A história a seguir foi esboçada um ano atrás, após um papo estranho sobre Física Quântica de botequim com um amigo que, no final, acabou dando nome ao principal personagem.
***
Despertador
tocou precisamente às seis e quarenta e cinco.
Vai começar...
—
Não fui eu quem queimou a torradeira! Quando eu queimar a torradeira, você pode
gritar comigo, mas dessa vez eu estou me reservando o direito de ser liberado
dessa acusação!
Era
a voz de seu pai, um homem que raramente se alterava, gritando na cozinha com sua
mãe, que era entendida nesse tipo de coisa e não tinha problemas em fazer isso
a qualquer hora do dia, especialmente quando o filho deles acordava.
—
Eu falei pra você antes de sair daqui por um minutinho: “Cuide da torradeira”.
E você cuidou? Não, porque você só consegue fazer o oposto do que eu peço.
—
Quando é que eu me tornei especialista em eletrodomésticos?
—
Por Deus, Jota! Ficar atento enquanto a luzinha não acende? Até um macaco
conseguiria fazer isso!
—
Talvez eu me vista como um.
Quando
Gustavo entrou na cozinha e fez a busca matinal de costume por qualquer coisa
na geladeira, eles não se deram conta da sua presença. Também não se deram
conta de quando ele deixou uma pilha de roupa usada “ao léu” no banheiro depois
de tomar banho, nem quando não lavou a louça depois de tomar café.
Até
aquele momento, seus pais estavam ocupados demais com um breve antagonismo
interno para conseguirem azucrinar o filho. Apenas na hora de se despedir da
esposa para ir ao trabalho, Jota, o big
boss da família Klein, lembrou-se de gritar pelo nome dele, a quem deveria
dar uma carona até a escola.
—
GUSTAAAVO! — ele ainda deu mais uma
cutucada verbal na mulher antes do filho se aproximar de mochila nas costas: —
Se quiser me orientar sobre como operar o elevador, vá em frente. Morro de
medo de me perder nessa engenhosa máquina antes do serviço... Mas que cabelo é
esse, Gustavo?
O
adolescente parou na frente do pai sem dizer nada. Tinha chegado a sua vez...
—
É o cabelo que eu uso sempre.
—
Sempre que acorda? Eu não constituí família para ter um filho desleixado. Vá se
pentear!
No
que o filho saiu para o banheiro, o pai olhou para a esposa e comentou:
—
Eles acham que podem tudo!
—
É brincadeira mesmo... — concordou a esposa. — Quer saber? Agora que estou
pensando, você é um ótimo pai. Não deveríamos discutir por causa de um
eletrodoméstico. Vai que você sai de casa agora e é surpreendido por animais
falantes portando armas de fogo? Não quero que a última coisa que você ouviu de
mim tenha sido uma frase ríspida.
—
Eu também não, querida. Amo você.
—
Eu também.
Gustavo
retornou à sala, devidamente penteado, os cabelos cobrindo metade da cara.
—
Pronto, estou civilizado. Podemos ir?
—
Ainda não — disse o pai. — Tenho que verificar se você está afiado nas lições.
Qual é o PIB do Azerbaijão?
—
Como diabos eu vou saber?
—
Pois trate de verificar! Não constituí família para ter um filho que não sabe
noções básicas de Economia.
Revirando
os olhos, o filho largou a mochila e foi para o computador.
—
Eles acham que podem tudo! — exclamou Jota para sua esposa.
Respondida
a questão sobre o Azerbaijão, Gustavo pode ir com seu pai até o carro e
aproveitar alguns minutos de tranquilidade a caminho da escola, ao som de Pink
Floyd.
Ultimamente
o mundo andava estranho, e estava cada vez mais difícil viver nele. Presságios
de que o mundo acabaria no final do ano não paravam de chegar, e a natureza
também não contribuía para acalmar as pessoas: semana passada, uma vizinha sua
morrera atingida por uma chuva de baiacus que ninguém soube explicar.
Também
era difícil ser um adolescente. As pessoas gritavam muito com ele. Gustavo
passou a acreditar que, como no mundo dos adultos as pessoas gritam muito, ser
tratado com voz doce e pausada até o fim da infância mimava demais uma pessoa,
então, para fazê-lo pensar nas futuras responsabilidades, tinham que gritar
bastante com ele até que completasse dezoito anos.
Quando
seu pai estacionou na frente da escola pública, deu-lhe “Bom dia”, ao que ele respondeu
com “Uhum” e desceu do carro, que partiu. Encontrou seu amigo Bruno na entrada,
de mochila nas costas. Ele já tinha terminado a escola há muito tempo, mas ainda
gostava de aparecer por lá.
—
E aí, Gustavo!
—
Beleza, Bruno.
—
Que vai fazer hoje?
—
O de sempre, eu acho. E você?
—
Eu tenho algumas coisinhas pra fazer à tarde, mas resolvi dar uma relaxada pela
escola agora, cedo. Acha que eu consigo entrar?
—
Só vendo...
Foram
até a portaria, uma senhora que trabalhava lá barrou Bruno.
—
Não tente me enganar, rapaz! Você não pertence mais a este lugar, que eu estou
sabendo.
—
Ah, só porque eu pareço um pouquinho mais... “forte”? Os adolescentes crescem
rápido hoje em dia!
—
Mas você não me passa a perna. E dá licença, que tem um aluno querendo passar.
Atrás
deles vinha mais um indivíduo de mochila nas costas.
—
Bom dia, Ned — cumprimentou-o a porteira.
—
Bom dia! — disse Ned passando por ela.
—
Você deixa esse cara entrar? — indagou Bruno perplexo.
—
Ele é conhecido por todos desde que entrou!
—
Ele tem oitenta anos.
—
Não vou discutir com você. Agora sai da frente, que o pessoal quer entrar.
Gustavo
ficou com pena de Bruno por este ter sido rejeitado de novo pela portaria da
escola, mas prometeu-lhe que mais tarde fariam alguma coisa juntos e entrou no
colégio.
Antes
do primeiro período começar, a Diretora quis reunir todos no Auditório para dar
um comunicado.
—
Meus prezados alunos — ela começou em tom monótono, lendo um pedaço de papel —,
o assunto de hoje é de preocupação geral da comunidade escolar. Desde que
reforçamos a segurança, houve menos problemas envolvendo crimes nesta escola, e
apenas 39 alunos foram acidentalmente decapitados mês passado. Por isso é que o
Governo Estadual, no interesse de seguir com essa política de segurança nas escolas,
mandou distribuir elmos para os alunos da rede pública. Façam fila, por favor,
para recebê-los. Mas eu não quero saber de gracinhas! Não como na vez em que
vocês ganharam sprays de pimenta.
Após
o recebimento dos elmos, o dia transcorreu tranquilamente. Somente no meio da
aula de História, trinta minutos após o professor sair sem motivo aparente, a
Vice-Diretora veio à sala de Gustavo para dar um aviso:
—
Vocês estão dispensados.
—
Podemos saber por quê? — alguém perguntou.
—
Aparentemente, o professor de vocês sofreu uma desilusão existencial e foi
tentar a vida como músico. Não se preocupem, o gato dele vai assumir suas
obrigações a partir da semana que vem. Por hoje, vocês podem ir pra casa.
Não
estava fácil ser um estudante de escola pública. Mas Gustavo não se estressava
com isso. Pegou suas coisas, saiu junto com a turma cheia de pessoas que não
conhecia e, por sorte, ainda encontrou Bruno pela rua.
—
Gustavo!
—
E aí. Saí mais cedo.
—
Hum.
—
Vamos arranjar o que fazer antes do almoço?
—
Pode ser. Eu tava pensando em visitar uma loja onde tem uma velhinha que vende
saquê barato.
—
Ah. Certo. Você sabe que eu não curto beber, mas vamos lá.
—
Ela tem outras coisas lá também. Não-alcóolicas. É capaz de você gostar. Na
verdade, é bem capaz que uma delas mude completamente a sua vida...
—
Pois é, né? Eu duvido, mas vamos lá. Vale o passeio.
Eles
foram até a lojinha, que não era muito distante, e enquanto Bruno barganhava
uma garrafa de saquê, Gustavo ficou fuçando entre as quinquilharias que ela
oferecia. Havia muita coisa antiga com referência cultural ao Oriente:
porcelana, roupas, prataria, livros.
E,
sobre um pequeno pedestal, uma pedra. Nada mais que isso. Apenas uma pedra...
—
Pronto, Gustavo. Vamos embora?
—
Espera.
Gustavo
percebeu que estava já havia alguns minutos olhando vivamente para aquela
pedra, que, apesar de fosca e sem utilidade aparente, atraía seu olhar com uma
força inexplicável.
—
Você se interessou por essa pedra?
—
A pedra não está à venda — resmungou a velha dona da loja, vindo em direção a
eles. — Você não querer pedra. Pedra inútil e feia. Levar isto — ela
mostrou-lhe um tecido longo de seda —: deixar você invisível.
—
Acho que não. Eu gostaria da pedra — disse Gustavo.
—
Pedra não, pedra ser... pedra! Menino gostar mais disto! — ela mostrou-lhe uma
adaga reluzente. — Quem tem adaga, vira imortal.
—
Desculpe, não me serve. Será que não rola me vender a pedra?
—
Pra que pedra?? Que tal — ela puxou um pingente — talismã que adivinha futuro,
e traz sorte, e fortuna, e força de mil homens?
—
Muito obrigado, mas não.
—
Ah, então por que você não toma no cu?
Naquele
instante, o telefone tocou. A senhora japonesa pediu licença aos dois e
retirou-se para um aposento nos fundos da loja, de onde eles a ouviram falar muito
rápido em japonês.
Gustavo ficou ali parado, olhando para a pedra, Bruno parado
ao seu lado com cara de preocupação.
—
Cara, se você for roubar esse negócio, não pense duas vezes, então! — sussurrou
o mais velho.
—
Tem razão, temos de ser convictos, certo?
—
Não, é que eu tô louco pra mijar!
Gustavo
olhou para a porta da saleta onde a velhinha estava, olhou para a pedra sobre o
pedestal, estendeu a mão e a pegou. Saiu, acompanhado por Bruno com a incerteza
de por que fizera aquilo pairando dolorosamente sobre sua cabeça. No entanto, a
pedra no seu bolso transmitia-lhe sensação de estabilidade. O certo tinha sido,
de alguma forma, levá-la consigo.
Chegando
em casa, horas mais tarde, da aula de piano, Gustavo encontrou sua mãe e mais
dois policiais na sala de estar. Ela apertava um lenço entre as mãos e tinha os
olhos vermelhos. Preocupado, ele nem fechou a porta e foi logo até ela,
desfazendo-se da mochila.
—
Mãe? O que aconteceu?
—
Seu pai... — ela disse com a voz falhada. — Ele... Não consigo nem dizer...
Um
policial veio a Gustavo e disse:
—
Seu pai foi sequestrado por macacos falantes quando retornava do trabalho.
Encontramos um DVD no carro dele, contendo um vídeo que você pode ver aqui.
Ele
aproximou o notebook em cima da mesa, que pertencia a Gustavo, ao alcance da
visão da sua visão, e teclou “ENTER”. Surgiram dois gorilas contra uma parede
branca, segurando metralhadoras. Usavam roupas pretas os dois, além de lenços
vermelhos que lhes cobriam as caras. Um deles, o da direita, falou em claro Português :
—
A quem quer que esteja ouvindo, sequestramos seu parente, e não estamos a fim
de devolvê-lo, não, tá entendendo? A não ser que você esteja disposto a pagar
um resgate... Grana alta, humano! Você acha que dá conta? Olha bem pra isto!
Cortaram
para o pai de Gustavo sentado dentro de uma gaiola, ainda em seu traje de
serviço, sendo bombardeado por cascas de banana e parecendo ligeiramente
aborrecido.
—
Desculpem, mas eu estou atrasado para o jantar!
Cortaram
de novo para os gorilas, dos quais o da direita completou:
—
Entraremos em contato. Se
envolver a polícia, matamos o humano, entendeu? Té mais...
O
vídeo acabava ali. Perplexo, Gustavo sentou-se no sofá e não disse nada. Sua
mãe soltou algumas lágrimas e perguntou ao policial:
—
E agora, seu guarda? O que vai ser do meu marido?
—
É cedo para dizer, madame. Este é um caso muito grave de pessoa sequestrada por
macacos — confessou-lhe o policial enxugando o suor da testa. — Faremos o
possível para rastrear esses meliantes. Só pedimos para que não se alarme: no
geral, eles só comem frutas e pequenos insetos. Acreditamos que haja uma causa
social por trás desses crimes, uma vez que o gorila está entre as espécies
ameaçadas de extinção. Como as faces estavam cobertas, fica difícil associá-los
a algum indivíduo já conhecido, mas pelo padrão de voz eu diria que se tratam
de gorilas do ocidente, uma espécie bastante comum do gênero Gorila.
—
Eu não entendo dessas coisas, eu só quero meu marido de volta!
—
Vamos trabalhar nisso, senhora. Apenas saiba que em 2008 foi descoberta uma
população de 125 mil desses gorilas na República do Congo. Se isso vier a representar
alguma mudança no status de conservação da espécie, quem sabe seu marido ainda tenha
uma chance.
Os
policiais ainda fizeram algumas perguntas e prometeram dedicar-se exclusivamente
àquele caso — prometeram. Desolada, a mãe de Gustavo não quis assistir ao
Animal Planet aquela noite. Sem muito apetite, Gustavo foi para o quarto,
deitou-se na cama e ficou pensando sobre o absurdo da vida.
Num
momento você é um pai de família; no outro, gorilas te sequestram em plena luz
do dia. Estava difícil ser um pai de família.
Gustavo
percebeu que a pedra roubada ainda estava em seu bolso. Pegou-a mais uma vez
para dar-lhe uma olhada e pensou: “Você me fez sentir tão confiante naquela
loja... Se ao menos isso me ajudasse a resolver esse problema!”. De repente,
ela ficou quente, tão quente que ele não foi capaz de continuar segurando-a e
deixou-a cair no carpete, onde emitiu um brilho cor de rubi.
Num
clarão, um rapaz apareceu em cima dela. Tinha alguns anos a mais que Gustavo, a
barba por fazer, o cabelo meio desleixado e as roupas como de quem pegava o que
estava ao alcance e era isso. Ele se abaixou para pegar a pedra e olhou feliz
para Gustavo, que recuava contra a parede em absoluto choque.
—
Nossa, achei que nunca ia precisar de mim!
—
Quem é você? — perguntou Gustavo.
—
Pôxa, não me reconhece? Sou seu pai... em outra dimensão!
O
rapaz sentou-se na cadeira giratória de Gustavo de um jeito bem largadão e
atirou-lhe a pedra, que tinha voltado à temperatura e coloração normais.
—
Meu... pai... dimensão... Como isso é possível? — indagou Gustavo com a voz
falhada.
—
Cara, você não pegou a pedra? Então, a pedra é a chave! Ela te traz o que você
precisa, de algum lugar, e foi por isso que eu apareci! Ela foi extraída do rim
de um sábio chinês do século V a.C. e conservada até hoje. Ela chamou você,
Gustavo... enquanto você a chamava.
—
Então foi por isso que eu precisei tanto afaná-la? Mas isso ainda está muito
mal contado. Como você pode ser... meu pai?
—
Cara... como podem os planetas girar em torno do sol? Como é que o coração
continua batendo? — E, após uma pausa, o estranho acrescentou: — E quem não
gostaria que seu pai tivesse várias faces? Tipo eu: jovem, bonitão, universitário...
com poderes mágicos?
—
Você tem poderes mágicos? — Gustavo perguntou imediatamente.
—
Claro — disse o Pai Número 2, e materializou um porquinho-da-índia na cama dele.
Gustavo
não achou aquilo tão ruim, afinal. Pôs a pedra mágica na cabeceira, pegou o
porquinho colo e prosseguiu com as perguntas:
—
Mas para que, exatamente, você serve?
—
Ora, você não decidiu isso desde o início? Eu vou te ajudar a resgatar o Número 1
dos macacos! Não vai ser fácil, com certeza, e se eu não conseguir, outros
virão. Mas essa pedra faz umas coisas que, porra, você não vai querer outra
coisa na vida. Se eu fosse você, levava ela comigo pra todo canto. Só não
tenta, hã, inserí-la em você mesmo de alguma forma. Tipo, ela saiu do rim de um
cara que morreu...
Ele
se contorceu num arrepio de nojo. Gustavo achou aquilo razoável e perguntou:
—
Qual o seu nome... pai? — e ficou confuso com a própria pergunta.
O
Pai Número 2 respondeu:
—
É Matt. Matt Liebert.
—
Meu sobrenome também é diferente em outras dimensões?
—
Muita coisa é diferente em outras dimensões, cara. Mas é melhor você não se
preocupar com essa parte agora. Sabe do que mais? Vamos dormir, porque amanhã
eu vou pra sua escola.
—
Escola?
—
É o melhor lugar para começar uma investigação sobre gorilas. Tô sentindo que a
sua Diretora sabe de alguma coisa.
—
Por que minha Diretora teria algo a ver com... macacos sequestradores?
—
Não confia no seu segundo pai?
Com
uma piscadela, Matt deu uma levitada até o teto e encostou-se nele como se
fosse uma cama.
—
Pais de mundos paralelos podem ser cheios de surpresas.
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