segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

(3ª TEMPORADA) EPISODE 01 - Assuntos Pendentes

...........Às 20:52h, Pepito deixou a casa de Amália, na rua que um dia se chamara Rua da Amália, mas que agora era apenas Rua Botafogo — nome que, pensando bem, era suficientemente neutro, já que não era apenas ela que morava naquela casa, mas também Gustavo, que — LoL! — tinham acabado de descobrir que era seu parente.

Pepito não permitiu que ninguém o acompanhasse. Pôs as duas malas de viagem grandes que levava pesadamente debaixo dos braços dentro do porta-malas do Fusca vermelho, ocupou o assento do motorista e deu mais uma olhada demorada na direção do edifício.

Costumava ser mais fácil quando não tinha de fazer tudo sozinho, pensou consigo mesmo, dando a partida no carro. Rodou por longos períodos Porto Alegre afora, até achar um local. Um ponto perfeito onde, ele sabia, ninguém mais cogitaria procurar. As... coisas ficariam bem guardadas ali, debaixo da terra, adormecidas, e não se falaria mais no assunto. Esse fora o acordo, uma semana antes de Matt Liebert ir embora.

*FLASHBACK*

— Obrigado por virem, gente — falou Matt Liebert no silêncio da sala de estar de sua casa — Vou tentar falar rapidinho aqui...
— Isso é de comer?
— Perdão, Amália?...

A garota, sentada no sofá no espaço à direita de Pedro, apontou para a mini-escultura de um velhinho sentado com um livro em cima do móvel abaixo do espelho. Matt coçou a cabeça.

— Er... Não. ‘-‘
— Parecia de comer.
— Enfim... — ele silenciou por um instante depois disso — Onde eu estava mesmo?
— Você ia dizer por que nos trouxe aqui ;)
— Ok. Valeu, Gustavo. Er... Agora que não existe mais GOOGLE e a trégua entre Humanos e Cibernéticos es’Tá valendo, nós precisamos cumprir nossa parte do trato. Ou seja... livrar-nos de todos os Itens, Armas, dinheiro, L.C.’s... tudo que diga ao respeito ao Jogo.

A insatisfação foi geral. Todos começaram a falar ao mesmo tempo, em tons indignadamente altos, sem que ninguém se entendesse. Matt gastou alguns minutos fazendo sinais com as mãos e assobiando, até desistir e abaixar a cabeça. Coube a Pepito dar algumas porradas na mesa para fazê-los se calar.

Calaram-se.

— Desculpem-me... Façam o favor de ouvir o Matt. u.u
— Ele pode falar o que quiser. Mas não vejo por que somos obrigados a entregar nossos poderes depois de termos vencido — falou Galarza com certa rispidez.
— Meu, ainda acho que aquele negócio é de comer...
— Fica quieta, Amália — sussurrou Pedro à namorada.

Matt apoiou-se de costas na parede, com os braços cruzados, e tomou a palavra novamente, dessa vez com mais paciência.

— Pessoal, isto é sério. Faz uma semana que a GOOGLE caiu, e ainda não cumprimos com nossa parte. Ao contrário do que o Galarza disse, nós não “vencemos”. Ninguém venceu.
— Woow, valeu! u.u — disse Galarza em tom alto, atirando o corpo para trás do braço da poltrona e ficando só com as pernas aparecendo por cima. Eles o ignoraram.
— Isto é uma trégua, porra. u.u Ou melhor: se alguém tem perfil de vencedor aqui, não somos nós. São eles! Os Cibernéticos manipularam o arquivo de Backup e reconfiguraram a Terra. Sem a ajuda deles, teríamos sido capturados, mortos e tudo voltaria a ser como era antes. Por isso, não tem jeito. Não podemos ratear. Se vocês querem que o mundo fique seguro por pelo menos mais alguns anos, precisamos parar de jogar!

Os outros pensaram a respeito. Viram que, bem ou mal, aquela era a saída mais segura.

Gustavo levantou o dedo para falar.

— ‘Tá, Matt, eu concordo, mas... O que nos garante que o outro lado vai honrar a trégua também?

Matt falou com simplicidade:

— Nada. Mas foi assim que ficou acertado, e é assim que faremos. Posso até.. — ele refletiu por um momento e então disse: —. Olhem só: o acordo diz que os Players devem se manter longe dos Itens, das Armas e das Quests, mas não especifica se eles têm que destruir os objetos.

Seus amigos entenderam o espírito da ideia e sorriram, sacudindo as cabeças em afirmação.

— Portanto, digo que seria interessante escondermos as coisas, mas em lugar secreto pra caralho, digo, secreto afu, porque não quero saber de gente mexendo. u.u E aí não tocamos mais no assunto... enquanto a trégua estiver funcionando.

Eles todos comemoraram (- AEEE /o\), e, depois que a conversa terminou, quando desviaram as atenções para as próprias conversas e piadas internas, Matt inclinou-se para perto de Pepito e perguntou-lhe:

— Você acha que dá conta?

*FIM DO FLASHBACK*

............Ele pôs as malas no chão, pegou a pá de dentro do carro e começou a cavar lenta e profundamente, sem pressa, pois não circulava ninguém mais por aquela área. Quando terminou o serviço — um buraco de 2,5m de largura por 2m de profundidade —, puxou os zíperes das duas malas e começou a retirar os artefatos um a um, acomodando-os gentilmente dentro da cova. O guarda-chuva que Pinguin usara para detonar um punk, hoje quebrado ao meio (não o punk, o guarda-chuva), a guitarra que emitia ondas supersônicas (pertencente à mesma pessoa, com quem ele teve de brigar para confiscar), a espada e o machado fabricados por Aiko... Nenhum Item especial ou Arma foi poupado. Por último, foram os LifeControllers. Destes, sim, ele sentiria saudade. Muita.

Assim que depositou o último objeto na cova funda, todo o conjunto de parafernálias do game começou a brilhar de um jeito convidativo, como quando um jogador se desfaz de um item importante para se ater a outro mas ele continua no cenário, esperando pelo dono. Pepito ignorou o fenômeno e apenas jogou terra em cima de tudo.


............Três meses depois do dia em que Pepito “sepultou” os objetos do RPG, que foi o mesmo dia em que Matt Liebert despediu-se dos seus amigos em um parque ensolarado, toda a turma de ex-Players — além de Pepito, Pinguin, Gustavo, Pedro, Amália e Galarza — preparou-se para um evento de anime em uma das escolas mais importantes de Porto Alegre; a cidade que, em um passado negro, agora enterrado no subconsciente coletivo, já se chamara Gay Harbor. Eles tinham que sair cedo de casa; de preferência às oito e meia da manhã, no domingo, porque 1) todo otaku foda tem que acampar na fila dos que compraram ingressos antecipados e 2) Amália, sempre adiantadíssima, precisava entrar na fila dos sem-ingresso porque ainda não havia comprado o seu junto com os outros...

Antes de saírem, ela disse várias vezes, com orgulho, que Aiko (que também estava indo) seria a mais jovem e fodona cosplayer de todo o evento, por uma razão bastante óbvia: ela era um anime ambulante. Nos últimos dias, Amália tinha parado de se hospedar no Pedro, e agora era ele quem vinha à casa dela, às vezes com Aiko, às vezes sem, para passar vários dias. Seus pais ainda não tinham voltado de Cingapura, que pelo jeito devia ser um lugar muito interessante (apesar de eles ainda não a terem localizado no mapa), mas os Beckmann mesmo assim arrumavam maneiras de se divertir. Tipo Gustavo num canto, Amália no outro.

O grupo combinou de se reunir no apartamento deles às oito. O primeiro a chegar, sua voz feliz ecoando pelos corredores do prédio, foi Pepito. Atrás dele vinha um garoto alto e magro já trajando o cosplay de Luffy, do One Piece. Incluindo a careta insana.

— Oi, Gustavoooo — ele praticamente pulou em cima de Grilo para abraçá-lo, apesar de ser a primeira vez que os dois se cumprimentavam.

O amigo de Pepito fez um olhar de estranheza ao ser apertado pelo recém-chegado, mas no todo apenas disse:

— ‘Tá, né...

Quando se separaram, ele perguntou:

— Você seria quem?
— Eu sou Bruno Fulgêncio! 8) O Pepito falou que o seu apelido é Grilo, que seu sobrenome é Beckmann, e que a Amália é sua irmã. Eu não conheço a Amália, mas deveserumapessoahiperfodástica!
— Erm... Okay. E você é de...?
— Bagé! *.* Tem alguma coisa pra comer?

Ele correu animado para a cozinha.


Gustavo fez de novo aquela careta de “Hã?”.

Com a pergunta ele queria saber o que Bruno tinha a ver com Pepito; especificamente, se era da escola, do trabalho...

— Tudo bem, ‘tá valendo — ele disse a João Pedro, que mostrou-lhe o polegar e também foi fazer um lanchinho na geladeira dele.

Minutos depois Pedro, Amália e Aiko retornaram do mercado com sacolas de comida.

— Eu... tô... morta! — a garota jogou-se de cara no sofá, deixando o trabalho de guardar as compras a cargo deles — Quando eu tinha um L.C., pelo menos dava pra comprar comida com HP extra no modo Shopping.
— Shh!

Gustavo fez caras, bocas e gestos para que ela calasse a boca, indicando todo o tempo a cozinha. Tecnicamente, Bruno não conhecia as aventuras do grupo. E a regra era que ninguém, ninguém mesmo conhecesse.

— Oh. ‘-‘

Amália entendeu e enterrou o rosto numa almofada, caindo no sono em seguida. Pedro sentou-se perto dela, e Aiko ficou brincando com o piano de Gustavo, que entrou na cozinha e encontrou seus outros dois amigos comendo bolachas.

— Alguém precisa que eu pague a passagem do ônibus na ida?...
— GUSTAVO, GUSTAVO!

Bruno pulou de cima do balcão, onde estava sentado, engoliu uma bolacha inteira e veio até ele. Parecia estar ligado em 220 volts.

— Quer ouvir uma história?? *.* Querouvirumahistória?? *.*

Gustavo andou um pouco para trás, com medo, e sentiu as costas grudarem na parede gelada.

Ahhh! >.< Tudo bem, vai em frente...
— Tipo: quando eu era cabo do exército em Bagé...

*DING, DONG*

— Já volto. Campainha.

Gustavo andou monotonamente até a porta, abriu-a e recebeu um abraço agitado de Pinguin.

— AEEE, MANOLOOO!
— Auch, auch... lombar... Okay, Pinguin, fique à vontade. Vai lá conversar com os outros. Com os outros. =)

Ele foi. Gustavo fechou a porta, estalou a coluna e voltou à cozinha.

— Okay, Bruno, pode continuar.
— ‘Tá. Quando eu era cabo do exército em Bagé...

A cabeça de Pinguin apareceu à porta.

— Aí, pessoal, não cumprimentei vocês. Malz...
— Tudo bem — murmurou Gustavo.

Ele fez “^^” e saiu. Bruno retomou o raciocínio:

— Bem, quando eu era cabo em Bagé...

*DING, DONG*²

Gustavo não disse nada e foi logo abrir a porta. Um garoto baixinho e agitado entrou na casa atropelando-o e foi cumprimentando todos ao mesmo tempo. Grilo fechou os olhos e tentou imaginar que estava numa praia deserta...

— Oi, Gustavinho — Pepito também cumprimentou a visita quando ela entrou na cozinha.
— Ow, eu não gosto de “Gustavinho”.
— Okay, Toshiro.
— Nem de Toshiro. =(
— Então quem é você, moleque? u.u
— Você é pequeno — Gustavo entrou de novo no cômodo e puxou uma cadeira para si — e se chama Gustavo. Eu sou grande e me chamo Gustavo. “Gustavinho” resolve o problema ;)

Ele foi se sentar e caiu no chão: Gustavinho/Toshiro tinha roubado a cadeira dele e levado para o outro lado da mesa num microssegundo.

— Como...?
— Beleza, Gustavinho? Eu sou o Bruno! =DD

Fulgêncio esticou a mão para apertar a de Toshiro. Os dois começaram a conversar. Muito. Pepito e Gustavo foram jogar Wii.

Mais tarde chegou Galarza. O grupo, então, finalmente tratou de se mexer. Às oito e quarenta e cinco, eles já estavam no evento. Dispersaram-se, é óbvio. Amália queria caminhar com Aiko por todas as salas do evento para impressionar os otakus mais convencidos; Pedro as seguiu. Pepito, Pinguin e Galarza saíram randomicamente conversando, e Gustavo ficou com Bruno e Toshiro, batendo o papo mais insano de sua vida.

...........Eram sete da noite quando o colégio começou a esvaziar-se. Escurecia já. Vários jovens semifantasiados esperavam pelos amigos que ainda estavam lá dentro, para irem embora, ou apenas jogavam conversa fora na frente dos portões. Os nove amigos saíram ao mesmo tempo, embora ainda divididos nos grupinhos nos quais tinham passado o evento inteiro. Até que Pedro gritou que deviam ir embora, e então todos se juntaram. Claro que Amália acabou indo na frente. E Aiko e Pedro a seguiram.

Uma moto com dois homens de capacete veio cruzando a rua em baixa velocidade. Chegou rente ao acostamento. Um deles tirou um objeto do bolso e o ergueu à altura dos olhos.

Quem não estava olhando apenas ouviu dois estampidos e abaixou-se junto com todo mundo, cobrindo a cabeça e o que mais pudesse com as mãos. Pessoas gritaram. Houve mais um estampido, e a moto fugiu à toda, desaparecendo no final da rua. Meia dúzia de seguranças saiu de dentro do colégio naquele momento, mas agora isso já não fazia sentido. Além do mais, aqueles caras nunca portavam armas.

Amália abraçou Aiko para que ela não chorasse. Seu coração provavelmente não era o único batendo depressa. Pedro saíra correndo de perto delas e agora estava voltando.

— Vocês duas estão bem?
— Sim, mas que merda acabou de acontecer? Eu vou na frente de todo mundo e sempre perco as coisas. u.u
— Eu também não vi quando aconteceu. Num momento estou andando com vocês, no outro ouço tiros. Mas eu dei uma olhada lá atrás, e ninguém se machucou. Mas o Galarza quase matou os caras.
— Galarza?
— Ele disse que estava andando com o Pepito e os outros quando a moto veio e apontaram a arma pra ele. Mas o Bruno se jogou em cima dele, e o tiro pegou uma vidraça.
— Bruno?
— É, para de repetir os nomes. ‘-‘

Amália correu até onde os outros estavam, Aiko e Pedro logo atrás dela. Galarza estava rodeado pelos amigos com sua arma ainda na mão, apontada para baixo.

— Guarda essa merda antes que os seguranças nos enxerguem! — Pinguin o avisava, mas ele não obedecia.
— O que aconteceu, gente?? D= Galarza, você ‘tá vivo?

Todos olharam para Amália. Galarza fez um sorriso amarelo.

— Infelizmente aqueles dois desgraçados também estão — disse Pinguin.
— Eu sequer acertei o tiro, cara ‘-‘ — falou Galarza, triste pela primeira vez na frente deles — O Bruno me levou pro chão, o tiro passou, beleza, levantei, saquei a pistola e... Fu, errei! Alguém me abraça? =/

Aiko o abraçou.

— Quem tentaria matar o Galarza? — perguntou Gustavo.
— Não importa agora. Vamos pra casa da Amália — disse Pedro rapidamente ao ver uma viatura chegando.

Os outros ficaram quietos e foram junto com ele. Galarza guardou a arma na cintura, enfiou as mãos nos bolsos e ficou olhando para o chão ao longo do trajeto inteiro.

...........A casa situava-se num bairro boêmio da cidade. Seus donos mais antigos foram proprietários coloniais — isso se fazia perceber pela própria arquitetura do lugar, ainda que as últimas reformas (ao todo foram três, com grandes espaços de tempo entre uma e outra) tivessem mascarado algumas coisas.

A casa já tinha sido bar, museu, outro bar... e uma loja de artigos esotéricos. Agora tecnicamente ela não tinha dono. Tecnicamente. Um grupo de cinco estranhos mudara-se silenciosa e rapidamente para lá naquela semana. Como a maior preocupação ultimamente vinham sendo as eleições, foi natural que as vizinhas indiscretas se esquecessem de voltar seus olhos bisbilhoteiros para a direção daquela casa. Foi bom para os recém-chegados.

O quarto maior e mais confortável ficava no segundo piso. A janela era de frente para um importante clube noturno. Lacraram-na para que seu ocupante não se incomodasse com a música e o barulho da bagunça mundana que emanavam de lá. Graças a essa providência, ele vinha dormindo bem. Não como gostaria, mas suficientemente.

Àquela noite, porém, as coisas estavam tensas. Ele recebera um telefonema, um daqueles ruins. Não só tudo tinha dado errado, o que já era péssimo, broxante e tudo mais, como ele também tinha a responsabilidade de levar a notícia às pessoas que mais confiavam nele. Sim, minha vida sucks.

Então, o mais rápido que pôde, ele reuniu Os Quatro. Chamavam-nos assim porque — dã — eram quatro e desempenhavam a função mais fundamental de todas no momento: protegê-lo até as últimas consequências, enquanto estivesse em Porto Alegre. Eles eram dedicados. Tinham cuidado de cada pormenor da mudança, incluindo o lacre da medonha janela. Ele sentiu um desconforto no fundo do estômago ao pensar nas reações deles depois que lhes contasse.

Não teve muito tempo para ensaiar um discurso: logo que pediu, eles subiram ao quarto.

— O senhor nos chamou? — perguntou o primeiro homem, que se chamava Fogg.
— Chamei — disse o “senhor” no mais claro inglês, como era de praxe entre eles, embora o sotaque francês fosse impossível de esconder — Acabo de receber notícias sobre o serviço que pedimos.

Os Quatro prenderam o fôlego de excitação.

— E que fim levou, senhor? Funcionou? — quis saber o segundo homem, que se chamava Albert.
— Infelizmente, não. O SPY escapou com vida.

Eles ficaram imediatamente chocados, do jeito que ele imaginara.

— Por favor, senhores, não se alarmem...
— Eu disse que não era uma boa ideia confiar o trabalho a terceiros! — falou a primeira mulher, que se chamava Stephanie — Aqueles dois ignorantes mal sabem com quem foram se meter! Se deixasse para um de nós...
— Já discutimos isso, Stephanie — o francês cortou-a com impaciência — Quanto menos ele suspeitar da nossa presença, melhor. Mas já não adianta chorar sobre o leite derramado. Se o alvo sobreviveu, imagino que os dois serão rastreados e facilmente capturados.
— Então o que faremos, senhor? — perguntou a segunda mulher, cujo nome era Paula.
— Deixaremos que isso aconteça, mas ficando de olho nos pistoleiros, de forma que, quando ele chegar... estejamos prontos. Uma coisa é certa — ele ergueu o dedo indicador na frente dos quatro servos —: Rafael Galarza precisa morrer, pelo que fez à nossa causa, aos nossos Mártires e às nossas memórias.

..........A caminho da casa dos Beckmann, Pedro parou o grupo e fez Gustavinho ir para casa. O menino já tinha prometido que iria embora após o evento já no momento em que eles estavam entrando no colégio, no início da manhã, porém não escapou aos olhos atentos do mais velho que ele tinha contrabandeado um pijama para dentro da mochila, e ultimamente um pijama funcionava como cartão de entrada para uma noite na casa de qualquer um deles.

Eles não podiam hospedar ninguém àquela noite — “eles” referindo-se aos ex-Players, naturalmente. Nem Gustavinho, nem Bruno. Não que os últimos não fossem legais ou fossem destruir a casa (isso era feito com frequência por quem morava nela), mas a discussão mais importante no momento era a de “por que alguém quis matar nosso amigo chato?”.

Uma vez tomada a decisão (“-Ninguém dorme na Amália hoje. Só o Galarza, porque... ele quase morreu.”), Bruno ofereceu-se para escoltar Gustavinho até a residência dele. E lá foram os dois, ligados em 220 volts. Logo em seguida, a parte do grupo que se distanciou dos Beckmann para despistar tornou a encontrá-los, e em poucos minutos eles estavam seguros no apartamento.

Enquanto Aiko se entretia com seus desenhos agachada no tapete, os jovens se sentaram em torno de Galarza, empoleirado no meio do sofá com um copo de água com açúcar na mão e a mesma cara de bunda de cerca de meia hora atrás, e esperaram que ele falasse. Depois do que pareceu ser uma eternidade, o garoto abriu a boca:

— Acho que sei quem fez isso.

Pedro, Pepito e Grilo inclinaram o corpo para a frente ao mesmo tempo, interessadíssimos em ouvir. Galarza ergueu o copo e dirigiu-se a Amália:

— Enche de novo pra mim?

A garota o olhou e soltou um “Grrr”, mas mesmo assim pegou o copo e foi para a cozinha.

— Thanks ^^ — Então ele continuou: — Bom, eu tenho uma teoria, mas vocês vão achar que ela não tem nada a ver.
— Fale mesmo assim. Pode ser a única coisa que temos — falou-lhe Pepito.
— Beleza... Mas primeiro eu tenho uma dúvida para tirar: quando você, o Gustavo e o Matt entraram na dimensão dos Cibernéticos, como ficou acertada a coisa a respeito do... sabem... do destino da GOOGLE e tudo mais?
— Nós já dissemos isso zilhões de vezes — respondeu Gustavo — Os Cibernéticos crackearam o arquivo de forma que tudo envolvendo a GOOGLE, Inc. e os planos da L.D.M virasse poeira cósmica. Os servidores deixaram de existir, os prédios desapareceram, as pessoas que trabalhavam nos planos secretos da organização foram “deletadas” para sempre.
— Por isso que a Norma morreu.
— Exato.
— Mas, com exceção de nós, as pessoas que sabiam da verdadeira natureza da GOOGLE sem fazerem parte dela... o que houve com elas?

O Grilo não entendeu.

— De quem você está falando?
— Mas é brincadeira u.u A DOOM FINGER, PÔXA!

Ele gritou bem na hora em que Amália vinha trazendo outro copo com água. O susto a fez derrubar tudo no chão, e ela xingou-lhe de todos os nomes imagináveis.

— Malz... Mas ninguém parou pra pensar em que fim levaria a minha ex-organização? — Galarza indagou aos três que haviam visitado a dimensão virtual.
— É, tipo... Essa não era pra ser uma preocupação sua? — devolveu Pepito.
— Pois é, depois que seu chefe morreu, a gente pensou que a D.F. estivesse, tipo, acabada ‘-‘ — contou Pinguin.
— Era o que eu tinha pensado, mas... Re-pensando nisso agora, faz sentido ela não estar ‘-‘
— O que você quer dizer com isso, Galarza? u.u
— Que eu acho que a Doom Finger tinha um plano B. Pra seguir sem o Negão e sem mim, no caso, porque ele morreu e eu estava oficialmente no que chamamos de — ele fez aspinhas com os dedos — “Missão Suicida”. E ela deve ter seguido esse plano. Acontece que sem o Google para enfrentar, a D.F. meio que perde o seu propósito, então... eu me pergunto o que passou pela cabeça dos meus antigos colegas depois que eles acordaram, no primeiro dia na Nova Terra.

Agora ele deixara os outros preocupados.

— Devem ter sofrido uma puta crise existencial! — exclamou Pepito — Seria possível eles terem redescoberto o Google nestes últimos três meses?...
— Acho pouco provável — argumentou Grilo — Mas alguma coisa deve ter ficado nas cabeças deles, como ficou para o resto do mundo. Como quando você acorda de um longo sonho do qual não consegue se lembrar inteiramente, mas jura que quando o sonhou era tudo muito claro e real.
— O que a gente vai fazer, então? — disse Pedro olhando de um para o outro, como se só eles tivessem o segredo — Não temos nem um rastro que nos leve aos assassinos.

Pinguin se voltou para Galarza.

— Você reconheceu algum dos pistoleiros?
— Claaaro, de capacete fica superfácil. u.u
— Sorry... =(

Então, Pepito os interrompeu:

— Olhem, se eles continuam agindo, é porque têm um propósito. Pode não ser o mesmo que eles tinham antes, mas deve ser importante para a organização. E, por algum motivo, isso envolve matar o Galarza.
— O que me deixa muuito feliz u.u — ironizou o SPY — Nossa, quantos amigos eu fiz naquela Academia...
— A Academia SPY? Seria um bom ponto de partida para investigarmos.
— Esquece. Pra começar, você mal conseguiria descobrir onde fica: ela vive mudando de lugar. Mas não é como se ela tivesse convênio com a Doom Finger. Acontece que os melhores assassinos jovens da organização receberam o seu treinamento lá. Fora isso, não sei por onde começaríamos a caçada aos homens que tentaram me matar. A vida não é fácil. u.u As soluções não aparecem prontinhas na sua porta!

*DING, DONG*

Eles quase pularam de susto ao som da campainha: era sinistro demais ela ter tocado logo depois daquela frase.

— Okay, ninguém vai levantar e abrir?... Affeeee! — Gustavo foi por conta própria até a porta, deu uma espiada rápida pelo olho mágico e a abriu.
— GUSTAVOOOOO!

Bruno Fulgêncio pulou com tanta força em cima dele que os dois foram parar no chão. Estressados como estavam, os outros ficaram agradavelmente surpresos com sua chegada e vieram cumprimentá-lo também.

— Mazaaa, Bruno! Mas por que essa roupa? — indagou-lhe Pepito encarando o uniforme de militar.
— Vocês sabem que eu fui cabo em Bagé...

Gustavo pôs uma mão no ombro de Fulgêncio, interrompendo-o:

— Sabemos. Você reforçou isso muitas vezes.
— Siiim, mas não foi por causa disso que eu vim aqui. Na verdade... — ele abriu caminho entre os garotos para chegar a Galarza, que o encarou sem entender absolutamente nada — Eu vim porque temia por sua segurança, Rafael.
— Oi?
— E vim lhe oferecer minha lealdade até você morrer... ou até eu morrer. Enfim... ^^
— Oi?²
— E eu queria te dizer também que dei uma pesquisada sobre os caras da moto... — Fulgêncio tirou um bloquinho de anotações do bolso da calça — Eu anotei o número da placa e mostrei prum amigo meu, que tem um amigo que trabalha na polícia, e descobri que a moto era roubada. O dono deu queixa faz dois dias.
— Como é que é?? — Pedro veio para o lado de Galarza e escorou-se no ombro dele, que cedeu um pouquinho ao seu peso (-¬¬), para ouví-lo de perto.
— Aí um outro amigo meu, que tem um amigo que é filho de um cara que trabalha num desmanche de veículos, descobriu que os meliantes tentaram levar a moto pra ser depenada, mas alguém percebeu que era roubada...
— E chamou a polícia. *.*
— Não. ‘-‘ Eles compraram as peças deles, exceto os pneus, que são ACME. E só tem um lugar em POA que vende e compra pneus dessa marca.
— E que lugar é esse?
— Pera... Aí um primo meu que tem o contato de um cara que mora ao lado do dono dessa loja-oficina que trabalha com pneus ACME descolou o endereço do estabelecimento. Os assassinos devem estar indo até lá agora pra fazer a transação.
— OH, MY FUCKING GOD!
— Foi bem simples, na verdade. ^^
— Eu tenho que ir! D= Onde estão minhas armas?... Onde estão minhas calças??? — Galarza começou a correr pela sala atrás de seus apetrechos, porém Pedro e Pepito o seguraram, um por cada braço.
— Espere um momentinho — disse João Pedro — O senhor não vai a lugar nenhum sem a gente.
— É, até parece que nós deixaríamos você morrer sozinho nas mãos daqueles dois covardes u.u — completou Pedro.
— É, você vai morrer com a gente olhando! Agora, vai pegar suas coisas!

Eles o soltaram, e Galarza continuou se preparando com rapidez. Pinguin e Grilo se levantaram. Queriam se juntar ao grupo. Porém, Pedro se pôs na frente da porta e disse:

— Esperem, nem todo mundo deveria ir. É arriscado demais.
— Masoque? — Pinguin.
— Lembrem-se: vamos brigar sem poderes. É essencial que apenas aqueles que possuem experiência... erm... não-virtual em combates vão junto com a gente. Vamos ver, Amália...

Ela estava ajoelhada no chão desenhando com Aiko.

— Okay, esquece... Gustavo, você fez karaokê.
— Karatê.
— Isso. Então, seremos eu, Pepito, Gustavo...
— Pinguin.
— Não, Pinguin. u.u
— Ahh, tomanocú!
— Você precisa ficar vigiando a Aiko e a Amália. Elas são... A Aiko é frágil.
— Ahhhh >.<
— Então, vamos eu, Pepito, Gustavo, Galarza e...

Ele virou-se e viu Fulgêncio.

..........O pavilhão onde funcionava a oficina ficava num tipo de bairro muito comum em Porto Alegre: aquele onde você mal entrou e já quer ir embora, com medo. Mas, dessa vez, não havia espaço para medo. Eles estavam numa missão de vida ou morte, e foi por isso que, como manda a arte da guerra, eles pegaram... um táxi.

Alguém tem cinquenta centavos? — pediu Bruno esticando o pescoço para o banco de trás. Seus quatro amigos, espremidos até não poderem mais no assento do carro, sacudiram as cabeças negativamente — Desculpa, tio — disse Fulgêncio ao motorista, que simplesmente murmurou um “Tudo bem” e acenou para que dessem o fora o mais rápido possível de dentro do seu táxi.

Assim eles fizeram e, depois que o carro foi embora e a rua estava devidamente deserta, o grupo andou furtivamente até os fundos do largo terreno onde, além de loja e oficina, funcionava um ferro-velho. Tentando não fazer barulho, subiram um de cada vez pela cerca de arame enferrujado, aproveitando uma pilha de pneus velhos que havia do outro lado para amortecer a queda.

— Falem baixo de agora em diante — alertou-lhes Galarza botando um par de luvas pretas. Pepito gritou “BAIXO!”, e todo mundo se jogou no chão ao mesmo tempo. Ele se apoiou nos pneus e riu.
— Porra, Pepito! — sussurrou Pedro já de pé novamente — Levantem-se aí, vocês todos!

Enquanto Galarza e Gustavo ainda sacudiam a poeira das calças, Bruno já escalava a parede de trás da oficina com o mínimo de ruído possível.

— Venham por aqui! — sussurrou.

Os outros o imitaram, e o quinteto ficou deitado silenciosamente em cima do telhado, próximos a um buraco na telha, por onde era possível observar o que acontecia lá dentro. Por enquanto, nada fora do comum. O patrão e dois de seus mecânicos cuidavam de três carros ao mesmo tempo. Vez ou outra eles mexiam os lábios e faziam gestos agitados uns para os outros, mas não era possível distinguir o que eles diziam.

— Consegue ouvir, Bruno? — perguntou Galarza.
— Eu tenho uma Mão Imorrível, não um Ouvido Biônico ^^ — falou Fulgêncio.
— Shhh! — fizeram Grilo, Pepito e Pedro ao mesmo tempo.

Uma dupla de homens altos e fortes adentrou a oficina. Um deles trazia uma mochila nas costas, a qual parecia ser pesada. Cutucou um dos mecânicos, que chamou seu chefe. Os três conversaram por alguns segundos, até que o homem da mochila abriu o zíper (da mochila) e retirou com dificuldade um pneu de moto, que mostrou ao dono da loja.

— Bingo — sussurrou Galarza.
— Você viu também? A marca? — disse Bruno.
— ACME.
— Por que a ACME faz tudo? — perguntou Pedro a Pepito, baixinho.
— Olha, cara... A minha avó é ACME.
— Vamos descer now! — falou Galarza sacando a pistola, mas Bruno o segurou pelo casaco.
— Espera! Vamos nos dividir...

Bruno e Pepito rastejaram até a beira do telhado, de onde se dependuraram e caíram de pé, suavemente, na entrada do pavilhão. Fulgêncio pôs a mão no bolso, tirou a arma que Galarza lhe dera e apontou-a para os dois suspeitos gritando:

— FBI!

Mal eles se viraram, o telhado fez “CRACK!” e Galarza, Gustavo e Pedro caíram como balas de canhão em cima de um carro parcialmente elevado por um macaco. O macaco quebrou, as rodas encontraram o chão, e a força produzida fez os vidros das janelas estourarem. Galarza apontou sua arma também, enquanto Grilo e Pedrobear cruzaram os braços fazendo trollfaces.

— Sai todo mundo daqui, exceto VOCÊS DOIS! — ordenou o SPY apontando para os bandidos.

O chefe e os dois mecânicos fugiram na mesma hora, e então Pepito puxou a porta de lona para baixo, de forma que ninguém mais saísse ou entrasse. Galarza desceu do carro (Pedro e Grilo o imitaram) e foi para perto dos pistoleiros, mirando o tempo todo em suas cabeças.

— Agora somos só nós e vocês, seus fdp. Armas, chaves, chaveiros, qualquer coisa, no chão. NOW!

Os dois obedeceram, deixando duas pistolas, uma faca e tudo que tinham de metálico perto dos pés dele.

— Okay. Agora... O que eu peço agora? o.O
— Pergunte quem mandou eles! — disse Pepito ao SPY — É clássica! =D
— ‘Tá... QUEM MANDOU VOCÊS, VAGABUNDOS? POR QUE QUERIAM ME MATAR?

Os bandidos trocaram olhares de incerteza. O da esquerda falou:

— Nós não sabemos quem ele é. Só aceitamos a primeira metade da grana e fomos fazer o serviço.
— Ele quem? — indagou Galarza no mesmo tom amedrontador.

O interrogado pareceu lutar contra um grande medo interno. Enfim, respondeu:

— O rapaz francês.

*KABRUM*

A cabeça do homem explodiu. Depois a do outro.

*KABRUM*²

— WTF FOI ISSO? — berrou Galarza com o rosto salpicado de sangue.

Uma porta atrás deles se abriu. Olhares e armas se viraram ao mesmo tempo naquela direção. Havia uma saleta no fundo do pavilhão que servia de escritório para o proprietário da oficina. Sem querer, eles tinham deixado passar. De dentro dela saiu um garoto alto, branco, de cabelos negros e longos caídos sobre os ombros, vestindo um terno escuro. Devia ter dezesseis anos, no máximo. Ele tinha na mão uma pistola com silenciador, mas agora não a apontava para ninguém. Apenas corria os olhos pela cena sangrenta com um sorriso maroto nos lábios, como se aquilo o divertisse pra valer depois de anos de tédio.

— Galarza... — disse o garoto, admirado, revelando um inconfundível sotaque europeu — Olhe o que você fez aqui...
— Dupont! — Galarza apontou a 9mm para ele, no que Bruno fez a mesma coisa. Quase no mesmo segundo, duas pessoas, um homem e uma mulher de meia-idade, “brotaram” de esconderijos diferentes, apontando UZI’s para a direção de Pedro, Gustavo e Pepito.

Houve uma segunda pausa dramática, mais longa e mais tensa.

Então Dupont sorriu e guardou a própria arma dentro do paletó.

— Você tem boa memória, Galarza. Posso deduzir, portanto, que também se lembre de Fogg — ele indicou o homem — e de Paula? — indicou a mulher.

Galarza olhou para os dois adultos, um de cada vez, reconhecendo-os, e sentiu um nó no estômago. Chegou perto de Pedro e lhe disse baixinho: “Estamos fodidos”.

— Mas você não achou que Louis Dupont fosse um dia ter alguma relevância dentro da irmandade, achou? — o francês continou a falar enquanto andava em volta deles — Não estando cego de ciúmes por eu ser infinitamente melhor que você.
— Você joga sujo, Dupont! — gritou Galarza sem perdê-lo da mira mesmo enquanto ele se movia — Só eu posso jogar sujo. ‘-‘
— Ah, claro... — o outro jovem parou na frente do SPY sem temer o cano de pistola direcionado à sua testa — Suponho que, por causa disso, você não imaginou que nós ressurgiríamos das cinzas depois do que fez com a irmandade. Depois do que fez com os Mártires.
— O que quer dizer com isso?
— Você assassinou os dois mentores! Eles, que tinham a verdade sobre o Bem e o Mal, sobre o sentido do universo, sobre as nossas vidas! Quando você os matou, todo o conhecimento apagou-se das nossas mentes e nós despertamos sós, sem propósito no mundo.
— Oh...

Agora Galarza sabia ao que ele estava se referindo. Todos sabiam.

— E você acha que me matando vai trazer tudo isso de novo?
— Vingar os Mártires terá sido o primeiro passo de uma longa trajetória. Nós temos planos para o mundo, Galarza. Vamos reencontrar nosso passado com a ajuda de toda a humanidade. Mas você... você não merece participar disso!

A expressão do francês ao olhá-lo era sempre de nojo. Galarza engoliu em seco, mas manteve firme o braço que segurava a pistola. Dupont deu alguns passos para trás e falou uma vez mais, dessa vez para todos:

— Vejam, todos: a Doom Finger voltará ao esplendor de antes assumindo uma nova forma, uma que conquistará este planeta inteiro!
— Não se um chato estragar a festa antes — disse Galarza entre dentes.
— Quer matar, Galarza? — Dupont sorriu, sádico — Se for o caso, todo mundo aqui morre — Fogg e Paula engatilharam as UZI’s — Incluindo seus novos amiguinhos suicidas.
— Quer saber? Nenhum deles se importa em morrer, se isso significar não ter que olhar mais para a sua cara!

Pepito olhou para Pedro com cara de “Nos importamos?”. Pedro respondeu com uma expressão de “Eu, sim, tá louco...”. Gustavo encolheu os ombros pensando “Whatever”. Bruno pensou “Acho que eu sei o que fazer”.

— Escuta, pessoal — Fulgêncio chamou-lhes a atenção — Existe um jeito diplomático de resolver o problema.
— Perdão? — disse Dupont.
— Permita que eu demonstre.

Ele atirou contra a caixa de energia. Todas as luzes se apagaram.

*BLAM!*

Ouviu-se um grito de mulher, mas não foi de Paula — nem do francês, caso alguém tenha pensado nisso também. u.u Por um longo tempo ninguém atirou ou se mexeu, cada um tentando descobrir onde um amigo e um provável inimigo estavam. Até que um deles tropeçou.

*BLAM! BLAM! BLAM!*

Mais um grito, dessa vez de homem.

Pepito!
Calma, foi por pouco.
Quieto, Bruno. Abaixem-se!

*BLAM! BLAM!*

Silêncio!

Uma lanterna se acendeu no meio do breu, e o feixe de luz passou da esquerda para a direita, de cima para baixo, inúmeras vezes, à procura de um ser em movimento. Era impossível dizer se era Fogg, o francês ou a mulher, ou ainda Pedro, Galarza, ou qualquer um dos garotos.

Agachado a um canto com as costas na parede, Pepito sentiu uma cutucada nas costelas e agarrou o primeiro membro que pôde — felizmente era um braço.

Auch!
Gustavo?
Shh! Sim.
Cadê o...?
Não sei! Fica abaixado!

*BLAM!*

Ouviram um vidro quebrando.

Pepito acendeu a tela do celular, que não era lá essas coisas em relação a uma lanterna, mas suficiente para se orientarem. Ele e Gustavo se deitaram e rastejaram para debaixo de um carro, de onde viram a silhueta de Galarza tremendo no escuro.

Psst!

Gustavo tentou chamá-lo, mas ele não ouviu. A lanterna veio “flutuando” atrás dele. Pela altura em que a seguravam, podia ser Bruno ou Dupont. De repente, uma porta de carro bateu. Bizarro.

Houve mais três disparos, e o SPY caiu.

Galarza!

Os farois do carro acima deles se acenderam, mais intensos que qualquer outra fonte de luz ali dentro. Dupont, que estava perto do corpo caído, virou sua lanterna na direção de quem os ativara e abaixou-se. Alguém abriu fogo de dentro do veículo até a munição acabar. Apenas uma pessoa foi atingida, e pelo grito, agora sim dava pra dizer que era mulher.

A porta vertical se abriu, e Gustavo e Pepito viram o tal de Fogg apoiando Paula sobre o próprio ombro enquanto Dupont os escoltava para fora. A porta do carro tornou a se abrir. Quem desceu foi Bruno.

— Voltem aqui, miseráveis!

Ele apanhou a arma de Galarza e correu para fora, mas já era tarde. Um carro cor de vinho partiu levantando poeira.

— Merda!

Bruno pôs a arma do SPY na cintura e voltou para dentro.

— Estão todos bem?

Pedro, Pepito e Gustavo surgiram das trevas com caras bastante assustadas.

— Beleza. Vamos dar uma olhada no outro agora.

Fulgêncio foi até Galarza, que até então não se mexera, e o fez deitar de barriga para cima.

— PQP, ele tomou três à queima-roupa! — exclamou Pepito.
— Galarza?... *tapa* Galarza, responde! — berrou Bruno.
— Se eu tivesse um chapeu, eu o tiraria agora =( — disse Pedro, triste.

...........Galarza não via nem ouvia coisa alguma. Dentro da própria mente, porém, ele podia sentir que estava sobre uma superfície mole e confortável, perdido em pensamentos aleatórios que não causavam dor, olhando para cima. Uma figura grande e encapuzada portando uma foice veio para cima dele.

Ou ele estava morrendo, ou esta era uma fantasia sexual muito estranha. Descobriu tratar-se da primeira alternativa.

— Lool, e eu nem descobri qual era o lance do Dupont! — falou consigo mesmo, achando a maior graça — Quem sabe numa outra vida...

O Anjo da Morte ergueu a mão livre e levou-a lentamente ao próprio capuz.

— ‘Tá... Você seria um dementador?

A Morte tirou o capuz e Galarza gritou. Era o rosto de Matt Liebert que ele estava encarando agora.

CONTINUA...

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