quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Mini-Pocket Update #6

A Naurenbanger Films, empresa alemã fundada recentemente, comprou os direitos de adaptação para o cinema de A Fantástica e Non-sense Vida de... Matt Liebert e já está iniciando a pré-produção de um longa-metragem baseado na fanfic. Segundo porta-vozes, ela está à procura de um diretor. Nomes como Joel Schumacher, Paul Anderson e Tim Burton estão sendo cotados. Ainda não se sabe nada sobre o elenco.

O filme, que tem previsão de estreia para o primeiro semestre de 2011, deve privilegiar os fatos ocorridos em toda a primeira temporada e na primeira metade da segunda, propondo um desfecho totalmente distante do que Matt Liebert planeja para a série, que deve terminar na terceira. O roteiro escrito com a colaboração de Stephanie Meyer descarta inúmeros elementos e personagens da trama original, sugerindo ainda uma “nova visão” aos que permaneceram. Seriam eles:

- Matt é heterossexual e se apaixona por uma garota chamada Rachel;
- o Ruleador é um ancião sábio de barba que NÃO VIAJA NO TEMPO, mora no apartamento ao lado do protagonista e morre no segundo ato;
- Pepito é loiro dos olhos azuis, usa calça laranja e desconhece mangás;
- Amália é calma, indefesa e tem de ser salva várias vezes;
- Pedro é extremamente atlético, tem cabelos longos e aparece sem camisa a cada 10 minutos;
- Bob aparece sempre como uma cabeça metálica gigante dentro de um aquário e morre no final, quando alguém quebra o vidro;
- o Agente #1 é baixinho, iletrado e comete várias trapalhadas;
- Pinguin toca em uma banda, motivo pelo qual a maioria das músicas do filme serão interpretadas em playback por esse personagem (a cada 5 minutos).

Mais informações virão em breve por meio deste mesmo blog. Fiquem ligados! =D

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

(3ª TEMPORADA) EPISODE 02 - O Pregador

O sol da segunda-feira raiou, e com a luz e o calor vieram também as reclamações...

— Essa é a MINHA caneca, Gustavo!
— Cssss!

Como de costume, Amália e seu irmão estavam brigando. Por sorte, isso para os outros substituía o despertador quando este, por algum motivo, não tocava.

— É a caneca dos gatinhos! Ninguém mais gosta de gatinhos...
Eu gosto. ^^
— Cala a boca, Galarza! Eu tomo café nessa caneca há séculos, não há nenhuma razão lógica pra eu não fazer isso hoje, então me dáá...

*CRACK*

Pausa dramática: os gatinhos viraram cacos no chão da cozinha.

— Well... — Gustavo olhou do estrago para Amália e da Amália para o estrago sem saber muito bem o que dizer. — Se você queria uma razão lógica, aí está. ^^

E correu como um raio para pegar sua mochila e dar o fora da casa, antes que Amália saísse do nível “CHOQUE” para o nível “VOU-TE-MATAR”.

— Ele é... TÃO idiota. u.u

Galarza terminou seu achocolatado e foi atrás de uma pá para recolher os cacos.

— Olhe, Amália, se serve de consolo ouvir um problema de outra pessoa...
— Não serve. ¬¬
— Ontem à noite, enquanto você brincava com a Aiko, eu quase morri.
— Ah, é, me contaram. Na verdade, o Pedro me contou como você caiu e todos pensaram que tivesse empacotado, mas no instante seguinte se levantou e arrancou fora o colete de chumbo. Ex-colega de quadrilha, hein?
— De quadrilha e de Academia.
— Você malhava? o-o
— Okay, Amália... a conversa acabou. ^^

Ele jogou os cacos no lixo, guardou a pá e foi para a sala ver se conseguia jogar um pouco de Wii. Não conseguiu, pois no momento Pedro assistia TV com Aiko adormecida em seu colo.

— Pedro, eu pos...?
— Shh. A Aiko tá cochilando — disse Pedro com o olhar perdido na reportagem que passava.
— Mas eu jogo sem volume.
— Agora, não. Senta aqui comigo e assiste.

Galarza sentou-se também. Era um programa matutino da Rede Bobo, uma emissora recente de POA muito parecida com um outro canal brasileiro de fama internacional. Depois de um tempo Pedro perguntou a Galarza, em tom baixo para que Aiko não despertasse:

— Alguma novidade sobre o Dupont?
— Do fim da noite de ontem pra hoje, Pedro? u.u
— Sorry. A gente fica ansioso com essas coisas.
— Eu não. Já fui quase assassinado tantas vezes que até já perdeu a graça.
— O que me deixou intrigado foi essa sua visão, sabe? Que você disse que teve, com o Liebert...

O SPY se remexeu no sofá com desconforto.

— A-aquilo?... Não foi uma coisa tão assustadora — desconversou.
— Você quase urinou nas calças.
— Admito que foi chocante num primeiro momento, mas eu já superei. Experiência de Quase-Morte.
— Experiência de Quase-Morte?? Ele foi realmente pro Inferno, Galarza.
— Eu seeei!
— E se houvesse uma forma dele voltar para nós?
— Como Anjo da Morte? Ah, sim, seria muito positivo...

Pedro ia retrucar quando Gustavo veio do quarto dele inteiramente pronto para a escola.

— Tô indo, gente — ele lembrou-se da cozinha — A Amália por acaso está pronta?
— Só Deus sabe — falou Galarza, já alheio à conversa e ocupado com o celular.
— Shh! — fez Pedro.
— Sei, sei, a Aiko...
— Não é isso, é que eu quero ver essa matéria.

Pedro aumentou um pouco o volume da TV. Agora eles transmitiam o que parecia ser um sermão de pastor da Igreja Universal, mas não era bem isso. Um homem maduro e sério, de vestimenta impecável, falava para uma plateia enorme atrás de um púlpito, de costas para uma espécie de monumento do qual só se via a base quadrada feita em mármore.

“A vontade humana de se preservar e se corrigir é muito bonita. É uma dáááádiva da natureza, mas você não deve pensar que ela não é capaz de destruir. Essa mesma vontaaaade, meu caro, pode te levar à enganação!...”

— Puta que me pariu! — exclamou Galarza rindo-se todo.
— Shhh! — fizeram Gustavo e Pedro apontando para a menina que dormia.

O sermão continuava:

“É por isso que eu estou aqui, meu caro, para te mostraaaar...” — o homem parou para tomar água. “Te mostrarei que a única vontade verdadeeeeira é do Deus... A do Great Bossss!”

Galarza explodiu em risadas.

— Não acredito que ele disse isso!
— Shh!

Mas Galarza continuou rindo.

Agora a voz de uma repórter se sobrepunha à do pregador, enquanto as imagens da palestra permaneciam na tela.

“O Prof. Ichabod Finger já vendeu 1 milhão de exemplares de livros, além de ter dado mais de 100 palestras pelo mundo inteiro. Sua recente chegada a Porto Alegre confirmou os boatos de que nesta cidade será aberto o primeiro templo brasileiro da mais nova seita religiosa de que se tem notícia: o Fingerismo”.

— Okay, isso foi SINISTRO — com isso, Galarza parou de rir e concentrou total atenção à TV dali para frente. A repórter continuou falando:

“Na marcha em que está, Finger pretende reunir pelo menos 15.000 fieis na região até o Natal. Para os que criticaram sua campanha de divulgação e seus trabalhos literários, equiparando-os à venda barata de material de Auto-ajuda, Finger responde com um agradecimento e um convite...”.

A edição cortou para Finger diante de um microfone, parado no centro do mesmo auditório, agora sem pessoas. Atrás dele via-se, fora de foco, o monumento de mármore.

“O meu ‘muito obrigado’ aos que levantaram essas críticas: é sempre bom receber acréscimos e exortações das pessoas que acompanham o meu trabalho, e fiquem sabendo que serão muito bem-vindos na cerimônia de abertura da nossa sede em Porto Alegre, segunda-feira, dia 4 de Outubro. O Fingerismo é universal. Não faz distinção de cor, classe social, sexo, nem de outros credos. A única condição para seguir seus ideais é admitir a presença de Deus na natureza e na vida do homem, pois há tantas coisas incríveis, extraordinárias ocorrendo no mundo que seria muito presunçoso e até muito triste atribuí-las unicamente ao acaso. E é isso que tentamos enxergar com nossa fé. Tudo que Deus tocou está destinado a grandes maravilhas. Por isso que o chamamos O Grande Dedo”.

Ele apontou para o monumento atrás de si, que finalmente entrou em foco em sua totalidade: uma mão gigante de mármore com o dedo indicador em riste, direcionado para o ceu, para os grandes mistérios além do espaço.

O jornal mudou para uma matéria sobre coloridos. Pedro apertou “MUTE”, depois voltou-se para Grilo e Galarza para discutirem a questão. Nenhum dos dois, porém, parecia ter algo a dizer. Estavam tão tontinhos quanto ele.

— Isso sim quase me fez mijar — disse Galarza tenso.
— OK, vamos pensar racionalmente — disse Pedro, ainda mantendo a voz baixa por causa de Aiko — O nome dele é Finger, a seita se chama Fingerismo, eles têm um enorme DEDO como seu Deus: precisa dizer mais alguma coisa?
— Eu vou pra escola — disse Gustavo.

E foi.

— Por mais óbvio que pareça, Pedro, não consigo imaginar como o Dupont encontraria a seita, ou vice-versa — disse Galarza cansado.
— Isso é questão para investigarmos — disse Pedro — Seria interessante se nós fôssemos a essa cerimônia no templo hoje.
— ‘Tá louco? É suicídio!
— Você não precisa ir. A gente vai por você.
— E morrem na brincadeira? Sem chance. Eu vou, nem que seja disfarçado.
— OK. ^^ Que bom que mudou de ideia.
— Eu mudei de ideia?... Monstro, você me fez mudar de ideia!

O SPY mudou-se do sofá para a cadeira do computador e entrou na web procurando alguma coisa. Um minuto depois, falou:

— Eles têm o site oficial. Os Fingeristas. A abertura do Templo de Porto Alegre será à noite. Acho que eu conheço o endereço. Vamos eu, você e...?
— Se o Gustavo quiser, também pode. Ei, tem outra coisa.
— Mm?
— Quem eram aqueles velhos na oficina ontem à noite? Com as UZI’s? Você ficou bem tenso quando viu eles.
— Ah, Os Quatro?
— Não eram dois?
— Digo, eles são de um grupo que nós chamávamos Os Quatro, porque são os quatro grandes fodões da organização, tipo, eram capazes de cumprir qualquer ordem, a qualquer custo, desde que beneficiasse a D.F. Além do Fogg e da Paula, que você viu ontem, existe outro casal: o Albert e a Stephanie. Mas eles não são casados no rigor da palavra. Parece que têm filhos com pessoas diferentes, todos jovens e já dentro da organização. Não imaginei que continuassem na ativa. Se eles estão com o Dupont para me matar, então a coisa é realmente urgente. Querem a MINHA cabeça para poder executar um plano muito maior.
— Que envolve o Fingerismo, é claro.
— É.

Pedro soltou um bocejo e tirou uma mecha de cabelo de cima do rosto de Aiko.

— Cuidaremos disso esta noite. O que você vai fazer o resto do dia?

O SPY encolheu os ombros. Pedro disse:

— Arrume o que fazer, então. Você vai ficar ansioso e ninguém vai ter paz — depois ele gritou na direção da cozinha: — AMÁLIAAAA!
Quêêê?
— VOCÊ NÃO TINHA QUE IR PRA ESCOLA?

Amália botou a cabeça para fora da cozinha.

— Eu tinha? Pensei que, tipo, a gente tinha “se aposentado” dela.
— Você tem uma vida normal agora, gata. u.u
— PQP!

Ela saiu desasada pela casa a pegar suas coisas.


..........Na rua, rumo à escola, Gustavo foi surpreendido por um ser que brotou sem aviso de um arbusto e pulou nas suas costas, puxando-o pela alça da mochila. Ele sentiu os ossos da coluna estalarem dolorosamente e fez força para não cair para trás.

— AAAUCH, AUCH, AAAUCH! Gustavinho! ¬¬

O garoto saiu dos ombros dele e veio para a sua frente, apontando-lhe um dedo severo.

— Você mentiu pra mim ontem, Beckmann!
— Oi?
— Eu liguei pra sua casa depois de chegar na minha, e quem atendeu foi o Pinguin!
— O Ping...? Ah. Shit.
— Vocês tinham dito que ninguém além do Galarza podia dormir na casa de vocês. Mas por que ele ficou lá até tarde, então? u.u Eu podia ter ficado também! ¬¬
— Não foi questão de poder ou não poder, Gustavinho, é que meus pais estão em Cingapura e...
— O Pedro tá lá todos os dias! Ele e aquela menina que tá sempre de cosplay.
— É que eles são... eles são...

Bem quando Gustavo pensava numa explicação convincente a dar para o amigo que não o obrigasse a entregar toda a verdade, Pepito chegou perto dele, a caminho da mesma escola, falando sem ver Toshiro.

— A pior parte de ser normal é ter de dar satisfações à sua mãe... Auch!

Ele levou um pisão de Grilo e finalmente notou a presença de Gustavinho.

— Mas oi, Gustavinho! =D Beleza?
— Oi, Pepito. Sabia que seu amigo Beckmann me excluiu da casa dele ontem à noite?
— Que merda pra você, hein. Porque ontem eu tava lá e...

Ele parou ao ver a cara de Gustavo, que por trás da sutileza dizia claramente “VOCÊ NÃO ESTÁ AJUDANDO”. Gaguejou um pouco e corrigiu-se:

— Pois é, Gustavinho... É que era domingo, tá ligado, e fica chato dormir nos outros um dia antes do recomeço das aulas. Porque... erm... a pessoa, no final de uma contagem de duas semanas, teria 14 dias. Acontecendo esses 13 dias do mês, a pessoa tá mais desgastada do que se fechasse a chave das duas semanas...
— Assim tá bom, Pepito — falou Gustavo sorrindo amarelo — Que tal irmos pra escola? Aposto que o Gustavinho está atrasado pra dele.
— Ah, eu vou pro mesmo colégio de vocês =D — disse Toshiro — Fiz a transferência semana passada.

Pepito e Gustavo se entreolharam com caras de “QUE BOOOM”. Por fim, os três andaram juntos até a escola do presidente que tinha a vara grande.

.........Por volta das sete da noite, Galarza acordou de um cochilo longo e foi até a sala de estar ver se Pedro já estava pronto. Estava ajudando Aiko a montar um quebra-cabeça, enquanto Amália navegava na Internet. Pigarreou.

— Ah, você acordou! — Pedro ficou de pé e pegou o casaco — Vamos?
— Aonde vocês vão? — gritou Amália de onde estava, no momento em que Gustavo chegava da rua.
— A gente vai dar uma olhada naquele Templo Fingerista que abriram.
— Ah, vocês vão? — Gustavo entrou na conversa — Custa alguma coisa?
— Um quilo de alimento não-perecível. Caridade e talz.
— Se o Gustavo for, eu vou também! — disse Amália se levantando.
— Mas quem vai cuidar da Aiko? D=

Naquele momento ele sentiu um puxão na jeans. Era Aiko chamando sua atenção.

— Que foi, maninha?
— Pede pra moça da guitarra ficar comigo. *.*

Todos se perguntaram ao mesmo tempo: “Moça da guitarra?”. De repente Amália começou a rir.

— Ai, meu deus! Aiko, querida — ela falou em tom gentil à criança —, o Pinguin é meninO. Ele é Gabriel. Não Gabriela.

Galarza contorceu-se de tanto rir.

— Você acha graça porque ela ainda não confundiu você. u.u
— Okay, então a Amália chama o Pinguin pra cuidar da Aiko enquanto a gente vai no Templo — disse Pedro — Gustavo, você dá uma olhada nos alimentos. Veja se não tem nada faltando.
— Alright...
— O Galarza e eu esperamos lá embaixo.

.........Quinze minutos depois, os quatro estavam a bordo de um táxi rumo ao prédio do Templo, que segundo o site ficava perto do Centro. Chegando ao local, perceberam que não seria pouca coisa: havia imprensa, fotógrafos e gente da alta sociedade atravancando a entrada ao mesmo tempo que a população comum. Na fachada havia pilastras de ouro e uma escadaria com um tapete vermelho conduzindo o visitante aos portões centrais, que mediam pelo menos cinco metros de altura cada.

— O cara sabe mesmo vender livros — comentou Gustavo quando eles desciam do táxi.
— Os Antigos faziam suas construções mais importantes com portões gigantescos pensando que, dessa forma, os deuses poderiam entrar nos edifícios e residir neles — contou Pedro.
— Onde você achou isso?
— Matt me disse. Há muito, muito tempo. Vamos entrar na fila.

Diferentemente do que pensavam, a espera não durou muito tempo e nem houve confusão por causa de furos na fila ou por melhores lugares na plateia. Todos receberam a mesma atenção. A única restrição feita, coincidentemente logo depois que Pedro, Amália, Gustavo e Galarza (disfarçado com uma calça branca e uma estranha touca à lá Chaves) entraram, foi devido ao número de assentos.

— Sinto muito — disse a moça que cuidava da porta aos que haviam ficado de fora — Pelo menos esta noite haverá limite de pessoas.

Os jornalistas também foram barrados, para horror dos seus egos.

Lá dentro, os quatro adolescentes escolheram assentos os mais próximos possíveis do palco, onde havia um púlpito e a tradicional escultura que eles viram na T.V. Para completar, um telão logo acima da mesma exibia uma foto promocional do Prof. Ichabod Finger, com uma citação: “O Reino Dele não era deste mundo. O meu, porém... quem sabe”.

Pinturas renascentistas recobriam o teto e as paredes, mas eles não puderam olhar por muito tempo porque logo em seguida as luzes se apagaram, e o homem alto e elegante da imagem surgiu de carne e osso no palco defronte a eles, sendo recebido por uma chuva de aplausos. Ele sorriu modestamente e acenou pedindo que “Pelo amor de Deus, parem”, visivelmente embaraçado. Quando se fez silêncio total, ele começou:

— “Viver, morrer, renascer, progredir sempre. Tal é a lei”. “Fala a verdade, mesmo que ela esteja contra ti”. “Felizes são os que ouvem a palavra de Deus e a guardam”. “Conhece-te a ti mesmo”... Quanto conhecimento o homem já produziu e quão pequeno ele ainda é!

No telão uma nova imagem surgiu.

— Creio que a maioria de vocês conhece essa obra. Concebida por Michelangelo, o gênio renascentista, ocupa o imaginário humano até os dias de hoje. É uma obra que não envelhece, por mais que os séculos corram, assim como o tema que ela retrata. Notem que, apesar da grandiosidade visual do cenário — Deus, os seres celestiais, Adão sentado sobre a Terra —, o ponto central da obra é muito simples.

A imagem recebeu um ZOOM.

— A real preocupação do artista era mostrar esse espaço diminuto, quase imperceptível, entre a perfeição divina e a inferioridade do homem, entre O que tudo pode e o mero mortal, entre o saber completo e a eterna dúvida. Há várias oposições que eu poderia citar, mas vocês ficariam com sono, e eu não queria causar a impressão de ser um grande chato logo na minha primeira visita a Porto Alegre.

Os portoalegrenses riram.

— Em minhas viagens pelo mundo eu vi muita coisa. Muitas coisas belas e outras tantas... não tão belas. Tentei registrar um pouco da minha experiência, como se isso significasse alguma coisa (mais risos), em dois livros cujas vendagens foram muito bem-sucedidas, sinal de que, afinal, para alguém o meu blá-blá-blá fez sentido. Mas a verdade, meus caros, era muito maior do que isso. Eu a estive segurando, com medo de que, ao expôr minha voz e minhas ideias ao grande público, fosse rotulado de louco ou pilantra como tantos outros são. Mas parece, pelas boas recepções que venho tendo, que a hora de dizê-la enfim chegou.
— Meus amigos, o mundo como conhecemos está em estado de emergência. Nunca nos vimos tão ameaçados por nossa própria ganância, nossa própria tendência à violência. Torna-se cada vez mais necessário reaproximar nosso espírito com Aquele de onde tudo provém. Fazer o que o Adão de Michelangelo jamais conseguiu: alcançar Seu divino dedo. Eu me perguntava como fazer isso e, desesperado como muitos de vocês, eu quase desisti. Foi quando Ele veio até mim em sonho e me disse que a resposta pela qual eu tanto implorava finalmente viria. Mas não seria fácil. Eu teria de lidar com Seu Saber antes de transmití-lo ao resto do mundo. Então Ele me deu — e aquilo materializou-se diante de mim mesmo após o sono acabar — uma chave para Seus enigmas. Uma que, se eu aprendesse a usar, traria enormes tesouros para o espírito do homem. Ele entregou-me, meus caros presentes, seu Cetro Branco do Saber: o Controle da Vida!

Aplausos. O professor acenou com a cabeça e continuou:

— É essa ferramenta, amigos, que tem me orientado desde o início de minha peregrinação. Ela envia-me luz, e da luz me vêm os desígnios Dele. O que fazer. Quando fazer. Eu me sinto mais livre, amigos, estando mais perto d’O Grande Dedo. E essa sensação eu queria compartilhar com vocês de agora em diante, aqui em Porto Alegre, em mais este Templo Fingerista, que é o primeiro a ser instalado no Brasil!

Mais e mais aplausos.

Hipnotizada, a plateia o escutou por mais meia hora até o início do “Coffee Break”, quando o professor retirou-se por uma porta ao lado do palco e as pessoas foram petiscar biscoitos e pães enquanto jogavam conversa fora.

Pedro, Amália, Gustavo e Galarza primeiro procuraram um canto longe das beatas e dos ricos, aí então começaram a conversar.

— Precisa ficar mais óbvio? — sussurrou o SPY em tom nervoso — Eles querem fazer lavagem cerebral no planeta inteiro. Por isso eu tenho que estar morto!
— Espere, ainda não vimos a conexão com a Doom Finger.
— Precisa, Pedro? O nome do puto é FINGER, tem a porra de um DEDO de mármore em cima do palco, a maldita seita...
— OK, OK. Mas, enquanto eu não vir o Dupont novamente, não vou ficar tranquilo. Não era ele o verdadeiro boss da organização agora? Você devia saber disso. u.u
— Eu nunca ouvi falar de um Ichabod.
— Mas isso não impede que Dupont tenha achado o cara e trabalhado a ideia junto com ele — disse Gustavo — Tipo assim, o francês tá doido de pedra por causa da perda de memória. Todos eles estão. Não é de admirar que tenham apelado para a fé.

Os outros concordaram.

— Fora essa história de “Controle da Vida” — continuou Grilo — Será que só eu fiquei impressionado com isso?
— Sei láá, o que a gente faz em seguida? — indagou o SPY — Sequestramos ele?
— Tenho uma ideia melhor — disse Amália.

Eles seguiram Amália por uma das saídas de emergência, a única parte do Templo no lado de dentro que não estava vigiada por seguranças (Ichabod era religioso, mas não burro). Uma vez fora, deram a volta no prédio até acharem uma entradinha pelos fundos.

— Eu sabia! Este lugar já foi um clube gay durante os anos 1980! — disse a menina.
— O Matt também te disse isso? — perguntou-lhe Gustavo.
— Não, essa eu achei sozinha no Google Maps. Agora, esperem um momento que eu vou... consegui!

Ela forçou a maçaneta de ferro até ela ceder, e a porta se abriu para um corredor vazio e pouco iluminado.

— Fiquem os três aqui, que eu vou dar uma olhada nos bastidores.
— Não seja louca! D= — reprovou Pedro apreensivo — Você não é a Hermione Granger!
— Shh! Eu vou e já volto. Segurem a porta.

Assim ela foi. Os guris cruzaram os braços e esperaram.

.........O corredor dava para várias salas vazias — ex-banheiros e depósitos desativados —, terminando num lance de escadas pelo qual Amália subiu após checar cada compartimento do piso de baixo.

Caminhando pelo andar superior, ela quase esbarrou num segurança de terno, que felizmente vinha apressado demais para se dar conta de qualquer pessoa no seu caminho. Escondida atrás de uma lona, Amália esperou até não ouvir mais os passos dele à distância e continuou sua caminhada.

Uma placa de latão em uma das portas dizia “PROF. FINGER – GABINETE”. Ela chegou perto da porta, encostou o ouvido na madeira, pegou a maçaneta e a girou devagar, com o mínimo de ruído possível, depois empurrou-a um tantinho para dentro, apenas o suficiente para entrever o que o homem fazia lá dentro.

Finger falava de pé para um viva-voz em cima da sua mesa. Andava para lá e para cá, orgulhoso e humorado.

— Agradeço o elogio, senhor. Garanto que não se decepcionará com meus resultados aqui, em Porto Alegre.

A voz do outro lado respondeu em um inglês carregado de pronúncia francesa:

— I am hopefully waiting for that, Professor. Besides that, I would like you to inform me about your advances on the Youth Project…

Amália ouviu passos muito próximos dela e congelou de pavor. Não ouviu o que o francês disse depois, pois ficou ocupada em se esconder, mas quando virou-se já era tarde. O mesmo segurança que passara por ela, um homem com o dobro do seu tamanho, olhava-a do alto de um jeito ameaçador, seus corpos a poucos centímetros de distância.

— A senhorita deseja...?
— Er... Erm...

Ele a pegou pelo braço e a levou para dentro à força. Finger acabava de se despedir do francês. Quando viu a garota, ficou muito desconcertado.

— Com licença, professor. Esta senhorita estava espionando atrás da sua porta.
— Tava, nada. u.u
— Acalmem-se, por favor — pediu Finger placidamente — Minha jovem, por gentileza me diga o que veio fazer aqui. Por acaso tinha algo a dizer ou a me perguntar?

Amália olhou dele para o segurança, e deste para o professor, e limpou a garganta.

— Na verdade, eu... Eu estou tão confusa!

Ela se atirou aos pés do homem num choro convulsivo.

— As paredes estão se fechando em volta de mim, toda a vida parece tão sem-sentido, eu acho que não vou durar muito tempo!

Ela chorava como uma donzela de cinema. Sem-jeito, Finger dispensou o guarda e fez com que ela se levantasse e se sentasse numa cadeira.

— Pronto, pronto. O pior já passou. Agora veja, minha filha, você veio até nosso Templo, não veio? Você vai achar algo que lhe dê sentido.
— Eu não sei... ‘Tá tão difícil de acreditar nas pessoas hoje em dia! D=
— Não pense assim! Confie no Deus! Você não precisa de mais ninguém se estiver com Ele...
— Mas... eu... — Amália soluçava, mantendo a interpretação — ... não... tenho... a ferramenta p-pra isso...
— Como assim?
— O senhor sabe... O senhor disse lá em cima que tinha o Controle...
— Mas, minha jovem... — incerto, Finger pigarreou e arrumou o cabelo atrás da orelha para ganhar tempo — Isso é algo que nem eu ainda consegui entender completamente.

Amália fez beicinho.

— Mas o senhor prometeu que compartilharia com o mundo! =( Por que não comigo?
— É mais complicado do que parece, querida. Escute: eu estava falando com um amigo meu, um sócio muito generoso, que me deu uma ideia extraordinária que pode lhe fazer se sentir melhor. Você por acaso gostaria de participar da Juventude Fingerista?
— Juven...?
— Você teria a honra de ser uma das primeiras a se inscrever...

Uma lembrança veio de assalto à mente de Amália, que afastou o homem com um empurrão e saiu correndo da sala. Confuso, Finger olhou para baixo e viu que ela deixara algo cair: um documento de identidade. O professor o juntou do chão e observou-o por alguns instantes. A foto não lhe disse nada a princípio, mas o nome e o sobrenome o fizeram cair para trás.

— Armando! Armando! — ele saiu chamando o segurança que há pouco estivera em sua sala — SOCORRO! GUARDAS!

Três deles, além do tal Armando, vieram correndo.

— A menina que veio aqui! — mostrou-lhes o RG — Não a deixem escapar! Ela saiu pelos fundos!

.........Amália acelerou a corrida até sentir uma ardência abaixo das costelas. Aos tropeços atravessou a porta da maçaneta de ferro, atrás da qual, conforme ela pedira, os garotos a esperavam.

— Wow, wow, wow! — Pedro teve de colidir com ela para que diminuísse o passo — Calma aí, Amália. O que aconteceu?
— VAMOS... EMBORA... — a garota ofegava tentando falar — O FINGER... ME DESCOBRIU... JUVENTUDE... FINGER... Ah, vamo, porra!

Ela correu na direção de um ponto de táxis, e os três a seguiram na mesma velocidade. Naquele instante a porta se escancarou de novo, e os quatro guardas do Templo saíram à toda pelo mesmo caminho.

— Ela tá acompanhada! — gritou um deles.
— Não interessa. Não deixem escapar! — gritou Armando.

Amália tropeçou a centímetros do táxi e caiu por cima do capô, quase matando o motorista de susto.

— Desculpa! D= — pediu Pedro ajudando a namorada a se levantar. As duplas se apertaram como podiam dentro do carro, e o garoto disse o destino: — Botafogo com a Érico.

O táxi partiu um microssegundo antes de os seguranças alcançarem o ponto. Cansados e frustrados, só puderam assistir enquanto o carro da fuga desaparecia no meio do tráfego noturno.

.........A porta foi aberta com tanta força que Pinguin deu um pulo no sofá. Seus amigos voltavam mais cedo do que ele esperava — e muito mais tensos também.

— Eu pensei que eu ia morrer! D=
— Calma, Amália!
— Mas Pedro, eles podiam ter nos pegado e... sei lá!

Pinguin lançou a Gustavo um olhar de “Hã?”, ao que ele respondeu encolhendo os ombros.

— Vocês me explicam direito o que aconteceu, por gentileza? — pediu Galarza com certa impaciência.
— Eu não sei, a Amália ainda não me disse! u.u — disse Pedro alterado.
— Assim, eu fui até o escritório dele e o ouvi conversando com um cara pelo viva-voz. Mas o cara falava em inglês, então eu não entendi porra nenhuma...
— Como era a voz dele? Rouca, aguda, jovem, velha?
— Era normal, eu acho... Parecia jovem, e ele tinha um sotaque meio francês.

Galarza fez um facepalm e disse:

— Dupont.

Pedro assentiu e continuou falando com Amália:

— E depois?
— Um segurança me viu e me confrontou com o Finger. Eu fiz uma encenação lá, fingi que tava chorando, disse a primeira coisa que me passou pela cabeça.
— O que você falou pra ele?
— Eu comentei o Controle da Vida, e ele ficou muito nervoso, desconversou e começou a me falar sobre uma Juventude Fingerista. Foi aí que eu saí correndo.

Galarza esmurrou uma mesa.

— Eu sabia! — exclamou — O Dupont vai usar a religião para recrutar jovens, como pretendíamos fazer nos velhos tempos.
— Como assim? — indagou Gabriel.
— O Negão tinha bolado um plano junto com os representantes internacionais da Doom Finger para atrair jovens à nossa causa. Na época, ninguém sabia muito bem como fazer isso, mas agora o Dupont arrumou um jeito de tentar. Também é por isso que eu tenho que morrer: o Negão me escolheu como líder da Juventude no Brasil.
— Então, a organização está saindo do anonimato pra fazer a cabeça do grande público — disse Pedro em voz baixa e preocupada — É mais perigoso do que pensávamos.
— Também não vai dar mais pra eu ficar aqui — disse Galarza raciocinando depressa — Quanto antes eu sumir do mapa, melhor pra vocês.
— Você não precisa...
— OH, FUUUCK!

Eles olharam confusos para Amália, que botou as mãos na cabeça e disse com horror:

— Esqueci meu RG no Templo!

Todos fizeram facepalm.

— Ele vai saber onde eu moro e vai me matar! Vai matar todo mundo!

Ela se recolheu em posição fetal no sofá. Pinguin se esquivou com medo. Galarza fungou de cansaço.

— Isso só piora as coisas.
— Não tem outro jeito, então — falou Pedro — Eu, você, a Amália e o Gustavo precisamos desaparecer. Mas não pode ser em Porto Alegre. E não podemos deixar a Aiko sozinha. A propósito, onde ela está? — perguntou a Gabriel.
— No quarto da Amália desenhando.
— Bom. Você ou outra pessoa terá que levá-la pra minha casa. Neste apartamento ninguém fica, porque não é seguro. Entendeu?
— Mas pra onde vocês vão? Não podem simplesmente se atirar em qualquer lugar.

*DING, DONG*

Todos olharam assombrados para a porta, até mesmo Amália, que disse:

— Cara... essa campainha só pode ser mágica!

Gustavo espiou quem era e disse:

— É o Bruno.

Fulgêncio entrou com a alegria e o uniforme de sempre.

— GUSTAVOOO! E aí, pessoal, beleza?
— O que você veio fazer aqui dessa vez, Bruno? o-o — indagou Pedro.
— Sei lá, eu tava em casa sem fazer nada, liguei pro Pepito, mas ele tá com um trabalho do colégio pra fazer e... Sei lá, como eu não tinha o número daqui, resolvi vir. Vai que vocês precisavam de algo. ^^
— Éé... tipo, a gente tava atrás de um bom lugar para se esconder — falou Galarza em tom amigável, apoiando o cotovelo no ombro dele.
— Vocês vão se esconder? Não tentaram te matar de novo, tentaram? D=
— Não exatamente...

Galarza explicou muito sucintamente a Bruno por que ele estava sendo perseguido e como Amália, Gustavo a Pedro haviam se envolvido, excluindo qualquer menção a Google, videogames, Bob e similares. Fulgêncio o compreendeu com facilidade e disse prontamente:

— Então, vocês vêm pra Bagé comigo! *.*

Amália fez “Oi?”.

— Minha cidade natal. Duvido que eles suspeitem da minha ligação com vocês. Esse é o melhor lugar, sério. Se vocês estão pilhados, eu estou.

O quarteto pensou um pouco a respeito — que outra opção eles teriam?

— Okay, Bruno, nós vamos com você — disse Pedro finalmente.
— YUPEEEEEE.
— Ahh, eu queria ir pra Bagé. =D
— Você vai ficar na MINHA casa com a Aiko, sr. Pinguin.
— Tá, sorry. =[
— Eu vou te dar as chaves e o dinheiro pro táxi. Todo mundo arrumando as malas! O resto vem comigo e com o Bruno.

.........Levaram ao todo dez minutos para se aprontar. Ao final disso, o táxi que eles pediram por telefone veio e parou na frente do condomínio. Apenas Aiko e Pinguin, por segurança, entraram nele depois de uma longa e dramática despedida feita por Amália.

— Jamais esqueça a mamãe! *.* — dizia ela, com lágrimas nos olhos, abraçando a criança.
— Amália, vâmo nessa — sussurrou Pedro entre dentes — O taxímetro tá correndo, e você tá sendo melosa demais. Ninguém tá indo pra guerra.

Mas ela não ligou. Só terminou quando terminou.

Depois que o táxi partiu levando os dois amigos, os cinco que restaram seguiram a pé pelo caminho oposto, com o Cabo Fulgêncio na liderança. Iam pegar um ônibus para a rodoviária, e de lá... Bagé. ;)

Do nada, quando dobravam uma esquina, uma sombra pequena trazendo algo nas costas saltou de um arbusto e prostou-se na frente deles. Todo mundo gritou, exceto Bruno, que abaixou-se com curiosidade.

— Ora, o que você tá fazendo aqui?

Era Gustavinho. Ele trazia sua mochila. Com o pijama dentro.

— Eu sabia que vocês iam me excluir de novo! — disse em tom acusatório, apontando para os quatro atrás de Bruno — Mas por quê? Não faz sentido festa numa segunda-feira!
— Jumento, alguém aqui te parece no clima de ir a uma festa? — praguejou Galarza.
— Não temos tempo, pessoal — alertou-lhes Pedro de olho no relógio — Podemos perder o ônibus se continuarmos aqui discutindo.
— Okay, então... — Gustavo deixou o grupo um instante e foi falar com Toshiro — Escute, Gustavinho: nós estamos com um problema de vida ou morte. Se levássemos você junto, você provavelmente morreria também. Você ficaria feliz com isso? Imagino que não. ^^ Então, deixa a gente passar.

Ele não deixou.

— Eu vou me lembrar disso, Grilo!

Uma van preta parou no sinal vermelho, à esquerda de onde eles estavam. Abriu a porta lateral.

Agora as cinco vozes se misturavam na mesma gritaria. Com exceção da de Bruno, que tomara a precaução de vigiar as redondezas e agora gritava olhando para o semáforo:

— CORRAM! CORRAM PRA DENTRO JÁ!

Dois encapuzados com metralhadoras começaram a abrir fogo de dentro da van preta. Os jovens se abaixaram e foram puxando uns aos outros para o interior de um barzinho atrás deles. Os clientes e o dono também tiveram de se jogar no chão enquanto as balas peneiravam o balcão, as paredes, os vidros...

Pedro rastejou para perto de uma mesa de sinuca, virou-a de lado com os pés e se abrigou atrás dela. Gustavo e Galarza juntaram-se a ele na barricada improvisada.

— Aqui, Amália! Bruno! — chamou Pedro.

Os dois amigos vieram se arrastando para perto deles e se protegeram também.

— Cadê o Toshiro? — berrou Grilo.
— Eu não sei!

Ele estava atrás do balcão com os olhos cobertos, incapaz de se mover. Galarza sacou a pistola e gritou o seu nome até que ele abrisse os olhos.

— GUSTAVINHO! EU VOU TE DAR COBERTURA!

O SPY esticou a arma para cima da borda da mesa.

*BLAM! BLAM! BLAM!*

Os homens na van pararam momentaneamente de disparar. Foi a deixa para Gustavinho sair de perto do balcão e se abrigar junto aos outros. Um segundo depois, o chumbo comeu de novo.

— Meu Deus, Galarza, onde você arrumou...?
— Cala a boca agora — disse o SPY tirando outra pistola da cintura — Bruno, pega essa. Nós vamos dar tempo aos outros. No 3: 1... 2...

Os dois se levantaram atirando. Imediatamente os outros foram saindo pelos fundos: primeiro Amália, depois Gustavo, depois Gustavinho, por fim Pedro.

Galarza sentiu o gatilho fazer “CLICK”. Sem munição.

— Se esconde! — gritou para Bruno, tomando cobertura atrás de uma estante de bebidas.

O Cabo foi para trás do balcão e continuou disparando enquanto o outro recarregava.

*BLAM! BLAM!*

— A minha acabou, Rafael!
— Espera!

Um dos homens com a metralhadora pegou uma granada e arrancou o pino com a boca. Preparou o arremesso.

Quase em câmera lenta, Galarza viu a granada girando em pleno ar, perto de tocar o chão. Atirou um pente cheio nas mãos de Bruno, que recarregou, e os dois ergueram as armas ao mesmo tempo.

.........Amália, Pedro, Grilo e Gustavinho se abaixaram de novo quando ouviram a explosão. Ouviram gritos distantes e alarmes de carros.

Amália levantou-se com terror nos olhos e fez menção de correr para o foco das chamas, mas Pedro a puxou de volta pela cintura.

— Não, Amália! D=

De repente vieram Bruno e Galarza pela porta dos fundos, os dois bastante chamuscados, mas felizes.

— Nóis é foooda! — exclamou Fulgêncio.
— O que aconteceu?
— A gente pegou eles, Predo! =D
— Alguém no bar morreu?
— Sei lá. o.o

Galarza veio e disse:

— O meu RG diz “Rafael Galarza”, não “Jesus”.

Uma caminhonete preta de quatro portas parada na mesma rua acendeu seus farois, como um ser inanimado que de repente ganhasse vida, e acelerou para cima da calçada, exatamente onde eles estavam.

*VOOOOOSH*

Eles correram todos juntos no último momento. O carro acertou o muro.

— ‘Tá brincando comigo u.u — reclamou Amália.

Pedro puxou-a pelo braço e gritou para todo mundo:

— Vamos, rápido!

Os seis dobraram a rua e entraram na avenida, onde um School Bus da Cultural vinha vindo em baixa velocidade, cheio de crianças dentro. Bruno foi para o meio da pista, abriu os braços e gritou:

— PAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAARA!

O ônibus parou de súbito, quase encostando o parachoque no peito dele. Feliz, Bruno bateu na porta até ela se abrir e entrou no veículo.

— Excusez moi!

Do lado de fora, ignorando os gritos e as buzinadas dos outros carros, Pedro, Amália e cia. esperavam por ele. Gustavinho cutucou Grilo e perguntou:

— O que ele tá fazendo???
— Falando francês com um monte de estudantes de inglês.

Finalmente a porta de trás se abriu, e dezenas de crianças de uniforme desceram aos gritos para a avenida, seguidas por último pelo motorista. Bruno enfiou a cabeça para fora da janela e gritou a plenos pulmões — “ENTREM!” —, ao que os outros obedeceram sem titubear.

Sendo o último a subir, Pedro lacrou a porta traseira e foi até Bruno para ralhar com ele:

— Estamos roubando um ônibus escolar!
— Réplica de ônibus — corrigiu Bruno sorridente — Agora... onde é o freio? o.O

Ricochetes de tiros atingiram a frente do ônibus sem, no entanto, danificá-la. Aparentemente, a lataria era blindada. Bruno esticou a cabeça acima do volante e enxergou a caminhonete que quase os atropelara parada no meio da avenida com as portas abertas. Na frente dela, quatro homens de capuz e coletes à prova de balas atiravam contra eles com fuzis e metralhadoras.

Bruno não se preocupou.

— Ora, ora ^^
— VAMOS FICAR PARADOS AQUI?? — protestou Gustavinho com medo na voz — ATÉ ELES NOS MATAREM?
— Não, só até eu descobrir como faz pra essa coisa andar — disse Bruno tranquilamente — Além do mais, o ônibus é blindado.
— Por que alguém faria um School Bus blindado?
— Ué, as crianças ricas da América são o futuro do mundo...
— ANDA LOGO COM ESSA PORRAA! — berrou Pedro.

Bruno engatou a terceira e pisou com tudo no acelerador. O ônibus saiu do lugar com o ruído angustiante de pneus riscando o asfalto. Os atiradores saltaram para fora do seu caminho quando ele passou, colidindo em cheio com a caminhonete.

*KABRUM!*

O veículo menor voou pelos ares com o impacto. Os encapuzados ainda dispararam a esmo enquanto o ônibus seguia rua acima, mas as balas apenas ricochetearam na traseira blindada.

CONTINUA...

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

(3ª TEMPORADA) EPISODE 01 - Assuntos Pendentes

...........Às 20:52h, Pepito deixou a casa de Amália, na rua que um dia se chamara Rua da Amália, mas que agora era apenas Rua Botafogo — nome que, pensando bem, era suficientemente neutro, já que não era apenas ela que morava naquela casa, mas também Gustavo, que — LoL! — tinham acabado de descobrir que era seu parente.

Pepito não permitiu que ninguém o acompanhasse. Pôs as duas malas de viagem grandes que levava pesadamente debaixo dos braços dentro do porta-malas do Fusca vermelho, ocupou o assento do motorista e deu mais uma olhada demorada na direção do edifício.

Costumava ser mais fácil quando não tinha de fazer tudo sozinho, pensou consigo mesmo, dando a partida no carro. Rodou por longos períodos Porto Alegre afora, até achar um local. Um ponto perfeito onde, ele sabia, ninguém mais cogitaria procurar. As... coisas ficariam bem guardadas ali, debaixo da terra, adormecidas, e não se falaria mais no assunto. Esse fora o acordo, uma semana antes de Matt Liebert ir embora.

*FLASHBACK*

— Obrigado por virem, gente — falou Matt Liebert no silêncio da sala de estar de sua casa — Vou tentar falar rapidinho aqui...
— Isso é de comer?
— Perdão, Amália?...

A garota, sentada no sofá no espaço à direita de Pedro, apontou para a mini-escultura de um velhinho sentado com um livro em cima do móvel abaixo do espelho. Matt coçou a cabeça.

— Er... Não. ‘-‘
— Parecia de comer.
— Enfim... — ele silenciou por um instante depois disso — Onde eu estava mesmo?
— Você ia dizer por que nos trouxe aqui ;)
— Ok. Valeu, Gustavo. Er... Agora que não existe mais GOOGLE e a trégua entre Humanos e Cibernéticos es’Tá valendo, nós precisamos cumprir nossa parte do trato. Ou seja... livrar-nos de todos os Itens, Armas, dinheiro, L.C.’s... tudo que diga ao respeito ao Jogo.

A insatisfação foi geral. Todos começaram a falar ao mesmo tempo, em tons indignadamente altos, sem que ninguém se entendesse. Matt gastou alguns minutos fazendo sinais com as mãos e assobiando, até desistir e abaixar a cabeça. Coube a Pepito dar algumas porradas na mesa para fazê-los se calar.

Calaram-se.

— Desculpem-me... Façam o favor de ouvir o Matt. u.u
— Ele pode falar o que quiser. Mas não vejo por que somos obrigados a entregar nossos poderes depois de termos vencido — falou Galarza com certa rispidez.
— Meu, ainda acho que aquele negócio é de comer...
— Fica quieta, Amália — sussurrou Pedro à namorada.

Matt apoiou-se de costas na parede, com os braços cruzados, e tomou a palavra novamente, dessa vez com mais paciência.

— Pessoal, isto é sério. Faz uma semana que a GOOGLE caiu, e ainda não cumprimos com nossa parte. Ao contrário do que o Galarza disse, nós não “vencemos”. Ninguém venceu.
— Woow, valeu! u.u — disse Galarza em tom alto, atirando o corpo para trás do braço da poltrona e ficando só com as pernas aparecendo por cima. Eles o ignoraram.
— Isto é uma trégua, porra. u.u Ou melhor: se alguém tem perfil de vencedor aqui, não somos nós. São eles! Os Cibernéticos manipularam o arquivo de Backup e reconfiguraram a Terra. Sem a ajuda deles, teríamos sido capturados, mortos e tudo voltaria a ser como era antes. Por isso, não tem jeito. Não podemos ratear. Se vocês querem que o mundo fique seguro por pelo menos mais alguns anos, precisamos parar de jogar!

Os outros pensaram a respeito. Viram que, bem ou mal, aquela era a saída mais segura.

Gustavo levantou o dedo para falar.

— ‘Tá, Matt, eu concordo, mas... O que nos garante que o outro lado vai honrar a trégua também?

Matt falou com simplicidade:

— Nada. Mas foi assim que ficou acertado, e é assim que faremos. Posso até.. — ele refletiu por um momento e então disse: —. Olhem só: o acordo diz que os Players devem se manter longe dos Itens, das Armas e das Quests, mas não especifica se eles têm que destruir os objetos.

Seus amigos entenderam o espírito da ideia e sorriram, sacudindo as cabeças em afirmação.

— Portanto, digo que seria interessante escondermos as coisas, mas em lugar secreto pra caralho, digo, secreto afu, porque não quero saber de gente mexendo. u.u E aí não tocamos mais no assunto... enquanto a trégua estiver funcionando.

Eles todos comemoraram (- AEEE /o\), e, depois que a conversa terminou, quando desviaram as atenções para as próprias conversas e piadas internas, Matt inclinou-se para perto de Pepito e perguntou-lhe:

— Você acha que dá conta?

*FIM DO FLASHBACK*

............Ele pôs as malas no chão, pegou a pá de dentro do carro e começou a cavar lenta e profundamente, sem pressa, pois não circulava ninguém mais por aquela área. Quando terminou o serviço — um buraco de 2,5m de largura por 2m de profundidade —, puxou os zíperes das duas malas e começou a retirar os artefatos um a um, acomodando-os gentilmente dentro da cova. O guarda-chuva que Pinguin usara para detonar um punk, hoje quebrado ao meio (não o punk, o guarda-chuva), a guitarra que emitia ondas supersônicas (pertencente à mesma pessoa, com quem ele teve de brigar para confiscar), a espada e o machado fabricados por Aiko... Nenhum Item especial ou Arma foi poupado. Por último, foram os LifeControllers. Destes, sim, ele sentiria saudade. Muita.

Assim que depositou o último objeto na cova funda, todo o conjunto de parafernálias do game começou a brilhar de um jeito convidativo, como quando um jogador se desfaz de um item importante para se ater a outro mas ele continua no cenário, esperando pelo dono. Pepito ignorou o fenômeno e apenas jogou terra em cima de tudo.


............Três meses depois do dia em que Pepito “sepultou” os objetos do RPG, que foi o mesmo dia em que Matt Liebert despediu-se dos seus amigos em um parque ensolarado, toda a turma de ex-Players — além de Pepito, Pinguin, Gustavo, Pedro, Amália e Galarza — preparou-se para um evento de anime em uma das escolas mais importantes de Porto Alegre; a cidade que, em um passado negro, agora enterrado no subconsciente coletivo, já se chamara Gay Harbor. Eles tinham que sair cedo de casa; de preferência às oito e meia da manhã, no domingo, porque 1) todo otaku foda tem que acampar na fila dos que compraram ingressos antecipados e 2) Amália, sempre adiantadíssima, precisava entrar na fila dos sem-ingresso porque ainda não havia comprado o seu junto com os outros...

Antes de saírem, ela disse várias vezes, com orgulho, que Aiko (que também estava indo) seria a mais jovem e fodona cosplayer de todo o evento, por uma razão bastante óbvia: ela era um anime ambulante. Nos últimos dias, Amália tinha parado de se hospedar no Pedro, e agora era ele quem vinha à casa dela, às vezes com Aiko, às vezes sem, para passar vários dias. Seus pais ainda não tinham voltado de Cingapura, que pelo jeito devia ser um lugar muito interessante (apesar de eles ainda não a terem localizado no mapa), mas os Beckmann mesmo assim arrumavam maneiras de se divertir. Tipo Gustavo num canto, Amália no outro.

O grupo combinou de se reunir no apartamento deles às oito. O primeiro a chegar, sua voz feliz ecoando pelos corredores do prédio, foi Pepito. Atrás dele vinha um garoto alto e magro já trajando o cosplay de Luffy, do One Piece. Incluindo a careta insana.

— Oi, Gustavoooo — ele praticamente pulou em cima de Grilo para abraçá-lo, apesar de ser a primeira vez que os dois se cumprimentavam.

O amigo de Pepito fez um olhar de estranheza ao ser apertado pelo recém-chegado, mas no todo apenas disse:

— ‘Tá, né...

Quando se separaram, ele perguntou:

— Você seria quem?
— Eu sou Bruno Fulgêncio! 8) O Pepito falou que o seu apelido é Grilo, que seu sobrenome é Beckmann, e que a Amália é sua irmã. Eu não conheço a Amália, mas deveserumapessoahiperfodástica!
— Erm... Okay. E você é de...?
— Bagé! *.* Tem alguma coisa pra comer?

Ele correu animado para a cozinha.


Gustavo fez de novo aquela careta de “Hã?”.

Com a pergunta ele queria saber o que Bruno tinha a ver com Pepito; especificamente, se era da escola, do trabalho...

— Tudo bem, ‘tá valendo — ele disse a João Pedro, que mostrou-lhe o polegar e também foi fazer um lanchinho na geladeira dele.

Minutos depois Pedro, Amália e Aiko retornaram do mercado com sacolas de comida.

— Eu... tô... morta! — a garota jogou-se de cara no sofá, deixando o trabalho de guardar as compras a cargo deles — Quando eu tinha um L.C., pelo menos dava pra comprar comida com HP extra no modo Shopping.
— Shh!

Gustavo fez caras, bocas e gestos para que ela calasse a boca, indicando todo o tempo a cozinha. Tecnicamente, Bruno não conhecia as aventuras do grupo. E a regra era que ninguém, ninguém mesmo conhecesse.

— Oh. ‘-‘

Amália entendeu e enterrou o rosto numa almofada, caindo no sono em seguida. Pedro sentou-se perto dela, e Aiko ficou brincando com o piano de Gustavo, que entrou na cozinha e encontrou seus outros dois amigos comendo bolachas.

— Alguém precisa que eu pague a passagem do ônibus na ida?...
— GUSTAVO, GUSTAVO!

Bruno pulou de cima do balcão, onde estava sentado, engoliu uma bolacha inteira e veio até ele. Parecia estar ligado em 220 volts.

— Quer ouvir uma história?? *.* Querouvirumahistória?? *.*

Gustavo andou um pouco para trás, com medo, e sentiu as costas grudarem na parede gelada.

Ahhh! >.< Tudo bem, vai em frente...
— Tipo: quando eu era cabo do exército em Bagé...

*DING, DONG*

— Já volto. Campainha.

Gustavo andou monotonamente até a porta, abriu-a e recebeu um abraço agitado de Pinguin.

— AEEE, MANOLOOO!
— Auch, auch... lombar... Okay, Pinguin, fique à vontade. Vai lá conversar com os outros. Com os outros. =)

Ele foi. Gustavo fechou a porta, estalou a coluna e voltou à cozinha.

— Okay, Bruno, pode continuar.
— ‘Tá. Quando eu era cabo do exército em Bagé...

A cabeça de Pinguin apareceu à porta.

— Aí, pessoal, não cumprimentei vocês. Malz...
— Tudo bem — murmurou Gustavo.

Ele fez “^^” e saiu. Bruno retomou o raciocínio:

— Bem, quando eu era cabo em Bagé...

*DING, DONG*²

Gustavo não disse nada e foi logo abrir a porta. Um garoto baixinho e agitado entrou na casa atropelando-o e foi cumprimentando todos ao mesmo tempo. Grilo fechou os olhos e tentou imaginar que estava numa praia deserta...

— Oi, Gustavinho — Pepito também cumprimentou a visita quando ela entrou na cozinha.
— Ow, eu não gosto de “Gustavinho”.
— Okay, Toshiro.
— Nem de Toshiro. =(
— Então quem é você, moleque? u.u
— Você é pequeno — Gustavo entrou de novo no cômodo e puxou uma cadeira para si — e se chama Gustavo. Eu sou grande e me chamo Gustavo. “Gustavinho” resolve o problema ;)

Ele foi se sentar e caiu no chão: Gustavinho/Toshiro tinha roubado a cadeira dele e levado para o outro lado da mesa num microssegundo.

— Como...?
— Beleza, Gustavinho? Eu sou o Bruno! =DD

Fulgêncio esticou a mão para apertar a de Toshiro. Os dois começaram a conversar. Muito. Pepito e Gustavo foram jogar Wii.

Mais tarde chegou Galarza. O grupo, então, finalmente tratou de se mexer. Às oito e quarenta e cinco, eles já estavam no evento. Dispersaram-se, é óbvio. Amália queria caminhar com Aiko por todas as salas do evento para impressionar os otakus mais convencidos; Pedro as seguiu. Pepito, Pinguin e Galarza saíram randomicamente conversando, e Gustavo ficou com Bruno e Toshiro, batendo o papo mais insano de sua vida.

...........Eram sete da noite quando o colégio começou a esvaziar-se. Escurecia já. Vários jovens semifantasiados esperavam pelos amigos que ainda estavam lá dentro, para irem embora, ou apenas jogavam conversa fora na frente dos portões. Os nove amigos saíram ao mesmo tempo, embora ainda divididos nos grupinhos nos quais tinham passado o evento inteiro. Até que Pedro gritou que deviam ir embora, e então todos se juntaram. Claro que Amália acabou indo na frente. E Aiko e Pedro a seguiram.

Uma moto com dois homens de capacete veio cruzando a rua em baixa velocidade. Chegou rente ao acostamento. Um deles tirou um objeto do bolso e o ergueu à altura dos olhos.

Quem não estava olhando apenas ouviu dois estampidos e abaixou-se junto com todo mundo, cobrindo a cabeça e o que mais pudesse com as mãos. Pessoas gritaram. Houve mais um estampido, e a moto fugiu à toda, desaparecendo no final da rua. Meia dúzia de seguranças saiu de dentro do colégio naquele momento, mas agora isso já não fazia sentido. Além do mais, aqueles caras nunca portavam armas.

Amália abraçou Aiko para que ela não chorasse. Seu coração provavelmente não era o único batendo depressa. Pedro saíra correndo de perto delas e agora estava voltando.

— Vocês duas estão bem?
— Sim, mas que merda acabou de acontecer? Eu vou na frente de todo mundo e sempre perco as coisas. u.u
— Eu também não vi quando aconteceu. Num momento estou andando com vocês, no outro ouço tiros. Mas eu dei uma olhada lá atrás, e ninguém se machucou. Mas o Galarza quase matou os caras.
— Galarza?
— Ele disse que estava andando com o Pepito e os outros quando a moto veio e apontaram a arma pra ele. Mas o Bruno se jogou em cima dele, e o tiro pegou uma vidraça.
— Bruno?
— É, para de repetir os nomes. ‘-‘

Amália correu até onde os outros estavam, Aiko e Pedro logo atrás dela. Galarza estava rodeado pelos amigos com sua arma ainda na mão, apontada para baixo.

— Guarda essa merda antes que os seguranças nos enxerguem! — Pinguin o avisava, mas ele não obedecia.
— O que aconteceu, gente?? D= Galarza, você ‘tá vivo?

Todos olharam para Amália. Galarza fez um sorriso amarelo.

— Infelizmente aqueles dois desgraçados também estão — disse Pinguin.
— Eu sequer acertei o tiro, cara ‘-‘ — falou Galarza, triste pela primeira vez na frente deles — O Bruno me levou pro chão, o tiro passou, beleza, levantei, saquei a pistola e... Fu, errei! Alguém me abraça? =/

Aiko o abraçou.

— Quem tentaria matar o Galarza? — perguntou Gustavo.
— Não importa agora. Vamos pra casa da Amália — disse Pedro rapidamente ao ver uma viatura chegando.

Os outros ficaram quietos e foram junto com ele. Galarza guardou a arma na cintura, enfiou as mãos nos bolsos e ficou olhando para o chão ao longo do trajeto inteiro.

...........A casa situava-se num bairro boêmio da cidade. Seus donos mais antigos foram proprietários coloniais — isso se fazia perceber pela própria arquitetura do lugar, ainda que as últimas reformas (ao todo foram três, com grandes espaços de tempo entre uma e outra) tivessem mascarado algumas coisas.

A casa já tinha sido bar, museu, outro bar... e uma loja de artigos esotéricos. Agora tecnicamente ela não tinha dono. Tecnicamente. Um grupo de cinco estranhos mudara-se silenciosa e rapidamente para lá naquela semana. Como a maior preocupação ultimamente vinham sendo as eleições, foi natural que as vizinhas indiscretas se esquecessem de voltar seus olhos bisbilhoteiros para a direção daquela casa. Foi bom para os recém-chegados.

O quarto maior e mais confortável ficava no segundo piso. A janela era de frente para um importante clube noturno. Lacraram-na para que seu ocupante não se incomodasse com a música e o barulho da bagunça mundana que emanavam de lá. Graças a essa providência, ele vinha dormindo bem. Não como gostaria, mas suficientemente.

Àquela noite, porém, as coisas estavam tensas. Ele recebera um telefonema, um daqueles ruins. Não só tudo tinha dado errado, o que já era péssimo, broxante e tudo mais, como ele também tinha a responsabilidade de levar a notícia às pessoas que mais confiavam nele. Sim, minha vida sucks.

Então, o mais rápido que pôde, ele reuniu Os Quatro. Chamavam-nos assim porque — dã — eram quatro e desempenhavam a função mais fundamental de todas no momento: protegê-lo até as últimas consequências, enquanto estivesse em Porto Alegre. Eles eram dedicados. Tinham cuidado de cada pormenor da mudança, incluindo o lacre da medonha janela. Ele sentiu um desconforto no fundo do estômago ao pensar nas reações deles depois que lhes contasse.

Não teve muito tempo para ensaiar um discurso: logo que pediu, eles subiram ao quarto.

— O senhor nos chamou? — perguntou o primeiro homem, que se chamava Fogg.
— Chamei — disse o “senhor” no mais claro inglês, como era de praxe entre eles, embora o sotaque francês fosse impossível de esconder — Acabo de receber notícias sobre o serviço que pedimos.

Os Quatro prenderam o fôlego de excitação.

— E que fim levou, senhor? Funcionou? — quis saber o segundo homem, que se chamava Albert.
— Infelizmente, não. O SPY escapou com vida.

Eles ficaram imediatamente chocados, do jeito que ele imaginara.

— Por favor, senhores, não se alarmem...
— Eu disse que não era uma boa ideia confiar o trabalho a terceiros! — falou a primeira mulher, que se chamava Stephanie — Aqueles dois ignorantes mal sabem com quem foram se meter! Se deixasse para um de nós...
— Já discutimos isso, Stephanie — o francês cortou-a com impaciência — Quanto menos ele suspeitar da nossa presença, melhor. Mas já não adianta chorar sobre o leite derramado. Se o alvo sobreviveu, imagino que os dois serão rastreados e facilmente capturados.
— Então o que faremos, senhor? — perguntou a segunda mulher, cujo nome era Paula.
— Deixaremos que isso aconteça, mas ficando de olho nos pistoleiros, de forma que, quando ele chegar... estejamos prontos. Uma coisa é certa — ele ergueu o dedo indicador na frente dos quatro servos —: Rafael Galarza precisa morrer, pelo que fez à nossa causa, aos nossos Mártires e às nossas memórias.

..........A caminho da casa dos Beckmann, Pedro parou o grupo e fez Gustavinho ir para casa. O menino já tinha prometido que iria embora após o evento já no momento em que eles estavam entrando no colégio, no início da manhã, porém não escapou aos olhos atentos do mais velho que ele tinha contrabandeado um pijama para dentro da mochila, e ultimamente um pijama funcionava como cartão de entrada para uma noite na casa de qualquer um deles.

Eles não podiam hospedar ninguém àquela noite — “eles” referindo-se aos ex-Players, naturalmente. Nem Gustavinho, nem Bruno. Não que os últimos não fossem legais ou fossem destruir a casa (isso era feito com frequência por quem morava nela), mas a discussão mais importante no momento era a de “por que alguém quis matar nosso amigo chato?”.

Uma vez tomada a decisão (“-Ninguém dorme na Amália hoje. Só o Galarza, porque... ele quase morreu.”), Bruno ofereceu-se para escoltar Gustavinho até a residência dele. E lá foram os dois, ligados em 220 volts. Logo em seguida, a parte do grupo que se distanciou dos Beckmann para despistar tornou a encontrá-los, e em poucos minutos eles estavam seguros no apartamento.

Enquanto Aiko se entretia com seus desenhos agachada no tapete, os jovens se sentaram em torno de Galarza, empoleirado no meio do sofá com um copo de água com açúcar na mão e a mesma cara de bunda de cerca de meia hora atrás, e esperaram que ele falasse. Depois do que pareceu ser uma eternidade, o garoto abriu a boca:

— Acho que sei quem fez isso.

Pedro, Pepito e Grilo inclinaram o corpo para a frente ao mesmo tempo, interessadíssimos em ouvir. Galarza ergueu o copo e dirigiu-se a Amália:

— Enche de novo pra mim?

A garota o olhou e soltou um “Grrr”, mas mesmo assim pegou o copo e foi para a cozinha.

— Thanks ^^ — Então ele continuou: — Bom, eu tenho uma teoria, mas vocês vão achar que ela não tem nada a ver.
— Fale mesmo assim. Pode ser a única coisa que temos — falou-lhe Pepito.
— Beleza... Mas primeiro eu tenho uma dúvida para tirar: quando você, o Gustavo e o Matt entraram na dimensão dos Cibernéticos, como ficou acertada a coisa a respeito do... sabem... do destino da GOOGLE e tudo mais?
— Nós já dissemos isso zilhões de vezes — respondeu Gustavo — Os Cibernéticos crackearam o arquivo de forma que tudo envolvendo a GOOGLE, Inc. e os planos da L.D.M virasse poeira cósmica. Os servidores deixaram de existir, os prédios desapareceram, as pessoas que trabalhavam nos planos secretos da organização foram “deletadas” para sempre.
— Por isso que a Norma morreu.
— Exato.
— Mas, com exceção de nós, as pessoas que sabiam da verdadeira natureza da GOOGLE sem fazerem parte dela... o que houve com elas?

O Grilo não entendeu.

— De quem você está falando?
— Mas é brincadeira u.u A DOOM FINGER, PÔXA!

Ele gritou bem na hora em que Amália vinha trazendo outro copo com água. O susto a fez derrubar tudo no chão, e ela xingou-lhe de todos os nomes imagináveis.

— Malz... Mas ninguém parou pra pensar em que fim levaria a minha ex-organização? — Galarza indagou aos três que haviam visitado a dimensão virtual.
— É, tipo... Essa não era pra ser uma preocupação sua? — devolveu Pepito.
— Pois é, depois que seu chefe morreu, a gente pensou que a D.F. estivesse, tipo, acabada ‘-‘ — contou Pinguin.
— Era o que eu tinha pensado, mas... Re-pensando nisso agora, faz sentido ela não estar ‘-‘
— O que você quer dizer com isso, Galarza? u.u
— Que eu acho que a Doom Finger tinha um plano B. Pra seguir sem o Negão e sem mim, no caso, porque ele morreu e eu estava oficialmente no que chamamos de — ele fez aspinhas com os dedos — “Missão Suicida”. E ela deve ter seguido esse plano. Acontece que sem o Google para enfrentar, a D.F. meio que perde o seu propósito, então... eu me pergunto o que passou pela cabeça dos meus antigos colegas depois que eles acordaram, no primeiro dia na Nova Terra.

Agora ele deixara os outros preocupados.

— Devem ter sofrido uma puta crise existencial! — exclamou Pepito — Seria possível eles terem redescoberto o Google nestes últimos três meses?...
— Acho pouco provável — argumentou Grilo — Mas alguma coisa deve ter ficado nas cabeças deles, como ficou para o resto do mundo. Como quando você acorda de um longo sonho do qual não consegue se lembrar inteiramente, mas jura que quando o sonhou era tudo muito claro e real.
— O que a gente vai fazer, então? — disse Pedro olhando de um para o outro, como se só eles tivessem o segredo — Não temos nem um rastro que nos leve aos assassinos.

Pinguin se voltou para Galarza.

— Você reconheceu algum dos pistoleiros?
— Claaaro, de capacete fica superfácil. u.u
— Sorry... =(

Então, Pepito os interrompeu:

— Olhem, se eles continuam agindo, é porque têm um propósito. Pode não ser o mesmo que eles tinham antes, mas deve ser importante para a organização. E, por algum motivo, isso envolve matar o Galarza.
— O que me deixa muuito feliz u.u — ironizou o SPY — Nossa, quantos amigos eu fiz naquela Academia...
— A Academia SPY? Seria um bom ponto de partida para investigarmos.
— Esquece. Pra começar, você mal conseguiria descobrir onde fica: ela vive mudando de lugar. Mas não é como se ela tivesse convênio com a Doom Finger. Acontece que os melhores assassinos jovens da organização receberam o seu treinamento lá. Fora isso, não sei por onde começaríamos a caçada aos homens que tentaram me matar. A vida não é fácil. u.u As soluções não aparecem prontinhas na sua porta!

*DING, DONG*

Eles quase pularam de susto ao som da campainha: era sinistro demais ela ter tocado logo depois daquela frase.

— Okay, ninguém vai levantar e abrir?... Affeeee! — Gustavo foi por conta própria até a porta, deu uma espiada rápida pelo olho mágico e a abriu.
— GUSTAVOOOOO!

Bruno Fulgêncio pulou com tanta força em cima dele que os dois foram parar no chão. Estressados como estavam, os outros ficaram agradavelmente surpresos com sua chegada e vieram cumprimentá-lo também.

— Mazaaa, Bruno! Mas por que essa roupa? — indagou-lhe Pepito encarando o uniforme de militar.
— Vocês sabem que eu fui cabo em Bagé...

Gustavo pôs uma mão no ombro de Fulgêncio, interrompendo-o:

— Sabemos. Você reforçou isso muitas vezes.
— Siiim, mas não foi por causa disso que eu vim aqui. Na verdade... — ele abriu caminho entre os garotos para chegar a Galarza, que o encarou sem entender absolutamente nada — Eu vim porque temia por sua segurança, Rafael.
— Oi?
— E vim lhe oferecer minha lealdade até você morrer... ou até eu morrer. Enfim... ^^
— Oi?²
— E eu queria te dizer também que dei uma pesquisada sobre os caras da moto... — Fulgêncio tirou um bloquinho de anotações do bolso da calça — Eu anotei o número da placa e mostrei prum amigo meu, que tem um amigo que trabalha na polícia, e descobri que a moto era roubada. O dono deu queixa faz dois dias.
— Como é que é?? — Pedro veio para o lado de Galarza e escorou-se no ombro dele, que cedeu um pouquinho ao seu peso (-¬¬), para ouví-lo de perto.
— Aí um outro amigo meu, que tem um amigo que é filho de um cara que trabalha num desmanche de veículos, descobriu que os meliantes tentaram levar a moto pra ser depenada, mas alguém percebeu que era roubada...
— E chamou a polícia. *.*
— Não. ‘-‘ Eles compraram as peças deles, exceto os pneus, que são ACME. E só tem um lugar em POA que vende e compra pneus dessa marca.
— E que lugar é esse?
— Pera... Aí um primo meu que tem o contato de um cara que mora ao lado do dono dessa loja-oficina que trabalha com pneus ACME descolou o endereço do estabelecimento. Os assassinos devem estar indo até lá agora pra fazer a transação.
— OH, MY FUCKING GOD!
— Foi bem simples, na verdade. ^^
— Eu tenho que ir! D= Onde estão minhas armas?... Onde estão minhas calças??? — Galarza começou a correr pela sala atrás de seus apetrechos, porém Pedro e Pepito o seguraram, um por cada braço.
— Espere um momentinho — disse João Pedro — O senhor não vai a lugar nenhum sem a gente.
— É, até parece que nós deixaríamos você morrer sozinho nas mãos daqueles dois covardes u.u — completou Pedro.
— É, você vai morrer com a gente olhando! Agora, vai pegar suas coisas!

Eles o soltaram, e Galarza continuou se preparando com rapidez. Pinguin e Grilo se levantaram. Queriam se juntar ao grupo. Porém, Pedro se pôs na frente da porta e disse:

— Esperem, nem todo mundo deveria ir. É arriscado demais.
— Masoque? — Pinguin.
— Lembrem-se: vamos brigar sem poderes. É essencial que apenas aqueles que possuem experiência... erm... não-virtual em combates vão junto com a gente. Vamos ver, Amália...

Ela estava ajoelhada no chão desenhando com Aiko.

— Okay, esquece... Gustavo, você fez karaokê.
— Karatê.
— Isso. Então, seremos eu, Pepito, Gustavo...
— Pinguin.
— Não, Pinguin. u.u
— Ahh, tomanocú!
— Você precisa ficar vigiando a Aiko e a Amália. Elas são... A Aiko é frágil.
— Ahhhh >.<
— Então, vamos eu, Pepito, Gustavo, Galarza e...

Ele virou-se e viu Fulgêncio.

..........O pavilhão onde funcionava a oficina ficava num tipo de bairro muito comum em Porto Alegre: aquele onde você mal entrou e já quer ir embora, com medo. Mas, dessa vez, não havia espaço para medo. Eles estavam numa missão de vida ou morte, e foi por isso que, como manda a arte da guerra, eles pegaram... um táxi.

Alguém tem cinquenta centavos? — pediu Bruno esticando o pescoço para o banco de trás. Seus quatro amigos, espremidos até não poderem mais no assento do carro, sacudiram as cabeças negativamente — Desculpa, tio — disse Fulgêncio ao motorista, que simplesmente murmurou um “Tudo bem” e acenou para que dessem o fora o mais rápido possível de dentro do seu táxi.

Assim eles fizeram e, depois que o carro foi embora e a rua estava devidamente deserta, o grupo andou furtivamente até os fundos do largo terreno onde, além de loja e oficina, funcionava um ferro-velho. Tentando não fazer barulho, subiram um de cada vez pela cerca de arame enferrujado, aproveitando uma pilha de pneus velhos que havia do outro lado para amortecer a queda.

— Falem baixo de agora em diante — alertou-lhes Galarza botando um par de luvas pretas. Pepito gritou “BAIXO!”, e todo mundo se jogou no chão ao mesmo tempo. Ele se apoiou nos pneus e riu.
— Porra, Pepito! — sussurrou Pedro já de pé novamente — Levantem-se aí, vocês todos!

Enquanto Galarza e Gustavo ainda sacudiam a poeira das calças, Bruno já escalava a parede de trás da oficina com o mínimo de ruído possível.

— Venham por aqui! — sussurrou.

Os outros o imitaram, e o quinteto ficou deitado silenciosamente em cima do telhado, próximos a um buraco na telha, por onde era possível observar o que acontecia lá dentro. Por enquanto, nada fora do comum. O patrão e dois de seus mecânicos cuidavam de três carros ao mesmo tempo. Vez ou outra eles mexiam os lábios e faziam gestos agitados uns para os outros, mas não era possível distinguir o que eles diziam.

— Consegue ouvir, Bruno? — perguntou Galarza.
— Eu tenho uma Mão Imorrível, não um Ouvido Biônico ^^ — falou Fulgêncio.
— Shhh! — fizeram Grilo, Pepito e Pedro ao mesmo tempo.

Uma dupla de homens altos e fortes adentrou a oficina. Um deles trazia uma mochila nas costas, a qual parecia ser pesada. Cutucou um dos mecânicos, que chamou seu chefe. Os três conversaram por alguns segundos, até que o homem da mochila abriu o zíper (da mochila) e retirou com dificuldade um pneu de moto, que mostrou ao dono da loja.

— Bingo — sussurrou Galarza.
— Você viu também? A marca? — disse Bruno.
— ACME.
— Por que a ACME faz tudo? — perguntou Pedro a Pepito, baixinho.
— Olha, cara... A minha avó é ACME.
— Vamos descer now! — falou Galarza sacando a pistola, mas Bruno o segurou pelo casaco.
— Espera! Vamos nos dividir...

Bruno e Pepito rastejaram até a beira do telhado, de onde se dependuraram e caíram de pé, suavemente, na entrada do pavilhão. Fulgêncio pôs a mão no bolso, tirou a arma que Galarza lhe dera e apontou-a para os dois suspeitos gritando:

— FBI!

Mal eles se viraram, o telhado fez “CRACK!” e Galarza, Gustavo e Pedro caíram como balas de canhão em cima de um carro parcialmente elevado por um macaco. O macaco quebrou, as rodas encontraram o chão, e a força produzida fez os vidros das janelas estourarem. Galarza apontou sua arma também, enquanto Grilo e Pedrobear cruzaram os braços fazendo trollfaces.

— Sai todo mundo daqui, exceto VOCÊS DOIS! — ordenou o SPY apontando para os bandidos.

O chefe e os dois mecânicos fugiram na mesma hora, e então Pepito puxou a porta de lona para baixo, de forma que ninguém mais saísse ou entrasse. Galarza desceu do carro (Pedro e Grilo o imitaram) e foi para perto dos pistoleiros, mirando o tempo todo em suas cabeças.

— Agora somos só nós e vocês, seus fdp. Armas, chaves, chaveiros, qualquer coisa, no chão. NOW!

Os dois obedeceram, deixando duas pistolas, uma faca e tudo que tinham de metálico perto dos pés dele.

— Okay. Agora... O que eu peço agora? o.O
— Pergunte quem mandou eles! — disse Pepito ao SPY — É clássica! =D
— ‘Tá... QUEM MANDOU VOCÊS, VAGABUNDOS? POR QUE QUERIAM ME MATAR?

Os bandidos trocaram olhares de incerteza. O da esquerda falou:

— Nós não sabemos quem ele é. Só aceitamos a primeira metade da grana e fomos fazer o serviço.
— Ele quem? — indagou Galarza no mesmo tom amedrontador.

O interrogado pareceu lutar contra um grande medo interno. Enfim, respondeu:

— O rapaz francês.

*KABRUM*

A cabeça do homem explodiu. Depois a do outro.

*KABRUM*²

— WTF FOI ISSO? — berrou Galarza com o rosto salpicado de sangue.

Uma porta atrás deles se abriu. Olhares e armas se viraram ao mesmo tempo naquela direção. Havia uma saleta no fundo do pavilhão que servia de escritório para o proprietário da oficina. Sem querer, eles tinham deixado passar. De dentro dela saiu um garoto alto, branco, de cabelos negros e longos caídos sobre os ombros, vestindo um terno escuro. Devia ter dezesseis anos, no máximo. Ele tinha na mão uma pistola com silenciador, mas agora não a apontava para ninguém. Apenas corria os olhos pela cena sangrenta com um sorriso maroto nos lábios, como se aquilo o divertisse pra valer depois de anos de tédio.

— Galarza... — disse o garoto, admirado, revelando um inconfundível sotaque europeu — Olhe o que você fez aqui...
— Dupont! — Galarza apontou a 9mm para ele, no que Bruno fez a mesma coisa. Quase no mesmo segundo, duas pessoas, um homem e uma mulher de meia-idade, “brotaram” de esconderijos diferentes, apontando UZI’s para a direção de Pedro, Gustavo e Pepito.

Houve uma segunda pausa dramática, mais longa e mais tensa.

Então Dupont sorriu e guardou a própria arma dentro do paletó.

— Você tem boa memória, Galarza. Posso deduzir, portanto, que também se lembre de Fogg — ele indicou o homem — e de Paula? — indicou a mulher.

Galarza olhou para os dois adultos, um de cada vez, reconhecendo-os, e sentiu um nó no estômago. Chegou perto de Pedro e lhe disse baixinho: “Estamos fodidos”.

— Mas você não achou que Louis Dupont fosse um dia ter alguma relevância dentro da irmandade, achou? — o francês continou a falar enquanto andava em volta deles — Não estando cego de ciúmes por eu ser infinitamente melhor que você.
— Você joga sujo, Dupont! — gritou Galarza sem perdê-lo da mira mesmo enquanto ele se movia — Só eu posso jogar sujo. ‘-‘
— Ah, claro... — o outro jovem parou na frente do SPY sem temer o cano de pistola direcionado à sua testa — Suponho que, por causa disso, você não imaginou que nós ressurgiríamos das cinzas depois do que fez com a irmandade. Depois do que fez com os Mártires.
— O que quer dizer com isso?
— Você assassinou os dois mentores! Eles, que tinham a verdade sobre o Bem e o Mal, sobre o sentido do universo, sobre as nossas vidas! Quando você os matou, todo o conhecimento apagou-se das nossas mentes e nós despertamos sós, sem propósito no mundo.
— Oh...

Agora Galarza sabia ao que ele estava se referindo. Todos sabiam.

— E você acha que me matando vai trazer tudo isso de novo?
— Vingar os Mártires terá sido o primeiro passo de uma longa trajetória. Nós temos planos para o mundo, Galarza. Vamos reencontrar nosso passado com a ajuda de toda a humanidade. Mas você... você não merece participar disso!

A expressão do francês ao olhá-lo era sempre de nojo. Galarza engoliu em seco, mas manteve firme o braço que segurava a pistola. Dupont deu alguns passos para trás e falou uma vez mais, dessa vez para todos:

— Vejam, todos: a Doom Finger voltará ao esplendor de antes assumindo uma nova forma, uma que conquistará este planeta inteiro!
— Não se um chato estragar a festa antes — disse Galarza entre dentes.
— Quer matar, Galarza? — Dupont sorriu, sádico — Se for o caso, todo mundo aqui morre — Fogg e Paula engatilharam as UZI’s — Incluindo seus novos amiguinhos suicidas.
— Quer saber? Nenhum deles se importa em morrer, se isso significar não ter que olhar mais para a sua cara!

Pepito olhou para Pedro com cara de “Nos importamos?”. Pedro respondeu com uma expressão de “Eu, sim, tá louco...”. Gustavo encolheu os ombros pensando “Whatever”. Bruno pensou “Acho que eu sei o que fazer”.

— Escuta, pessoal — Fulgêncio chamou-lhes a atenção — Existe um jeito diplomático de resolver o problema.
— Perdão? — disse Dupont.
— Permita que eu demonstre.

Ele atirou contra a caixa de energia. Todas as luzes se apagaram.

*BLAM!*

Ouviu-se um grito de mulher, mas não foi de Paula — nem do francês, caso alguém tenha pensado nisso também. u.u Por um longo tempo ninguém atirou ou se mexeu, cada um tentando descobrir onde um amigo e um provável inimigo estavam. Até que um deles tropeçou.

*BLAM! BLAM! BLAM!*

Mais um grito, dessa vez de homem.

Pepito!
Calma, foi por pouco.
Quieto, Bruno. Abaixem-se!

*BLAM! BLAM!*

Silêncio!

Uma lanterna se acendeu no meio do breu, e o feixe de luz passou da esquerda para a direita, de cima para baixo, inúmeras vezes, à procura de um ser em movimento. Era impossível dizer se era Fogg, o francês ou a mulher, ou ainda Pedro, Galarza, ou qualquer um dos garotos.

Agachado a um canto com as costas na parede, Pepito sentiu uma cutucada nas costelas e agarrou o primeiro membro que pôde — felizmente era um braço.

Auch!
Gustavo?
Shh! Sim.
Cadê o...?
Não sei! Fica abaixado!

*BLAM!*

Ouviram um vidro quebrando.

Pepito acendeu a tela do celular, que não era lá essas coisas em relação a uma lanterna, mas suficiente para se orientarem. Ele e Gustavo se deitaram e rastejaram para debaixo de um carro, de onde viram a silhueta de Galarza tremendo no escuro.

Psst!

Gustavo tentou chamá-lo, mas ele não ouviu. A lanterna veio “flutuando” atrás dele. Pela altura em que a seguravam, podia ser Bruno ou Dupont. De repente, uma porta de carro bateu. Bizarro.

Houve mais três disparos, e o SPY caiu.

Galarza!

Os farois do carro acima deles se acenderam, mais intensos que qualquer outra fonte de luz ali dentro. Dupont, que estava perto do corpo caído, virou sua lanterna na direção de quem os ativara e abaixou-se. Alguém abriu fogo de dentro do veículo até a munição acabar. Apenas uma pessoa foi atingida, e pelo grito, agora sim dava pra dizer que era mulher.

A porta vertical se abriu, e Gustavo e Pepito viram o tal de Fogg apoiando Paula sobre o próprio ombro enquanto Dupont os escoltava para fora. A porta do carro tornou a se abrir. Quem desceu foi Bruno.

— Voltem aqui, miseráveis!

Ele apanhou a arma de Galarza e correu para fora, mas já era tarde. Um carro cor de vinho partiu levantando poeira.

— Merda!

Bruno pôs a arma do SPY na cintura e voltou para dentro.

— Estão todos bem?

Pedro, Pepito e Gustavo surgiram das trevas com caras bastante assustadas.

— Beleza. Vamos dar uma olhada no outro agora.

Fulgêncio foi até Galarza, que até então não se mexera, e o fez deitar de barriga para cima.

— PQP, ele tomou três à queima-roupa! — exclamou Pepito.
— Galarza?... *tapa* Galarza, responde! — berrou Bruno.
— Se eu tivesse um chapeu, eu o tiraria agora =( — disse Pedro, triste.

...........Galarza não via nem ouvia coisa alguma. Dentro da própria mente, porém, ele podia sentir que estava sobre uma superfície mole e confortável, perdido em pensamentos aleatórios que não causavam dor, olhando para cima. Uma figura grande e encapuzada portando uma foice veio para cima dele.

Ou ele estava morrendo, ou esta era uma fantasia sexual muito estranha. Descobriu tratar-se da primeira alternativa.

— Lool, e eu nem descobri qual era o lance do Dupont! — falou consigo mesmo, achando a maior graça — Quem sabe numa outra vida...

O Anjo da Morte ergueu a mão livre e levou-a lentamente ao próprio capuz.

— ‘Tá... Você seria um dementador?

A Morte tirou o capuz e Galarza gritou. Era o rosto de Matt Liebert que ele estava encarando agora.

CONTINUA...