muito prazer!” e deu uma piscadela para Gustavo.

— O prazer é meu — disse Jessie. — Se não tiver nada pra fazer amanhã, meu pai é veterinário de um zoológico muito legal e pode nos conseguir ingressos de graça.
— Ah... é mesmo? — disse Matt em tom maravilhado, lançando um olhar cúmplice a Gustavo. — Se eu fosse você, aceitava, Gustavo, porque zoológicos são lugares muito interessantes para se ver... animais, tipo araras... girafas... macacos e... ornitorrincos... e macacos, sabe como é.
— OK, eu entendi, pai — sussurrou Gustavo.


Gustavo aceitou o convite de Jessie, que foi embora quando uma chuva fininha começava a cair. O garoto e seu pai Número 2 continuaram andando, mesmo sob os pingos de água, agora com alguma esperança de que a investigação fosse progredir no dia seguinte.