domingo, 31 de julho de 2011

(3ª TEMPORADA) EPISODE 04 - S.V. [Parte II]

Os dois garotos acordaram quase ao mesmo tempo, deitados em colchões de lona com agulhas intravenosas espetadas nos braços. Sentindo-se um pouco zonzos, ergueram metade do corpo e olharam ao redor, descobrindo um ambiente que desconheciam. Estavam numa espécie de câmara circular fortemente iluminada, sem janelas, apenas uma porta cinza sem maçaneta nem puxador. Não fazia nem muito frio nem muito calor. Era apenas — agradável. Olharam um para o outro, reconhecendo-se, e beliscando-se mutuamente a fim de terem certeza de que aquilo não era um sonho. Não era.

Imediatamente, em seguida, eles arrancaram as agulhas dos braços e saíram explorando a pequena câmara à procura de uma saída. A única, pelo jeito, deveria ser a porta cinzenta, mas eles não conseguiam imaginar um jeito que fosse para abrí-la. Depois de examiná-la atentamente, tocá-la com os nós dos dedos, socá-la, chutá-la, dizer nomes feios a ela, Bruno Fulgêncio apenas disse:

— Ah, que porra, ABRE! =(

Ela abriu.

Os dois se olharam achando graça na obviedade e saíram para uma espécie de saguão, também circular, que dava para várias portas da mesma cor da que tinham atravessado. Tal como no ambiente anterior, mais luzes fortes e nada de janelas. Escolheram uma porta aleatoriamente.

— Abra — ordenou Gustavo, que tinha apreciado a praticidade do mecanismo.

A porta deslizou para cima, e eles se viram de frente para uma escada vertical com uma saída em cima e outra embaixo. Resolveram subir para cima (dã), onde acharam um belo aposento na mesma forma que a câmara hospitalar, porém em proporções maiores. Era uma espécie de depósito com todo tipo de tralha humana que eles jamais haviam visto — bom, ver eles já viam, mas não com o mesmo valor — em delicadas redomas de vidro.

Calotas de carro, guarda-chuvas, candelabros, varas de pescar, patins de criança, lixeiras... Mas também coisas um tanto mais impressionantes: uma pilastra intacta do Partenon, um fragmento de meteoro, uma armadura medieval completa brilhando de nova, entre uma infinidade de relíquias, e um recipiente que lhes chamou a atenção mais do que todas as outras bugigangas.

Era uma caixa quadrada feita em metal muito parecido com titânio. Na tampa trazia grafadas as letras “S. V.”, e foi isso que atraiu Bruno e Gustavo, porque as letras emitiam um brilho verde-esmeralda que ao segundo fazia lembrar as letras dos Objetivos que saíam de seu Life Controller. Para o primeiro, era apenas verde. E ele gostava de verde.

Uma porta atrás deles se abriu. Na mesma hora os dois se viraram assustados, mas um gigante azul disse a eles para não se alarmarem.

— Sou apenas eu! Por favor, nada temam.

Aquele eles ainda não conheciam. Era muito parecido com T’dunt^s, ainda que uns centímetros mais baixo.

— Não estamos com medo — disse Gustavo dando um passo à frente para observar a interessante criatura. — Apenas acordamos com fluídos sendo injetados nas nossas veias e nos sentimos um pouquinho perdidos.
— Eu entendo! ^^ Aconteceu comigo quando fui contratado... Pois bem, vocês devem estar querendo falar com o Doutor.
— Você quer dizer T’dunt^s?
— Por acaso existe outro Doutor?
— Não sei, diga você. ‘-‘
— Ora, não vamos deixar as perguntas esperando. Tenho certeza de que vocês têm várias. ^^

O Nâur’nbvangert fez um gesto em direção à porta, pedindo para que o acompanhassem. Os garotos assim fizeram, sendo conduzidos por um saguão similar ao de baixo até um elevador.

— A propósito — acrescentou o gigante enquanto eles subiam dois andares —, eu sou K’lûf. Diplomata de formação E pesquisador do Projeto Terra.
— Projeto Terra? — repetiu Bruno.
— Já, já isso será explicado.

O elevador fez um “PING”, as portas se abriram e eles entraram diretamente numa câmara ampla que devia ser a cabine de pilotagem. Sentados próximos a um painel com muitos botões, Bilaw, Olga e T’dunt^s tomavam chá em xícaras delicadas de porcelana. Quando viram os garotos, soltaram ao mesmo tempo um “Ah” de satisfação, e o enorme anfitrião azul veio recepcioná-los.

— Que bom que acordaram! Eu estava certo quando disse que ia ser desse jeito, não estava? Bem-vindos à minha nave: o Compacto.
— A aparência não condiz muito com o nome quando a gente corre o olho por aqui, sabe? — Gustavo disse a Bruno pelo canto da boca, o que o alienígena escutou e o fez rir.
— Quem dera o estranhamento entre povos diferentes fosse apenas pela escala dos seus aposentos! — exclamou. — Nós não temos veículos desse tipo em nosso planeta, compreendem? O Compacto é uma criação totalmente minha, com a ajuda de meu fiel aluno K’lûf. Ajuda-nos a percorrer o Universo em nossas missões científico-diplomáticas sem consumir energia em demasia. Mas chega de conversa fiada, sentem-se! O professor Bilaw e sua irmã estavam me contando sobre a sua inesperada chegada ao Museu.

Bruno e Gustavo foram convidados a se sentar próximos aos dois humanos e o segundo E.T., que lhes ofereceu chá, o que eles recusaram, tamanha a ansiedade que sentiam.

— Desculpe... Doutor... Mas onde nós estamos agora? — perguntou Bruno.
— Apenas circundando o seu planeta — disse T’dunt^s em tom banal, fazendo um gesto a K’lûf para que apertasse um botão qualquer. Uma fenda se abriu na parede atrás do painel de controle, revelando um vidro através do qual eles puderam ver a imensidão azul da Terra, o que os fez babar. — Pois é, eu também ficava assim nas primeiras vezes em que vinha — falou o cientista, pedindo em seguida para o aprendiz fechar a janela. — Desculpem privá-los da paisagem, mas é que o tempo é curto. O professor Bilaw, aqui, estava me falando de vocês, de como vocês chegaram até ele esta noite. Bilaw...?
— Oh! — Bilaw percebeu que era sua vez de falar, largou a xícara que usava em cima do painel e disse: — O seu amigo Galarza demonstrou uma enorme coragem recusando-se a prestar serviços para aquela Academia medonha. Acredito que, como amigos dele, vocês sejam tão formidáveis quanto Galarza.

Bruno e Gustavo se entreolharam, lembrando as partes sobre o SPY que o professor não conhecia.

— É por aí — murmurou Grilo.
— Então, vou pedir que tenham a mesma fibra para escutar o que tenho a dizer — disse T’dunt^s com sua voz agradável. — Nós pousamos aqui hoje, Bilaw, para dar um recado não muito positivo.
— Sou todo ouvidos.
— Fizemos observações suficientes para acreditar que a sua raça se encontra às vésperas de uma grande e terrível guerra.

O professor e sua irmã inclinaram-se para a frente, absolutamente atentos. Os garotos fizeram o mesmo. O E.T continuou:

— Uma guerra de exterminação como nenhuma outra já vivida por terráqueos. Nós, é claro, reportamos essa informação aos poderes que regem nosso povo. Acontece que, pelo que manda uma lei de cooperação galáctica, uma espécie inteligente como a dos Nâur’nbvangerts não possui o direito de interferir em conflitos internos de uma espécie tão... — ele pareceu hesitar antes de escolher o termo — primitiva.
— O que quer dizer? — indagou Bilaw com uma sobrancelha erguida.
— Nós não podemos fazer nada para evitar. Sabe, isso seria uma forma de impedir que planetas mais fortes e avançados penetrem as defesas de povos menos avançados a serviço de interesses mesquinhos. Vocês costumam ver isso acontecer entre suas nações.
— Mas... mas... Isso quer dizer que, se uma luta em escala global começar, se nós destruirmos uns aos outros sem controle — disse Olga com a voz trêmula —, não há nada que vocês possam fazer? Terão apenas que... assistir?
— Na verdade, a ordem imediata foi para que nos retirássemos. “Abortem o Projeto Terra” foi o que nos disseram. Meu assistente e eu viemos aqui hoje com a incumbência de apagar suas memórias, de você e do seu irmão, e de recolher todas as informações que comprometam a existência dos Nâur’nbvangerts.

O professor e sua irmã pareceram entrar em choque por um momento, apertando os braços das suas cadeiras com força e recuando o mais que podiam contra os encostos, mas T’dunt^s acrescentou:

— Tivemos uma conversa séria no caminho, K’lûf e eu, e decidimos não obedecer. Não vamos fazer isso com vocês. Queremos permanecer o máximo que pudermos perto da Terra, atentos como sempre, e... se as circunstâncias exigirem uma intervenção direta, que assim seja.

Por um momento ninguém falou. De repente, os olhos de Oskar Bilaw marejaram e ele se precipitou da cadeira para cima do gigante azul — Gustavo pensou que ele fosse agredí-lo, mas o professor o abraçou com tanta força que pareceu que o alienígena ia sufocar.

— Muito bem... Bilaw... Já chega... ^^

Bilaw o largou, as lágrimas lavando seu rosto.

— É tão... tão nobre da sua parte, tão... não-humano! Saber que uma raça tão... formidável como a sua é capaz de voltar seus olhos para seres tão... tão pequenos como nós... Diga-me, T’dunt^s, o que podemos fazer? Qualquer coisa, qualquer coisa que estiver ao meu alcance para salvar meu planeta dessa violência, eu farei!

O Nâur’nbvangert pigarreou, recuperando sua postura séria e polida, e disse:

— Vamos começar com uma re-organização. Com essa determinação da Ordem Galáctica, nossos encontros se tornarão cada vez menos frequentes. Eu queria poder lhe fornecer a data do próximo, mas eu simplesmente não tenho certeza. No entanto, K’lûf lhe dará instruções para levar adiante os estudos que vínhamos realizando enquanto eu estiver ausente. Não se preocupe, Oskar. E você também, Olga. Ainda temos tempo, mas por ora precisamos fingir que estamos obedecendo.

Uma suave nota musical soou de algum lugar.

— Hora de partir. Devolveremos vocês à Terra em um instante. K’lûf, por favor, tenha a gentileza...

Quando K’lûf se aproximou com um aparelho que parecia um laptop para mostrá-lo a Oskar e Olga, Bruno e Gustavo levantaram as mãos, ansiosos. O Nâur’nbvangert concedeu-lhes a palavra:

— Pois não?
— Com licença, senhor... Tio... Naurenbanger... — começou Bruno. — Será que nós, digo, o Gustavo e eu, não podemos... fazer qualquer coisa? Tipo... se precisarem de alguém pra servir café... *o*
— Ora, de maneira alguma! — disse Oskar Bilaw preocupado. — Vocês estão em outra missão. Uma missão de fuga! Não será nada bonito se os malfeitores que querem ver vocês mortos os encontrarem na minha residência. Haverá um outro momento para que ajudem.
— Bilaw está certo — disse o alienígena serenamente, impedindo os garotos de protestarem. — Esse não é o caminho de vocês agora. Acredito... que saberão guardar o segredo?
— Com certeza! =D — disse Bruno emocionado, olhando depois para Gustavo. O Grilo não pareceu muito feliz em se abster da luta, mas reiterou o que o amigo disse: — Eu também, whatever.
— Sendo assim... — disse T’dunt^s correndo os olhos pelos rostos dos humanos. — Boa sorte a todos nós.

...........Em pouco tempo os irmãos Bilaw já tinham todas as informações de que precisavam em um pequeno computador fornecido pelos Nâur’nbvangerts. Em seguida, foi a hora de eles dizerem “Adeus” aos incríveis visitantes, depois que o Compacto trouxe os quatro de volta ao terreno atrás do Museu de Ufologia de Logo Ali. Naquela noite, todos voltaram para a cama e não conversaram mais sobre o que vivenciaram. Ao fecharem os olhos, Bruno e Gustavo sonharam com Avatar.

...........No dia seguinte, o Prof. Bilaw havia abastecido uma velha caminhonete há muito usada para fazer entregas de exemplares de livros, que ele lançava de forma independente, pela cidade de Logo Ali, e o veículo estava pronto para o grupo de Galarza. Foi uma verdadeira Odisseia fazer Amália, Pedro e Gustavinho acordarem, usarem o banheiro e se vestirem a tempo, mas depois que esse desafio passou, todos respiraram aliviados em seus assentos dentro da van.

Bruno, como sempre, iria dirigir. Antes de partirem, Bilaw veio à janela de Galarza, sentado ao lado de Fulgêncio, para entregar-lhe um exemplar do seu livro.

— Aqui. Autografado.

Ele olhou demoradamente para o rapaz como quem fitasse um filho prestes a partir e disse:

— Tomem cuidado, sim? Não precisam de mais dinheiro?
— Não se preocupe, vovô, estamos bem — falou Galarza, que usava óculos escuros, em tom displicente. — Vê se te cuida aí, e... tenta não morrer.

Bilaw se afastou da caminhonete e se juntou à irmã na porta da casa. Os dois acenaram. A caminhonete deu a partida e se foi pela estradinha de chão batido.

Depois de alguns minutos sozinhos na estrada, os adolescentes pensaram que seria bacana ligar o rádio. E ligaram. Junto com um chiado chato, ouviu-se um pedaço do programa matutino de Ichabod Finger, em que ele gritava:

“Salve-nos, ó Dedo! Faça-nos compreender a Sua divina lei. E se não compreendermos... esmague-nos como piolhos!”

Galarza desligou o aparelho enojado. Pedro e Amália já dormiam. Subitamente, a caminhonete passou por cima de algo e eles ouviram os pneus da frente estourando. Bruno freiou assustado, mas era tarde demais. Logo os de trás estouraram, e o veículo escorregou em ziguezague de forma angustiante até parar com uma sacudida perto do acostamento. Todo mundo se segurava em alguma coisa, sem mexer um músculo, sem dizer uma palavra.

Então as árvores lá fora se mexeram, e de trás delas saíram homens armados. Cinco, dez, quinze. Todos com rifles e metralhadoras. Eles rodearam a caminhonete a uma distância segura, e um deles gritou:

— Saiam! Não têm saída dessa vez. A não ser que prefiram morrer aí dentro!

Nenhum dos jovens respondeu ou se mexeu. Era medo demais correndo em suas veias.

— Ninguém... se mexe — sussurrou Bruno.

O homem que gritara perdeu a paciência e fez sinal aos companheiros para que abrissem fogo. Em questão de segundos, a caminhonete foi depenada, e um largo perímetro ao redor dela ficou envolvido na fumaça dos tiros. Dentro dela, ninguém se mexeu. Mas não foi porque a Morte havia tocado aqueles seis adolescentes. Aquele dia, ela resolvera cair sobre outras pessoas.

Quando a fumaça se dissipou, nenhum homem se mexeu em volta da caminhonete. Foi porque os atiradores estavam mortos.

CONTINUA...

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

(3ª TEMPORADA) EPISODE 04 - S.V. [Parte I]

A sala para a qual Bilaw os tinha levado era fascinantemente excêntrica. Pelas paredes via-se uma extensa colagem de matérias de jornal datadas em muitos anos atrás, com títulos como “APARIÇÃO EM VARGINHA CAUSA IMPACTO NA COMUNIDADE LOCAL”, “OBJETO NÃO-IDENTIFICADO NOS CÉUS DE NY”, “NASA NÃO SOUBE EXPLICAR DESAPARECIMENTO DE AERONAVE”, entre outros.

Junto com isso havia mapas, alguns deles pendurados em pregos, outros empilhados em forma de rolos em cima de uma mesa grande, que devia ser a estação de trabalho do professor, munida de dois computadores e um grande número de livros. Bilaw convidou-os a se sentar num sofá velho espremido entre um armário de arquivos e a lareira e sentou-se sozinho na própria cadeira.

— Muito bem — ele disse tirando os óculos para limpá-los na manga do paletó — Por onde começar?
— Apenas nos explique por que abandonou seus alunos — inquiriu-o Galarza.
— Até parece que o senhor era um grande apreciador das minhas aulas — respondeu o velho fazendo um gesto de tédio com a mão — Se a memória não me engana, foi em você que eu arremessei um sapato por dormir na minha palestra sobre o mito solar.
— É que... A sua... Porra, tava chato >.< — confessou o SPY.
— Mito do quê? — indagou Bruno sem ter entendido. O professor pareceu radiante com a pergunta.
— O mito do poder solar, meu jovem, está na base das primeiras formas de adoração religiosa que conhecemos na história da humanidade! — explicou, cuspindo pelos cantos da boca de tanto entusiasmo — Desde o Neolítico, reverenciar o sol significava...

Galarza pigarreou alto.

— Oh, foi mal — desculpou-se o professor regressando à realidade — Eu ia falar da Academia, não? Pois é... Cerca de três meses atrás, o Diretor me procurou. Ele tinha uma dúvida relacionada a um trabalho muito sigiloso. Eu respondi a ele que... Bem, eu disse que aquilo que ele queria fazer era impossível. E ele... não gostou. E eu fui embora. Fim da história. ^^
— Ei, ei! Espera aí u.u — disse Galarza — O que ele pediu para você fazer?
— Ele não me pediu nada, só perguntou-me uma coisa. E eu disse a verdade: que era irrealizável. Mas ele não pareceu muito feliz com isso. Ficou uma semana me enchendo o saco, até que, numa bela manhã, descobriu um certo documento em minha escrivaninha, um diário que eu costumo manter, com relatos sobre meus últimos experimentos. E ele ficou muito possesso, pois pensou que eu o tinha enganado. Eu o enrolei por uma hora, e assim que ele se foi preparei minha fuga.
— Não entendo. O que você fez que tinha algo a ver com o que ele precisava?

O professor Bilaw suspirou.

— Eu estou correndo um grande risco lhe dando essa informação... mas tudo bem. Vocês, erm... já ouviram falar no mito de Pandora?

Os garotos sacudiram as cabeças negativamente.

— Bem, não custa nada fazer um breve resumo...
— BREVE — reforçou Galarza com um olhar fulminante direcionado ao professor.
— É... Bom, um poeta grego do século VIII a. C. chamado Hesíodo ficou famoso por duas compilações de poemas que sobreviveram às areias do tempo até os nossos dias: são a Teogonia, que conta as origens dos deuses, titãs e outras criaturas míticas, e Os Trabalhos e os Dias, onde ele canta especificamente sobre a condição humana.

Bruno escutava com o queixo caído e o corpo inclinado para a frente, inteiramente compenetrado, mas Galarza não parecia muito feliz.

— Vamos logo u.u — resmungou.
— Em um desses poemas, Os Trabalhos, ele cantou o mito de Prometeu, o titã que desobedeceu a Zeus, e de Pandora, a primeira mulher e disseminadora de todos os males da humanidade — continuou o professor com entusiasmo nerd — De acordo com a história, Prometeu ofereceu um sacrifício ruim para Zeus, que em resposta tirou dos homens o fogo espontâneo. Para sacaneá-lo de volta, Prometeu ensinou aos homens como fazer fogo, e Zeus, irado, enviou à humanidade um novo dom: Pandora, a primeira mulher.
— Ela deveria ser a responsável por dividir os homens, que antes nasciam espontaneamente e viviam quase como deuses, pela sexualidade, e plantando mentiras e confusão em suas cabeças, removendo-os da situação confortável em que se encontravam. Prometeu havia dito ao seu irmão, Epimeteu, para não aceitar nenhum presente de Zeus, mas ele não dera ouvidos ao seu conselho. Então, Pandora abriu o jarro contendo todos os males do homem: as doenças, a violência, o trabalho extenuante, e tampou-o novamente quando só restava no fundo a Elpís.
— A quem? — perguntou Fulgêncio.
— A Elpís.
— Ela tava entalada lá dentro?
— A Elpís é a Expectação.

Vendo que eles não tinham entendido, o professor repetiu em palavras mais simples:

— Aquilo que nos faz perceber a cagada antes de cometê-la.
— Oh... — fizeram Bruno e Galarza ao mesmo tempo.
— Isso é um mito, entendem? Fundamental para a compreensão da condição humana pelos antigos, naquela época, naquele devido lugar — frisou o professor — Eu não espero que ninguém vá interpretá-lo literalmente, mas... Quando o seu Diretor veio até mim, foi para me questionar sobre o local geográfico do mito, digo, a provável localização da “caixa” de Pandora.
— Oh, man!

De repente Galarza ficou muito interessado.

— Eu disse a ele que nunca ouvi falar de pesquisa nenhuma que tentasse rastrear ou desenterrar esse vestígio do mito. É como procurar por um pedaço da cruz de Jesus ou pela Arca de Noé... Ele não simpatizou muito com a minha opinião de profissional e ficou mais possesso ainda quando viu o que eu tinha escrito no diário — prosseguia Bilaw.
— Mas você tinha escondido alguma coisa sobre isso? — perguntou Bruno.
— Nunca! Meus escritos dizem respeito unicamente a pesquisas realizadas aqui, entre uma temporada e outra na Academia.
— Mas, então por quê...?

O velho silenciou por um momento, abaixando a cabeça.

— Eu não poderia fornecer detalhes sobre o meu trabalho no Museu — disse, depois —, mas saibam que estivemos conduzindo comunicações com entes... de fora. E elas têm se mostrado promissoras.
— Promissoras como? — perguntou Galarza.
— Acredito que estamos perto de entender mais profundamente do que nunca a natureza do Universo.

Os garotos pareceram assombrados pelas palavras do cientista, tanto que não disseram mais nada.

— Mas agora sou eu quem tenho perguntas — disse o homem, de repente — O que o trouxe até este fim de mundo, Galarza?
— É complicado... — disse o SPY — Depois de terminar o curso na Academia, eu fiquei só coçando em Porto Alegre por uns tempos, até um homem muito importante me chamar para uma missão.
— Que homem?
— Você não gostaria de saber. Eu o segui durante quase um ano, até sua morte. Foi quando eu percebi que meu lugar não era ao lado dele, muito menos na Academia. Encontrei alguns bons amigos — ele olhou rapidamente para Bruno — que me deram três meses de paz, até uma merda acontecer...
— Estou ouvindo, rapaz.
— Tentaram me assassinar no fim de semana. Rastreamos os assassinos e descobrimos que eles estavam ligados à antiga sociedade para a qual eu me designei. Tentamos desencavar mais coisas, mas deu merda, aí todos foram expostos e, putaquepariu, nos enfiamos todos num ônibus roubado e brotamos aqui. ‘-‘
— Mas que infelicidade ‘-‘ — falou Bilaw sem se alterar — Olhe, meu jovem... Eu não deveria estar me metendo nos problemas de outra pessoa. Como um sábio escritor uma vez disse, eles são P.O.P’s: Problemas de Outra Pessoa. No entanto, eu tenho algo em comum com você: ambos não gostamos da Academia, e eu realmente gostaria de ajudar você e seus amigos, se isso significar um prejuízo para pessoas más.
— Com certeza vai significar! — exclamou o SPY, aliviado.
— Então, pode trazer seus amigos aqui o quanto antes.
— Obrigado.

Eles haviam se levantado para sair e chamar os outros, quando a porta se abriu e a mulher dos óculos bizarros enfiou a cabeça para dentro da sala.

— Com licença, Oskar?
— Sim, minha irmã? — respondeu Bilaw.
— Tem quatro adolescentes lá fora perguntando por esses dois rapazes — ela indicou Bruno e Galarza — Além disso, o telefone tocou. Dámocles quer falar com você.

O professor pareceu muito espantado.

— Dámocles?! Ele finalmente fez contato? Estou indo imediatamente! — ele ficou de pé também — Garotos, vocês vão me perdoar, mas é urgente. Fiquem com a Olga, ela vai mostrar-lhes o andar de cima. Por favor, não saiam de lá. Quando a sessão de autógrafos terminar, eu irei ao encontro de vocês.
— Certo — disse Bruno, acompanhando Galarza e a irmã do cientista pelo corredor até o hall.

Lá eles eram esperados por Amália, Pedro, Gustavo e Gustavinho, lado a lado numa mesma fileira.

— Não aguentamos ficar no ônibus — disse a garota — O Gustavo começou a tocar Pink Floyd super alto.
— Quem não curte Pink Floyd? — perguntou o irmão dela como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
— Gente... nós temos que ir lá pra cima — disse Galarza calmamente, apontando para o teto — Não pode vir pra baixo — apontou para baixo — É pra cima — apontou para cima de novo — Entenderam?
— Hã? — Amália não estava ouvindo.
— Só vem — falou Pedro puxando-a pelo braço.

Os seis subiram as escadas, seguindo a mulher que os guiava.


Olga conduziu o grupo até o segundo piso do velho casarão explicando que, desde a morte dos pais, ela e o irmão administravam sozinhos a propriedade da família, utilizando metade dos fundos arrecadados pelo Museu para manter as contas em dia. Bruno, Pedro, Galarza, Amália, Gustavo e Gustavinho foram deixados num quarto de hóspedes. Apesar de confortável e luxuoso, o cômodo conservava um cheiro de... anos 1950, ou algo que lembrasse isso... Enfim...

— Vou, mas volto logo — disse ela parada à porta — Querem alguma coisa?
— Eu aceito um copo de...
— NÃO, SENHORA — disse Pedro em voz mais alta que o normal, interrompendo Amália. — Estamos bem assim mesmo.
— Então, está bem. Até depois.

Ela se foi. Os garotos jogaram-se de qualquer jeito por cima da cama de casal, Amália abarcando o maior espaço que pôde, com exceção de Pedro, Galarza e Bruno, que permaneceram de pé em cantos diferentes do aposento, pensativos. Gustavo ficou olhando para eles de cabeça para baixo, metade do corpo pendendo pela beirada da cama.

— Eu tenho um pressentimento ruim — disse Pedro.
— Nem me fale! — disse Amália. — Ci pah aqui nem tem ar-condicionado.

Galarza foi até a janela e deu uma olhada nos fundos da casa: o ônibus estava bem escondido agora, atrás de um barracão que os Bilaw usavam como depósito.

— Quanto tempo podemos ficar aqui? Tipo, ele não tem obrigação de nos abrigar aqui — falou Pedro, preocupado.
— Não tem, mas está fazendo — disse o SPY afastando-se da janela. — O cara é excêntrico, mas é gente boa. Por enquanto, estamos em boas mãos.
— Eu não tô na mão de ninguém! — protestou Gustavinho escandalizado.

Meia hora mais tarde, ouviram vários motores sendo acionados e o som de pneus sobre o chão batido: os homens do salão estavam indo embora, alguns na direção da estrada que eles próprios haviam tomado antes no sentido oposto, outros para dentro da cidade, onde pernoitariam. Mais cinco minutos depois, Bilaw entrou no quarto com um cachimbo aceso no canto da boca. Os hóspedes fizeram menção de se levantar, os que ainda não estavam de pé, mas ele fez sinal para ficarem onde estavam.

— Não se deem ao trabalho! Sintam-se em casa, por favor. Sabem de uma coisa? Eu estou feliz!
— Porque tentaram nos matar? — indagou Galarza.
— Porque alguém com quem eu queria falar há muito tempo finalmente fez contato comigo.
— Outro E. T.?
— Apenas um terráqueo, sr. Rafael. ^^ Nada mais que isso. Um terráqueo muito importante, sem dúvida, que me ofereceu ajuda acadêmica para prosseguir com minhas pesquisas, ou seja, pode ser que com ele o meu trabalho ganhe projeção muito maior do que tem hoje. Ele leu meu livro, sabem, Coisas Que Aparecem No Céu Quando Você Não Está Olhando.
— Hum. OK, e nós? O que vai fazer pela gente?

Bilaw correu os olhos por cada um deles, deu uma pensada e disse:

— Um bom começo seria irem se apresentando. ^^
— Oh... Eu sou o Pedro!
— Brunoooooo /o\
— Amália. u.u
— Gustavo.
— Gustavinho, mas eu odeio que me chamem...
—A mim você já conhece, é Rafael. ¬¬
— Muito bem, muito bem. Eu sou Oskar Bilaw, professor-pesquisador da Federal do Acre em Estudos Ocultos, com pós-graduação em Parapsicologia. Sou o humilde dono deste Museu de Ufologia, onde conduzo minhas pesquisas com UFO’s há um tempo considerável, além de jogador de frisbee nas horas vagas. Algum de vocês já frequentou a Academia?

Amália e os outros trocaram olhares perdidos. Galarza respondeu por eles:

— Não, professor. Eu sou o único que pisou na Academia SPY.
— Curioso — murmurou o cientista soltando espirais de fumaça pelo cachimbo. — Como, então, vocês chegaram a se conhecer?
— Bem, eu... — Galarza empacou. Pedro interviu:
— Nós estudamos na mesma escola depois que ele saiu de lá. Aí, eu o apresentei à galera.
— Certo, certo...

Bilaw puxou uma cadeira e ficou sentado a pensar.

— Vou fazer o seguinte: vocês dormem aqui, amanhã de manhã eu dou um jeito naquele ônibus e consigo uma viagem para qualquer parte do globo que vocês quiserem.
— Quê? Não, não faça isso! — pediu Pedro imediatamente.
— É, não temos a menor necessidade! — disse Galarza fazendo coro.
— Não sejam idiotas. Vocês correm risco de vida. Logo Ali pode ser insignificante, mas com vocês aqui, mais as coisas que eu ando fazendo, pode resultar em merda. Eu tenho verba do CNPq suficiente para isso, não se preocupem. Então, onde querem se esconder?

Houve uma acalorada discussão dos jovens para com o professor (e entre os próprios jovens) para determinar se era ou não justo aceitar tamanho favor de Bilaw. No final, Bilaw concordou em, no máximo, fornecer-lhes suporte para atravessarem a fronteira com o Uruguay.

Resolvido o dilema, Oiga trouxe-lhes um rango e preparou mais duas camas no chão do quarto. Já sem noção de quantas horas tinham se passado e exaustos até os ossos, os seis se revezaram em pares nos leitos e foram caindo no sono um por um.

...........Horas depois, depois de ter um sonho muito frenético envolvendo uma volta de montanha-russa ao lado de uma máquina de café expresso, Grilo acordou-se com uma luz muito chata voltada para seus olhos.

Vinha de fora da casa. Irritado, ele saiu de baixo dos lençois e foi cambaleante até a janela, tentando não pisar em ninguém, para cerrar as cortinas. Foi quando ele viu melhor o que o tinha despertado — a luz, de tonalidade azul, vinha de trás das árvores que Bilaw mencionara em seu discurso.

Um pensamento preliminar lhe ocorreu: “Gremistas!”. Depois, outro pensamento, mais pé-no-chão: “Espíritos gremistas!”. Ele se moveu alguns centímetros para trás com a intenção de acordar alguém, quando sentiu uma mão se fechar em torno da sua perna. Ele pensou em gritar, mas outra mão o desequilibrou e cobriu sua boca a tempo.

Olhando para o lado, ele viu que era Bruno deitado num colchão.

— Mluno? — tentou dizer, com a boca coberta.
— Shh! — fez o cabo. — Tem uma coisa lá fora.

Ele tirou a mão da boca do amigo, que endireitou-se e permaneceu abaixado.

— Você estava acordado?
— No quartel eu dormia de olho aberto. Ouça: precisamos descobrir... Espera!

Eles ouviram ruídos no corredor. Duas pessoas arrastavam chinelos pelo chão de madeira enquanto cochichavam acaloradamente. E a voz de Bilaw:

Como eu podia adivinhar que eles viriam hoje? Sem avisar!

Passos que se distanciavam sugeriram que eles estavam descendo as escadas. Bruno levantou-se e espiou com cautela pela janela: a porta dos fundos abriu-se, e dois vultos embrenharam-se na mata atrás da casa portando lanternas.

— Bilaw e Olga — sussurrou Fulgêncio para Gustavo. — Vamos. Não faça barulho!

Eles calçaram os chinelos, pegaram a lanterna que perencia ao cabo e desceram a passos de ninja até a porta dos fundos, tomando o mesmo caminho que o casal de irmãos.

Já no interior do matagal, chegaram perto de uma clareira da qual Bilaw já havia lhes falado. Era impressionante: o veículo voador em forma de cilindro, aquele com o farol azul e a grande rampa, lá estava ele. Sólido, real. Bruno achou que seria melhor desligar a lanterna, pois assim não seriam vistos, além do que já era possível observar o que acontecia graças à luz forte emitida pela máquina.

Bilaw e Olga estavam parados diante de um gigante de proporções colossais, mas de morfologia aparentemente humana (dois braços, duas pernas, a coisa toda...), que se dirigia a eles em alto e claro Português.

— Você chegou em má hora — disse-lhe o professor. — Estamos com hóspedes hoje. Por que não avisou? Tem algo errado?
— Problemas burocráticos — respondeu o gigante com uma voz potente e graciosa, como a de um narrador de comercial de papel higiênico. — Receio que nossos próximos encontros custarão a ocorrer.

O professor soou devastado.

— Mas... por quê?

Ta-ran-ran-ran
Ta-run-ta-ran
Ta-ran-ran-ran

Gustavo enfiou a mão às pressas no bolso da calça para cancelar a chamada no celular, mas era tarde demais. O professor e a irmã viraram-se preocupados para trás, mas o gigante apenas fez um aceno com a mão e uma passagem abriu-se no meio da vegetação que escondia os intrusos, ao mesmo tempo em que um gancho invisível puxou os dois garotos de uma só vez para o centro da clareira, onde caíram embolados.

— Santo Osíris! — exclamou Bilaw dando um tapa na própria testa. — O que significa isso?
— Nós sentimos muito! — berrou Gustavo tremendo no chão.
— É, nós estávamos colhendo trevos de 4 folhas, mas não queíramos incomodar... — completou Bruno igualmente nervoso.
— BASTA!

Eles olharam para a cima e viram uma expressão que devia ser de severidade no rosto do álien.

— Bilaw... — ele disse. — De onde vieram esses garotos?
— São viajantes — inventou o professor. — Precisavam de comida e abrigo por esta noite.
— Entendo... E é assim que você lhes demonstra sua hospitalidade?
— E-eu...
— Há anos eu espero para falar com outros além de você e sua irmã, e é assim que você se comporta comigo quando a oportunidade aparece? Não me informando?

Bilaw baixou a cabeça com vergonha.

— Sinto-me ultrajado — continuou o extraterrestre. Num movimento simples, ergueu os rapazes pelas golas das camisas e os pôs de pé, de frente para si. — Desculpem a ignorância do meu amigo terráqueo. É um enorme prazer conhecê-los.

Bruno e Grilo entreolharam-se, incertos, antes de dizerem que era um prazer conhecê-lo também.

— Meu nome é T’dunt^s. Venho de um planeta longínquo povoado pela raça dos Nâur’nbvangerts.
— Naur... what? — indagou Grilo.
— Isso mesmo. ^^ Vocês devem estar apavorados a ponto de acharem que vão desmaiar. E vão. Mas isso faz parte do primeiro contato. E depois vão acordar jurando que foi tudo um pesadelo.
— Mas não terá sido — acrescentou Bilaw.
— Exatamente. Nada temam, garotos. Sou um diplomata a serviço da paz, dedicado unicamente ao estudo de outras culturas e à cooperação entre raças. Se vocês estiverem interessados, meu amigo Bilaw pode lhes fazer uma introdução ao...

*TUSH*

Eles desmaiaram.

CONTINUA...

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

(3ª TEMPORADA) EPISODE 03 - Estranho

— Onde eu paro? — perguntou o motorista de táxi quando eles começaram a subir a rua.
— Em frente à casa branca, por favor. Logo atrás daquela lata de lixo — apontou Pinguin sentado no banco ao lado.

Ele e Aiko desceram do carro carregando apenas duas mochilas com o essencial para o pernoite. Gabriel pagou o motorista pela corrida, tirou do bolso o molho de chaves que recebera de Pedro e abriu o portão da frente. Aiko foi correndo antes dele para o interior da casa, para ligar as luzes e abrir as janelas, já se desfazendo na entrada dos óculos escuros, da touca de inverno e do casaco de gola alta que Amália lhe obrigava a usar sempre que saía em público (seria tenso se alguém percebesse que sua aparência não era a de uma menina comum).

Pinguin juntou as coisas dela e as suas próprias do chão da sala parcialmente escurecida, acendeu um abajur, fechou a porta e levou a bagagem para a cozinha. Depois, foi ativar os alarmes de segurança, conforme Pedro tinha lhe orientado. O sistema da casa era diretamente conectado ao da polícia, além de a cerca ser eletrificada e haver trancas extras em todas as portas — essas inovações eram ideias recentes de Pedro, que as providenciara com a ajuda de Galarza assim que assumira a propriedade da casa, em nome de um suposto parente mais velho que estava em constante viagem de negócios. Se nada daquilo funcionasse, porém, eles tinham um revólver na gaveta e uma espingarda debaixo da cama, ambas doações do SPY.

Depois de se certificar que tudo estava bem quanto à segurança da casa, Gabriel voltou para a cozinha e abriu a geladeira pensando no que fazer para acalmar os nervos de Aiko (além dos próprios). Quem sabe ele chamasse Pepito, o distraísse um pouco dos deveres de casa, e os dois jogassem conversa fora até a noite passar.

O telefone tocou, e ele sentiu o coração pular para a garganta. Xingando sozinho, Pinguin foi à sala e atendeu a ligação.

— Oi?
Pinguin. É o Pedro.
— Ah, e aí?
Estamos ok. A Aiko ‘tá bem?
— Ela ‘tá tranquila. Acabamos de chegar. Eu estou pensando no que fazer pro jantar, na verdade...
Escuta, Pinguin. Tivemos um probleminha. Nos atacaram no caminho para a rodoviária.
— Quê?? E então...?
Nada pra se desesperar. Contornamos os caras, mas eles agiram muito rápido, logo depois que você e a Aiko foram embora. Por isso, é bom que preservemos os esconderijos tanto quanto possível. Não deem bandeira por aí, vocês dois.
— Claro que não! Acha que eu sou o quê?
Tem mais... O Gustavinho veio conosco.
— Ele? Como?
Não tivemos escolha. Ele ia ser morto também. E... nós tivemos que roubar um ônibus.
— WHAT?!
Não grite, Pinguin. Estamos quase na autoestrada agora. Chegaremos em Bagé em questão de horas. Eu te ligo de volta quando a viagem tiver terminado.
— Ok, mas... um ônibus! Vão ter que me contar direitinho o que aconteceu na volta.
Ok, Pinguin, ok... Estou me esquecendo de algo...? É, ci pah não. Bye!

Ele desligou. Pinguin deu de ombros e continuou planejando o jantar. Fez dois sanduíches. Pôs um deles numa bandeja e procurou por toda parte por Aiko, sem encontrá-la.

Ele tentou os banheiros, quartos, escritório, o sótão, o barracão dos fundos, a piscina... A menina parecia ter evaporado, e ele começou a ficar preocupado. Assim que entrou de novo na casa, pelos fundos, pensando em ligar para a polícia e explicar que “uma criança de anime desapareceu da residência do meu amigo”, esbarrou em uma coisa pequena e sólida e, ao olhar melhor na direção dela, ficou aliviado e assustado ao mesmo tempo.

— Merda! Aiko, por que não respondeu quando eu chamei?

Ela não falou. Estava parada no meio do corredor, com os olhos vidrados em alguma coisa que não estava presente. Sua face não esboçava expressão alguma. Pinguin se aproximou devagar da menina e olhou diretamente nos seus olhos não-humanos, que pareciam agora como mini-telinhas de televisão com transmissão ruim.

Gabriel não viu o que Aiko via. Naquele mesmo instante, talvez não em corpo, mas em espírito, ela estava parada no centro de um aposento escuro sem poder se mexer, pois uma corda ou corrente luminosa a envolvia dos pés ao pescoço, causando-lhe dor e medo. A outra ponta do laço ligava-se a um objeto cilíndrico branco que emitia uma luz verde muito forte. Brandindo o instrumento à frente dela de forma ameaçadora, um homem de rosto severo e maduro gritava. Estava raivoso, e sua raiva crescente era o que fazia o aperto do laço aumentar.

— Fale sobre a garota!

Um som de estática enquanto a corda pressionou mais a criança.

— O que ela esconde? Quem ela conhece?

Aiko apenas gritou. Lágrimas vertiam de seus olhos em profusão.

— Eu vou conseguir!

Mas o cordão foi se enfraquecendo, afrouxando, até quebrar-se. Alguém do outro lado, que nem ela nem ele conseguia ver, apenas pressentir, puxava a menina de volta. O aposento começou a tremeluzir e desaparecer. O homem praguejou com profunda raiva.

Antes de deixar o pesadelo, Aiko ainda viu duas dezenas de letras pairando no ar acima da sua cabeça, numa ordem que ela não conseguia entender:

S R T E F L I C P S
E U A A E

Um último puxão violento a trouxe de volta para o corredor da casa de Pedro. E Aiko de repente se viu no colo de Gabriel, contra quem lutava para se desvencilhar com mordidas e pontapés.

— Auch! Auch! Ei! Aiko! Sou eu!

A menina parou de brigar, confusa, e Pinguin permitiu que ficasse de pé sozinha. O garoto ajoelhou-se para ficar ao mesmo nível dos olhos dela e perguntou, com inconfundível medo na voz:

— Você ‘tá legal?

Aiko ainda tinha o rosto molhado pelas lágrimas. Enxugou-as com rapidez e respondeu, em tom mais alto que o convencional:

— Nada, tio Gabi! ^^ Eu só tive um sonho ruim.


Pela longa estrada o ônibus seguia, sem retroceder nem parar. No início da viagem até que houve conversações e risadas, mas depois que eles atravessaram os limites da cidade e atingiram a “highway”, um silêncio cansativo começou a reinar; talvez porque os momentos antes de conseguirem o transporte tivessem sido tão tensos e semifatais que deixassem algum trauma sobre todo mundo.

Depois de um tempo — cada um na sua janela, com seus próprios pensamentos —, alguém começou a batucar sobre o encosto do banco. Simultaneamente, eles ouviram a voz de Gustavo:

Leavin’ easy, leavin’ free...

Ninguém continuou, então ele apenas cantarolou. Porém, de repente, Pedro começou:

Don’t need reason, don’t need rhyme
Ain’t nothing I would rablarbarum…
Going down… party time…
My friends are gonna be there too…

Gustavo fez um solinho de bateria, e os dois emendaram:

I’m on the hiiiighway to hell
Hiiighway to hell…

— Por favor, parem. u.u

Eles olharam para Amália, deitada entre dois bancos um pouco atrás, e depois um para o outro com caras de “O que eu posso fazer?”. Bruno bocejou. Ainda era ele quem dirigia.

— Eu quero saber — disse Gustavinho, quebrando novamente o silêncio — por que eu sou a última pessoa a ficar sabendo das coisas por aqui.

Pelo jeito, ele estava puto. Os outros sabiam disso, mas não havia muito o que fazer em tais circunstâncias — não ainda.

Galarza se debruçou sobre o banco dele, no lado direito do ônibus, e perguntou:

— Você quer saber o que está acontecendo? Consegue viver com o segredo???
— Não é tão atormentador assim.
— Cala a boca, Pedro! Você quer, Gustavinho? — o SPY olhou para o garoto sentado na frente dele.
— Mas é claro! Por que queriam matar você? Quem eram aqueles caras? Por que todo mundo ‘tá agindo de maneira idiota comigo hoje?? ¬¬
— Não é apenas com você — explicou Grilo entrando na conversa — É um assunto muito tenso, entende.
— Muito! — disse Fulgêncio da sua cadeira atrás do volante.
— Ele soube? Antes de mim? — reclamou Toshiro.
— Foi uma questão de conveniência. Ele ia nos ajudar a fugir, porque... — Galarza refletiu sobre a melhor versão a apresentar, considerando que Bruno também estava no recinto, e decidiu-se pela mesma história que Fulgêncio já sabia — Tempos atrás, eu fiz parte de uma organização secreta.
— Que organização?
— É secreta. ¬¬
— Oh.
— Mas, de uns tempos pra cá, eu decidi sair. Conheci a galera e... Bem, foi melhor ter saído. Mas eles não concordaram com isso... Com “eles” me refiro aos... chefões da porra toda.
— Hmm.
— Por uns meses eu até consegui me virar tranquilamente. Passei um tempo na casa do Pedro, outro na da Amália. O plano era arranjar um lugar só pra mim recentemente, mas na noite do evento... Bem, parece que eles rastrearam, depois de tudo. Eles me querem morto.
— E é por isso que você está fugindo.
— Yep.
— Mas... — o menino olhou para os outros — Por que eles precisaram vir também?
— De ontem pra hoje a coisa foi ganhando uma proporção tal que... errm... Pedro, explica aí. ^^

Pedro deu uma suspirada.

— Nós fomos à caça de informações — com a ajuda do Bruno, principalmente — sobre os caras que foram contratados pra passar o rodo no Galarza. E nós rastreamos os drugues, mas... Uma merda lá aconteceu.

Gustavinho lançou um olhar interrogativo a Galarza, que explicou:

— Meu “chefe” apareceu. Parecia puto, por alguma razão...

Ele e os outros se entreolharam compartilhando um sentimento mútuo de estupidez por transmitir uma história mal contada... Mesmo assim, o SPY continuou:

— Estávamos o Bruno, Pepito, eu... uma galera. E tentaram nos matar. De novo. Nós fugimos, e... Bem, o resto foi meio complicado.
— Qual foi o resto? — insistiu Gustavinho.
— Tá ligado esse veio que apareceu na TV...? Sei-lá-o-que Finger?

Gustavinho fez que “sim” com a cabeça.

— Descobrimos que ele está envolvido de alguma maneira na minha... ex-irmandade. Resolvemos dar uma passadinha no templo que ele acabou de abrir pra dar uma xeretada, mas ALGUÉM (¬¬) esqueceu o RG por lá!

Amália estava pronta para dar o troco em Galarza com um xingamento duas vezes pior, mas Gustavinho falou antes dela:

— O Fingerista? Meus pais se converteram a esse negócio. Não falam de outra coisa em casa há dias. E nossos vizinhos também. Eles levaram o filho deles para a cerimônia e tudo...
— Nhaa, crap! — praguejou Pedro esfregando as têmporas doloridas com a falta de sono — Está mais perto do que pensávamos. Escute aqui: você não chegue nem a 100 metros de distância daqueles malucos! Falo sério! u.u
— Eu não sou chegado nessas coisas! — exclamou o outro inclinando-se defensivamente para trás — É chato. o-o

Fez-se um silêncio.

De repente, Amália gritou do seu assento no fundo do ônibus, penosamente entediada:

— Nhaaa, até quando vamos ficar rodando? ¬¬

A resposta veio de Bruno, conduzindo o volante:

— Não por muito tempo. Bagé é logo ali...

O seu “logo ali” não soou muito convicto. Na verdade, desde a última meia hora o cabo teve a impressão de estar circulando a esmo por uma vasta estrada rural, sem ter a mínima ideia se estava ou não no caminho correto para a cidadezinha. Um pouco mais à frente ele parou o ônibus ao dar com uma placa de desvio apontando para a direita, por onde começava uma estradinha de chão batido sem nenhuma iluminação.

O motorista coçou a cabeça, um pouco confuso, e virou-se para seus amigos, sentados nos bancos.

— Bom, pessoal, vocês me perdoam se eu disser que... NÃOSEIAONDEESTAMOSINDO???! D=

Ele se atirou no chão, entregue a um choro histérico. Os outros o olharam de sobrancelhas erguidas.

— Errm... — Pedro olhou para Galarza — O que se faz nessa hora?

O SPY deu de ombros.

— E eu sei lá?

Para surpresa dos demais, Amália veio até Bruno, abaixou-se perto dele e pôs a mão delicadamente em seu ombro dizendo:

— Pronto, Bruno, está tudo bem...

Pedro olhou novamente para Galarza, assustado.

— O que fazemos?? A Amália está sendo boazinha!

*SLAP!*

Amália tinha dado um tapa no rosto de Bruno, que sacudiu a cabeça, piscou os olhos e parou de chorar.

— Wow... De repente tudo parece mais claro pra mim! Valeu, Amália. ^^

Ele beliscou a bochecha dela e se levantou com um salto.

— Sei o que fazer! Temos duas opções: voltar para o ponto de onde saímos e recomeçar o trajeto, ou entrar nessa estrada escura, perigosa e sombria que não sabemos aonde vai dar...

Os outros esperaram.

— Vamos pela estrada escura, perigosa e sombria! =D

Mais calmos por terem tomado uma decisão racional em conjunto, voltaram, cada um, para seus lugares, Bruno ao volante, e prosseguiram com a viagem através da estrada de chão batido.

...........Um pensamento um tanto absurdo veio à mente de Gabriel enquanto ele espiava Aiko, que entretia-se construindo um castelo de cartas: e se a garota fosse paranormal? Ele próprio tivera toda uma criação baseada na crença em percepções extra-sensoriais e experiências da consciência fora do corpo.

E se ela tivesse, por algum motivo, “saído do ar” naquele momento no corredor? O que poderia ter captado? Ora, a criança transformava desenhos em objetos reais! — coisa que Pedro pedira a ela para não fazer mais, mas enfim, nada impedia que esse tipo de coisa fosse acontecer com ela.

A primeira providência, de qualquer maneira, seria contar o episódio a Pedro. Mas ele não queria perturbá-lo com aquilo quando o amigo já estava com as mãos cheias em Bagé.

..........A luz dos farois bateu sobre uma nova placa, quase escondida atrás de uma vegetação na beira da estrada: “LOGO ALI — 8.000 HABITANTES”.

— Mas, hein?

Bruno fez força com os olhos para discernir o que havia a cerca de 20 metros de distância do School Bus. Logo mais à frente, à entrada da pequena cidade, havia um casarão antigo com 3 andares, de arquitetura colonial, com os fundos voltados para um denso matagal.

— Ô, gente! — Fulgêncio chamou os outros, para acordá-los, parando devagar a pouco mais de 10 metros da construção. Desligou os farois. Sem querer, eles tinham chegado a um lugar do qual ele nunca ouvira falar. — Acordem! — chamou mais uma vez, indo de banco em banco para chacoalhar os amigos, que tinham adormecido em posições estranhas sobre os assentos do ônibus. Em poucos segundos, estavam todos despertos e alertas.
— O que aconteceu? — indagou Gustavo no meio de um bocejo.

Parado no meio do ônibus, Bruno acendeu uma lanterna.

— Falem baixo — avisou — Nós chegamos à cidade de Logo Ali.
— Como é? — perguntou Galarza.
— Logo Ali! Mas eu não sei de onde brotou esse lugar, porque não existe indicação dele no mapa.
— Vamos embora, então! D= — disse Pedro.
— Não temos combustível suficiente para a volta, além de já estarem todos cansados — disse Fulgêncio — Aqui... — ele indicou com a lanterna o casarão lá fora — Tem uma propriedade ali à frente. Sugiro que eu e mais alguém entremos e sondemos o território. Ci pah, o dono da casa nos ajuda.

Eles pensaram a respeito.

— Não é má ideia... — disse Grilo.
— Concordo com o Gustavo! — exclamou Amália afofando a mochila que usara como travesseiro — Vocês vão, e eu fico aqui... cuidando do veículo... zzzzZZZZZzzzz

Galarza ficou de pé e se juntou a Bruno.

— Eu vou com o cara.

Desceram os dois do School Bus, Bruno à frente iluminando o caminho para que não tropeçassem em uma pedra ou pedaço de tronco. Aproximaram-se da enorme casa, sobre cuja porta foi possível enxergar uma placa de bronze com os dizeres: “MUSEU DE UFOLOGIA DE LOGO ALI”. De dentro da casa saíam som de conversas e cheiro de comida.

Bruno e Galarza olharam um para o outro com expressões de “Não parece tão ruim” e se aproximaram para tocar a campainha.

*DONG DING*

Quase imediatamente após o toque reverso que anunciava a chegada de novos visitantes ao misterioso local, a porta abriu-se com rapidez e uma senhora baixa, gordinha, usando óculos quadrados de lentes grossas meteu a cabeça para o lado de fora, olhando-os com curiosidade.

— Boa noite? — ela disse, com voz semelhante a de um bebê.

Os garotos balbuciaram qualquer coisa sem sentido, e ela indagou:

— Vocês vieram para a noite de autógrafos? Porque ela já começou, mas não se acanhem! — a mulher abriu mais a porta, dando-lhes espaço para que passassem, e acrescentou bondosamente: — Tem champagne e salgadinhos. ^^

Pensando cada um consigo “Whatever”, os boys entraram. A anfitriã fechou a porta e conduziu-os pelo Hall, que guardava uma grande maquete do que seria a comunidade de Logo Ali (com uma seta fincada no ponto onde eles estavam naquele momento), até um par de portas envidraçadas pelas quais se via um salão repleto de pessoas de aparência importante, segurando taças e falando entre si.

— Vão direto para o Salão de Atos. O professor está atendendo alguns convidados.

Seguindo a orientação da mulher, eles adentraram o ambiente de intelectuais, espiritualistas e outros bichos mais. A maioria estava reunida em torno de alguém de quem os garotos só conseguiam distinguir a voz, rouca e arrastada. Assim como a mulher que lhes abrira a porta, o homem devia ser muito velho.

Aos doze anos eu tive o primeiro contato. Eu estava sentado na varanda com uma revista em quadrinhos no colo quando uma forte luz brilhou do alto das copas daquelas árvores que os senhores viram atrás desta casa. Foi ali mesmo. Uma forma cilíndrica, de altura e diâmetro consideráveis, planava silenciosamente à procura de um ponto para pousar. Eu então me levantei, inexplicavelmente atraído pelo brilho que emitia, e fui cambaleante na sua direção. Quando atravessei o mato e me vi diante daquele colosso, a máquina já havia encostado no chão sem nada especial para se sustentar, nada de trens de pouso ou perninhas mecânicas. Apenas assentou-se no gramado e ali ficou.
De repente abriu-se uma fenda no corpo do objeto, com altura suficiente para duas pessoas, uma em cima da outra, passarem por ela. E uma rampa se projetou para fora. Por causa da luz forte, eu não consegui ver direito quem ou o que se aproximava, mas sei que tinha a compleição física semelhante à de um ser humano; bem, um ser humano duas vezes mais alto do que o normal, mas ainda assim tinha dois bracinhos, duas perninhas, vocês sabem... Aquele ser veio descendo a rampa a passos graciosos, seus longos braços balançando-se como plumas enquanto se movia. Agora que estou pensando... isso era meio gay. Anyway, a figura deixou a rampa e atingiu o gramado, observando tudo com muita curiosidade, até que olhou para baixo e viu aquela criaturinha com menos de 1/3 do seu tamanho parada na sua frente com cara tacho: esse era eu.
O ente coçou a cabeça, provavelmente incerto sobre o que fazer (se fugir, atacar ou me comer), e então falou no mais claro português: ‘Olá. Sabe onde vendem ceva?’.

O discurso deixou todos muito impressionados. Após uma breve salva de aplausos, o orador continuou:

Depois disso eu desmaiei e acordei no quarto sem a minha revista. Décadas depois, deixei esta cidadezinha para iniciar meus Estudos Ocultos na Universidade Federal do Acre. Bancá-los nunca foi um problema, dada a boa situação financeira de minha família. Difícil foi ACHAR o lugar. Depois de dez anos, concluí meu Doutorado em Parapsicologia com uma tese sobre o Gasparzinho e retornei à minha cidade natal para fundar este Museu de Ufologia, dedicado ao estudo das aparições de OVNI’s em Logo Ali. Como sabem, depois que começamos a produzir nossa própria cerveja os contatos triplicaram nesta região. Foi visando a incitar novas pesquisas e a informar a população leiga que eu reuni uma parte desse vasto conhecimento em um livro, intitulado “Coisas Que Aparecem No Ceu Quando Você Não Está Olhando”, cujo lançamento acontece hoje. Agradeço solenemente a presença de todos... mas por favor, comprem o livro. A gente tem bolinhos de chuva. ^^

Eis que a multidão se dispersou — bolinhos exercem um forte apelo psicológico. Finalmente os garotos, que até agora escutavam a conferência sem se aproximar dos acadêmicos, puderam ver a quem pertencia aquela voz carismática. E, para surpresa de Bruno, Galarza manifestou-se:

— Prof. Bilaw!

O cientista virou a cabeça ao ouvir o próprio nome e, vendo Galarza, abriu a boca num grito que não chegou a sair. Ele olhou em volta à procura de outra pessoa para conversar e assim não ter de confrontar o garoto, mas era tarde demais. O SPY foi até ele acompanhado por Bruno e tocou-lhe o braço.

— Professor! O senhor por aqui?
— Eu... erm... Veja você que... — o ancião viu que não tinha saída e suspirou, passando a mão pela parte calva da cabeça — Muito bem, Rafael. Você me achou.
— Quem ser esta pessoa? — cochichou Bruno ao ouvido do SPY.
— Ele era professor de Ocultismo na Academia SPY — explicou-lhe Galarza, notando um rubor de arrependimento na face do mestre quando ouviu o nome da instituição — Sumiu misteriosamente... — acrescentou olhando fixamente para o velho — Sem deixar UM BILHETE.
— E-eu tinha outras coisas, você entende! D= — o senhor gaguejava e sacudia as mãos procurando defender-se — Eu estava sob pressão!
— Não interessa. u.u Você foi embora do nada, todo mundo pensou que você tinha morrido ou sido sequestrado, eaindamedeunotabaixa, porra!
— Entenda, Rafael, não foi nada pessoal... — disse o homem andando até a mesa de canapés. Os garotos colaram nele para garantir que não escapulisse — Eu sempre fiz meu trabalho na Academia com rigor. É só que... havia outras coisas. Você não vai fazer isso comigo, vai? D= Mesmo eu tendo lhe dado aquele conceito baixo. Esta é uma noite importante, estou apostando o trabalho de uma vida nela. Eu lhe suplico!
— Mas, hein?

Galarza franziu a testa.

— O que você acha que eu vim fazer aqui?
— Ora, capturar-me, não? E me levar até a maligna Diretoria! D= — sussurrou o velho com pavor.
— Quê?... Ah, não, não. Lol... Na verdade, meu amigo e eu nem sabíamos que essa cidade existia. Caímos de paraquedas aqui.
— Não foi de ônibus?
— Foi, Bruno, só espera um pokito. u.u

De repente o professor pareceu extremamente aliviado.

— Por todos os deuses astronautas! Nunca pensei que fosse receber clemência de um aluno da Academia! — ele pareceu assombrado, na verdade, e passou a estudar Galarza minuciosamente através de seus óculos de lentes quadradas — Você está diferente, meu rapaz. Por onde andou?
— Por aí...
— Mas o que o traz até um lugar tão insignificante como Logo Ali?

Galarza e Bruno entreolharam-se.

— Eu não sei se você merece a versão resumida ou a completa da minha história. Vamos ver, primeiro... por que você saiu da Academia?
— Ah, meu garoto, por onde começar?... Antes de lhe dizer qualquer coisa, tenho que ter certeza de que isso não é um truque. u.u Qual o ser humano mais fodão em toda a face da Terra?

Galarza riu.

— Tá me tirando, velho? u.u Está na cara que sou eu! *.*

O professor coçou o queixo, pensativo.

— Acho que posso confiar em você.

Galarza fez um “positivo” com o polegar.

— Eu não entendi ‘-‘ — disse Bruno.
— É que somente alguém sem qualquer laço de fidelidade com a Academia responderia uma coisa dessas. Um verdadeiro SPY, digo, a serviço dos interesses da instituição, diria “O Diretor é o mais fodão”, entende? Do contrário, teria de cometer Seppuku.
— Oh.
— Além do mais, quem é que não percebe que eu sou o cara mais fodão do universo? *o*
— Okay, acho que isso é suficiente, Rafael — disse o professor — Vamos conversar os três em particular.

Aproveitando a distração dos demais com os canapés, pasteis e bolinhos, os dois garotos e o mestre recolheram-se a uma sala ao lado.

CONTINUA...