...............PEDRO engoliu em seco. Mais difícil do que tomar aquela decisão seria realizá-la. Olhou para Pinguin, que nada expressava, depois para o Ruleador e então para o próprio reflexo no vidro de uma estante. Fechou os olhos, concentrando-se o máximo que podia.
...............NORMA parou o carro em frente a uma lan-house e disse apenas para Gustavo e Matt saírem, escoltados por Galarza. Ela vigiaria Pepito, que estava realmente impossibilitado de se mexer naquele momento.
— Com licença, amigo — pediu Matt dirigindo-se a um velho calvo, com cara de poucos amigos, que cuidava do estabelecimento — Podemos descarregar uns arquivos um instantinho?
— Dois reais a hora — resmungou o velho mecanicamente.
Galarza forneceu o dinheiro e eles ocuparam uma máquina. As coisas estavam começando a dar certo.
.............ELE ESTAVA de volta à câmara iluminada por velas, de frente para o espelho empoeirado. De frente para o próprio alter-ego. Este falou com sua voz adulterada:
— Você ouviu o conselho dele, Pedro. Já ajudei você lá em Oregon. Agora depende de você se vamos sair do conforto da ignorância ou se vamos superá-lo.
— Eu não sei se consigo, Bob — desabafou Pedro — Vai que a razão pela qual certas coisas estejam escondidas no meu subconsciente seja justamente o peso que elas representam. E se eu não estiver pronto para saber?
— Confie em mim. Deixe-me apenas falar com ele.
Após uma difícil reflexão, Pedro concordou.
.............NA SALA de Amália o Ruleador esperava. Finalmente Pedro se mexeu e pigarreou de forma a chamar-lhe a atenção. Pinguin também prestou atenção.
Os olhos do garoto estavam vermelhos de novo, e sua voz mais uma vez soava como se duas pessoas fizessem o discurso. No entanto, era evidente que dessa vez havia mais Bob do que Pedro exercendo a vontade sobre aquele corpo.
— Muito bem, Ruleador. Estou aqui. u.u
O homem sorriu insanamente e aplaudiu.
— Perfeito, perfeito! Parece que enfim teremos um pouco de luz!
— Você realmente pensa que eu tenho a cura para as suas dores, não?
A pergunta deixou-o um tanto desconcertado no início, mas depois o Ruleador respondeu fervorosamente:
— Você tem acesso aos fatos!
— Eu tenho acesso às memórias adormecidas de um garoto. Só isso. Reconstruir o passado, mesmo para um ser quase-perfeito como eu, nunca é uma tarefa exata. Tudo é passível de ser interpretado. Aquilo que você é, o que você faz, resulta de um ponto de vista. Simples, assim. No entanto, difícil demais para humanos.
E Pedro/Bob olhou para Pinguin quando disse a última frase, revelando um certo desprezo.
— Mas... ainda assim, você está lá. Digo, na cabeça de Pedro — argumentou o Ruleador — Quero dizer... você pode ver o que aconteceu quando tudo começou para ele... e para você... não pode? D=
Pedro/Bob sorriu com condolência, como se estivesse diante de um pobre diabo que não soubesse nada com nada.
— Você acha que eu tenho o poder de me lembrar da hora em que nasci? Só porque sou “todo-poderoso”, acha que tenho poder sobre essa forma de conhecimento?
O Ruleador sorriu nervosamente. Não estava sendo como ele esperava...
— Escute...
— Você não quer apenas entender nossa natureza. Eu diria que isso vem em segundo lugar pra você. Não, não, você quer algo mais. Mais do que “entender” Sebastian, você quer chegar perto dele. Encarar o homem em carne e osso, falar com ele, tocá-lo para ver se é sólido, se não é uma ilusão. Porque você tem culpa. É, eu vejo culpa em você. Alguma coisa você fez de errado...
— CALE A BOCA!
Um murro na maçã do rosto fez o garoto perder o equilíbrio e cair de costas. Pinguin veio correndo assistí-lo, porém Pedro/Bob meramente riu.
— Acho que eu acertei.
— Você é uma perda de tempo — sussurrou o Ruleador, raivoso e assustado ao mesmo tempo — Uma completa perda de tempo. Você não é o CHEFE, Bob! Você é uma ferramenta de alta inteligência! Mas sem um mestre você não é nada!
Agora Pedro/Bob se levantava.
— Que raiva é essa, amigo? — perguntou suavemente — Pensei que quisesse ir a fundo na questão. Você tem uma pedra enorme na consciência, não tem? É... Não adianta desviar o olhar. Você errou feio. Só me pergunto com quem... e quando...
— CALE ESSA BOCA!
— Pedro, é melhor não irritarmos o cara. Ele pode pirar e matar todo mundo... D= — sussurrou Pinguin ao ouvido dele, esperando que o amigo o ouvisse. No entanto, era Bob quem estava no comando e sua reação, como se esperava, foi indiferente.
— Você não esperava poder olhar o passado dos outros sem mexer um pouquinho no seu, certo?? Diga-me, Ruleador, o que você esconde? Qual a sua pendenga?
Uma porta se abriu devagar, mas só o “clique” da maçaneta foi suficiente para assustar todos eles. Amália e Aiko saíram de dentro do quarto. A menininha trazia uma folha de ofício consigo.
— Com licença — disse Amália, tensa: estivera ouvindo todo o papo de dentro do quarto — Desculpem a interrupção. A Aiko fez um desenho. ^^
Aiko foi diretamente até Pedro e entregou-lhe a folha com um sorriso. O garoto ficou pasmo e imóvel por alguns segundos, até que Pinguin pigarreou alto e ele devolveu o desenho à criança com um “Muito bonito”. Feliz, a garotinha voltou para o lado de Amália, que pegou sua mão e disse, emocionada:
— Vocês viram, gente? Ela me desenhou *.*
De repente o Ruleador falou, num tom alegre que fez Pinguin desconfiar intensamente dele:
— Muito bem, Aiko. Você é uma menina extremamente talentosa! — ele foi até a menina e se abaixou um pouco para falar com ela — Sabe do que mais? Você podia desenhar cada um de nós na frente da casa do seu pai. O que acha?
— Weeee!
— Aliás, Pedro estava contando uma história muito interessante. Não estava, Pedro? Hein? Vamos lá, Pedro, vamos ouvir de você — ele ficou de pé, ao lado de Amália, olhando para o garoto transfigurado — É a sua voz que eu quero ouvir. Não era assim que deveria ser? Seu corpo, suas regras.
Amália trocou um olhar de “Errr” com Pinguin, que fez um sinal para ela ficar de bico fechado. O Ruleador continuou provocando:
— Vamos, Pedro. Revele-se. Faça Bob falar... Não? Ok... Vou lhe dar uma ajuda.
Ele empurrou Aiko para o chão, sacou uma pistola e encostou-a na nuca de Amália.
— NÃÃO! — Pinguin mergulhou para pegar Aiko, que chorou, e afastá-la dali enquanto Amália, Pedro e o Ruleador gritavam ao mesmo tempo.
— Anda, Pedro, ou ela será a primeira a morrer hoje!
— Pare com isso...
— OMG, OMG D=
— Assuma o controle, Pedro! O poder é seu!
— Não o provoque, Ruleador... Droga...
Pedro/Bob parecia lutar contra alguma dor excruciante.
— Eu estou falando com você, Pedro!
— PQP, EU VOU MORRER! D=
— Pare... Ruleador...
— Eu juro que vou matá-la!
...
............Em algum lugar na mente de Pedro, um espelho quebrou-se em milhares de fragmentos.
............— AHHHHHHHHHH! LARGA A MINHA NAMORADA, PORRAAAAA!
Pedro avançou sobre o Ruleador e tirou-o de perto de Amália, que abaixou-se quando a arma disparou espontaneamente. Aiko gritou. Os dois voaram engalfinhados pela sacada. Ouviu-se um baque forte vindo lá de baixo. E nada mais.
..............MATT ligou o computador. Sentados junto com ele estavam Grilo e Galarza, ambos sob grande expectativa. O Windows abriu. Matt inseriu o Pen-drive na entrada USB da CPU.
— Sorte eu tê-la juntado do chão quando o carro chegou — disse Liebert.
— Vai logo — Galarza o fez se apressar cutucando-lhe as costelas.
— Okay, okay...
Matt acessou a unidade removível, que continha 3 arquivos — um chamado Backup, o segundo Keygen e o último Atalho M.C. —, deu duplo-clique sobre o terceiro e esperou.
Uma luz muito forte começou a emitir-se do monitor, tão forte que todos que a olharam ficaram momentaneamente cegos. Simultaneamente ouviu-se um ruído de Internet discada conectando, três pessoas gritaram de dor, e logo tudo voltou ao normal.
Galarza esfregou os olhos, constatou que podia enxergar outra vez e viu que agora estava sozinho numa das cadeiras defronte ao PC. O dono da lan-house continuava numa ligação telefônica, alheio a tudo que acontecia ali. Norma veio correndo de repente para dentro do estabelecimento, de arma na mão, gritando:
— Pepito sumiu!
— Matt e Gustavo também ‘-‘ — disse Galarza sem se exaltar — Acho que era pra ser assim... Eles finalmente entraram.
...........EM ALGUM LUGAR ENTRE AQUI E MAIS ALÉM:
Matt e Gustavo sentiam mais uma vez, depois de semanas sem experimentar o fenômeno, como se tivessem sido espremidos através de uma mangueira de jardim e “cuspidos” fora pela outra extremidade. Pepito sentia-se o mesmo, fora a sensação de fui-mordido-por-um-zumbi-muito-obrigado-minha-vida-sucks.
Olharam todos para a frente. Lá estava ele, o Imperador, do mesmo jeito que de outrora.
— Muito bem, kids. Parece não foi há muito tempo que nós concordamos em realizar aquela pequena troca.
Os três amigos se entreolharam.
— Na verdade... faz — falou Matt — Mas o senhor sabe, é que nós...
— ... enrolamos... — Gustavo.
— ... pacas — Pepito.
...
— Anyway, vocês trouxeram o Backup — disse a Majestade Cibernética com voz ressonante — Sou eternamente grato. Agora... direto aos negócios, certo? — ele virou sua cabeça flutuante na direção de um de seus assistentes, que parecia um daqueles robôs nanicos que abriam o Big Brother Brasil, e ordenou-lhe: — Execute o Keygen.
...........DO OUTRO LADO da “linha” (se é que existe alguma linha em algum lugar), Norma olhava para o horizonte com uma expressão indefinida, o que, após alguns minutos de maramos, fez Galarza lhe perguntar:
— Tá tudo ok aí?
Norma piscou por uns momentos, lembrou-se de quem era e de onde estava e então disse:
— Tá, sim, tá. É que eu... Eu só tava pensando, you know... É isso aí, então.
— É isso aí... ‘-‘
— O Google está indo para o brejo, e... acho que eu também.
— ‘-‘.
— A vida inteira eu fui acostumada a seguir ordens. Primeiro do meu pai, depois dos instrutores militares, por último do homem que eu amei e que morreu nos meus braços. Depois de uma vida toda tomando decisões com base no que os outros disseram, quando eu finalmente fiz algo que eu soube que foi de acordo com minhas próprias convicções... chegou a hora de morrer.
— ... Que coisa, hein ‘-‘.
Ela se sentou no chão com as pernas cruzadas, repôs a arma no coldre e começou a balançar-se para a frente e para trás, feito aquelas crianças do jardim de infância.
— Não me arrependo de nada — continuou, bem no momento em que Galarza estava para sair da loja para esconder no carro. Depois disso ele teve de virar-se e escutar, por educação — Seria inútil se arrepender de alguma coisa numa hora como essa. Na verdade, o homem só mostra do que é feito quando vai morrer.
— Você é mulher.
— Eu sei...
— Olha, eu vou te dizer, na boa: não faça uma ceninha de filme agora. Você vai morrer, e pronto! E, tipo, você foi a mulher que nos caçou esse tempo todo e, wow, você QUASE conseguiu nos pegar. Você... é foooda! Portanto, levante-se daí e trate de se comportar como a durona que você sempre foi. Now!
Deu certo. Norma respirou fundo, aceitou a mão que ele estendia e usou-a como apoio para ficar de pé. Depois deu-lhe um abraço. Galarza não acreditava realmente em tudo que dissera — ok, uns 50% lhe soavam como verdade —, mas ficou feliz de qualquer modo por ter recebido o abraço.
Um burburinho que começou distante mas depois foi aumentando de volume, ficando mais e mais próximo, chamou a atenção deles e do dono careca.
— Ah, eu não acredito! — ele praguejou.
— O que foi? — indagou-lhe Norma.
— A Internet caiu em quase todos os lugares por causa do atentado terrorista, saiu no rádio — explicou o homem — Agora tem gente fazendo quebra-quebra pra jogar Counter-Strike... VOCÊS NÃO VÃO ENTRAR AQUI, BITCHES!
Centenas de pessoas avançavam correndo, aos berros, do outro lado da rua na direção da lan-house, carregando pedaços de pau, cadeiras, pedras e facões. A maioria era de nerds tibianos e homens que se masturbavam às madrugadas via twitcam. O homem calvo abaixou-se atrás do balcão e reapareceu com uma espingarda de grosso calibre. Norma e Galarza se entreolharam.
— Eu tenho uma AK no porta-malas — disse a mulher ao garoto.
— Feito!
Galarza pegou a metralhadora e voltou para dentro em um microssegundo, a tempo de os três barricarem a porta com o que fosse possível arrastar e se abrigarem do outro lado. Norma abaixou-se junto a ele e falou-lhe ao pé do ouvido:
— Não podemos deixar que cheguem perto do Pen-drive.
Ela se referia à máquina pela qual Matt, Pepito e Grilo tinham “entrado”. Rapidamente Galarza arrastou a CPU para longe dos outros equipamentos, depositando-a no chão, onde pudesse estar abrigada de tiros ou qualquer outro estrago.
— É o máximo que posso.
— Beleza. CUIDADO AÍ!
A massa de violentos nerds + punheteiros começou a forçar entrada na loja. Os três, sem hesitar, abriram fogo. Os NPC’s foram, então, morrendo aos montes. Enquanto atirava, Galarza percebeu um mini-score à sua esquerda avançar à medida que ele matava (+200, +230, +325).
De repente um forte estrondo vindo do lado de fora os distraiu, e as pessoas largaram o que estavam fazendo e começaram a correr na direção oposta, para longe dali.
— É ISSO AÍ, BANDO DE SEM-FUTURO, CORRAM! — bradou-lhes o velho de arma na mão.
— Espere! — gritou-lhe Norma — Tem coisa errada aí.
Uma pata de ave do tamanho de uma casa esmagou o carro preto de Norma (-Nossa, muito obrigado! u.u). Pessoas gritaram. Em seguida, a cabeça de Justin Bieber em tamanho gigante enfiou-se para dentro da lan-house.
— Hã?? É o Justin Bieber! — exclamou Galarza.
— Shit! É a Terceira Praga.
— Um Justin-Bieber-galinha?
— Um Justin-Bieber-galinha-robô.
O homem atirou várias vezes em Justin, descarregando sua munição no seu rosto de bebê, porém as balas meramente ricocheteavam nele. O cantor-ave-robô emitiu um cacarejo longo e o devorou numa engolida só.
*BURRP*
— OMG, ele comeu o velho!
— Sim, Galarza, eles fazem isso.
— Eles? O que quer dizer?
— Nós andávamos pesquisando sobre isso lá no GOOGLE. Se você rodar “Baby” de trás para frente, vai ouvir “eat old people” no background.
— Cool...
— Vamos sair daqui!
— Mas e o Pen-drive?
Norma rastejou até a CPU e arrancou o dispositivo fora.
— Sinto muito. Vamos!
Eles não sabiam o que poderia acontecer agora que haviam “fechado” o portal que o Atalho abrira, mas o fundamental no momento era escapar de Justin Bieber. Foi o que fizeram, por pouco não sendo abocanhados (ui) ao passarem correndo pela porta. Do lado de fora, viram o monstro em sua totalidade: tinha patas, asas e coxas de galinha, porém o corpo metálico e a cabeça... bem, a cabeça vocês já sabem.
— CORRE! — berrou Norma quando ele quase os acertou com uma cabine telefônica ao ciscar o chão nervosamente.
Subitamente ele abriu a boca, mas não foi para cacarejar.
— Deus, ele não vai... cantar, vai? — perguntou Galarza com um medo mortal estampado no rosto.
— Vai, sim... Abaixe-se!
Eles se jogaram no chão com as mãos cobrindo os ouvidos. [Felizmente] não ouviram a nota cantada, mas sentiram os seus efeitos sônicos: a terra toda tremeu, flores murcharam, estruturas de vidro explodiram, alarmes de carros dispararam sem controle.
...........JAZIAM lado a lado sobre o concreto, homem e garoto, cada qual um mistério maior para a humanidade. Em outro universo (um bem razoável do ponto de vista físico), a queda os teria partido em vários pedacinhos, porém, ao que parece, NESTE universo em particular o destino possuía outros planos para eles.
O Ruleador abriu os olhos primeiro, temporariamente cegado pelos raios de sol. Sentiu que podia mexer os membros e levantou-se devagarinho. Cacos de vidro da janela que partira-se caíram das suas costas. Muitos tinham se cravado nela, mas ele não se importou com a dor. A Life Bar de Pedro pairava sobre o corpo dele, vermelha, quase no fim.
Ele olhou com pena e desprezo para o garoto desmaiado, aquele por quem tanto havia se ferrado ultimamente. Não pretendia fazê-lo de novo. Ah, não mais. Agora ele ia apenas subir e matar todo mundo. Entretanto, não precisaria se mexer muito, pois Amália, Pinguin e Aiko vieram correndo escada abaixo até a garagem a ceu aberto, onde eles estavam. Surpreenderam-se, é claro, em vê-lo vivo, além de se horrorizarem com a situação do Player deitado no chão.
— Ah, perfeito. Vocês vieram.
— PEDRO! — Amália e Aiko gritaram ao mesmo tempo com lágrimas nos olhos.
— Ele não está morto. Eu vejo vida na barra dele — Gabriel tranquilizou as duas.
Amália enxugou suas lágrimas, passou a mão de Aiko para a de Pinguin e deu um passo à frente, na direção do Ruleador.
— Eu quero uma fight!
— Garota ingênua, eu ainda sou o Ruleador u.u — falou o assassino em tom entediado — Não pode me combater segundo as regras do RPG. Terá de me matar à moda antiga...
— Por mim tudo bem. ^^
O Ruleador tirou o sobretudo e jogou-o a um canto.
— Amália, o que vai fazer?? — disse Gabriel em pânico — Não temos a menor chance!
— Deixa quieto, Pinguin... — falou Amália com olhos no oponente — Eu tô zangada e sem All Star!
Enquanto eles se preparavam basicamente rodeando-se e rosnando um para o outro, outra batalha épica se desenrolava na cabeça de Pedro. Uma batalha não de facas ou socos, mas de verbos.
— Por que fez aquilo, Pedro? Pôs tudo a perder!
— Ele ia matar a Amália, e talvez todos os meus amigos também! — respondeu Pedro ao próprio reflexo no que restara do espelho — Não estou disposto a pagar esse preço em troca das memórias que não pude acessar. E também não estou interessado em deixar VOCÊ compartilhar do meu corpo outra vez.
— O que quer dizer? — indagou-lhe Bob com medo.
— Acabou, Bob. Eu fiz minha escolha. Não quero seus poderes, nem o seu saber. Eu só quero ser o Predobear e passar algum tempo com os meus amigos e minha namorada. Se eu não morrer, é claro.
— Mas... eu estava prestes a lhe mostrar... Você não pode fazer isso! Não tem como me renegar, Pedro! Eu vivo em você!
— Herpes também fica pra semrpe no corpo das pessoas, mas você não as vê falando com ele. u.u
— Pedro!
— Eu vou embora... com o pouco de vida que me resta... resgatar a Amália, a Aiko e o Pinguin.
— Pedro!...
— Simplesmente vá, Bob. Por favor. Desapareça.
— NOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!
A câmara inteira pareceu gritar junto com ele. Paredes, chão, teto e objetos foram se liquefazendo e sendo gradualmente engolidos pelo espaço, transmutando-se em nada, assim como quando o Google Earth mexia na paisagem com alguma Blank Area. No fim estava só ele, Pedro, só na escuridão. Em poucos segundos ele abriu os olhos.
*PUNCH!*
Amália voou de costas e caiu dolorosamente no chão de concreto. Seu nariz sangrava. O Ruleador vinha andando calmamente para perto dela, disposto a desferir o golpe final, quando ouviu um assobio atrás de si.
Era Pedro, que tinha lentamente se levantado e agora mancava bravamente em sua direção.
— Seu... NÃO TENHO PALAVRAS PRA TE DESCREVER! Eu vou arrancar o seu couro!
— Eu é quem não tenho palavras para descrever isso! — disse o Ruleador com sincera surpresa, apesar de nada imputar-lhe receio — Como foi a viagem ao além?
— Construtiva — Pedro parou a poucos metros dele — Afasta aí, cara. Só eu posso bater na Amália.
— Muito bem...
— Afasta nada! Só eu posso bater no Pedro! — gritou a garota ainda no chão.
O Ruleador riu com sarcasmo.
— É uma diversão atrás da outra, sabe. Fico até com pena de bater em você nesse estado tão “bagaça”, Pedro, mas não faria sentido sair daqui sem te dar uma surra até você morrer. ^^
— AHHHHHHHHHH!
Pedro correu para ele antes que dissesse outra coisa, e o Ruleador quase não conseguiu desviar-se, não fosse Amália estar muito fraca para segurar seus braços pelas costas.
*REVERSE PUNCH*
O soco acertou Pedro em cheio no queixo e o fez voltar voando para trás, caindo perto de Aiko e Pinguin. Restavam-lhe em torno de 0,3% na Life Bar.
— OMG! Levanta, Pedro! — Pinguin veio auxiliá-lo a levantar-se. Pedro só o conseguiu porque ele o apoiava no ombro — Eu pego ele pra você, cara.
— Não... precisa!... — ofegou Pedro, já sem alguns dentes na boca.
— Olha só, oni-chan! — Aiko estava desenhando o cabo de uma espada em tamanho real numa folha de ofício — Pronto! Pode pegar.
Ela estendeu-lhe a folha, na qual o desenho adquiriu de repente proporções geométricas e um brilho dourado extremamente convidativo. Sem pensar duas vezes, Pedro agarrou o cabo e puxou fora a espada inteira, em três dimensões. Colorida. Palpável. Afiada. Sua Life Bar subiu ao limite e ganhou um brilho platinado.
PEDRO DESCOBRIU: ANIME POWER!
Revigorado, Pedro fez vários movimentos ágeis com a espada e apontou-a para seu inimigo, que exclamou com verdadeiro espanto:
— Isso não é possível!
Ele olhou para Aiko com grande receio.
— Ela não pode interferir assim nas regras! Não pode!
— Vai reclamar ou vai pôr a mão na massa? — zombou-lhe Pedro com olhar guerreiro — Alguém aqui tinha me prometido uma surra...
— Pega logo ele, Pedro! — berrou Amália.
Pedro correu outra vez, agora com a espada em riste, contra seu inimigo, e se viu prestes a cortá-lo ao meio quando algo bizarro aconteceu: outra lâmina se pôs no caminho da sua arma, bloqueando-a. O Ruleador tinha um machado de duas faces na mão.
— Quê?... Ahh, Aiko, que merda!¬¬
A menina tinha feito outro desenho no verso da folha.
— Eu não posso trapacear! — ela defendeu-se — O papai disse que eu tenho de dar chances iguais aos dois sempre!
— Como é que é?? — Pinguin olhou para a menina com assombro. Acabara de pensar numa coisa.
Pedro e o Ruleador recomeçaram a luta, furiosamente dessa vez. Cada estocada mal-sucedida, cada cortada em falso eram um braço ou uma perna que evitavam ser arrancados fora. Cerca de alguns segundos depois, o machado escapou das mãos de seu dono, que tentara bloquear um golpe de Pedro, mas para isso tivera de se ajoelhar numa posição em que a pressa por parte da espada lhe era grande demais para suportar. Ele ergueu as mãos com a ponta do ferro encostada no seu pescoço, definitivamente desarmado e submetido. Uma chuva de moedinhas de ouro caiu sobre Pedro.
— YUHUU! *.* — Amália dava pulinhos.
— OK, Pedro... eu perdi — disse o homem com dignidade — Mas que fique claro que, se eu morrer neste exato momento, você nunca vai entender...
— Não preciso entender! — interrompeu Pedro com triunfo na voz — Você não vai me ganhar com isso, Ruleador, eu sei quem sou agora e isso me basta.
— Não estou falando disso — o Ruleador sorriu, o que pareceu um pouco preocupante — Se você me matar, nunca poderá explicar aos seus amigos o que isto tudo aqui significa, o que o Jogo significa.
Pedro não respondeu. Podia bem ser uma armadilha, uma cartada desesperada de um patife covarde para preservar a própria vida. Por outro lado, ele era o Ruleador. E qual era a coisa mais importante para a vida dele e de outros no momento? Acabar o RPG. Solucionar as Quests. Obviamente, o homem-enigma sabia de muito coisa. Se não de tudo, de alguma parte essencial. Sentindo-se em dúvida, Pedro olhou para Pinguin e Amália, que pareciam tão embasbacados quanto ele. Ter seu inimigo ali, de joelhos, à sua frente, sob o peso da lâmina, e não poder matá-lo atingiu-o como uma pontada no estômago.
— O que você sabe que nós não sabemos? — perguntou em voz alta ao homem submetido — Diga-nos, de uma vez por todas!
— Seus amigos estão lá se matando para abrir aquele arquivo — divertiu-se o Ruleador —, na ilusão de que os Cibernéticos vão honrar a trégua. Vocês acreditam mesmo que, se fizerem isso, o Jogo vai parar? Vocês não podem parar de jogar! Eles não podem parar de jogar! O Jogo só termina quando... termina. ^^ O que acham que EU posso fazer? O que acham que ELA — ele apontou para Aiko — tem a ver com isso?
Pedro olhou para Aiko sem afastar a ponta da espada da garganta do Ruleador.
— É verdade, Pedro. Ela apareceu nos Special Features do Jogo — lembrou Pinguin, conforme percebera momentos antes — As coisas que ela fez agora, o poder do anime... Tá muito na cara.
Pedro olhou de novo para o Ruleador, agora nervoso.
— Se a Aiko é filha do Sebastian, o que ele tem a ver com o Jogo? E NÃO MINTA PARA MIM!
O assassino apenas sorriu.
— Assim seria fácil demais, Pedrobear. Achou que eu ia entregar o ouro facilmente? O que eu NÃO SABIA até agora era que Aiko podia mexer na matéria do jeito que ela fez. E muito obrigado, Aiko. Você vê, Pedro: o Jogo não ama nem odeia. Ele não julga. Ele dá cordas para que ambos os lados se enforquem à vontade. Mas uma coisa, garoto, eu diria que é certa...
Ele fez uma longa pausa e olhou para o ceu.
— Apenas um pode restar.
Quando ele mexeu o braço, o instinto fez Pedro golpear-lhe a garganta com a lateral da espada. O golpe o acertou em cheio, quase decapitando-o, porém ninguém o viu porque a granada que ele tirou do bolso explodiu logo depois, transformando o raio de 100m em torno deles em uma nuvem de poeira.
............NORMA E GALARZA juntaram-se à multidão que corria desesperadamente pela vida, refugiando-se no interior de uma lojinha de discos. A galinha-Bieber os seguia sem cessar, pateando o chão e esmagando carros, cães e velhinhas no processo.
— Estamos fuu! — repetiu Norma pela quarta vez, escondida atrás de uma estante de rock.
— Cale a boca e comece a pensar, mulher! — ralhou Galarza, olhando ao redor em busca de qualquer elemento que pudesse ajudá-los — Eles nunca pensaram numa maneira de parar os monstros?
— Eles só param quando conseguem o que querem.
— Oh. O que inclui nossas cabeças numa bandeja, certo?
— Yep.
Ouviram vidro estourando e metal sendo entortado: Justin Bieber estava bicando a porta da loja até arrancá-la fora.
— Mas ele deve ter um ponto fraco! Todas as celebridades têm! — contra-argumentou Galarza.
— Diga isso ao Chuck Norris.
— Chuc... Hey, podíamos chamá-lo!
— Ele cobra por hora. CARO.
— Right... u.u
O telhado partiu-se e caiu, cedendo sob o peso da pata de Justin. Por sorte (ou não) ela esmagou uma mesa de Axé, sob a qual obviamente eles não estavam escondidos.
— Okay, okay, Galarza. Pense em alguma coisa! Qualquer coisa! D=
— Tá, er... Qual foi a maior cagada do Justin Bieber ultimamente?
Norma pensou um pouco.
— Existir?
— Além disso.
Pensou mais um pouco. Chegou a uma perfeita conclusão.
— Hmmm...
...........O cantor-galinha só percebeu que suas presas não estavam mais dentro do prédio que ele se ocupava em pisar quando elas atiraram coisas em sua pata direita. Olhou para baixo, na direção daqueles reles mortais que não curtiam sua música, e os viu carregando um aparelho de som. Galarza o chamou gritando:
— Hey, Jústin!
O monstro emitiu um cacarejo longo e sofrido em resposta, que provavelmente significava “JÃSTEN”.
— Você acha que as pessoas não te compreendem, certo? — disse Norma, também aos berros — Que tal dar uma ouvida nisto?...
Ela deu “play” no CD.
It’s not cold enough
Please put this side up
She is moving through
Can we show our faces now?
Justin Bieber jogou a cabeça para trás com um ruído de agonia — não um cacarejo, mas um uivo — e lentamente, dolorosamente, enquanto a rouquidão melancólica do finado Kurt Cobain invadia seus tímpanos, teve seu corpo reduzido a um pequeno cocô. O cocô foi comido por um abutre que veio voando num rasante e não foi visto outra vez...
Galarza deu “stop” no disco e trocou um olhar de vitória com Norma.
— Sim... — ela disse — nós somos foda.
...........AMÁLIA acordou de bruços, com o rosto dolorosamente prensado contra pedaços de granito — que ela não soube de onde diabos vieram. A explosão não a afetara de fato, nem mesmo a Pinguin ou Aiko, que estavam fora do seu raio de alcance, mas seu impacto foi o bastante para colocá-los para dormir durante um tempo. Atordoada, a garota andou sem rumo por dentro da cratera aberta no centro da garagem, cuja fumaça que bloqueava sua visibilidade, até sentir uma mão agarrando seu tornozelo. Ela gritou e chutou até o moribundo soltá-la: era o Ruleador. Da cintura para cima.
De repente outro alguém a surpreendeu pelas costas, e ela gritou e chorou quando descobriu que este era Pedro, e que ele estava inteiro, apesar da Life Bar ter diminuído novamente.
— Seu... filho da mãe! DD=
— Acabou, Amália. I’m foda!
Pinguin e Aiko entraram também na cratera e, ao virem Pedro, emitiram “YAY!”s de satisfação. A menina, é claro, pulou para o colo dele, que a olhou muito seriamente e disse:
— Você é estranha.
— Eu sei! ^^ — disse Aiko agitando os bracinhos.
Ouviram um gemido breve perto deles.
— Acha que ele está realmente morto? — sussurrou Pinguin.
— Ainda não — disse Pedro — Mas não vai demorar. Vamos apenas deixá-lo aí.
Dizendo aquilo, Pedro subiu junto com eles até a superfície da cratera, e depois em direção aos portões do prédio. Continuou carregando Aiko. Pararam os quatro na saída do Savepoint.
— O GlassAss continua lá fora.
— Eu sei, Amália.
— O que vamos fazer?...
Pedro sentiu Aiko cutucar-lhe o ombro. Ela tinha outro desenho para mostrar...
— Aiko, você é definitivamente F-O-D-A! Quer fazer as honras, Amália?
— Err...
Ela olhou para a gravura — uma grande tecla ESC —, depois para a nojenta visão que flutuava lá fora e disse:
— Com prazer, Pedro.
...........PARARAM numa loja de eletrodomésticos, não muito longe do pequeno empório de discos, e roubaram um notebook. Sentada no chão com o aparelho sobre o colo, Norma abriu o Windows e preparou-se para inserir o Pen-drive. Galarza apenas a assistia de pé.
— Então, antes que outra merda aconteça... — ela olhou para ele antes de continuar — Quer fazer algum discurso?
— Apenas morra logo e salve as nossas vidas. u.u
Norma sacudiu a cabeça.
— Adolescentes...
Ela inseriu o Pen-drive. O computador começou a ler os dados.
...........SIMULTANEAMENTE, no plano virtual:
Pepito, Matt e Gustavo estavam parados de pé em frente a um telão de cinema, no qual se projetava o planeta Terra visto pelo Google Earth, encerrados numa espécie de ante-sala onde os Cibernéticos haviam lhes pedido para aguardar depois que perderam comunicação com o mundo humano. Hipnotizados pela imensidão azul, nenhum deles disse coisa alguma durante um bom tempo. Foi Pepito quem quebrou o silêncio, ainda sofrendo com a dor da mordida:
— Acham que será a mesma coisa? Depois?
Matt e Grilo refletiram.
— Sinto que já fizeram tanta cacaca com esse planeta que seria impossível devolvê-lo à normalidade — disse Liebert com um suspiro — Digo, uma Terra resumida a GOOGLE não é muito divertida. Mas também uma Terra SEM GOOGLE nenhum... pergunto-me quantos meses vão aguentar.
— As pessoas não lembrarão de nada, Matt — disse Gustavo.
— Mas vão continuar precisando de um. E quando elas precisam, elas inventam.
O papo foi interrompido por uma porta que se abriu. O Cibernético nanico semelhante a um robô do BBB entrou discretamente na sala e anunciou com um pigarro:
— Vossa Majestade pede para informá-los de que nossas comunicações foram restauradas e que o processo de reconfiguração da Terra começará em poucos segundos. Nenhum habitante da Terra se machucará durante o processo. Acordarão em segurança, em seus respectivos lares, com suas respectivas funções, no começo de mais um dia comum. Somente vocês e os outros Players conservarão as memórias concernentes ao GOOGLE, desde o seu surgimento até a presente queda. Todas as estruturas físicas e pessoas de que temos notícia que estiveram conectadas às ações malignas da organização serão varridas da face da Terra. Os demais guardarão vagas lembranças dela em seu subconsciente. Vocês não devem mais se preocupar com isso. Ao final do processo, todos vocês deverão desativar os Saving Programs instalados nos seus computadores e esconder os LifeControllers em local inacessível a terceiros. Além de desfazerem-se de quaisquer Itens ou Armas remanescentes. Não se fará mais qualquer menção ao Jogo, não se pensará nele. Depois de algum tempo, haverá paz e progresso para os humanos na Terra Sem Google. Aproveitem.
O Cibernético prestou-lhes uma reverência e abandonou a sala. A porta se fechou automaticamente em seguida. A Terra que eles viam na tela foi sendo encoberta por um estranho efeito de pixelização, até já não haver nada em seu lugar. Matt, Pepito e Grilo sorriram.
...........PEPITO despertou bruscamente, assustado pelo alarme do relógio da cabeceira. Eram cerca de sete e trinta da manhã de um domingo absolutamente quente. Porra, sete e meia da matina! Tudo bem que é domingo, mas acordar cedo no domingo é puta falta de sacanagem... Pelo menos a sacanagem era global, e não era apenas ele quem sofria.
Desceu da cama, foi até o espelho do banheiro e verificou o ombro. A mordida cicatrizara, deixando uma tímida marca no lugar. Agora ele sabia que não ia se transformar em zumbi tão cedo em sua vida.
...........AMÁLIA também acordou com susto, aplicando um golpe de karate em alguém que tentava estrangulá-la. Um segundo depois, discerniu Gustavo se levantando do chão e esfregando o nariz com uma expressão muito mal-humorada.
— Eu só queria te acordar para o “novo mundo”. Amigavelmente. u.u — ele disse.
— Ow... Isso quer dizer que... — Amália se sentou na cama com uma face de horror — Nós moramos na mesma casa?
— É... ‘-‘
— E, portanto, somos...
Ela não conseguiu pronunciar.
— Brothers?
...........PINGUIN sentiu algo como um espanador roçando na sua perna. Não gostou muito e tratou de chutá-lo, obtendo um miado e um arranhão em resposta.
— Hmmpf — ele acordou. Era um de seus gatos.
...........O APITO do Inspetor quase estourou os ouvidos do SPY. Sentou-se de imediato no beliche, absorvendo com os olhos cada detalhe do ambiente em que se encontrava.
— Que original... Academia SPY again. ¬¬
— Shut up, you pussy! Abaixa e paga 20!
— Eu já me formei, imbecil — Galarza se levantou e foi pegando suas coisas para sair dali, ignorando as exortações do professor. Junto a seus pertences havia algo novo: um objeto branco e cilíndrico semelhante a um controle de Wii.
...........PEDRO sentiu cheiro de bacon e pensou estar num seriado americano. De fato sonhou com uma situação hilária na cozinha envolvendo ele mesmo, seus amigos reunidos e uma plateia que ria sem parar. De repente foi acordado por Aiko, que cutucava seu pé. Ela vestia um avental e um chapeu de chef.
— Ohayou Gozaimasu! ^^
Pedro piscou até seus olhos sonolentos apreenderem as formas e os contornos do quarto.
— Onde eu estou?...
— Em casa. ^^
— A Amália tá aqui, ou qualquer um deles?
— Agora, não. Mas nós podemos visitá-los depois. ^^ Vamos lá, oni-chan. Eu preparei o café da manhã como o tio Dodi fazia.
Ela saiu feliz para o andar de baixo. Pedro ficou ainda um tempo jogado na cama, sua cabeça um pouco zonza, tentando descobrir se aquilo era um sonho ou o pós-morte. Decidiu-se pelo pós-morte. Ao bater a cabeça no bidê, porém, quando foi se levantar, sentiu um bocado de dor. E mortos não sentiam dor de cabeça, sentiam?
Ele lavou o rosto no banheiro mais próximo, desceu a escada e foi até a cozinha. A porta dos fundos, que dava para um jardim muito verde, estava aberta e Aiko corria e pulava nele tentando caçar borboletas. O café já estava pronto em cima da mesa. Se antes já nutria uma leve suspeita, uma passada pelo jardim acabou com todas as suas dúvidas: estava mesmo na casa de Sebastian, a residência quase inviolável onde parte do seu passado agora repousava fora do acesso mundano, entranhado nas paredes e nos objetos.
Mas Pedro não queria se preocupar com isso no momento. Era hora do breakfast — o primeiro de sua nova vida, diria-se assim.
...........MATT foi o único que acordou serenamente. Não porque o despertador não tocasse ou porque ele fosse uma espécie de líder da coisa toda. A partir do momento em que abriu os olhos, ele soube — melhor: a partir do momento em que fechou os olhos, lá na ante-sala do Imperador, ele soube o que estava reservado para si. Findada a última Quest, findada a guerra, seria apenas uma questão de tempo.
Devagar foi se levantando, alongou-se, pôs os chinelos e foi até o banheiro. Olhou a si mesmo no espelho. Assustador. Com água e sabão talvez parecesse mais civilizado. Lavou o rosto, então, e tateou de olhos fechados pela toalha. Após secar-se, visualizou-se novamente na superfície que refletia e viu algo mais: o inominável, o senhor das trevas ou whatever... Olhando para ele com olhos de ressaca.
— É, Baphomet... Pra você não foi fácil também, foi?
........... O PÔR-DO-SOL era lindo visto daquele ponto do Parque Marinha do Brasil. Aos sábados e domingos era comum o lugar estar lotado de famílias, casais e grupos de jovens. Ali, sentadas na grama com uma bebida quente (se fosse inverno), um livro ou um violão ao lado, as pessoas costumavam dedicar um tempo a si mesmas — pois todo mundo tem que parar de vez em quando, não é mesmo? —, ao contato com a natureza, ao contato com os que amavam, construindo uma espécie de porto-seguro em meio à guerra diária. E nossos portos-seguros sempre deixam lembranças. Foi aquele lugar que Matt escolheu para se despedir.
Foi num outro domingo, mas ainda era tão cedo que nenhum cidadão apareceu, a não ser as pessoas que ele convidou, o que se encaixava perfeitamente em seus planos: Pepito, Gabriel, Grilo, Pedro, Amália, Galarza e Aiko. Lá chegando em grupos diferentes — Pepito veio com Pinguin e Gustavo; Pedro trouxe Amália, Aiko e Galarza, que, naturalmente, estavam hospedados em sua nova casa —, os sete se juntaram e começaram a se perguntar por que Matt pedira que viessem com tanta urgência. As dúvidas acabaram quando ele próprio apareceu.
— Olá, pessoal.
— Matt! =D — Pepito.
— E aí, pai. — Gustavo.
— Pai? — Pepito.
— Ele é meu pai. Fictício.
— Oh.
Matt Liebert começou a falar:
— Obrigado por virem. Prometo que serei breve.
Mas, antes que ele continuasse, Aiko escapou das mãos de Amália e correu até o garoto com as mãos estendidas, a oferecer-lhe algo.
— Toma! Pra você!
— Hã?
Era um botão de rosa que ela tinha achado no chão. Matt o aceitou, erguendo-o bem alto para que todos vissem. Amália disse “Awwwwwn”, e Pepito disse “Gay”, levando um pedala dela em seguida. Matt riu baixinho com certa tristeza.
— Não queria ter que fazer isso.
Aiko voltou saltitando para Amália, que perguntou:
— O que, Matt?
Ele contou a história de uma vez só, sem interrupções, pois sabia que se parasse em algum momento perderia o pouco de autocontrole que ainda lhe restava:
— Meses atrás, antes mesmo de você, Galarza, Aiko e até Pedro entrarem para o grupo, nós procurávamos uma forma de deter o Bob. De repente o Ruleador nos apresentou ao Chuck Norris, que dizia conhecer uma passagem para o Inferno através de um... baile funk. Anyway, lá fomos nós e, chegando no Inferno, eu me ofereci para ir na frente e... bem, conversar com o... com o chifrudão. Pois diziam que havia uma “sede” do GOOGLE lá no Inferno, isso porque a empresa fizera um pacto com o demônio a fim de ter o controle sobre o mundo em troca de milhões de almas corrompidas. Então, eu entrei e... O Baphomet me recebeu. E ele prometeu me entregar a chave para a vulnerabilidade de Bob, sob algumas condições muito precisas. Como todos sabem, deu certo: nós achamos o Pedro, de certa forma dominamos Bob e... bem, cá estamos. O que eu não contei a ninguém foram as condições da troca.
— Exatamente. — falou Pepito — Eu até perguntei pra você, mas você deu uma desculpa qualquer, o Ruleador mudou de assunto, e blá-blá-blá, NAURENBANGER, ninguém ficou sabendo. Foi pra isso que você nos chamou aqui, então? Pra nos contar?
— É... Confesso que sim.
Matt olhou para cada um deles e quase pôde adivinhar suas respectivas reações ao que estava prestes a dizer.
— Eu prometi a ele minha alma.
O choque foi geral... e das maneiras exatas que imaginara.
— Sua alma? Você fumou?? — Gabriel.
— Isso quer dizer o quê? D= — Amália.
— Kralho, isso eu não esperava... Ou não. — Pepito.
— Ô, Matt! ‘-‘ — Pedro.
— Isso quer dizer o quêêê? D= — Amália.
— Tinha que ser o Matt. u.u — Galarza.
— Isso quer dizer o quêêêê? D= — Amália.
— Que merda, pai. ‘-‘ — Gustavo.
Matt pediu-lhes silêncio, enquanto Aiko perseguia uma borboleta atrás do grupo. Era melhor mesmo que ela não acompanhasse nada disso.
— Pessoal... Por favor, pessoal... EI! Olhem só... Eu sinto muito. D= Só estou dizendo isso agora, porque... Bom, a guerra acabou, o mundo já é um lugar melhorzinho, cada um está pensando em viver a sua vida, o Pedro está aqui com a gente, isso é bom, muito bom, mas... eu não queria que o grupo se fragmentasse. Vocês são realmente importantes para mim. Quero que tudo fique bem e que estejamos juntos. É por isso que estou indo para o Inferno.
...
“POOORRRAA, MAAAAATT!”, disseram todos ao mesmo tempo, e começaram a gritar, indignados, o quanto estavam putos por ele não ter dito nada antes, e como era difícil receber uma notícia daquelas, a respeito de um amigo, tão em cima da hora, além de “Isso quer dizer o quê?” (mas essa última foi by Amália).
Matt pediu silêncio outra vez. A emoção quis tomar conta dele, mas ele não deixou. Não queria parecer gay.
— Escuta aqui, gente... OW!... Foi mal. Foi mal mesmo. =/ Eu sinto muito, mas essa é a verdade. Eu fiz um autosacrifício de mim mesmo...
— *cof* Pleonasmo! *cof* — Gustavo.
— Valeu, filho. Eu sacrifiquei uma parte de mim...
— Tua alma, maluco! — Gabriel.
— Deixa eu terminar? u.u Eu me entreguei ao DIABO, eu assumi o risco de enfrentar uma coisa desconhecida, sinistra, nojenta, só para que a missão desse certo e tudo ficasse bem no final...
— Ahh, nojenta? =(
Os seis gritaram ao mesmo tempo quando o Baphomet apareceu bem ao lado de Matt. Este foi o único que não se sobressaltou.
— E aí, Baphomet.
— Não fique tão triste, Liebert. Não existe um ditado que diz que tudo que sobe, um dia desce? Então, alguns precisam ir até o fundo do poço para se erguer de novo.
— Mas eu to indo pro inferno. ‘-‘ Tem demônios. E labaredas. E tortura. E cavernas.
— E pudim.
— Não, Pepito, tenho certeza de que isso não tem lá.
— Ahh. =/
Amália se aproximou do Diabo com carinha de pidona e disse:
— Não pode ser de outro jeito, tio?
O Baphomet recuou um pouquinho e cochichou para Matt:
— Às vezes os mortais me assustam, viu...
Matt suspirou.
— Sinto muito, pessoal. This is it: to indo pro Inferno. Algum recado de despedida? Pedidos? Recomendações? Mensagens para ídolos do rock?
Por um momento, ninguém fez ou disse coisa alguma. Porém, de repente, a ficha deles caiu, e eis que todo mundo pulou em cima de Matt para agarrá-lo (ui) fraternalmente. ;)
— Vou sentir sua falta, Matt. T.T
— Ainda não sei o que isso quer dizer, mas parece muito triste. D=
— Você era minha bicha particular. D= Why, Matt, why?
— A vida só era fantástica e non-sense por sua causa! Não faz sentido. o.O
— Okay, pessoal, já deu.
Vendo que o Baphomet era irredutível (e estava com pressa), os amigos largaram Matt, mas não se afastaram. Ao fundo, Aiko continuava à caça da borboleta, rindo como se fosse o momento mais feliz de sua vida.
— Vamos, Liebert.
Um buraco-negro surgiu no ar — um semelhante aos que se abriam quando a GOOGLE alterava coisas. O motivo, porém, dessa vez era pior. —, e dele saiu um grupo de demônios.
— Pra que isso, Baphomet? — perguntou Liebert um tanto assustado.
— Não se preocupe. É apenas uma coisinha que eu preparei para esse momento. Vamos lá, agora. Siga-me.
O Baphomet virou as costas, e Matt fez o mesmo. Não disse “Adeus”, pois faltou-lhe coragem. Em lugar disso, foi andando em direção ao vórtex com uma mão ainda estendida para trás, como se esperasse que alguém fosse puxá-lo de volta. Ele não viu, mas os outros também estenderam as mãos numa tentativa reprimida de resgatá-lo.
Para surpresa geral, os demônios começaram a cantar:
When you were young
And your heart was an open book
You used to say ‘Live and let live’
(You know you did, you know you did, you know you did)
But if this ever changing world in which we’re living
Makes you give in and cry…
Say ‘Live and let die’
(Live and let die)
Live and let die…
(Live and let die)
O eco dos cantores permaneceu no ar (“Live and let die…”) mesmo depois que ele fez a passagem, perdendo de vista todo espaço e toda luz.