quarta-feira, 13 de outubro de 2010

(2ª TEMPORADA) EPISODE 13 - Oregon [Parte IV - Final]

Meu segredinho

— Já temos uma imagem aérea, senhor — avisou o Agente LoL entrando na sala com o notebook. Na tela via-se da perspectiva de um helicóptero o que costumava ser um terreno da GOOGLE Inc., onde os supercomputadores que mantinham a grande estrutura virtual funcionando eram protegidos. Agora, no entanto, parecia mais uma zona de guerra com prédios e muros desmoronados e crateras escuras de onde emergiam espirais negras de fumaça. Havia também pavilhões em fogo e figuras que, do alto, assemelhavam-se a formigas, movendo-se muito rápido. Em torno delas, cinco gigantes de metal — isso era o que uma primeira impressão diria sobre eles — deslocavam-se pela paisagem destruindo tudo que encontravam. Aqueles que corriam próximo a eles provavelmente os controlavam; a não ser que estivessem lutando entre si. Essa diferença pouco importava, na verdade, do ponto de vista de quem assistia à cena.

O presidente da L.D.M esmurrou a mesa, encolerizado.

— Esses filhos da puta não têm direito! Como isso foi acontecer? Como ninguém previu isso?
— Senhor, a maioria das equipes estava ocupada com a cena do homicídio e nos arredores. — justificou o Agente LoL em tom baixo e servil — Ninguém imaginaria que os fugitivos fossem diretamente para lá. Natural seria pensar que estivessem se escondendo.
— Vou dizer qual é o problema: um idiota chamado Rodney teve tanta dificuldade em fazer o prisioneiro falar a ponto disso ajudar os fedelhos!
— O senhor quer que pressionemos Nikolai com maior firmeza?
— Eu quero Nikolai morto!

O chefe amassou o charuto no cinzeiro e se pôs de pé.

— Eu vou até Oregon. — determinou — Quero a G.P, o BOPE, a SWAT, Ursinhos Carinhosos, toda força militar de peso que você puder encontrar, de prontidão lá no Data Center!
— Sim, senhor.

...........Amália abaixou-se para evitar outro disparo supersônico que destruiu um pedaço da parede atrás dela, executou um rolamento e foi parar dentro da trincheira onde Pinguin havia se abrigado.

— Puta que pariu! — xingou o garoto quando uma cortina de calor infernal se abateu sobre eles, por pouco não queimando suas cabeças: o Gigante metálico, feito do mais duro aço, esquelético e sem rosto discernível, apenas uma parte lisa onde deveria haver olhos, nariz e boca, tentava espantá-los com o lança-chamas.

Encurralados lá embaixo e desprovidos de um bom plano, ouviram impotentes enquanto os outros quatro robôs destruíam o restante do que um dia fora a Área 51 do GOOGLE. Todas as pessoas (funcionários e visitantes) tinham dado no pé àquela altura, e Matt, Pepito e Grilo ainda não haviam deixado a câmara ultra-secreta que deveria levá-los, de dentro de um dos prédios, ao Sistema Central do GOOGLE.

Incumbidos uns dez minutos antes de vigiar a entrada — apenas vigiar a entrada — Pinguin e Amália foram surpreendidos pela visão bizarra de cinco esferas metálicas girando juntas em sua direção, até pararem, vibrarem levemente por um instante e começarem sua assustadora transição para gigantes de aço inteligentes. Desse momento em diante, foram dez minutos de pura alegria... Tempo suficiente para as altas cúpulas do GOOGLE e da Liga de Dominação Mundial olharem o que estava acontecendo através de seus satélites e se perguntarem: “WTF?”.

Agora Amália estava telefonando para alguém ("Ecco Salva, eu espero!" by Pinguin) do seu celular, os dedos trêmulos enquanto digitavam. Ela encostou o aparelho no ouvido, aguardou até a ligação se completar e escutou o alarmante aviso de "Este aparelho encontra-se desligado ou fora da área de cob..."...

— Filho da puta! — xingou, jogando o telefone para longe.
— Com quem você queria se comunicar? — perguntou Gabriel.
— Com o Pedro! Não entendo por que ele não responde.
— Alguma merda aconteceu.

*FLASHBACK*

.........O QUARTO DE HOTEL EM THE DALLES, OREGON (SEM QUALQUER PREOCUPAÇÃO COM FUSO-HORÁRIO [MAS ISSO TODOS JÁ SABEM]):

O forno de microondas fez "BIP". Pedro o abriu e retirou a bandeja de lasanha.

PEDRO APRENDEU: LASANHA
+ 1 CULINÁRIA!

Levou a bandeja à mesa de centro desmontável, separou num prato um pedaço para si e olhou em direção à porta do banheiro, trancada a chave.

— Você vai querer comida, Galarza? — gritou para que o prisioneiro ouvisse.
— Fuck you! — berrou o garoto em resposta; tinha acordado há cinco minutos e estava muuuito furioso.
— Okay, então. — murmurou Pedro serenamente, sentando-se com seu almoço — Sobra mais pra mim.

Seguiu-se um breve silêncio, até quando Galarza gritou:

— Onde estão meus relógios?
— Onde você não poderá alcançá-los. — respondeu Pedro com a boca cheia de comida.

Houve outro vácuo silencioso, no qual Galarza espiou pelo buraco da fechadura e conseguiu identificar Pedro, um prato com lasanha e uma arma em cima da mesa, bem perto dele. Murmurou baixinho consigo mesmo: "Shit".

— Por que você não me deixa sair pra dar uma voltinha? ^^ — pediu ele, usando seu Friendly Mode Tipo 1. — Eu sou claustrofóbico. D=  — completou.
— E eu não sou tão idiota, Galarza. ;) — respondeu Pedro ainda comendo.
— Tá booom, então... u.u Creio que também não adianta eu dizer que preciso sair pra mijar, já que eu estou dentro do... dã!
— Fica quietinho. ^^
— ¬¬

Houve um terceiro vácuo, durante o qual só se ouviu o barulho de Pedro comendo. Depois ele acabou e levou o prato à pia para lavá-lo. Galarza tentou novamente, então, usando o Friendly Mode Tipo 2:

— Eu até compreendo que os outros façam isso comigo. Mas o que eu não consigo entender é VOCÊ concordar com isso, Pedro. Tipo, você é tão foda. D=
— Não adianta... — cantarolou Pedro de costas para a porta, lavando a louça.
— Sério, você é foda! Você foi o que mais se puxou durante os treinos, você acordava mais cedo que todo mundo, você tinha um futuro na organização! E agora, meu mentor está morto. Tudo que ele fez, arruinado.
— A culpa não foi minha nem sua, Galarza.
— Ah, e você acredita que o Matt, o Pepito ou qualquer um do grupo não tenham nada a ver com isso?
— Eu confio neles. u.u Matt não pretendia matar o Negão, ele queria apenas impedir que gente inocente morresse por causa de mais um plano mirabolante dele. E chega de falar nesse assunto.

Assim, Pedro terminou de lavar a louça e foi para o sofá, a alguns metros da mesa onde repousava a arma; Galarza o acompanhou pela fechadura. Não era de desistir facilmente.

— Estranho o seu tom de voz ao falar do Matt. É como se você guardasse algum rancor dele...
— Não torra, Galarza. ¬¬
— Só fiz uma constatação da realidade. E, pelo jeito, você não contou isso a ninguém, digo, o motivo por você estar chateado com ele. Porque talvez seja muito, muito sigiloso...
— O Matt ia entregar o Negão, mas eu não queria que ele fizesse isso porque ele tinha informações importantes pra mim, okay? — soltou Pedro, impaciente. — E, antes que eu pudesse falar com o Negão, o cara morreu. Mas isso não é culpa do Matt. É só que o Matt cuida de tantos assuntos ao mesmo tempo que um deles acabou ficando de fora.
— E qual seria? '-'
— Você não entenderia.
— Wow, wow, não fode. A gente tava começando a se entender aqui. D= Desembucha logo, no que o Matt deveria prestar atenção, mas não prestou?

Ele demorou um bocado para decidir se contava ou não. No fim das contas... contou. (LoL)

— O Negão sabia coisas a respeito do meu passado.
— O seu passado é importante? o-o
— ¬¬
— Desculpa! D=
— Você não entenderia mesmo. É uma longa história. Acontece que ninguém está ligando muito pra isso, a não ser eu. u.u
— Eu ligo. D= A Doom Finger costumava consistir nisso: uns cuidando dos outros.
— Isso soa gay.
— É filosofia, porra. ¬¬
— Tá, okay. Acho que... Nós podemos conversar.
— Me destranca aí, então. ^^
— Não espera que eu faça isso, né. u.u
— Foi mal... É só que eu tenho coisas do Negão no meu computador. Coisas realmente importantes que ele pediu pra eu guardar. Vai que alguma delas é relevante pra você. Mas, se você quisesse ver, eu teria que estar com o PC perto de mim. Pra fazer o reconhecimento e talz.

*CHAN-CHAN* Pedro ficou pensando... Valeria a pena arriscar a segurança da Quest a ser cumprida por Matt, Pepito, Grilo, Amália e Pinguin no Data Center por uma causa puramente pessoal?... Well, era pessoal mas ao mesmo tempo era "pública": não era sobre ele, afinal, era também sobre Bob, Sebastian e todas aquelas merdas que vinham acontecendo com eles.

— Okay, Galarza. Eu vou abrir a porta. — anunciou — Mas você vai ficar quietinho e inofensivo no fundo do banheiro enquanto eu faço isso. De preferência, virado para a parede.
— Alright. ^^ — respondeu Galarza do outro lado, já obedecendo às ordens dele.

Pedro pegou a chave a arma e deu uma olhadela no estreito vão entre a porta e o carpete, no caso da sombra de Galarza denunciar sua presença furtiva do outro lado. Não havia nada.

Com a pistola erguida à altura dos olhos, Pedro esticou a mão e destrancou a porta, empurrando-a com delicadeza até ver Galarza virado contra a parede, como havia ordenado.

— Okay, vire-se devagar e saia.

O outro se virou lentamente, mantendo as mãos vazias no ar, e os dois andaram ao mesmo tempo, Pedro afastando-se para permitir que Galarza saísse do apertado banheiro e chegasse à mesa do computador. Nisso colocou-se atrás dele, a arma apontada para sua nuca.

— Faz a tua mágica agora.

Sem dizer nada, Galarza iniciou a máquina e começou a digitar furiosamente. Telas pedindo senha começaram a aparecer, e ele passou por todas elas com facilidade, abrindo uma infinidade de pastas.

— Voilà. — falou — Está tudo aqui. Documentos, fotos, diários de viagem.
— Comece pela vida acadêmica. Procure por dados de colegas da faculdade. — mandou Pedro, já ansioso pela perspectiva de esclarecer suas dúvidas.
— Sim, senhor... Dow!

A tela escureceu-se repentinamente.

— O que foi isso? — indagou Pedro.
— Bateria. Vou ter que engatar a fonte na tomada. Só um minutinho... — Galarza mergulhou para baixo da mesa a fim de encontrar os cabos corretos, levantou-se e deu a volta na mesa explicando: — Terei que puxar a mesa um pouquinho. Me ajuda?

Bufando, Pedro guardou a arma atrás da cintura e segurou com as duas mãos uma das extremidades da mesa quadrada, enquanto Galarza dava conta da outra.

— Perfeito. ^^ No três...

*KABRUM*

Num impulso rápido, Galarza usou a mesa para empurrar Pedro e prendê-lo contra a parede, suas mãos fora do alcance da arma, logo deitando o móvel de modo que tudo que estava em cima dele caísse por cima do garoto. Logo que a soltou e correu na direção da porta, Pedro desvencilhou-se da confusão de fios e ferramentas de informática, sacou a arma e atirou.

O salto que ele deu sobre a cômoda, onde estavam seus relógios, desviou-o por um triz do primeiro disparo. Com um rolamento, Galarza pôs-se de pé e saiu como um raio porta afora. Um pouco mais lento, Pedro deixou o quarto a ponto de ver sua silhueta longilínea fazer uma curva escorregadia rumo às escadas.

Atirou duas vezes.

*BLAM*
*BLAM*

Ouviu um "Auch" e um baque pesado.

A adrenalina fluindo, o coração batendo depressa, Pedro correu de arma em punho até os degraus, onde viu o corpo do SPY caído em um ângulo bizarro. Estava morto.

Incapaz de segurar o choque, Pedro soltou a arma e cambaleou para trás apoiado na parede. Um segundo baque atrás dele o surpreendeu, não lhe dando tempo para descobrir mais — era o som de um extintor de incêndio contra o seu crânio.

Tão logo ele desmaiou, Galarza foi até o "corpo" que jazia na escada, ajoelhou-se perto dele e pressionou o botão em seu relógio de pulso, o único que conseguira apanhar em milésimos de segundo — felizmente fora aquele, e não outro. A forma cadavérica que era idêntica a ele contorceu-se e descoloriu-se, liquefazendo-se numa substância homogênea que fluiu de volta para dentro do pequeno relógio.

Sorrindo o tempo todo com a vitória, Galarza arrastou Pedro até o banheiro do quarto, trancou-o da mesma forma que haviam feito com ele e jogou a chave fora. Em seguida, apanhou a maleta metálica que só ele conseguia abrir. Aquela que ninguém tinha se atrevido a violar ainda.

*FIM DO FLASHBACK*

Do alto de uma colina, sentado confortavelmente em seu jipe blindado, o SPY via o terreno inimigo queimar com prazer.

— Isto vai honrar os seus intentos, chefe. — sussurrou solenemente, tendo somente a própria companhia para presenciar seu sucesso: e essa talvez fosse a parte mais triste.

............ — AHHH, CALOOOOOR. — praguejava Amália.

O Gigante robô não podia abaixar-se ou alcançar Amália e Pinguin por ser demasiado alto e pesado. Em contrapartida, eles não podiam sair da trincheira enquanto aquele lança-chamas estivesse apontado sobre suas cabeças. Visto de longe, era uma cena muito estúpida, porque enquanto os três permaneciam presos naquele local, o resto do ambiente virava purê sob os ataques dos outros Gigantes.

— Eu não aguento mais ficar aqui, Pinguin. D= — choramingou Amália.
— Eu também não, cacete, mas a gente mal pode erguer a cabeça sem que ela vire churrasco! — praguejou Gabriel.
— E eu não consigo ter ideias. D= Eu to triste, e o Pedro não tá aqui. >.<
— Você tem que fazer alguma coisa, você é a mais porra-louca.
— Não dáá. Eu to desencorajada. Se eu estivesse com raiva, até funcionava...
— Amália — Pinguin olhou bem nos olhos dela —, o Justin Bieber disse que se sente o novo Kurt Cobain da música.

AMÁLIA: RAGE MODE ON

— AQUELE PUTO DE MERDAAAAAAAAA!

Possuída por uma ira grunge que faria dez rottweilers se encolherem de medo guinchando, a garota enfiou-se na parede da trincheira como uma broca industrial, abrindo uma espécie de túnel conforme avançava.

— Amália, o que...?
— Só me segue!

Sem titubear, Pinguin seguiu pelo túnel improvisado atrás dela, que em menos de um minuto cavando, "brotou" do solo atrás do Gigante com o lança-chamas e chutou-lhe o traseiro com força.

— Aí, viado, olha pra trás!

A cabeça do robô deu um giro de 360 graus sem que o resto do corpo se mexesse e "viu" Amália, emitindo um grunhido que em Português quer dizer "WTF".

— VOCÊ É FÃ DE JUSTIN BIEBER, QUE EU SEI!

Ela enfiou a mão no que seria a cavidade traseira do homem de lata e arrancou fora uma peça cilíndrica que deveria ser muito importante: realmente era, porque em seguida a isso o Gigante emitiu um uivo comovente de dor, oscilou um bocado e desabou sobre a trincheira. O lança-chamas continuou ligado, incendiando umas árvores próximas.

— Amália... — ofegou Pinguin aterrorizado — Tu fez um exame de próstata num robô. o.O
— Ou coisa do tipo. — completou a garota, indiferente, desfazendo-se do cilindro — Agora eu to melhorzinha, Gabriel: vamos chutar umas bundas.

KILL THE GIANTS!

— Eu pego dois, você pega dois. — propôs Amália.
— Okay. — concordou Pinguin.

Eles sacaram seus LifeControllers e partiram, cada um, para cima de uma dupla de robôs.

................Diante dos monitores do jipe, que exibiam em cinco quadros o que cada um dos Gigantes percebia, Galarza viu algo que o desagradou: um deles não funcionava mais, e Pinguin e Amália avançavam como herois para quebrar os outros. Ele apenas riu.

— Dentro do meu segredinho sempre tem outro segredinho.

...............Pinguin e Amália pararam de correr quando os quatro robôs, simultaneamente, voltaram-se para eles e formaram um círculo.

— Okay, não seria saudável a gente ficar cercado, então vamos tentar nos esgueirar... — murmurou Pinguin — Ah, fudel.

Raios elétricos vermelhos começaram a fluir dos braços estendidos de cada robô, unindo os quatro numa corrente que envolvia os dois jovens.

— Tá, não perde as tamancas agora. — sussurrou Pinguin para Amália, que não lhe deu ouvidos.
— ESCUTA AQUI, Ô VIADO, O QUE VOCÊ QUER DE NÓS? — ela berrou para um dos robôs, certa de que seu mestre, que ela sabia muito bem quem era, poderia ouví-la — HEIN? Berra comigo, Pinguin, seja homem.
— Ah... Oi, Galarza. ^^ — Pinguin — Ai! *tapa no ombro*
— SAIA DE ONDE ESTIVER E ME ENFRENTE COMO HOMEM, SEU ESCROTO!
— Não dê ouvidos a ela, ela tá estressada hoje, foi um dia muito tenso pra todo mundo...
— EU VOU COMER A TUA BUNDA!
— Vai nada, ela te adora. ^^
— PARA DE TENTAR AGRADAR ELE, PORRA!
— Ele vai nos matar, Amália. D=

O elmo do Gigante a quem eles se dirigiam dividiu-se em dois, e uma mini-metralhadora apareceu apontada para Amália.

— Eu falei...
— É ISSO QUE VOCÊ QUER, ENTÃO? ME APAGA!

Amália abriu os braços.

— ME MATA, SEU PODREEE.
— Amália, não!
— ME MATA!

..............Com uma mão num saco de salgadinhos e a outra segurando o gatilho, Galarza decidiu que era hora de acabar com ela. Depois com Pinguin. Aí ele encontraria os outros e daria cabo deles. E depois tiraria um cochilo. E viajaria para o Japão para encontrar-se com os outros dirigentes da D.F. E reerguiria a organização como a mais poderosa do mundo. E teria uma aposentadoria próspera e feliz com muitos filhos. Ou não.

*CRACK*

A janela à sua direita sofreu uma rachadura e ele gritou de susto, largando momentaneamente o controle das máquinas. Alguma coisa tentava atravessar o vidro blindado.

— Wtf?

Houve mais batidas nos outros vidros e pancadas fortes por toda a lataria. De repente o automóvel começou a tremer: a coisa estava embaixo dele.

— OMFG!

Ele deu a partida no jipe, mas não foi rápido o suficiente; uma força descomunal o ergueu do chão e começou a girá-lo com violência.

— PARA, PORRAAAA.

Nisso, o mundo virou de cabeça para baixo. Alguém ou algo arremessara o jipe colina abaixo, onde capotou sete vezes até emborcar. Atordoado, sentindo que os pés tinham subido para a cabeça, Galarza olhou para o lado e viu uma porta ser arrancada fora. Procurou por sua arma, mas não a encontrou.

— Oh, shit!

Mãos fortes o arrastaram pelos cabelos para fora do jipe e por vários metros sobre a areia causticante do deserto. Ele gritou de dor. De repente as mãos o viraram de peito para cima sobre uma pedra, e ele reconheceu com horror a face de Pedro, seus olhos transfigurados num vermelho demoníaco.

— Você... — a voz dele soou como se houvesse duas pessoas falando ao mesmo tempo — tem ideia do que acabou de fazer?
— Eu... não... D=
— Então eu vou te explicar.

..............Amália ainda estava esperando. Pinguin, incapaz de presenciar o horror iminente, fechara os olhos com uma expressão de "Essa porra vai doer"... Porém, no momento seguinte, a corrente rubra de eletricidade extinguiu-se e os Gigantes abaixaram os braços e curvaram as costas, sem mais se mexerem.

Pinguin abriu os olhos, deu uma olhada na cena e sentiu-se tão perplexo quanto Amália.

— Okay, isto é... Isto foi... O que eu deveria esperar disso? o-o
— Eu não sei, Pinguin. G.G

.............UM POUCO MAIS ADIANTE NO TEMPO:

Não se via uma viva-alma ao longo da ladeira. Melhor para eles! Estacionaram de forma furtiva, aproveitando o espaço escondido embaixo de gigantescas copas de árvores, e foram andando até a casa branca. Dessa vez não havia jardineiro, carteiro ou quem quer que fosse. A propriedade já não interessava mais a ninguém. Tanto melhor para eles...

Na cara-de-pau mesmo, pularam a cerca frágil que envolvia o terreno e cruzaram o quintal até a soleira da porta, onde Norma parou de sopetão.

— Esqueci a chave. '-'

*KRABUM* Andrius arrebentou a vidraça da porta com uma cotovelada, esticou o braço até o outro lado e girou o trinco antigo que a mantinha fechada. Um empurrãozinho para a frente a fez ranger, e os dois entraram. Estava escuro e um tanto empoeirado. Os móveis haviam sido cobertos por lonas brancas.

Andrius deu alguns passos corredor adentro, espiando os interiores de porta em porta, detendo-se ao pé da escada, Norma acompanhando-o em silêncio. Disse à colega em tom de graça:

— Agora que cheguei, não sei por onde começar.

Ela riu.

— Onde acha que ele punha os negócios em ordem? — sugeriu.

Andrius olhou para cima.

— Deve haver um escritório.

E tinha. Encontraram lá pilhas de livros ao redor de armários de arquivos, computadores inteiros ou desmontados, quadros com anotações das mais complicadas para um leigo, uma poltrona e um Nintendo Wii.

— Parece que Dodi conservou a “organização” do amigo. — constatou Andrius.
— Que eu saiba, ele não era cientista. Era um ufólogo. — disse Norma olhando em volta com aguda curiosidade.
— Isso não deve tê-lo impedido de tirar as próprias conclusões. — falou Andrius analisando alguns cadernos anotados; a grafia mudava depois de um tempo, provavelmente porque o novo dono da casa deu continuidade aos projetos — Nem de se divertir. — acrescentou depois, apontando para o Wii.
— Essa é nova pra mim. — disse, então, Norma olhando para cima.
— Que foi?

Ele também olhou. Havia uma portinha quadrangular no teto, trancada a cadeado. A porta em si aparentava ser muito antiga, mas o metal do cadeado, para surpresa dos observadores, estava tinindo de novo.

— Será que a polícia não se deu conta? — indagou Norma.
— É o que descobriremos a seguir. — murmurou Andrius, e subiu numa cadeira para melhor alcançar o alçapão — Alguém — forçou o cadeado com as mãos livres, o que era vão e estúpido — forçou entrada lá em cima antes de matar o dono da casa, viu que era importante manter isto aqui fechado e pôs um novo cadeado. Ah, merda.

Ele desceu.

— Um passinho pra trás, por gentileza, Norma. Obrigado.

Andrius sacou a arma (dela), apontou-a pra cima e disparou duas vezes. O cadeado voou longe, partido em três pedaços. Depois de guardar a pistola no cinto, tornou a subir na cadeira e, com um empurrão descomunal, fez a pequena porta abrir-se.

— Ajuda aqui? Eu sou baixinho. ^^

Por baixo, Norma o empurrou até que ele conseguisse passar a cabeça para dentro do que seria um pequeno sótão. O que descobriu numa primeira olhada quase o fez cair de choque.

— Ah, meu Deus...
— O que foi?

Sem responder, ele içou-se de corpo inteiro para dentro do sótão e esticou a mão para que Norma subisse também.

— Vem.

Ela o fez.

— Cuidado com a cabeça. — ele avisou-a antes de se levantarem, pois o teto era demasiado inclinado.

Finalmente deram uma olhada juntos no ambiente, e Norma mostrou-se tão chocada quanto ele.

Era um quartinho simples, com cama, bidê, estante, televisão, o básico. Mas o que mais impressionava eram o fato de as cortinas serem cor-de-rosa e, nas paredes, haverem colado desenhos de todo tipo; pessoas, animais, veículos, árvores. Desenhos cujo traço denunciavam facilmente a natureza de quem os produzira: outra coisa que eles não conseguiram entender.

— Andrius — sussurrou Norma desconsertada —, alguém... alguém morou aqui?
— É o que parece. — disse Andrius rapidamente, seu cérebro trabalhando num frenesi.
— Mas... se era isso que o Sebastian escondia, por que justamente...?
— A pergunta não é por que ele mandou guardar uma coisa dessas, mas por que o assassino decidiu levá-la.

CONTINUA...

sábado, 9 de outubro de 2010

(2ª TEMPORADA) EPISODE 13 - Oregon [Parte III]

Quando a luz piscar duas vezes

— E aí, quando é que vai falar?

Rodney fez a pergunta com sincera impaciência: estava farto de ficar em pé naquela sala, de frente para um prisioneiro insolente, enquanto a verdadeira ação (os demais agentes disponíveis tinham sido escalados para resolver o homicídio do casal de terroristas) acontecia em outro lugar.

Nikolai Pavel, ou Agente #1, ou (como apenas os mais chegados agora sabiam que ele se chamava) Andrius não disse nada, como era de se esperar. Movido pela forte angústia de ter que ficar ali mais um dia, Rodney pegou uma cadeira, bateu-a com força no chão, na frente do prisioneiro, e sentou-se, os dois separados apenas por uma mesa de metal.

— Me diga uma coisa, “salvador” — disse em tom de deboche —: o que lhe faz confiar cegamente naqueles fedelhos? E se eles não estiverem interessados em jogar limpo, hein? E se tiverem alguma carta muito suja na manga, que possa acarretar em milhões de mortes, e por isso mataram os chefes da organização? Porque, se for, o caso, se eles causarem algum grande estrago, pior do que aquele do hotel, a culpa vai ser toda sua!

O outro o olhou de volta, pela primeira vez com semblante de dúvida: o discuro fizera-o se interrogar se, de fato, agira imprudentemente confiando nos adolescentes...

— Você se lembra — ele começou a perguntar, rouco pela falta de água — de quando o Projeto BOB foi abandonado pelo Sebastian? Pensaram (ou inventaram) que ele estivesse morto. Agora... o GOOGLE está por um fio porque quem tinha o trabalho de resolver esse mistério (como você, por exemplo) não fez seu trabalho direito. Então, me responda: quem agiu mais estupidamente?
— O que você quer dizer com “por um fio”? — um olho do agente tremia de nervosismo — Nikolai! O que você quer dizer com “por um fio”?

Neste momento as lâmpadas oscilaram duas vezes, escurecendo a cela por dois momentos rápidos. Rodney virou o rosto para a porta pensando “Malditos técnicos, nem para manterem as luzes acesas...”. Ouviu um clique, o que achou estranho, e voltou-se para o prisioneiro.

Levou duas bifas nas orelhas. Depois Andrius pegou a luminária de cima da mesa que os separava e acertou-lhe na cabeça com ela. Rodney deitou-se de lado, atordoado.

O Agente #1 esticou o braço para abrir as algemas que lhe imobilizavam as pernas — usava um pino de metal que escondera entre os dedos, discreto o suficiente para seus intentos —, levantou-se e usou o cartão magnético de Rodney para abrir a porta.

...........Norma tamborilou os dedos pelo volante do carro preto, esperando. Na tela do celular ainda se via a mensagem que Andrius pedira para ela receber, a mensagem de Liebert, que determinaria todas as suas ações daquele momento em diante: “Entramos. Conseguimos o arquivo”. Depois disso, ela teve que chamar a atenção de Andrius diminuindo as luzes um pouquinho. Assim ele saberia que era a hora certa para dar no pé.

...........Enquanto luzes vermelhas piscavam e uma voz de secretária eletrônica repetia “Homem em fuga, homem em fuga”, Andrius precipitava-se de porta em porta, de setor em setor, chutando bundas e o que mais lhe aparecesse no caminho para chegar às escadas. Quando alcançou o lugar, olhou para cima e viu várias portas se abrindo: homens de terno nem um pouquinho amigáveis e armados vinham descendo para agarrá-lo.

Ele correu para baixo, dois, três degraus de uma só vez, esquivando-se dos disparos que vinham de cima. Quase à porta do térreo, faltando um lance inteiro de escadas, viu um agente entrando por onde ele deveria sair. Sem pensar duas vezes, deu um salto e caiu com os dois pés por cima do coitado, que não viu mais nada por uma semana. Na brincadeira, machucou seriamente o tornozelo direito e saiu mancando pelo estacionamento, onde um carro preto parou e abriu uma de suas portas para ele.

Era Norma. Tinham conseguido.

Atirou-se no banco de trás a tempo do veículo acelerar e escapar de mais uma saraivada de tiros que vinha do outro lado da cancela na entrada da garagem. Foi naquela direção que o carro acelerou em seguida, forçando todos os agentes que atiravam (menos um) a sair do caminho. O que não saiu saltou sobre o capô, girou no ar e caiu do outro lado com o pescoço quebrado num ângulo estranho. O carro quebrou a cancela, saltou do subsolo para a rua como um golfinho fazendo acrobacias na água e freiou.

De dentro do carro, Norma e Andrius olharam para trás, na direção do agente que tivera um infeliz destino. Andrius o reconheceu como o número 4. Norma engatou a quinta, arrancou e depois de alguns minutos eles não ouviram mais sirenes, tiros ou palavrões de qualquer tipo. Estavam, com tornozelo ou sem tornozelo, salvos.

— Deus, Norma! — exclamou Andrius, deitado de costas no assento de trás por causa da dor no pé — Eu não acredito... que isso aconteceu...
— Eu também não. — disse ela aflita — Se bem que eu nunca gostei muito daquele sujeito...
— Não me refiro a ele. A mensagem: cadê ela?

Norma entregou-lhe o celular, onde ele viu com seus próprios olhos o “Conseguimos” de Liebert.

— Então é isso? Acabou? — ele perguntou em voz alta, mais para si mesmo do que para outra pessoa.
— Era você quem tinha de me dizer isso. — replicou Norma espiando-o pelo retrovisor, ao mesmo tempo em que vigiava a estrada — Liebert ter invadido o Data Center significa que... estamos livres?
— Não sei ao certo. Não ainda. O GOOGLE ainda vai descobrir e reagir. E quando reagir, será violento.
— E nós, o que acontece conosco? Quando a realidade for restaurada, aonde a gente vai parar?
— Não sei. D= Preciso... falar com Liebert. — ele endireitou-se no assento com dificuldade — Mas, antes, precisamos de um lugar seguro. Onde é que estamos, afinal?

O Agente #1 tentou ver através do vidro escuro, mas não teve muito sucesso.

— Perto de Morro dos Altos. — esclareceu Norma, sempre vigilante.
— Morro dos Altos... — ele repetiu — Outra Rua Random... Aquela casa. o-o
— O quê?
— Aquela maldita casa! Passei tanto tempo prospectando o lugar, e no fim nem entrei pra ver o que tinha. Acho que... é isso que temos que fazer.
— Mas, Andrius...
— Talvez seja nossa última chance, Norma! Talvez traga alguma luz sobre o que está acontecendo. Antes que nos encontrem, antes que algo extraordinariamente doloroso aconteça... eu quero ir àquela casa.

CONTINUA...