Matt correu os olhos pelo ambiente, à procura de um objeto que os ajudasse a sair daquela gelada. O negócio, como sempre, era improvisar, mas agora a chance era apenas uma. Não haveria margem de erro. Felizmente, ele não se esquecera de como costumava ser nos velhos tempos...
..........— Ao meu sinal, ‘cês invadem o cafofo. — berrou o Capitão do BOPE, instalado lá embaixo, do lado de fora, com sua tropa.
— Sim, senhor! — respondeu seu soldado de maior confiança.
— Esperem apenas um pouquinho...
— Sim, senhor!
...
— E agora, senhor?
...
— Ainda não...
— ... Agora pode, senhor? ‘-‘
...
— Tá, tá, agora sim. Podem invadir!
...........Uma dúzia de soldados marcharam prédio adentro, correndo escada acima com seus fuzis e metralhadoras para chegarem ao oitavo andar, lugar onde o pau ia comer dali a poucos segundos.
Ilhados no apartamento, Matt, Pepito e o Agente #1 ocupavam-se em arrastar todos os móveis possíveis para perto da porta, formando uma espécie de barricada.
— Já chega! Ouço eles chegando. — avisou o Agente #1 com o ouvido encostado na madeira — Assumam as posições!
Lá fora, os caveiras pararam em frente à entrada do apê, dedos no gatilho, olhos e ouvidos atentos, no fim de um estreito corredor. Ficaram esperando pela parte legal, aquela em que um dos soldados arrombava a porta com um porretão à lá SWAT. Este soldado veio abrindo caminho por entre os colegas, parou perto da porta e contou “1... 2... 3!”.
*BLAM!*
A porta veio abaixo levando consigo um monte de tralha (sofás, cadeiras, estantes) que havia sido empilhada para barrar o caminho deles. Tudo caiu com estrépido no chão, dificultando a passagem dos soldados, que tiveram de entrar um a um ao som de “GO! GO! GO!”.
Fizeram a varredura da sala; não havia ninguém.
— CLEAR!
Atravessaram um cômodo com uma larga mesa de jantar, interligando a sala com a cozinha, onde um aparelho em cima do balcão emitia uma estranha luz.
— CLEAR! — disse o Soldado Random #1.
— Espere. — disse o Soldado Random #2.
— O quê?
— Tem algo no microondas.
O microondas fazia VUUUUM enquanto algo dentro dele girava e faiscava perigosamente, até que parou e fez PING.
............As pessoas lá fora gritaram de susto e se abaixaram para evitar os pedaços de concreto, mobília e vidro que caíam. O Capitão do BOPE deixou escapar um “PQP!” ao ouvir no rádio seus homens gritando Fire in the microondas!. Tentou restabelecer o contato com eles, mas não obteve resposta alguma. Estavam todos mortos. Seu soldado de confiança o cutucou e disse, assustado:
— Chefe... eles são perigosos. ‘-‘
— Eu sei!
— Mas, chefe... eles têm um microondas. ‘-‘
— Eu sei, eu sei, isso foi uma coisa muito baixa! Deixe-me pensar...
Pensou.
— Foda-se, o restante vai subir e destroçar esses filhos da mãe. E eu vou junto! *CHAN CHAN*
Seus soldados encolheram os ombros, dizendo “Então, tá” e, seguindo o Capitão, entraram cautelosamente no saguão. Um novo PING os fez parar. Não era um PING de microondas, mas do elevador que descia. Um ponteiro antigo no alto indicava “8... 7... 6...”.
— Estão descendo, chefe! — exclamou o braço direito do capitão com certo medo.
— Eu sei disso, retardado! Todos mantenham suas posições!
Um outro soldado, que coçava o nariz, deixou seu dedo parado exatamente assim. Não seria louco de desobedecer o capitão.
O ponteiro do elevador repentinamente parou no 4. Todo mundo olhou pro Capitão como quem pergunta “E agora?”.
— Parece que pararam.
Ele tornou a meditar sobre a próxima decisão, e passados alguns segundos, disse:
— Subindo!
Subiram. No 4º andar, no corredor totalmente deserto, posicionaram-se mirando as portas ainda cerradas do elevador, o Capitão à frente da tropa.
— A qualquer momento, agora... Quando essa porra abrir, atirem pra matar!
Mas aquela porra não abriu.
— Tá, posso ter me equivocado quanto ao tempo. Mas é certo que vai abrir, então se preparem.
Abriu. Eles descarregaram suas armas contra o interior da cabine sem se preocupar com precisão — certamente, se alguém entrasse naquela linha de tiro, morreria em questão de segundos. Quase um minuto depois, a munição terminou. Uma nuvem de fumaça tinha se formado, bloqueando a visão de dentro do elevador. Havia montes de cacos de vidro, pedaços de reboco e metal espalhados no chão.
Os homens abaixaram suas armas.
— Mantenham as posições. — ordenou o Capitão, dando passos firmes e pausados em direção ao elevador.
Um borrão metálico voou do meio da fumaça, e o homem caiu de costas com uma faca na testa. Então, algo surreal ocorreu: ouviu-se música e o tempo ficou mais lento. Ao mesmo tempo em que os soldados se mexiam para recarregar suas armas, uma figura indefinível, transparente como um camaleão, deslocou-se corredor adentro a uma grande velocidade, desferindo golpes letais enquanto passava por eles. Um reloginho 3D apareceu num canto e começou a marcar:
15...
Um primeiro soldado perto do corpo do Capitão apontou seu fuzil para um lado e levou um chute nos rins vindo do outro, caindo de joelhos com cara de dor.
BACK STAB!
Ele explodiu em pedacinhos.
13...
Uma mão invisível agarrou o braço de um deles, fez força até partí-lo e depois conduziu seu corpo, de costas, contra a parede. O homem desmaiou e foi escorregando até o piso com um filete de sangue atrás da cabeça; nesse mesmo espaço de tempo, o soldado atrás dele sentiu um joelho acertar-lhe a virilha, curvou-se para a frente deixando a arma cair no chão e levou outra na face, tão forte que quebrou sua mandíbula.
11...
O sujeito invisível apoiou um pé na parede, tomou impulso e saltou, desferindo um roundhouse kick em pleno ar contra dois caras ao mesmo tempo. Uma lâmina na parte de trás de sua sola abriu ambos os pescoços, fazendo o sangue jorrar.
DOUBLEKILL!
8...
Tão logo aterrissou, moveu os dois punhos para a frente, socando um soldado exatamente no coração. Ele caiu de costas, bem devagar, e quando mal batia no chão, uma faca já lhe abria o abdômen.
6...
A mesma faca seguiu reta no ar e cortou a aorta de outro homem, que caiu de lado feito um João Bobo.
4...
O próximo soldado se acovardou e caiu ao dar um passo para trás. O Assassino ergueu a faca no ar, porém antes quebrou a canela dele com o pé (AAAAAAAAUCH). Só então enfiou a lâmina inteira em sua boca aberta.
OWNED!
2...
O último homem levou uma cabeçada e caiu sentado, meio tonto, sem a arma na mão. Viu a faca arremeter sozinha em sua direção e tateou o mais rápido que podia para sacar a própria. Fez isso tarde demais.
0!
Tempo e som voltaram ao normal.
O último soldado do BOPE sentiu a pontada dolorosa da faca entrando em seu torso, seguida da sensação morna do sangue escapando rapidamente. Com olhos e boca escancarados de horror, viu a face e o corpo de um adolescente de terno preto assumirem sua forma, cor e textura numa única fração de segundo à sua frente. Foi a última visão que ele teve.
O garoto olhou-o de volta, abriu um largo sorriso e disse:
— CONSEGUIII, MANOLOOO!
Ele tirou a faca de dentro do morto e completou, gritando para que alguém do outro lado do corredor ouvisse:
— E FOI O MELHOR TEMPO QUE EU JÁ FIZ!
Uma outra voz gritou de volta para ele:
— COM ESSES RELÓGIOS NÃO VALE!
Matt Liebert saiu do elevador com cara de poucos amigos, seguido por Pepito e Nikolai, que pareciam muito surpresos.
— OUVIU, GALARZA? — berrou Matt indo ao encontro dele, que limpava sua faca perto do soldado caído — Quero ver você repetir o show SEM o trocinho que atrasa o tempo e SEM o bagulhinho de deixar invisível.
— O que acha que eu precisei fazer antes de poder usá-los? — replicou o SPY, com certo ar de arrogância, guardando a faca no interior do paletó.
— u.u
Nikolai checou o relógio de pulso e comentou:
— Estranho como se passou menos de um minuto, mas parece que estamos aqui há horas.
— AH, É, QUASE QUE EU ESQUEÇO DE VOCÊ!
— Mas, hein?
Galarza avançou até o Agente #1 com uma expressão feroz no rosto e apontou o dedo para a cara dele, quase furando-lhe um olho.
— Quem você pensa que é pra resgatar o meu soldado? — ralhou.
— Galarza...
— Pera um pouquinho. VOCÊ PENSA QUE COM ESSE TEATRINHO NÓS VAMOS CONFIAR EM VOCÊ TÃO FACILMENTE?
— Galarza...
— Espera, porra. ATÉ AGORA NÃO TIVE NENHUMA PROVA DE QUE VOCÊ QUER MESMO NOS AJUDAR.
— GALARZA!
— Porra, que é, Matt?
Matt fechou os olhos, respirou fundo e abriu-os de novo.
— A) O Agente #1 não me resgatou. Ele apenas me removeu de um cativeiro para outro pra me interrogar melhor. B) Ele deu uma puta demonstração de confiança nos seguindo até aqui, pois poderia ter nos entregado quando o BOPE entrou. E, C), ele ainda não demonstrou sua ajuda porque você não tem a PACIÊNCIA PRA ESPERAR! *perdendo a compostura*
— CSSSSS! *gato com raiva* — Galarza.
— Por que, afinal, você trouxe ele, Pepito? D=
— Ele insistiu em vir e ficar observando, caso precisasse agir.
— E agora eu terei o trabalho de convencê-lo de que a minha ideia é a melhor de todas.
— Já teria que fazer isso com os outros quando voltasse pra sede. ‘-‘
— Tá bom, galera, já chega. — o Agente #1 interrompeu a briga — Olha, Liebert, é melhor eu ir embora e tentar ajeitar as coisas com o GOOGLE. Se me rastrearam, é porque provavelmente pensaram que você havia me dominado. Não vai demorar muito até jogarem a culpa em cima de mim. Volte com seus amigos. — e acrescentou, num tom de voz mais alto, olhando para Galarza: — Foi muito boa, Liebert, sua ideia da bubina no microondas.
— Obrigado, Agente #1. ;D — agradeceu Matt também em voz alta.
Galarza passou reto pelos dois, olhou para trás e gritou “NOJO!!”, abrindo em seguida a porta que levava às escadas.
— E aí, resto — referia-se a Pepito —, bora voltar pra sede?
Pepito olhou indeciso para Matt, que respondeu com um discreto aceno de cabeça do tipo “Vai, deixa comigo”. João Pedro seguiu Galarza, avisando “O Matt já vem”, ao que o outro respondeu com um resmungo qualquer e meteu a cabeça para fora da porta uma vez mais.
— Estaremos no telhado!
Eles subiram um lance de escadas, antes de... LOADING.
...........Matt perguntou depressa ao Agente #1, que já estava para pegar o elevador:
— O que você vai fazer?
O homem deu de ombros.
— Eu trabalho pro GOOGLE. Não vai ser difícil inventar uma lorota. Preocupe-se com você, Liebert.
— Comigo e meus amigos, você quer dizer. — corrigiu o garoto com determinação — Aquele doido já nos fez brincar de terrorista por tempo demais.
— Ótimo. Planeje sua fuga o mais rápido possível, não importa como. E quanto a Pedro... bem...
Ele aparentou estar enfrentando um dilema interno muito sério quando disse:
— Digamos que ele escapuliu de novo... como sempre.
Matt abriu um sorriso de orelha a orelha e, como se um “Vlw, vc é mto foda” não fosse dar conta, deu um baita abraço no agente secreto, deixando-o mais vermelho e embaraçado do que nunca.
— Ok... ok, Liebert... Já chega. — balbuciou ele, sem graça, desenlaçando os braços do garoto com gentileza.
— Foi mal, às vezes eu me empolgo. — desculpou-se Matt com um enorme xD pairando sobre sua cabeça.
— Apenas siga seu caminho. PeloamordeDeus.
— Tá, tá.
Matt correu, tropeçou, continuou correndo e desapareceu pelo acesso às escadas. No telhado, encontrou Pepito e Galarza esperando por ele, para seguirem viagem.
— Decidiu-se, donzela? u.u — berrou Galarza contra o vento.
— Escute aqui — Matt ficou bem próximo dele, para que não tivesse de gritar e pudesse usar seu olhar amedrontador (que ainda estava em versão beta, mas já era um começo) —: eu consegui uma coisa que nós nunca tivemos: um trato com uma pessoa do GOOGLE!
— Um trato com o INIMIGO! — rebateu Galarza, dramático.
Matt ergueu um dedo indicador enquanto respondia aos berros:
— Não foi você quem ficou sentado, num ambiente pequeno e apertado, levando patadas e murros na cara enquanto pessoas gritavam com você!!
— NA VERDADE... fui, sim. ‘-‘ Eu voltei de carro com a Amália, o Pepito e todo mundo...
— DOW! Mas isso... isso não anula meu argumento anterior. O Agente #1 e eu tivemos uma conversa muito importante sobre a guerra que vem sendo travada. E, mesmo que você não acredite, ele se preocupa com as vidas inocentes que podem ser perdidas no futuro por causa dos grupos que tentam dominar o mundo.
— Que são vários, inclusive. — Pepito acrescentou.
— Obrigado, Pepito.
— De nada, Matt. ^^
— O Negão nunca vai comprar essa história. — riu-se Galarza — Ele odeia o GOOGLE, no que eu concordo plenamente com o cara.
— Poooooooor — Matt deu um longuíssimo passo em direção a Galarza, seu olhar inquiridor funcionando como uma retroescavadeira sobre o dele —... QUÊ?
O SPY imediatamente abriu a boca para responder, mas pelo jeito não tinha o que dizer, pois nunca havia pensado a respeito. Fez uma expressão puramente analítica durante quase um minuto, para depois dizer em tom vago:
— Sabe que eu não sei? ‘-‘
Matt virou o pescoço para o lado em que Pepito estava e disse “Um a zero”, mas o amigo não podia prestar atenção porque estava de olho no relógio.
— Gente, já passamos muito tempo aqui. — avisou — Será que dá pras meninas terminarem de discutir na sede?
— Não posso parar agora, Pepito. Creio que seja o momento — Matt abaixou a voz para que somente João Pedro o escutasse — de contar a ele sobre o RPG.
— Pode ser depois do café?
— Tá, já que insiste. u.u Vamos pra sede, então.
Os três foram embora fazendo parkour de prédio em prédio.
================PAUSA PRO CAFÉ==================
...........LITTLE WATERFALL. SEDE DA ORGANIZAÇÃO DOOM FINGER:
Pedro subiu pé ante pé pela escada, certificou-se de que o corredor estava vazio e alcançou a porta do escritório. Encostando o ouvido em sua superfície, escutou um leve ressonar de alguém que dormia. Achou estranho. Resolvendo arriscar, empurrou a porta e deu de cara com uma cena bizarra. O gabinete fora violentamente revirado, como se tivessem soltado um urso lá dentro — livros, caixas e gavetas tinham ido parar em lugares totalmente opostos àqueles onde deveriam estar, folhas com anotações, papeis de carta e envelopes jaziam jogados pelo chão sem ordem lógica, cadeiras, mesas e até um divã branco foram revirados.
Seu primeiro instinto foi o de voltar e gritar por alguém, mas antes disso percebeu que a respiração de alguém que dormia vinha justamente de trás do divã revirado no chão. Aproximou-se a ponto de esticar o pescoço para identificar a pessoa e teve outra surpresa.
Era o Negão de Tapa-Olho. De pijama. Com um robe por cima.
— Errm... Negão?... Negão!
Sacudiu o homem com gentileza, quando ele acordou gritando.
— WHAT THE HELL, MAN??? Quer me matar??
Pedro recuou, aturdido, enquanto ele se levantava e caía de novo por cima da guarda do divã. Estava com uma ressaca do capeta.
— Foi mal, cara. — desculpou-se — Só entrei aqui e achei esquisito o estado da sua sala. Aliás, até que é uma sala bonita. Deve ser mais bonita ainda quando não está, sabe, de pernas pro ar.
— Não tente jogar esse joguinho comigo, MUTHAFUCKA! — falou o Negão de voz grogue, apontando um dedo oscilante para um lado onde Pedro não estava — O que você pretendia fazer no MEU cafofo??
— Nada demais, só tinha umas perguntinhas a respeito do plano de explodir Oregon. Liguei pra sua casa, mas como ninguém atendeu, julguei que estaria aqui. Sabe, já passam das duas da tarde.
— DON’T FUCK WITH ME!... É, eu sei que já passam das duas! Digo, não sei. Ahh, foda-se.
Ele cambaleou até a cortina, tropeçando em várias garrafas de uísque entornadas, abriu uma fresta e se incomodou com a luz do sol, tornando a fechá-la. Apoiou-se, então, sobre uma perna de sua escrivaninha virada de ponta a cabeça e perguntou a Pedro:
— O que você queria saber?
Na verdade, minutos antes Pedro soubera por Pinguin, incumbido por Matt, via celular, de contar-lhe isto, tudo que o Imperador Cibernético havia dito a Liebert, Pepito e Grilo sobre o Backup das configurações da Terra Antiga, armazenado no Data Base Center do GOOGLE em Oregon, justamente o que Negão planejava explodir. Sobre como seria perigoso entrar no sistema da empresa, transportar o arquivo para um meio físico (o Pen-Drive fornecido pelas máquinas) e reativá-lo, restaurando a realidade que o GOOGLE destruíra, livrando o mundo de um grande mal, e bla, bla, bla. No início ficou muito irritado por não terem lhe confiado aquela informação desde cedo (“Se eu soubesse antes eu teria ajudado, seus noobs!”), mas um segundo depois mudou de atitude, oferecendo-se para extrair do próprio Negão de Tapa-Olho as informações mais preciosas sobre o plano de destruição do Data Center.
— Tipo assim, como é que nós vamos pra lá, o que vamos precisar e como vamos levar? — perguntou de um jeito normal, inocente, de quem está planejando uma rebelião dentro da própria organização secreta.
— De avião, né, MUTHAFUCKA. Tenho meu próprio jatinho. Os explosivos... bem, isso levou tempo pra arrumar. — começou a explicar o chefe, à medida que voltava do porre — Está tudo bem arquitetado, mas é claro que depois do fiasco de ontem à noite, terei mais cuidado em dividir as equipes de tarefa. Onde está Galarza? — ele saiu círculos em busca do celular — Preciso falar com ele.
— Ele saiu com Pepito. Foram achar Matt.
— What? Ainda não pegaram o cara?
— A primeira tentativa de ontem foi fail, mas agora o Pepito recebeu do Matt uma mensagem com seu paradeiro, e o Galarza saiu com ele para darem uma olhada. De alguma forma, o Matt se libertou. — na última frase Pedro mentira; já sabia, por um SMS de Pepito, da história do trato com Nikolai. E, por mais curioso que estivesse a respeito disso, soube agir discretamente e esperar pelo momento de fazer perguntas.
O Negão ficou atônito.
— Como é?? E ninguém me falou nada? DESDE ONTEM?? FUCK!
— Ué, você sumiu. Desapareceu. Disse que ia ficar “íntimo” e coisa e tal com sua esposa...
— Ahh, a Lydia...
— Er... alguma coisa errada?
O tom dele ficou grave e triste ao falar da esposa. Ele encostou-se na parede e passou a mão pela cabeça (careca), pesaroso e envergonhado, como o típico bebum que retorna do sono da madrugada.
— Lydia e eu tivemos uma briga. — explicou — Uma briga feia. Do tipo que não temos há meses. E ela... me tocou pra fora de casa. Aí eu voltei pra cá, destruí meu escritório e tomei uma bebidinha. Ou duas. Ou três. Ou será que bebi e depois destruí o escritório? Não sei.... Fuck it.
Pedro ergueu as sobrancelhas.
— Vocês brigaram? Desculpe a intromissão, mas vocês sempre pareceram tão... ligados.
— Ah, você se surpreenderia... Todo mundo tem seus segredos, eu acho. — falou o monóculo — A gente se conheceu na faculdade. Deixa eu te mostrar...
Ele se abaixou defronte a uma pilha de papeis e livros jogados no chão, ficou um tempo ali vasculhando e achou um álbum grande, de capa dura. Chegou perto de Pedro e abriu-o para que olhasse também. Conforme passava pelas fotos, comentava:
— Nem parece que tanto tempo se passou. Olha eu aí, eu já fui branco!
Pedro ficou surpreso. Estavam agora vendo a foto de uma turma de formandos em preto e branco (very, very old), na qual figurava o Negão, já em seu estado... negão.
— Meu Deus, quanta gente que eu não vi nunca mais! — admirou-se ele — E olha só o Schneider!
Ele apontou um dos jovens rostos próximos do seu, Pedro o olhou de perto e quase deixou escapar um grito. Era tão somente Sebastian, anos mais novo.
— C-como você disse que este se chama?
— Schneider. Damião Schneider. Esse cara tem uma história complicada, e é um dos motivos para eu fazer o que faço. — o Negão deixou o álbum nas mãos de Pedro e começou a andar pela sala ao mesmo tempo em que recordava — Nos anos 1980, escreveu sobre áliens. Eu falei que não era uma boa ideia, mas ele não quis me ouvir. No entanto, era um gênio em matéria de simulações virtuais e inteligência não-humana. Na época, essas eram áreas muito precárias. Ouvi dizer, anos atrás, que ele foi trabalhar para o GOOGLE. Foi aí que seus problemas começaram...
Trêmulo, Pedro desviou o olhar da foto em preto e branco para o homem que andava e disse:
— Esse seu amigo escreveu? Pode explicar isso melhor?
— Tipo assim, eu tive um pressentimento de que não ia dar certo logo que soube que ele recebera a proposta. Aí, anos mais tarde, o Dodi me liga (outro amigo nosso, foi por ele que fiquei sabendo que o Schneider ia trabalhar pro GOOGLE) e diz: “Negão... o Schneider está com problemas”. Aí veio o pior. Schneider, que não sei por que cargas d’água tinha adotado o nome Sebastian, deixou uma mensagem. A última. Dodi não me deixou ter acesso a ela, apenas explicou que Sebastian não estava mais entre nós e que era melhor esquecer, acender um cigarrinho e jogar pôquer. Mas eu não esqueci. Continuei indo à caça de casos como esse, até desenterrar a farsa do Google Earth, ganhar na loteria e construir minha obra. De uma forma irônica, devo muito do meu sucesso ao destino infeliz de meu amigo. Mas ei, esqueci a sua pergunta. Qual era mesmo?
— Disse que ele escreveu sobre áliens. Como assim?
— Ah, foi uma história louca. De uma hora pra outra na sua vida, o homem começou a falar em deuses astronautas, sinais do outro mundo e previsões do futuro. Fumou uma ervinha, sentou na frente da máquina e nos presenteou com uma grande pérola da literatura científica. Devo ter um exemplar em algum lugar.
Tinha. Após muita insistência de Pedro, que de tão ansioso parecia ligado na tomada, o Negão resgatou das suas gavetas um livro chamado “Instruction Book”. Na mesma hora, várias coisas começaram a se conectar na cabeça do garoto, cujo queixo caiu de espanto.
— Qual o problema, kid? Emocionado? Pense nas crianças famintas da Etiópia.
O Negão se recostou numa cadeira, fungou e disse:
— Sabe do que mais? Vou até a Lydia e dar a essa mulher o que ela merece...
Pelo olhar furioso dele, Pedro pensou que a definição a seguir seria algo muito machista e desagradável, mas enganou-se.
— Um homem que vale o ar que respira!
O Negão se levantou, estufou o peito e olhou para o horizonte.
— De agora em diante, nunca mais serei o escroto que ela tanto odeia. — declarou — De agora em diante, não permitirei que minha cegueira física se reflita numa cegueira de espírito. Vou pedir desculpas!
Ele andou a passos largos até a porta, parou e virou-se dramaticamente.
— Porque é isso que homens fazem! — bradou — HOMENS PEDEM DESCULPAS! UM HOMEM QUE NUNCA PEDIU DESCULPAS NÃO MERECE VIVER UM SÓ SEGUNDO A MAIS! — e saiu — Auch! — tropeçando.
...........ENQUANTO ISSO:
— Eu sinto muito. — tornou a dizer o agente sentado na cadeira, como ensaiara. Naquele dia, a Google Police encontrara o Agente #1 atado a uma cadeira no apartamento random do Edifício Dois Irmãos. Milagrosamente sobrevivera à explosão de uma bomba caseira que consistia em uma bubina dentro de um microondas, e assim, depois de levado ao escritório do GOOGLE, pôde contar a Rodney, Norma e o Agente #4 a sua versão da história: na noite anterior, enquanto os interrogadores tomavam um cafezinho, um homem conhecido apenas como Negão de Tapa-Olho desprendeu Matt Liebert do cativeiro, nocauteou vários guardas, foi até a casa dele, sequestrou-o e na manhã seguinte chamou seus asseclas para tentar transportá-lo como refém para o covil de sua organização secreta.
*FLASHBACK*
— Os adolescentes foram claramente manipulados. — fez questão de acrescentar o agente Nikolai — Todos eles. Estão apenas seguindo ordens de um homem interessado em seus poderes de vídeogame. Porém, Matt Liebert teve a oportunidade de me contar algumas coisas. Sinto que ele se regenerou. Está do NOSSO lado. Ele me contou, entre outros detalhes, sobre uma organização denominada Doom Finger, que possui células espalhadas pelos quatro cantos do mundo. O propósito maior desse homem, o do tapa-olho, é destruir nosso Data Center em Oregon. E você sabe o que guardam lá, não sabe, Rodney?
Olhou com firmeza para o Agente #3, que afrouxou a gravata e pigarreou, incomodado.
— Sim, sim... Eu sei, Nikolai. Algo mais?
*FIM DO FLASHBACK*
O Agente #1 não detectou tanta confiança assim nas reações dos três entrevistadores, muito menos na de Norma, mas pelo menos a história servira para aliviar sua barra por tempo indeterminado. Se o GOOGLE tivesse razões suficientes para acreditar que deveria prendê-lo, ele teria muitos problemas em continuar suas investigações.
— Sinto muito.
— Já sabemos, Nikolai, pare de dizer que sente muito! — bradou o Agente #3 raivosamente, andando inquieto pela sala — Já não sei o que dizer para o Presidente.
— Ah, ele ainda vive? — ironizou o Agente #1.
— Não seja infantil. Sabe como as coisas funcionam. Ele fica lá, confortável, enquanto joga tudo nas nossas costas. Deus, como pudemos ser tão incompetentes???
Ele cobriu o rosto com as mãos de vergonha. Nikolai, porém, ainda não se abalara.
— Não há tempo para desespero, Rodney. Temos providências a tomar. Por exemplo, mande reforçar a segurança do Data Center em Oregon. Enquanto isso, busquemos a localização exata do líder da Doom Finger e sua mulher. Tenho descrições detalhadas de ambos. Prendendo os líderes, desmantelamos a organização.
Pouco a pouco, Rodney foi se acalmando. Depois olhou para o colega e ex-chefe, sentado em posição de prisioneiro, e disse:
— Não sei que diabos faríamos sem sua ajuda. — e ordenou a Norma: — Leve Nikolai aos técnicos, para que sigam as instruções dele. Vamos achar o casal de cretinos. Agente #4, você vem comigo. Mandarei uma mensagem ao Presidente.
E cada dupla seguiu seu rumo.
...........LITTLE WATERFALL. SEDE DA ORGANIZAÇÃO DOOM FINGER:
— MAAAAATT! *.*
Assim que Matt cruzou a soleira da porta, Amália foi a primeira a correr em sua direção e pular em cima dele, gesto que foi repetido depois por Pedro, Pinguin e Grilo.
— Seu gay, se um dia você morrer eu te mato! — Gabriel.
Nisso, vieram Pepito e Galarza, este com uma cara de “Tive um bad day”, e fecharam a porta. Agora o grupo estava reunido.
— Blz, demos “Oi” pro Matt. Agora deixa eu voltar a jogar Wii. — disse Pinguin rapidamente, saindo correndo com Gustavo a perseguí-lo (“Era a minha vez!”).
Matt alisou sua roupa, pigarreou e disse em voz alta:
— Bom, pessoal, ou pelo menos aqueles que ainda não foram embora: é hora de fazermos uma reunião. — olhou para o lado em busca do apoio moral de Pepito, que falou “Éééé” e olhou para onde devia estar Amália. Porém, não havia mais Amália.
— Err, aonde ela foi? — Pepito.
— Ela tava ouvindo um CD do Guns enquanto vocês não voltavam. — explicou Pedro, que tinha um livro preto debaixo do braço — Você! — apontou para Matt — Você vem comigo, sr. Liebert.
Ele pegou o amigo pelo braço e arrastou-o consigo rumo a um local mais reservado. Matt protestava:
— Ma... ma... m-mas era o momento em que eu ia irritar o Galarza com a verdade!
— Depois, sr. Matt, há outra subtrama que precisa da sua atenção!
Pedro insistiu tanto que ele desistiu e deixou-se levar até a biblioteca, mas não sem antes reclamar, alto o suficiente para que as pessoas o ouvissem do corredor:
— Você anda muito Pedrocêntrico!
*BLAM*
Fechou-se a porta da Biblioteca. Restaram Pepito e Galarza na sala de estar, um parado de pé sem fazer nada enquanto o outro roía as unhas, igualmente ocioso.
— Sinto — disse João Pedro, enfim, após uma longa pausa — que este episódio é o último.
Galarza cuspiu um pedaço de unha fora, pensou “Blergh” e tirou uma lixa do bolso.
+ 0, 5 INTELIGÊNCIA!
Lixou as unhas.
— Deve ser apenas impressão sua. — disse a Pepito, pouco interessado no assunto.
Pepito passou um braço em volta dele, apontou para o ceu e fez uma pausinha de quem vai dizer algo muito impactante.
...
Soltou um arroto, estapeou a testa dele e foi embora.
...........NA BIBLIOTECA:
Pedro abriu o álbum em cima da mesa e se afastou por um minuto, permitindo que Matt o consultasse e tentasse formar as próprias conclusões. Depois de um tempo folheando as páginas, Matt perguntou:
— Como exatamente eu posso te ajudar nessa questão, Pedro? Se é que eu consegui entender a questão.
— Escuta — Pedro sentou-se de frente para ele —: este cara — apontou para o formando ao lado do Negão de Tapa-Olho na foto da turma de Engenharia — é o dr. Sebastian, meu “maker”, quando era jovem.
— Meu Deus... — Matt quase grudou o olho no livro para visualizar melhor o rapaz (miopia xD) — O nome desse cara vive aparecendo.
— Seu nome VERDADEIRO era Schneider. E ele escreveu o Instruction Book!
— Eu sei.
— WHAT?
— O Agente #1 me contou.
Num átimo inesperado, Pedro avançou por sobre a mesa e puxou Matt pelo colarinho.
— O que ele sabe que eu não sei, hein? O quê?? D=
— Calma, Pedro. ‘-‘ — disse Matt, meio petrificado, meio assustado.
— Foi mal. — Pedro o soltou, ainda que continuasse ansioso — Tive uma conversa random com o Negão hoje mais cedo e acabei sabendo que os dois se conheciam. O Negão sabe que ele foi trabalhar para o GOOGLE e que os caras o “queimaram” depois. Só não sabe no que o Sebastian trabalhava, tipo, ele não deve saber do Bob. Menos mal.
— Cara, havia outra pessoa que conhecia o Sebastian ainda mais.
— Quem? ‘-‘
— Um homem de apelido “Dodi”. Mas ele foi assassinado.
— O QUÊ??
— Ahh, lá vamos nós. Me conta o que você sabe, que eu conto o que eu sei.
E Pedro contou a Matt tudo que o Negão lhe dissera a respeito de Sebastian/Schneider, da faculdade, do GOOGLE, sua conexão com Dodi, a loteria, whiskas sachê. De uma vez só, sem interrupções (a não ser por um “Hmm” ou um “Ahhh” esporádicos). Depois, foi a vez de Matt, que apenas repassou-lhe a história do Agente #1 sobre o assassinato do melhor amigo do criador de BOB, a autoria do Instruction Book, etc, etc.
No fim, os dois botaram as caixolas para funcionar.
— Okay, okay, linha do tempo! =D — disse Pedro, excitado (ui), levantando-se da cadeira e indo até uma lousa no fundo da sala, onde Matt o acompanhou. Com um giz na mão, foi montando um esquema lógico conforme exprimia as informações: — Em 1986 (é a data que consta no livro), o dr. Damião F. Schneider publica o Instruction Book. Seus colegas cientistas acham uma piada, a crítica o detona e ele cai no anonimato. Mais ou menos em 1998, acho que foi o ano de fundação da GOOGLE Inc., Schneider vai até o seu amigo... como era o nome?
— Eduardo.
— É. Eduardo, ou Dodi, e diz que vai “desaparecer” do mundo enquanto trabalha num novo projeto. Esse projeto... era o BOB. — ele desenhou um bonequinho de palito no canto do quadro e pôs um “B” em cima — Antes de sair, deixa algo nas mãos de Dodi. Algo que só um amigo muito próximo poderia guardar. Por um tempo, a coisa parece dar certo, mas alguns anos depois — não posso ter certeza de quando —, ele se arrepende. Queriam utilizar seu trabalho para o mal. Então, Sebastian some, mas antes deixa uma mensagem para mim. Uma mensagem que eu só fui abrir... — *contando* — cinco anos depois. Estamos em 2010, e só consigo recordar o que aconteceu comigo até o ano de 2005: o resto é branco.
— Foi quando começaram a usar você como cobaia.
— Sim.
Pedro desenhou um contorno em volta do bonequinho, como se destacasse um corpo de sua “alma”, e escreveu um “P” em cima.
— Não se sabe onde Sebastian está — continuou —, nem se tentou algum contato estes anos todos. E de repente, em 2010, seu melhor amigo, o cara a quem ele confiou seu segredo, morre na porta de casa. Da casa que eu já vi em sonho.
— Oi? — Matt.
— Eu tenho sonhos, Matt. Não sonhos comuns. Eles funcionam como mensagens, eu acho, do Bob. O Bob quer me mostrar algo.
— O Bob está ativo na sua mente? Mas, Pedro, isso é... Hello?? Você tem uma essência humanoide superinteligente e maligna correndo pelas suas veias!
— Eu sei. ^^
— Não acha perigoso?
— No início, achei. Mas ando descobrindo coisas. O problema é que, cada vez que eu estou perto de matar a charada, alguém me acorda. u.u
— Malz.
— Deixa. Mas o Bob já me mostrou muita coisa relevante. Eu vi Sebastian em um tempo e um local muito específicos. Impossível que eu tenha imaginado tudo.
— Que local era esse?
— A casa dele! Tipo, pode ser só um devaneio, mas também tem chance de ser uma verdadeira memória. Eu sonhei que estava no jardim atrás da casa dele, vendo-o regar uma árvore. Ele falou coisas meio non-sense, olhou pra mim e falou que estava me esperando. Que era hora de eu conhecer alguém. O resto... porra, não me lembro! Eu vi juro que vi uma coisa... um ser... me olhando! É tudo tão nebuloso!... Preciso da sua ajuda.
— Pra quê?
— Tenho que entrar no meu subconsciente outra vez. Me bate!
— Hã?
Pedro pegou o livro mais pesado que avistou e entregou-o a Matt.
— Acerta a minha cabeça com ele. — mandou.
— Tá maluco??
— Pra eu desmaiar. =D Aí eu falo com o Bob e...
— Você tá brincando. — Matt pôs o livro na mesa.
— Não to, não, me acerta.
— Não vou te acertar.
— Me acerta!
— Pedro, eu não vou...
— PEGA ESSE LIVRO E ME ACERTA, SEU VIADO DE MERDA!
Matt apanhou o livro e atirou-o com toda a força na cabeça de Pedro, que deu um passo para trás, piscou os olhos e exclamou:
— AAAAAAAAAAAAUCH!
— Acho que não deu certo. ‘-‘ — Matt.
— Seu puto! — Pedro socou o outro no ombro.
— Você pediu. D=
— Foda-se, não vou conseguir. Acho que só funciona quando o Bob quer.
— Bem, é só isso?
— NÃO!
Pedro voltou a trabalhar no quadro.
— Sebastian escreveu o Instruction Book, Matt. Se você disser que isso não é relevante pra nós, eu dou um tiro na cabeça! — exclamou, agitado.
— Claro que é. o-o — admitiu Liebert — Tá na cara que isso tem ligação com o nosso RPG, tanto que foi o Ruleador quem me falou primeiro desse livro. Mas que ligação é essa... impossível dizer.
— Ruleador. — murmurou Pedro — Ruleador, Ruleador... — encarou o esquema que traçara no quadro por longos instantes e se perguntou: — Em que ponto dessa linha ele entrou? E por quê?
— Cara, o único jeito de saber isso é perguntando pra ele, mas como o Ruleador desapareceu e eu, pessoalmente, não gostaria de reencontrá-lo...
— Não precisamos perguntar ao Ruleador.
— Ao Sebastian?
— Também não.
Pedro depôs o giz na base do quadro e entrelaçou os dedos embaixo do queixo. Ficou um tempo assim, em silêncio. Poderia lembrar o próprio Agente #1 em um de seus longos discursos.
— Há uma coisa que eu quero perguntar ao Negão. — disse — Pode não levar a nada, mas não custa tentar.
— E isso seria?...
Pedro virou-se.
— Tenho que falar com ele. Lembra o telefone dele?
— Não. Galarza deve ter. Mas por quê? Ei! — Matt viu-o partindo da biblioteca e foi atrás dele corredor afora — O que deu em você, Pedro? Que pergunta é essa?
— Só uma perguntinha de nada. Fica pra depois.
— Por que está correndo, então?
— Porque eu quero ir no banheiro, oras. o-o Tu que tá me seguindo.
*VUUUM*
— Espera!
O celular de Matt vibrara uma vez. Ele o tirou do bolso e viu que recebera uma mensagem. A mensagem o deixou de cabelos em pé.
— E mais essa agora!
— Que foi? — Pedro indagou, se aproximando para ler também.
— O Agente #1 disse que devemos abandonar a sede o mais rápido possível.
— Por quê?
— Pinguin não te contou tudo?
— Ah, aquilo. Contou, sim.
— Temos que ir embora antes de a Google Police pôr esse lugar abaixo. O Agente #1 prometeu dar um jeito de não nos levar junto, mas para que dê certo precisamos estar longe quando eles chegarem aqui.
— Mas, por causa disso, o Negão vai pra cadeia?
— É claro!
— Porra, Matt!
Pedro ficara **to.
— A única pessoa viva que sabemos que conheceu o Sebastian, você faz ir pra cadeia! — reclamou.
— Prioridades, Pedroooo. D= O mais importante no momento é evitar que a Doom Finger exploda o Data Center, para que NÓS peguemos o Backup de volta com segurança. HÁPÁGINASEPÁGINASSOBREISSO! — Matt *histérico*
— Tá, tá, como você quiser. Mas como nós vamos tirar todo mundo daqui?
Dessa vez foi Liebert quem avançou na frente, Pedro seguindo-o.
— Vou falar pro Galarza que ele é um de nós. — anunciou Matt — E você fala com a Amália.
— Tá.
Surgiu um objetivo diante de cada um.
PEDROBEAR: MATT LIEBERT:
FALAR COM AMÁLIA BECKMANN FALAR COM RAFAEL GALARZA
...........Ao entrarem os dois na Sala de Comando, que foi de onde ouviram vozes exaltadas, Pedro e Matt presenciaram uma grande comoção. Galarza, de joelhos, dava socos no painel do computador gritando “NOOOOO! NOOOOO!”, ao mesmo tempo em que Pepito, Amália, Gustavo e Pinguin discutiam em tom tenso sobre a situação.
*KNOCK, KNOCK* Matt deu dois toques na porta antes de chamar-lhes a atenção.
— Pessoal? OI?
Todo mundo silenciou e olhou para ele, exceto Galarza, que continuou sua cena dramática. Estavam com expressões de “Algo horrível aconteceu”.
— O que aconteceu, gente? — indagou Matt.
— Algo horrível. (dã) — disse Pepito.
— Duas pessoas muito importantes para o Galarza morreram hoje. — explicou Amália.
— Quem? D= — Matt.
— O L, do Death Note... — Pepito.
— Se bem que ele viu atrasado. — completou Grilo.
— E o Negão de Tapa-Olho. — Pepito.
Tanto Matt como Pedro ficaram horrorizados. Uma surpresa daquelas... bem, realmente cheirava a último episódio.
Pedro caiu de joelhos, abobado.
— Eu não acredito. o-o
— Mas... mas... Como descobriram? — Matt.
— Ele tinha um dispositivo implantado em seu coração. — disse Pepito — Por segurança, no momento em que seus batimentos parassem, o computador daqui receberia um sinal. Bem, funcionou: o cara recém bateu as botas.
— Mas... eu falei com ele hoje cedo. D= — arguiu Pedro, chocado.
— É... Porém, isso não ajudou muito. u.u
— SEU... PRETO!
Galarza passou literalmente voando por eles e agarrou-se ao pescoço de Matt. Os dois caíram, no que Pedro, Pepito e Gustavo vieram apartá-los.
GALARZA COMEÇOU UMA FIGHT!
— Não é uma fight, porra! Não é uma fight! — berrou Gustavo contra a força invisível que enviara a frase.
FIGHT FAIL
Mesmo com o esforço que ele fazia para chutar Matt, foi possível para Pedro, Pepito e Grilo manterem o SPY a uma distância segura. Ele estava assustadoramente histérico.
— ME PÕE NO CHÃO!
— Não até você explicar o porquê desse ataquezinho! — gritou Pepito.
— NÃO ESTÁ ÓBVIO? MATT CONFABULOU COM O INIMIGO! FOI POR ISSO QUE LOCALIZARAM O NEGÃO E O MATARAM!
*CHAN, CHAN*
— Err... não entendi. ‘-‘ — Amália.
— Coitadinha, deixa que eu te explico. — falou Pedro, largando Galarza, no que foi substituído por Pinguin, e puxando Amália para um canto, onde explicou-lhe todos os pormenores da história numa conversa à parte.
Galarza parou de se mexer, mas prosseguiu berrando:
— Porque o Matt foi ingênuo o suficiente para confiar num agente do GOOGLE, meu chefe morreu e toda a organização está em risco! AGORA ME SOLTA, PORRA! — desvencilhou-se definitivamente dos garotos e sacou uma arma da cintura — Na morte do líder, eu sou o substituto direto. E vocês seguirão minhas ordens de agora em diante!
Pepito, Grilo e Pinguin trocaram olhares por um momento, em silêncio, e depois começaram a rodear o SPY. João Pedro levantou as mãos e disse, bastante calmo:
— Vamos lá, amiguinho, não precisar transformar esse momento em uma cena do Matrix...
— Pra trás! — bradou Galarza fazendo mira nos três ao mesmo tempo.
GALARZA COMEÇOU UMA FIGHT!
— Tudo bem, gente, não será preciso. — falou Matt de repente.
AH, TOMÁ NO CU! ¬¬
— Você é o líder, Galarza. — Liebert chegou perto e tocou de leve na arma, demonstrando que não havia ameaça, assim ele a abaixou — E eu sou um soldado que cometeu um erro. Faremos o que você disser.
— Mas, Matt!... D= — Pepito.
— Deixa pra lá, Pepito! — respondeu-lhe Matt com um olhar significativo, um olhar que sintetizava todo o seu dilema interno no momento: “Somos maiores e mais fortes que ele, mas ele tem as informações e os recursos que nos levarão a Oregon. Sem falar no dinheiro. E sem falar que eu já levei tiro demais.” Claro que Pepito não adivinhou tudo, pois não era telepata, mas entendeu que era melhor se calar e agir como o amigo.
— Assim é melhor. u.u — Galarza guardou a arma e pigarreou alto, assim Pedro e Amália também voltaram sua atenção a ele — Atenção, noobs, plano de emergência: vamos pegar tudo que precisamos e abandonar a sede, que se autodestruirá, em exatamente 15 minutos. Em seguida, embarcaremos no jatinho particular que nos levará a Oregon, pois este era o último desejo do meu chefe: detonar o bando de dados do GOOGLE. Mexam-se, agora!
..........A porta da casa foi aberta com força, no que saiu o Agente #3, atravessando faixas amarelas de “Não ultrapasse – cena de crime” que a Google Police colocara ali. Atrás dele vinham Norma, o Agente #4 e o Agente #1, os três muito embasbacados com o que se sucedera.
Dois cadáveres. Uma mulher muito bonita, identificada posteriormente como Lydia Albertini, deitada na cama com um buraco de espingarda no peito. Um homem um pouco mais velho, negro, de estatura alta, sem nenhum fio de cabelo e um tapa-olho na vista esquerda. Este fora encontrado na sala, que apresentava vestígios de uma luta violenta, coberto de cortes, hematomas e um furo de lâmina na barriga. A arma branca utilizada estava bem ao lado dele: uma espada fina e comprida, de fabricação japonesa, com inscrições no cabo. Deveria ser mais um item decorativo da casa. Irônico.
— Ah, tomá no cu! To abandonando esse caso!
— Calma, Rodney.
— Me acalmar como, Nikolai?? As melhores pessoas para nos levar a essa Doom Finger foram mortas, sabe-se lá por quem, e não vimos rastro nenhum dos garotos!
Um oficial da G.P se aproximou.
— Senhor, achamos a outra arma do crime.
Mostrou um saco plástico com uma espingarda calibre .12 de cano cerrado. Rodney deu uma suspirada.
— Pelo menos isso. Envie para a perícia. — mandou.
— Sim, senhor. — o policial saiu.
— Rodney — começou Nikolai em tom confidencial —, ouça a voz da razão, antes que comece a pensar merda: é improvável que Matt ou qualquer um de seus amigos tenha assassinado os chefões. Eles temiam os caras!
*TRIIM*
O Agente #4 atendeu o celular e se afastou.
— Aposto que eles não esperavam por isso! — continuou o Agente #1.
— Nhaa, eu to confuso, eu quero um cobertor! =(
— Senhor...
O Agente #4 terminara de falar no celular e queria a atenção de Rodney. Este se afastou com ele até um canto, onde ficaram cochichando. Instantes depois, os dois voltaram. O Agente #3 sacou sua arma e a apontou para Nikolai.
— Deite no chão com as mãos na cabeça!
— O quê?
— Deite no chão! Você está detido.
— Isso é imposs...
Norma pegou um braço dele e conduziu-o firmemente às costas, de modo que Nikolai foi descendo de joelhos para não sentir dor. Ela o algemou, tatetou pelos seus bolsos e retirou sua arma.
— Por que está fazendo isso, Rodney?
— Informaram-me de que você entrou no Museu de Tecnologia noite passada, antes de Rodney e eu voltarmos do café. — contou o Agente #4 — Como sabe, não sobraram arquivos de vídeo da segurança, mas o sistema detectou uma entrada com seu cartão de acesso tempos antes de descobrirmos a chacina no corredor de baixo.
— Ainda assim, você não tem como provar que eu mesmo...
— Você não foi sequestrado em casa, como disse. A hora em que seu cartão magnético passou pelo sistema não confere com a hora em que você disse que invadiram seu apartamento. Você esteve lá antes, VOLUNTARIAMENTE.
Rodney olhou para baixo, para o rosto do prisioneiro, com expressão de nojo.
— Você tirou Liebert de lá. — disse, entre dentes — Achou que poderia ser melhor do que eu. Você sabotou todo o nosso trabalho!
— Leve este traste daqui. — ordenou o Agente #4 a Norma. Esta fez Nikolai se levantar, para conduzí-lo a uma viatura próxima.
...........PRÓXIMO AO SALTY SON (ANTIGO SALGADO FILHO) AIRPORT. PISTA DE VOO PARTICULAR:
O piloto gordo de branco (mais um gordo) sorriu e acenou para Galarza quando este vinha chegando, seguido por Pedro, Pepito, Amália, Gustavo, Pinguin e Matt, cada um puxando uma mala pesada.
— E aí, Ralph. — Galarza cumprimentou o piloto, que lhe estendeu um papel numa prancheta para que assinasse — Quanto tempo até The Dalles, Oregon?
Ralph pegou a prancheta de volta depois que ele assinou, jogou-a num canto e respondeu, feliz:
— Sei lá! É só isso de bagagem ou tem mais coisas?
— Só uns explosivos e outras armas de destruição em massa. Protótipos, obviamente.
— Ah, então tenho certeza que a viagem será segura e confortável para todos. ^^ Podem ir embarcando e pegando lugares. Eu guardo o resto.
— Beleza, Ralph.
Deixaram as malas na pista mesmo, a metros da torrezinha de controle, e foram subindo a escadinha do jato. De dentro, Matt deu uma última olhada no pôr-do-sol antes de Amália dar-lhe um tapa na nuca e um empurrão (ela queria sentar perto da janela) e pensou em quanta merda pode ocorrer na sua vida entre as 14h00 e as 17h00 da tarde.
— Aí, Matt, quer escutar? — Gustavo ocupou o assento ao lado dele e ofereceu-lhe um fone de ouvido.
— Ah, blz.
...
— Não fique tão frustrado. — disse Grilo de repente, após um silêncio melancólico — Se tivéssemos falado com o Galarza mais cedo, ou o controlado de alguma forma, talvez evitando a morte repentina do Negão de Tapa-Olho e assegurando que a Quest do Backup fosse cumprida mais facilmente, salvando o mundo do GOOGLE... não seria tão divertido.
— É... talvez...
Matt olhou para o teto. Os interruptores de luz e a plaquinha de “Não fumar” pareciam formar uma carinha surpresa.
Minutos mais tarde, estavam decolando.
I saw her today at the reception
A glass of wine in her hand
I knew she would meet her connection
At her feet was a footlose man
You can’t always get what you want
You can’t always get what you want
You can’t always get what you want
But if you try sometimes,
you’ll find you get what you need

