terça-feira, 12 de junho de 2012

NINE DADS (EPISÓDIO 2)



Pela manhã seguinte foi complicado. Gustavo teve de subir numa escada para desgrudar um Matt adormecido do teto de seu quarto, o que lhe rendeu um bocado de esforço enquanto sua mãe ainda não tinha acordado. Também Matt não gostou de ser despertado.

— O que, são seis da manhã? Eu não tenho, tipo, família pra sustentar!

Demorou algum tempo até Gustavo persuadi-lo a voltar para o chão, lembrando-lhe de que não estava mais em sua dimensão e que era preciso se comportar de maneira a não levantar suspeitas de sua mãe, com quem Liebert não tinha, a princípio, nenhuma conexão direta.

— Oi, mãe, esse é o Matt. Ele apareceu durante a noite.
— Ah, sério? Pelo menos você tem um amigo por perto, querido — disse a mãe dele com voz de quem tinha chorado a noite inteira.
— Semana complicada, sra. Klein? — perguntou Matt, acrescentando com um sorriso animador enquanto descascava uma banana: — Tenho certeza de que a partir de hoje vai melhorar. A senhora deve pensar positivo!

A mãe de Gustavo disse algo como “É.” olhando para a fruta preferida dos primatas e saiu da cozinha com cara de quem ia chorar no cômodo ao lado. Matt percebeu a gafe quando a banana estava na metade e disse “Ôps”, desfazendo-se dela na lixeira ao lado. Gustavo sentou-se à mesa mexendo um copo de achocolatado com uma colher, e Matt o tomou para si.

— Ah, valeu! Era disso que eu estava precisando. Andei pensando agora há pouco, e não acho que vai ser muito difícil descobrir onde é que está o seu coroa Número 1. Talvez só precisemos de uma visitinha à escola.
— Espero que sim, porque não estou gostando muito de ver minha mãe aos prantos em casa. Prefiro ela gritando, sabe.
— Isso vai ser resolvido hoje... ou não! — concluiu Matt com outro sorriso animador. — Vamos à escola!

A escola não estava muito diferente naquele dia em relação aos dias anteriores... mas isso era óbvio. Como combinado, Matt acompanhou Gustavo de mochila nas costas e olhar vago, como todo bom aluno do Ensino Médio, até chegarem às portas do colégio, onde também estava Bruno.

— Beleza, Gust... Ah, oi, tudo bem? — ele estendeu a mão para Matt, que lhe deu um “high five”, e franziu o cenho desconfiado por um momento. — Por acaso eu não te conheço de algum lugar?

Bruno rodeou o rapaz, deu algumas farejadas (sem levantar a perna) e acrescentou:

— Tenho certeza de que a gente já andou de ônibus uma vez.
— Não é quanticamente impossível — disse Matt sorridente, e eles ouviram o sinal do primeiro período. — Acho que é agora que a gente entra... Legal te conhecer. Sou Matt.
— Bruno. Também é legal te...
— Beleza.

Ele puxou Gustavo pela alça da mochila antes que o outro garoto terminasse, e os dois entraram na escola sem dificuldades na portaria, onde as pessoas estavam muito ocupadas tentando passar os elmos dos estudantes pelo detector de metais. À porta da sala, antes que o professor chegasse, Matt e Gustavo acertaram os últimos detalhes da primeira “investigação” que iam realizar.

— Você deixa as suas coisas aqui dentro e, assim que puder, pula pela janela e desce agarrado na árvore que eu vi lá no pátio para o andar de baixo. Eu distraio as pessoas com uma encenação de Macbeth.
— Não é mais fácil eu pedir licença pra ir ao banheiro?
— Olha, também é possível, mas pode dar mais trabalho.
— Eu poderia sair no próximo período? Tipo, agora é aula de Sociologia e...
— E você é um nerdzinho??
— Não, é que nós teríamos uma prova oral, o que costuma ser bastante...
— E o nerdzinho tá com medo de passar vexame, é? Os 50,5 não são suficientes pro nerdzinho?
— Você sabe que essa discussão não tem a menor graça, né? E que também não faz sentido?
— Hummm, e a bonequinha tem algum problema com isso?
— Pare.
— “Look at me, I’m a little doll
     I comb my hair all night long
     Cause all that I can do is to be a… nerdzinho!”
— OK, você não tá me levando a lugar nenhum com esse raciocínio. Eu estou entrando na sala.
— Tá, nada!
— Será que você pode...
— Bote!
— Sério, eu to realmente puto.
— OK, entra. É Sociologia? Adoro Sociologia!

Matt puxou novamente o filho pela alça da mochila, dessa vez para dentro da sala, onde minutos depois entrou o professor do primeiro período.

— OK, turma, pensei em fazer as coisas de um jeito diferente hoje, já que muitos de vocês estão nervosos com essa história de “prova oral”, etc e tal, e como é mais prudente eu ser amigo de vocês do que ter os quatro pneus do meu carro esvaziados no meio da noite, vou facilitar um pouco aqui... Vocês me fazem uma pergunta, cada um, e eu respondo. Depois eu faço uma pergunta para cada um, e encerramos antes das nove. Certo? Vão pensando...

As pessoas em volta foram tropeçando em si mesmas para arranjar papel, caneta e alguma ideia interessante para questionar. Em cinco minutos, Matt tinha levantado a mão. O professor pediu silêncio aos demais e disse:

— Parece que temos um candidato — sempre quis usar essa frase! Vá em frente, sr....?
— Aldo. A pergunta é a seguinte: “Na ótica do neo-estruturalismo, como podemos articular os conceitos de Estado, religião e hierarquia com os contextos modernos de vida na era digital, em meio à mídia de massa, levando em conta os padrões de consumo e as representações de grupo das classes suburbanas brasileiras diante da ascensão da Coca Zero?”.

Houve uma pausa. O professor tirou os óculos, sentou-se e disse:

— Olha... acho até que é um negócio bem gostoso.

O período acabou antes do que eles imaginavam, assim foi possível para eles saírem para o pátio junto com o resto da turma e parecerem inocentes.

— OK, agora, enquanto todo mundo tenta passar pela portaria para matar os próximos quatrocentos períodos, você entra na sala da Diretora... e fuça! — disse Matt a seu filho.
— Apenas fuçar? Você quer que eu fuce a sala da Diretora sem motivo aparente? Digo, não estamos procurando por nada em especial?
— Não sei, errm... Quem sabe algo brilhante? Ou algo que indique que ela tem animais de estimação?
— Por que isso nos ajudaria a resgatar meu pai?
— OK, quer saber? Eu vou com você. Essa é minha função. É. Você, filho. Eu, pai. Nós vamos juntos. E fuçamos.

Assim, os dois esgueiraram-se para dentro do prédio e pelo corredor administrativo quando ninguém estava olhando e, com a ajuda de um pequeno clipe, abriram a porta do gabinete vazio da Diretora.

A sala era aparentemente normal, porém — vá saber — bem poderia esconder sinais de uma personalidade pervertida e malévola que gostava de envolver-se em sequestros de pessoas por intermédio de animais.

— É uma sala aparentemente normal — disse Matt em voz baixa, enquanto eles fuçavam as gavetas e forros das almofadas —, mas, vá saber, bem pode esconder sinais de uma personalidade pervertida e malévola que gosta de se envolver em sequestros de pessoas por intermédio de animais. Com esse tipo de gente, filho, nós temos que ser vigilantes. Nunca se sabe o que se passa na cabeça desses perturbados... A propósito, me passa aquele isqueiro?
— Para quê? — Gustavo obedeceu-lhe perguntando.

O Pai Número 2 tirou do bolso um cachimbo e um saquinho plástico com algo verde dentro.

— Observe, agora, filho — ele disse enquanto fazia o conteúdo do saco ir para dentro do cachimbo para ser queimado —: isto parece um cachimbo, bem como isto aqui se parece com maconha. E as duas coisas, combinadas com o isqueiro, parecem uma coisa muito ruim.
— EU TENHO UM PAI ALTERNATIVO MACONHEIRO??

Matt deu uma tragada e tossiu longamente antes de responder.

— Foi mal... Filho, veja pelo lado científico da coisa: Cannabis sativa ajuda a potencializar os poderes mágicos das pessoas.
— Você tem poderes mágicos porque você fuma???
— Meio por aí.
— Ou você fuma porque tem poderes mágicos?
— Eu prefiro não acreditar nessa hipótese.

Ainda perplexo, Gustavo ia ralhar um pouco mais com Matt quando ouviu passos rápidos aproximando-se da sala onde os dois estavam.

— Oh, merda, tem gente vindo. Apaga isso aí! — ele exclamou, mas o Pai #2 tão somente desapareceu com um “Puff”, e a Vice-Diretora abriu a porta.
— Eu posso saber o que você está fazendo aqui dentro? — ela já parecia puta num mau sentido em seu dia-a-dia; agora, vendo as gavetas e outras coisas reviradas, ficou mais zangada ainda num sentido igualmente ruim. — MAS QUE MERDA VOCÊ VEIO FAZER AQUI, NA SALA DA DIRETORA?
— Érr...
— E que cheiro de... Ah, você não se atreveria!
— Érr...
— VOCÊ FUMOU A MACONHA DA DIRETORA?!

Gustavo nada disse depois disso.

— Pode ficar aí, caladinho, esperando o seu destino cruel. Ou melhor, grite. Grite por clemência e por não saber o que está reservado para você! Fuck, yeah. Não, não. Fique aí sentado, tremendo, por não saber o que pode acontecer depois que eu voltar com a Diretora... e aí implore por clemência!

Ela deu uma risada satânica e saiu batendo a porta. Meio minuto depois, retornou com a Diretora. Esta ocupou sua própria poltrona, ordenou que Gustavo se sentasse na frente dela e disse simplesmente:

— Então, você veio fumar minha erva. Eu mandaria você COMER tudo, mas aí você ficaria mais chapado, e isso faria você ficar feliz, não? Pois, então... Acho que sei como ferrar a sua vida. Vice-Diretora cujo nome não vem ao caso, por favor me passe o Estatuto da Criança e do Adolescente.

A Vice-Diretora obedeceu. A Diretora abriu o livro, parou numa página e leu:

— “Art. 37462846398272: o adolescente que for pego consumindo a droga do seu gestor educacional será submetido à morte por afogamento em tanque de vidro, preso a camisa-de-força e envolvido por correntes, na data mesma em que foi dado o flagrante, o mais imediatamente possível. Parágrafo único: salvo se o adolescente em questão conseguir se libertar das correntes e emergir em menos de 3 minutos.”

“PÁ!”, ela bateu com o livro em cima da mesa, olhou Gustavo fixamente nos olhos e disse:

— Então... você acha que consegue? Hein, seu porquinho imundo?
— O que, entrar num tanque...?
— Com uma camisa-de-força.
— Com uma camisa-de-força e com...?
— Com correntes.
— Isso. Com correntes... Afogado... A coisa toda... E me libertar em menos de 3 minutos?
— Exatamente. Você consegue? Hein? Hein? Está sentindo o medo latejando nas têmporas??
— Olha... acho até que é um negócio bem gostoso.

A Diretora deu uma risada satânica e acrescentou:

— Na frente da escola toda?

O pânico tomou conta de Gustavo. Ele o sentiu em suas entranhas. Agarrou com força o braço da cadeira, suando frio, e perguntou:

— Não poderia ser de outra maneira?
— O Estatuto é bem específico, temos que fazê-lo imediatamente e, com certeza, seus colegas vão querer assistir.

A Diretora olhou empolgada para sua Vice.

— Sempre quis usar aquele tanque de vidro!

Na hora do recreio, um grande estrado foi montado no meio do pátio, e um tanque de vidro com a altura de dois homens foi trazido para lá. Encheram-no até a boca com água. Àquela altura, todos os alunos e funcionários que estavam por ali se aglomeraram em torno da construção e aguardaram o que eles sabiam se tratar da primeira execução por afogamento na sua escola, o que era com certeza uma grande honra.

Apenas Gustavo não estava gostando daquilo, e não era pelo risco à sua vida. Ele apenas não gostava de fazer coisas em público. Se ao menos, naquele momento, tivesse seu...

— Pai??

Matt tornou a materializar-se, dessa vez atrás dele enquanto ele era vigiado em cima do estrado, comendo uma tangerina.

— Foi mal, filho! Foi mal mesmo. Eu só queria te dizer que sinto muito e que estou triste por você estar prestes a ser executado por afogamento.
— Mas eu não acho que eles vão conseguir me executar, pai. Apenas estou morrendo de medo dessa gente toda! Se ao menos eu pudesse esquecer que eles estão aqui, ou pudesse me sentir mais à vontade com todos esses olhares sobre mim... quem sabe eu sobreviveria.

Matt ficou calado, pensativo. Depois disso não houve mais tempo para conversar. Os executores chegaram, colocaram Gustavo numa camisa-de-força e o acorrentaram da cabeça aos pés. Em seguida, içaram-no com cuidado e o depositaram dentro do tanque. A partir daquele momento, um cronômetro nas mãos da Diretora começou a contar o seu precioso tempo, que ele não aproveitou porque se sentia socialmente pressionado.

Todos aqueles olhares direcionados a ele! Todos aqueles gritos de “AFOGAAAA!!”, “Se fudeu, maconheiro!” e “Chatooo!” eram perfeitamente audíveis, mesmo ele estando debaixo d’água. Depois que um minuto já tinha se passado, Gustavo chegou à conclusão de que não aguentaria. Ia morrer ali, e seu pai continuaria no cativeiro com macacos.

Mas, de repente, todo mundo ficou pelado. Gustavo piscou os olhos para ver se era aquilo mesmo, e sim, todo mundo estava nu. Nessa hora as pessoas começaram a gritar; garotas, rapazes, professores e professoras estavam gritando, e a Diretora não soube o que fazer, porque seu capataz particular, o zelador Joe, estava na mesma posição de vulnerabilidade.

Então, enquanto todos se distraíam com a proteção de suas partes, Gustavo começou a se mexer para se livrar daquelas correntes. Não foi muito difícil. Em seguida, veio a camisa-de-força. Felizmente, ele não se esqueceu dos movimentos que aprendera na aula de piano, e assim conseguiu se libertar.

Quando ainda restavam-lhe cinco segundos, ele tomou impulso com as pernas e emergiu na boca do tanque dizendo:

— CONSEGUI!

Para sua sorte, a escola ficou tão ocupada pelas próximas horas em reunir mudas de roupa que sua infração foi esquecida. Mais tarde, quando toda nudez havia sido devidamente combatida, todos foram liberados para casa, e na saída Gustavo encontrou Matt esperando por ele.

— E aí, o que achou? — perguntou seu pai abrindo um pacote de bolachas Maria.
— O que, foi você? — indagou Gustavo sem acreditar.
— Dã, quem mais teria sido?
— Eu jamais pensei que todo mundo ficaria pelado instantaneamente por um motivo que não fosse natural!
— Eu falei: se não fosse pela Marijuana, meus poderes não teriam te salvado.
— Mesmo assim, eu sou contra você usar esse negócio. Mas valeu pelo empurrão, pai. Ajudou pacas!
— Não há de que, é meu trabalho. Maria?

Eles saíram rua afora comendo bolachas.

— No fim, não conseguimos nada com a Diretora — disse Gustavo um pouco desanimado.
— É, e eu também não acho que ela tenha qualquer coisa a ver com isso.
— Mas, então, por que mandou que eu...?
— Foi uma jogada impulsiva, eu sei. Não vai se repetir.
— Quer dizer que você não sabia o que estava fazendo? Você me mandou invadir o gabinete da Diretora da escola e fez com que eu quase morresse, sendo que sabia que isso não nos levaria a nada?
— Uhum. Foda, né?

Gustavo estava a ponto de xingar seu pai quando uma garota veio correndo atrás deles e os interrompeu.

— Esperem! Desculpa... Vocês não devem me conhecer. Meu nome é Jessie, errm... Eu estava escondida no banheiro feminino me cortando, quando ouvi a comoção no lado de fora. Vi você saindo daquele tanque, tipo... Uau, deixar todo mundo nu foi... coisa de mestre!

Ela parecia tão impressionada que Gustavo não teve coragem de dizer que não fora ideia sua. Em vez disso, pigarreou e falou:

— Ah, aquilo não foi nada. Devia ver como eu me divirto no cinema!

Os dois riram juntos.

— A propósito, meu nome é Gustavo, e gostaria que você conhecesse meu... amigo, Matt Liebert.

Matt estendeu a mão à garota com um “Muito prazer!” e deu uma piscadela para Gustavo.

— O prazer é meu — disse Jessie. — Se não tiver nada pra fazer amanhã, meu pai é veterinário de um zoológico muito legal e pode nos conseguir ingressos de graça.
— Ah... é mesmo? — disse Matt em tom maravilhado, lançando um olhar cúmplice a Gustavo. — Se eu fosse você, aceitava, Gustavo, porque zoológicos são lugares muito interessantes para se ver... animais, tipo araras... girafas... macacos e... ornitorrincos... e macacos, sabe como é.
— OK, eu entendi, pai — sussurrou Gustavo.


Gustavo aceitou o convite de Jessie, que foi embora quando uma chuva fininha começava a cair. O garoto e seu pai Número 2 continuaram andando, mesmo sob os pingos de água, agora com alguma esperança de que a investigação fosse progredir no dia seguinte.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

NINE DADS (EPISÓDIO 1)

A história a seguir foi esboçada um ano atrás, após um papo estranho sobre Física Quântica de botequim com um amigo que, no final, acabou dando nome ao principal personagem.

***

Despertador tocou precisamente às seis e quarenta e cinco.

Vai começar...

— Não fui eu quem queimou a torradeira! Quando eu queimar a torradeira, você pode gritar comigo, mas dessa vez eu estou me reservando o direito de ser liberado dessa acusação!

Era a voz de seu pai, um homem que raramente se alterava, gritando na cozinha com sua mãe, que era entendida nesse tipo de coisa e não tinha problemas em fazer isso a qualquer hora do dia, especialmente quando o filho deles acordava.

— Eu falei pra você antes de sair daqui por um minutinho: “Cuide da torradeira”. E você cuidou? Não, porque você só consegue fazer o oposto do que eu peço.
— Quando é que eu me tornei especialista em eletrodomésticos?
— Por Deus, Jota! Ficar atento enquanto a luzinha não acende? Até um macaco conseguiria fazer isso!
— Talvez eu me vista como um.

Quando Gustavo entrou na cozinha e fez a busca matinal de costume por qualquer coisa na geladeira, eles não se deram conta da sua presença. Também não se deram conta de quando ele deixou uma pilha de roupa usada “ao léu” no banheiro depois de tomar banho, nem quando não lavou a louça depois de tomar café.

Até aquele momento, seus pais estavam ocupados demais com um breve antagonismo interno para conseguirem azucrinar o filho. Apenas na hora de se despedir da esposa para ir ao trabalho, Jota, o big boss da família Klein, lembrou-se de gritar pelo nome dele, a quem deveria dar uma carona até a escola.

— GUSTAAAVO!  — ele ainda deu mais uma cutucada verbal na mulher antes do filho se aproximar de mochila nas costas: — Se quiser me orientar sobre como operar o elevador, vá em frente. Morro de medo de me perder nessa engenhosa máquina antes do serviço... Mas que cabelo é esse, Gustavo?

O adolescente parou na frente do pai sem dizer nada. Tinha chegado a sua vez...

— É o cabelo que eu uso sempre.
— Sempre que acorda? Eu não constituí família para ter um filho desleixado. Vá se pentear!

No que o filho saiu para o banheiro, o pai olhou para a esposa e comentou:

— Eles acham que podem tudo!
— É brincadeira mesmo... — concordou a esposa. — Quer saber? Agora que estou pensando, você é um ótimo pai. Não deveríamos discutir por causa de um eletrodoméstico. Vai que você sai de casa agora e é surpreendido por animais falantes portando armas de fogo? Não quero que a última coisa que você ouviu de mim tenha sido uma frase ríspida.
— Eu também não, querida. Amo você.
— Eu também.

Gustavo retornou à sala, devidamente penteado, os cabelos cobrindo metade da cara.

— Pronto, estou civilizado. Podemos ir?
— Ainda não — disse o pai. — Tenho que verificar se você está afiado nas lições. Qual é o PIB do Azerbaijão?
— Como diabos eu vou saber?
— Pois trate de verificar! Não constituí família para ter um filho que não sabe noções básicas de Economia.

Revirando os olhos, o filho largou a mochila e foi para o computador.

— Eles acham que podem tudo! — exclamou Jota para sua esposa.

Respondida a questão sobre o Azerbaijão, Gustavo pode ir com seu pai até o carro e aproveitar alguns minutos de tranquilidade a caminho da escola, ao som de Pink Floyd.

Ultimamente o mundo andava estranho, e estava cada vez mais difícil viver nele. Presságios de que o mundo acabaria no final do ano não paravam de chegar, e a natureza também não contribuía para acalmar as pessoas: semana passada, uma vizinha sua morrera atingida por uma chuva de baiacus que ninguém soube explicar.

Também era difícil ser um adolescente. As pessoas gritavam muito com ele. Gustavo passou a acreditar que, como no mundo dos adultos as pessoas gritam muito, ser tratado com voz doce e pausada até o fim da infância mimava demais uma pessoa, então, para fazê-lo pensar nas futuras responsabilidades, tinham que gritar bastante com ele até que completasse dezoito anos.

Quando seu pai estacionou na frente da escola pública, deu-lhe “Bom dia”, ao que ele respondeu com “Uhum” e desceu do carro, que partiu. Encontrou seu amigo Bruno na entrada, de mochila nas costas. Ele já tinha terminado a escola há muito tempo, mas ainda gostava de aparecer por lá.

— E aí, Gustavo!
— Beleza, Bruno.
— Que vai fazer hoje?
— O de sempre, eu acho. E você?
— Eu tenho algumas coisinhas pra fazer à tarde, mas resolvi dar uma relaxada pela escola agora, cedo. Acha que eu consigo entrar?
— Só vendo...

Foram até a portaria, uma senhora que trabalhava lá barrou Bruno.

— Não tente me enganar, rapaz! Você não pertence mais a este lugar, que eu estou sabendo.
— Ah, só porque eu pareço um pouquinho mais... “forte”? Os adolescentes crescem rápido hoje em dia!
— Mas você não me passa a perna. E dá licença, que tem um aluno querendo passar.

Atrás deles vinha mais um indivíduo de mochila nas costas.

— Bom dia, Ned — cumprimentou-o a porteira.
— Bom dia! — disse Ned passando por ela.
— Você deixa esse cara entrar? — indagou Bruno perplexo.
— Ele é conhecido por todos desde que entrou!
— Ele tem oitenta anos.
— Não vou discutir com você. Agora sai da frente, que o pessoal quer entrar.

Gustavo ficou com pena de Bruno por este ter sido rejeitado de novo pela portaria da escola, mas prometeu-lhe que mais tarde fariam alguma coisa juntos e entrou no colégio.

Antes do primeiro período começar, a Diretora quis reunir todos no Auditório para dar um comunicado.

— Meus prezados alunos — ela começou em tom monótono, lendo um pedaço de papel —, o assunto de hoje é de preocupação geral da comunidade escolar. Desde que reforçamos a segurança, houve menos problemas envolvendo crimes nesta escola, e apenas 39 alunos foram acidentalmente decapitados mês passado. Por isso é que o Governo Estadual, no interesse de seguir com essa política de segurança nas escolas, mandou distribuir elmos para os alunos da rede pública. Façam fila, por favor, para recebê-los. Mas eu não quero saber de gracinhas! Não como na vez em que vocês ganharam sprays de pimenta.

Após o recebimento dos elmos, o dia transcorreu tranquilamente. Somente no meio da aula de História, trinta minutos após o professor sair sem motivo aparente, a Vice-Diretora veio à sala de Gustavo para dar um aviso:

— Vocês estão dispensados.
— Podemos saber por quê? — alguém perguntou.
— Aparentemente, o professor de vocês sofreu uma desilusão existencial e foi tentar a vida como músico. Não se preocupem, o gato dele vai assumir suas obrigações a partir da semana que vem. Por hoje, vocês podem ir pra casa.

Não estava fácil ser um estudante de escola pública. Mas Gustavo não se estressava com isso. Pegou suas coisas, saiu junto com a turma cheia de pessoas que não conhecia e, por sorte, ainda encontrou Bruno pela rua.

— Gustavo!
— E aí. Saí mais cedo.
— Hum.
— Vamos arranjar o que fazer antes do almoço?
— Pode ser. Eu tava pensando em visitar uma loja onde tem uma velhinha que vende saquê barato.
— Ah. Certo. Você sabe que eu não curto beber, mas vamos lá.
— Ela tem outras coisas lá também. Não-alcóolicas. É capaz de você gostar. Na verdade, é bem capaz que uma delas mude completamente a sua vida...
— Pois é, né? Eu duvido, mas vamos lá. Vale o passeio.

Eles foram até a lojinha, que não era muito distante, e enquanto Bruno barganhava uma garrafa de saquê, Gustavo ficou fuçando entre as quinquilharias que ela oferecia. Havia muita coisa antiga com referência cultural ao Oriente: porcelana, roupas, prataria, livros.

E, sobre um pequeno pedestal, uma pedra. Nada mais que isso. Apenas uma pedra...

— Pronto, Gustavo. Vamos embora?
— Espera.

Gustavo percebeu que estava já havia alguns minutos olhando vivamente para aquela pedra, que, apesar de fosca e sem utilidade aparente, atraía seu olhar com uma força inexplicável.

— Você se interessou por essa pedra?
— A pedra não está à venda — resmungou a velha dona da loja, vindo em direção a eles. — Você não querer pedra. Pedra inútil e feia. Levar isto — ela mostrou-lhe um tecido longo de seda —: deixar você invisível.
— Acho que não. Eu gostaria da pedra — disse Gustavo.
— Pedra não, pedra ser... pedra! Menino gostar mais disto! — ela mostrou-lhe uma adaga reluzente. — Quem tem adaga, vira imortal.
— Desculpe, não me serve. Será que não rola me vender a pedra?
— Pra que pedra?? Que tal — ela puxou um pingente — talismã que adivinha futuro, e traz sorte, e fortuna, e força de mil homens?
— Muito obrigado, mas não.
— Ah, então por que você não toma no cu?

Naquele instante, o telefone tocou. A senhora japonesa pediu licença aos dois e retirou-se para um aposento nos fundos da loja, de onde eles a ouviram falar muito rápido em japonês. Gustavo ficou ali parado, olhando para a pedra, Bruno parado ao seu lado com cara de preocupação.

— Cara, se você for roubar esse negócio, não pense duas vezes, então! — sussurrou o mais velho.
— Tem razão, temos de ser convictos, certo?
— Não, é que eu tô louco pra mijar!

Gustavo olhou para a porta da saleta onde a velhinha estava, olhou para a pedra sobre o pedestal, estendeu a mão e a pegou. Saiu, acompanhado por Bruno com a incerteza de por que fizera aquilo pairando dolorosamente sobre sua cabeça. No entanto, a pedra no seu bolso transmitia-lhe sensação de estabilidade. O certo tinha sido, de alguma forma, levá-la consigo.

Chegando em casa, horas mais tarde, da aula de piano, Gustavo encontrou sua mãe e mais dois policiais na sala de estar. Ela apertava um lenço entre as mãos e tinha os olhos vermelhos. Preocupado, ele nem fechou a porta e foi logo até ela, desfazendo-se da mochila.

— Mãe? O que aconteceu?
— Seu pai... — ela disse com a voz falhada. — Ele... Não consigo nem dizer...

Um policial veio a Gustavo e disse:

— Seu pai foi sequestrado por macacos falantes quando retornava do trabalho. Encontramos um DVD no carro dele, contendo um vídeo que você pode ver aqui.

Ele aproximou o notebook em cima da mesa, que pertencia a Gustavo, ao alcance da visão da sua visão, e teclou “ENTER”. Surgiram dois gorilas contra uma parede branca, segurando metralhadoras. Usavam roupas pretas os dois, além de lenços vermelhos que lhes cobriam as caras. Um deles, o da direita, falou em claro Português:

— A quem quer que esteja ouvindo, sequestramos seu parente, e não estamos a fim de devolvê-lo, não, tá entendendo? A não ser que você esteja disposto a pagar um resgate... Grana alta, humano! Você acha que dá conta? Olha bem pra isto!

Cortaram para o pai de Gustavo sentado dentro de uma gaiola, ainda em seu traje de serviço, sendo bombardeado por cascas de banana e parecendo ligeiramente aborrecido.

— Desculpem, mas eu estou atrasado para o jantar!

Cortaram de novo para os gorilas, dos quais o da direita completou:

— Entraremos em contato. Se envolver a polícia, matamos o humano, entendeu? Té mais...

O vídeo acabava ali. Perplexo, Gustavo sentou-se no sofá e não disse nada. Sua mãe soltou algumas lágrimas e perguntou ao policial:

— E agora, seu guarda? O que vai ser do meu marido?
— É cedo para dizer, madame. Este é um caso muito grave de pessoa sequestrada por macacos — confessou-lhe o policial enxugando o suor da testa. — Faremos o possível para rastrear esses meliantes. Só pedimos para que não se alarme: no geral, eles só comem frutas e pequenos insetos. Acreditamos que haja uma causa social por trás desses crimes, uma vez que o gorila está entre as espécies ameaçadas de extinção. Como as faces estavam cobertas, fica difícil associá-los a algum indivíduo já conhecido, mas pelo padrão de voz eu diria que se tratam de gorilas do ocidente, uma espécie bastante comum do gênero Gorila.
— Eu não entendo dessas coisas, eu só quero meu marido de volta!
— Vamos trabalhar nisso, senhora. Apenas saiba que em 2008 foi descoberta uma população de 125 mil desses gorilas na República do Congo. Se isso vier a representar alguma mudança no status de conservação da espécie, quem sabe seu marido ainda tenha uma chance.

Os policiais ainda fizeram algumas perguntas e prometeram dedicar-se exclusivamente àquele caso — prometeram. Desolada, a mãe de Gustavo não quis assistir ao Animal Planet aquela noite. Sem muito apetite, Gustavo foi para o quarto, deitou-se na cama e ficou pensando sobre o absurdo da vida.

Num momento você é um pai de família; no outro, gorilas te sequestram em plena luz do dia. Estava difícil ser um pai de família.

Gustavo percebeu que a pedra roubada ainda estava em seu bolso. Pegou-a mais uma vez para dar-lhe uma olhada e pensou: “Você me fez sentir tão confiante naquela loja... Se ao menos isso me ajudasse a resolver esse problema!”. De repente, ela ficou quente, tão quente que ele não foi capaz de continuar segurando-a e deixou-a cair no carpete, onde emitiu um brilho cor de rubi.

Num clarão, um rapaz apareceu em cima dela. Tinha alguns anos a mais que Gustavo, a barba por fazer, o cabelo meio desleixado e as roupas como de quem pegava o que estava ao alcance e era isso. Ele se abaixou para pegar a pedra e olhou feliz para Gustavo, que recuava contra a parede em absoluto choque.

— Nossa, achei que nunca ia precisar de mim!
— Quem é você? — perguntou Gustavo.
— Pôxa, não me reconhece? Sou seu pai... em outra dimensão!

O rapaz sentou-se na cadeira giratória de Gustavo de um jeito bem largadão e atirou-lhe a pedra, que tinha voltado à temperatura e coloração normais.

— Meu... pai... dimensão... Como isso é possível? — indagou Gustavo com a voz falhada.
— Cara, você não pegou a pedra? Então, a pedra é a chave! Ela te traz o que você precisa, de algum lugar, e foi por isso que eu apareci! Ela foi extraída do rim de um sábio chinês do século V a.C. e conservada até hoje. Ela chamou você, Gustavo... enquanto você a chamava.
— Então foi por isso que eu precisei tanto afaná-la? Mas isso ainda está muito mal contado. Como você pode ser... meu pai?
— Cara... como podem os planetas girar em torno do sol? Como é que o coração continua batendo? — E, após uma pausa, o estranho acrescentou: — E quem não gostaria que seu pai tivesse várias faces? Tipo eu: jovem, bonitão, universitário... com poderes mágicos?
— Você tem poderes mágicos? — Gustavo perguntou imediatamente.
— Claro — disse o Pai Número 2, e materializou um porquinho-da-índia na cama dele.

Gustavo não achou aquilo tão ruim, afinal. Pôs a pedra mágica na cabeceira, pegou o porquinho colo e prosseguiu com as perguntas:

— Mas para que, exatamente, você serve?
— Ora, você não decidiu isso desde o início? Eu vou te ajudar a resgatar o Número 1 dos macacos! Não vai ser fácil, com certeza, e se eu não conseguir, outros virão. Mas essa pedra faz umas coisas que, porra, você não vai querer outra coisa na vida. Se eu fosse você, levava ela comigo pra todo canto. Só não tenta, hã, inserí-la em você mesmo de alguma forma. Tipo, ela saiu do rim de um cara que morreu...

Ele se contorceu num arrepio de nojo. Gustavo achou aquilo razoável e perguntou:

— Qual o seu nome... pai? — e ficou confuso com a própria pergunta.

O Pai Número 2 respondeu:

— É Matt. Matt Liebert.
— Meu sobrenome também é diferente em outras dimensões?
— Muita coisa é diferente em outras dimensões, cara. Mas é melhor você não se preocupar com essa parte agora. Sabe do que mais? Vamos dormir, porque amanhã eu vou pra sua escola.
— Escola?
— É o melhor lugar para começar uma investigação sobre gorilas. Tô sentindo que a sua Diretora sabe de alguma coisa.
— Por que minha Diretora teria algo a ver com... macacos sequestradores?
— Não confia no seu segundo pai?

Com uma piscadela, Matt deu uma levitada até o teto e encostou-se nele como se fosse uma cama.

— Pais de mundos paralelos podem ser cheios de surpresas.