terça-feira, 4 de janeiro de 2011

(3ª TEMPORADA) EPISODE 03 - Estranho

— Onde eu paro? — perguntou o motorista de táxi quando eles começaram a subir a rua.
— Em frente à casa branca, por favor. Logo atrás daquela lata de lixo — apontou Pinguin sentado no banco ao lado.

Ele e Aiko desceram do carro carregando apenas duas mochilas com o essencial para o pernoite. Gabriel pagou o motorista pela corrida, tirou do bolso o molho de chaves que recebera de Pedro e abriu o portão da frente. Aiko foi correndo antes dele para o interior da casa, para ligar as luzes e abrir as janelas, já se desfazendo na entrada dos óculos escuros, da touca de inverno e do casaco de gola alta que Amália lhe obrigava a usar sempre que saía em público (seria tenso se alguém percebesse que sua aparência não era a de uma menina comum).

Pinguin juntou as coisas dela e as suas próprias do chão da sala parcialmente escurecida, acendeu um abajur, fechou a porta e levou a bagagem para a cozinha. Depois, foi ativar os alarmes de segurança, conforme Pedro tinha lhe orientado. O sistema da casa era diretamente conectado ao da polícia, além de a cerca ser eletrificada e haver trancas extras em todas as portas — essas inovações eram ideias recentes de Pedro, que as providenciara com a ajuda de Galarza assim que assumira a propriedade da casa, em nome de um suposto parente mais velho que estava em constante viagem de negócios. Se nada daquilo funcionasse, porém, eles tinham um revólver na gaveta e uma espingarda debaixo da cama, ambas doações do SPY.

Depois de se certificar que tudo estava bem quanto à segurança da casa, Gabriel voltou para a cozinha e abriu a geladeira pensando no que fazer para acalmar os nervos de Aiko (além dos próprios). Quem sabe ele chamasse Pepito, o distraísse um pouco dos deveres de casa, e os dois jogassem conversa fora até a noite passar.

O telefone tocou, e ele sentiu o coração pular para a garganta. Xingando sozinho, Pinguin foi à sala e atendeu a ligação.

— Oi?
Pinguin. É o Pedro.
— Ah, e aí?
Estamos ok. A Aiko ‘tá bem?
— Ela ‘tá tranquila. Acabamos de chegar. Eu estou pensando no que fazer pro jantar, na verdade...
Escuta, Pinguin. Tivemos um probleminha. Nos atacaram no caminho para a rodoviária.
— Quê?? E então...?
Nada pra se desesperar. Contornamos os caras, mas eles agiram muito rápido, logo depois que você e a Aiko foram embora. Por isso, é bom que preservemos os esconderijos tanto quanto possível. Não deem bandeira por aí, vocês dois.
— Claro que não! Acha que eu sou o quê?
Tem mais... O Gustavinho veio conosco.
— Ele? Como?
Não tivemos escolha. Ele ia ser morto também. E... nós tivemos que roubar um ônibus.
— WHAT?!
Não grite, Pinguin. Estamos quase na autoestrada agora. Chegaremos em Bagé em questão de horas. Eu te ligo de volta quando a viagem tiver terminado.
— Ok, mas... um ônibus! Vão ter que me contar direitinho o que aconteceu na volta.
Ok, Pinguin, ok... Estou me esquecendo de algo...? É, ci pah não. Bye!

Ele desligou. Pinguin deu de ombros e continuou planejando o jantar. Fez dois sanduíches. Pôs um deles numa bandeja e procurou por toda parte por Aiko, sem encontrá-la.

Ele tentou os banheiros, quartos, escritório, o sótão, o barracão dos fundos, a piscina... A menina parecia ter evaporado, e ele começou a ficar preocupado. Assim que entrou de novo na casa, pelos fundos, pensando em ligar para a polícia e explicar que “uma criança de anime desapareceu da residência do meu amigo”, esbarrou em uma coisa pequena e sólida e, ao olhar melhor na direção dela, ficou aliviado e assustado ao mesmo tempo.

— Merda! Aiko, por que não respondeu quando eu chamei?

Ela não falou. Estava parada no meio do corredor, com os olhos vidrados em alguma coisa que não estava presente. Sua face não esboçava expressão alguma. Pinguin se aproximou devagar da menina e olhou diretamente nos seus olhos não-humanos, que pareciam agora como mini-telinhas de televisão com transmissão ruim.

Gabriel não viu o que Aiko via. Naquele mesmo instante, talvez não em corpo, mas em espírito, ela estava parada no centro de um aposento escuro sem poder se mexer, pois uma corda ou corrente luminosa a envolvia dos pés ao pescoço, causando-lhe dor e medo. A outra ponta do laço ligava-se a um objeto cilíndrico branco que emitia uma luz verde muito forte. Brandindo o instrumento à frente dela de forma ameaçadora, um homem de rosto severo e maduro gritava. Estava raivoso, e sua raiva crescente era o que fazia o aperto do laço aumentar.

— Fale sobre a garota!

Um som de estática enquanto a corda pressionou mais a criança.

— O que ela esconde? Quem ela conhece?

Aiko apenas gritou. Lágrimas vertiam de seus olhos em profusão.

— Eu vou conseguir!

Mas o cordão foi se enfraquecendo, afrouxando, até quebrar-se. Alguém do outro lado, que nem ela nem ele conseguia ver, apenas pressentir, puxava a menina de volta. O aposento começou a tremeluzir e desaparecer. O homem praguejou com profunda raiva.

Antes de deixar o pesadelo, Aiko ainda viu duas dezenas de letras pairando no ar acima da sua cabeça, numa ordem que ela não conseguia entender:

S R T E F L I C P S
E U A A E

Um último puxão violento a trouxe de volta para o corredor da casa de Pedro. E Aiko de repente se viu no colo de Gabriel, contra quem lutava para se desvencilhar com mordidas e pontapés.

— Auch! Auch! Ei! Aiko! Sou eu!

A menina parou de brigar, confusa, e Pinguin permitiu que ficasse de pé sozinha. O garoto ajoelhou-se para ficar ao mesmo nível dos olhos dela e perguntou, com inconfundível medo na voz:

— Você ‘tá legal?

Aiko ainda tinha o rosto molhado pelas lágrimas. Enxugou-as com rapidez e respondeu, em tom mais alto que o convencional:

— Nada, tio Gabi! ^^ Eu só tive um sonho ruim.


Pela longa estrada o ônibus seguia, sem retroceder nem parar. No início da viagem até que houve conversações e risadas, mas depois que eles atravessaram os limites da cidade e atingiram a “highway”, um silêncio cansativo começou a reinar; talvez porque os momentos antes de conseguirem o transporte tivessem sido tão tensos e semifatais que deixassem algum trauma sobre todo mundo.

Depois de um tempo — cada um na sua janela, com seus próprios pensamentos —, alguém começou a batucar sobre o encosto do banco. Simultaneamente, eles ouviram a voz de Gustavo:

Leavin’ easy, leavin’ free...

Ninguém continuou, então ele apenas cantarolou. Porém, de repente, Pedro começou:

Don’t need reason, don’t need rhyme
Ain’t nothing I would rablarbarum…
Going down… party time…
My friends are gonna be there too…

Gustavo fez um solinho de bateria, e os dois emendaram:

I’m on the hiiiighway to hell
Hiiighway to hell…

— Por favor, parem. u.u

Eles olharam para Amália, deitada entre dois bancos um pouco atrás, e depois um para o outro com caras de “O que eu posso fazer?”. Bruno bocejou. Ainda era ele quem dirigia.

— Eu quero saber — disse Gustavinho, quebrando novamente o silêncio — por que eu sou a última pessoa a ficar sabendo das coisas por aqui.

Pelo jeito, ele estava puto. Os outros sabiam disso, mas não havia muito o que fazer em tais circunstâncias — não ainda.

Galarza se debruçou sobre o banco dele, no lado direito do ônibus, e perguntou:

— Você quer saber o que está acontecendo? Consegue viver com o segredo???
— Não é tão atormentador assim.
— Cala a boca, Pedro! Você quer, Gustavinho? — o SPY olhou para o garoto sentado na frente dele.
— Mas é claro! Por que queriam matar você? Quem eram aqueles caras? Por que todo mundo ‘tá agindo de maneira idiota comigo hoje?? ¬¬
— Não é apenas com você — explicou Grilo entrando na conversa — É um assunto muito tenso, entende.
— Muito! — disse Fulgêncio da sua cadeira atrás do volante.
— Ele soube? Antes de mim? — reclamou Toshiro.
— Foi uma questão de conveniência. Ele ia nos ajudar a fugir, porque... — Galarza refletiu sobre a melhor versão a apresentar, considerando que Bruno também estava no recinto, e decidiu-se pela mesma história que Fulgêncio já sabia — Tempos atrás, eu fiz parte de uma organização secreta.
— Que organização?
— É secreta. ¬¬
— Oh.
— Mas, de uns tempos pra cá, eu decidi sair. Conheci a galera e... Bem, foi melhor ter saído. Mas eles não concordaram com isso... Com “eles” me refiro aos... chefões da porra toda.
— Hmm.
— Por uns meses eu até consegui me virar tranquilamente. Passei um tempo na casa do Pedro, outro na da Amália. O plano era arranjar um lugar só pra mim recentemente, mas na noite do evento... Bem, parece que eles rastrearam, depois de tudo. Eles me querem morto.
— E é por isso que você está fugindo.
— Yep.
— Mas... — o menino olhou para os outros — Por que eles precisaram vir também?
— De ontem pra hoje a coisa foi ganhando uma proporção tal que... errm... Pedro, explica aí. ^^

Pedro deu uma suspirada.

— Nós fomos à caça de informações — com a ajuda do Bruno, principalmente — sobre os caras que foram contratados pra passar o rodo no Galarza. E nós rastreamos os drugues, mas... Uma merda lá aconteceu.

Gustavinho lançou um olhar interrogativo a Galarza, que explicou:

— Meu “chefe” apareceu. Parecia puto, por alguma razão...

Ele e os outros se entreolharam compartilhando um sentimento mútuo de estupidez por transmitir uma história mal contada... Mesmo assim, o SPY continuou:

— Estávamos o Bruno, Pepito, eu... uma galera. E tentaram nos matar. De novo. Nós fugimos, e... Bem, o resto foi meio complicado.
— Qual foi o resto? — insistiu Gustavinho.
— Tá ligado esse veio que apareceu na TV...? Sei-lá-o-que Finger?

Gustavinho fez que “sim” com a cabeça.

— Descobrimos que ele está envolvido de alguma maneira na minha... ex-irmandade. Resolvemos dar uma passadinha no templo que ele acabou de abrir pra dar uma xeretada, mas ALGUÉM (¬¬) esqueceu o RG por lá!

Amália estava pronta para dar o troco em Galarza com um xingamento duas vezes pior, mas Gustavinho falou antes dela:

— O Fingerista? Meus pais se converteram a esse negócio. Não falam de outra coisa em casa há dias. E nossos vizinhos também. Eles levaram o filho deles para a cerimônia e tudo...
— Nhaa, crap! — praguejou Pedro esfregando as têmporas doloridas com a falta de sono — Está mais perto do que pensávamos. Escute aqui: você não chegue nem a 100 metros de distância daqueles malucos! Falo sério! u.u
— Eu não sou chegado nessas coisas! — exclamou o outro inclinando-se defensivamente para trás — É chato. o-o

Fez-se um silêncio.

De repente, Amália gritou do seu assento no fundo do ônibus, penosamente entediada:

— Nhaaa, até quando vamos ficar rodando? ¬¬

A resposta veio de Bruno, conduzindo o volante:

— Não por muito tempo. Bagé é logo ali...

O seu “logo ali” não soou muito convicto. Na verdade, desde a última meia hora o cabo teve a impressão de estar circulando a esmo por uma vasta estrada rural, sem ter a mínima ideia se estava ou não no caminho correto para a cidadezinha. Um pouco mais à frente ele parou o ônibus ao dar com uma placa de desvio apontando para a direita, por onde começava uma estradinha de chão batido sem nenhuma iluminação.

O motorista coçou a cabeça, um pouco confuso, e virou-se para seus amigos, sentados nos bancos.

— Bom, pessoal, vocês me perdoam se eu disser que... NÃOSEIAONDEESTAMOSINDO???! D=

Ele se atirou no chão, entregue a um choro histérico. Os outros o olharam de sobrancelhas erguidas.

— Errm... — Pedro olhou para Galarza — O que se faz nessa hora?

O SPY deu de ombros.

— E eu sei lá?

Para surpresa dos demais, Amália veio até Bruno, abaixou-se perto dele e pôs a mão delicadamente em seu ombro dizendo:

— Pronto, Bruno, está tudo bem...

Pedro olhou novamente para Galarza, assustado.

— O que fazemos?? A Amália está sendo boazinha!

*SLAP!*

Amália tinha dado um tapa no rosto de Bruno, que sacudiu a cabeça, piscou os olhos e parou de chorar.

— Wow... De repente tudo parece mais claro pra mim! Valeu, Amália. ^^

Ele beliscou a bochecha dela e se levantou com um salto.

— Sei o que fazer! Temos duas opções: voltar para o ponto de onde saímos e recomeçar o trajeto, ou entrar nessa estrada escura, perigosa e sombria que não sabemos aonde vai dar...

Os outros esperaram.

— Vamos pela estrada escura, perigosa e sombria! =D

Mais calmos por terem tomado uma decisão racional em conjunto, voltaram, cada um, para seus lugares, Bruno ao volante, e prosseguiram com a viagem através da estrada de chão batido.

...........Um pensamento um tanto absurdo veio à mente de Gabriel enquanto ele espiava Aiko, que entretia-se construindo um castelo de cartas: e se a garota fosse paranormal? Ele próprio tivera toda uma criação baseada na crença em percepções extra-sensoriais e experiências da consciência fora do corpo.

E se ela tivesse, por algum motivo, “saído do ar” naquele momento no corredor? O que poderia ter captado? Ora, a criança transformava desenhos em objetos reais! — coisa que Pedro pedira a ela para não fazer mais, mas enfim, nada impedia que esse tipo de coisa fosse acontecer com ela.

A primeira providência, de qualquer maneira, seria contar o episódio a Pedro. Mas ele não queria perturbá-lo com aquilo quando o amigo já estava com as mãos cheias em Bagé.

..........A luz dos farois bateu sobre uma nova placa, quase escondida atrás de uma vegetação na beira da estrada: “LOGO ALI — 8.000 HABITANTES”.

— Mas, hein?

Bruno fez força com os olhos para discernir o que havia a cerca de 20 metros de distância do School Bus. Logo mais à frente, à entrada da pequena cidade, havia um casarão antigo com 3 andares, de arquitetura colonial, com os fundos voltados para um denso matagal.

— Ô, gente! — Fulgêncio chamou os outros, para acordá-los, parando devagar a pouco mais de 10 metros da construção. Desligou os farois. Sem querer, eles tinham chegado a um lugar do qual ele nunca ouvira falar. — Acordem! — chamou mais uma vez, indo de banco em banco para chacoalhar os amigos, que tinham adormecido em posições estranhas sobre os assentos do ônibus. Em poucos segundos, estavam todos despertos e alertas.
— O que aconteceu? — indagou Gustavo no meio de um bocejo.

Parado no meio do ônibus, Bruno acendeu uma lanterna.

— Falem baixo — avisou — Nós chegamos à cidade de Logo Ali.
— Como é? — perguntou Galarza.
— Logo Ali! Mas eu não sei de onde brotou esse lugar, porque não existe indicação dele no mapa.
— Vamos embora, então! D= — disse Pedro.
— Não temos combustível suficiente para a volta, além de já estarem todos cansados — disse Fulgêncio — Aqui... — ele indicou com a lanterna o casarão lá fora — Tem uma propriedade ali à frente. Sugiro que eu e mais alguém entremos e sondemos o território. Ci pah, o dono da casa nos ajuda.

Eles pensaram a respeito.

— Não é má ideia... — disse Grilo.
— Concordo com o Gustavo! — exclamou Amália afofando a mochila que usara como travesseiro — Vocês vão, e eu fico aqui... cuidando do veículo... zzzzZZZZZzzzz

Galarza ficou de pé e se juntou a Bruno.

— Eu vou com o cara.

Desceram os dois do School Bus, Bruno à frente iluminando o caminho para que não tropeçassem em uma pedra ou pedaço de tronco. Aproximaram-se da enorme casa, sobre cuja porta foi possível enxergar uma placa de bronze com os dizeres: “MUSEU DE UFOLOGIA DE LOGO ALI”. De dentro da casa saíam som de conversas e cheiro de comida.

Bruno e Galarza olharam um para o outro com expressões de “Não parece tão ruim” e se aproximaram para tocar a campainha.

*DONG DING*

Quase imediatamente após o toque reverso que anunciava a chegada de novos visitantes ao misterioso local, a porta abriu-se com rapidez e uma senhora baixa, gordinha, usando óculos quadrados de lentes grossas meteu a cabeça para o lado de fora, olhando-os com curiosidade.

— Boa noite? — ela disse, com voz semelhante a de um bebê.

Os garotos balbuciaram qualquer coisa sem sentido, e ela indagou:

— Vocês vieram para a noite de autógrafos? Porque ela já começou, mas não se acanhem! — a mulher abriu mais a porta, dando-lhes espaço para que passassem, e acrescentou bondosamente: — Tem champagne e salgadinhos. ^^

Pensando cada um consigo “Whatever”, os boys entraram. A anfitriã fechou a porta e conduziu-os pelo Hall, que guardava uma grande maquete do que seria a comunidade de Logo Ali (com uma seta fincada no ponto onde eles estavam naquele momento), até um par de portas envidraçadas pelas quais se via um salão repleto de pessoas de aparência importante, segurando taças e falando entre si.

— Vão direto para o Salão de Atos. O professor está atendendo alguns convidados.

Seguindo a orientação da mulher, eles adentraram o ambiente de intelectuais, espiritualistas e outros bichos mais. A maioria estava reunida em torno de alguém de quem os garotos só conseguiam distinguir a voz, rouca e arrastada. Assim como a mulher que lhes abrira a porta, o homem devia ser muito velho.

Aos doze anos eu tive o primeiro contato. Eu estava sentado na varanda com uma revista em quadrinhos no colo quando uma forte luz brilhou do alto das copas daquelas árvores que os senhores viram atrás desta casa. Foi ali mesmo. Uma forma cilíndrica, de altura e diâmetro consideráveis, planava silenciosamente à procura de um ponto para pousar. Eu então me levantei, inexplicavelmente atraído pelo brilho que emitia, e fui cambaleante na sua direção. Quando atravessei o mato e me vi diante daquele colosso, a máquina já havia encostado no chão sem nada especial para se sustentar, nada de trens de pouso ou perninhas mecânicas. Apenas assentou-se no gramado e ali ficou.
De repente abriu-se uma fenda no corpo do objeto, com altura suficiente para duas pessoas, uma em cima da outra, passarem por ela. E uma rampa se projetou para fora. Por causa da luz forte, eu não consegui ver direito quem ou o que se aproximava, mas sei que tinha a compleição física semelhante à de um ser humano; bem, um ser humano duas vezes mais alto do que o normal, mas ainda assim tinha dois bracinhos, duas perninhas, vocês sabem... Aquele ser veio descendo a rampa a passos graciosos, seus longos braços balançando-se como plumas enquanto se movia. Agora que estou pensando... isso era meio gay. Anyway, a figura deixou a rampa e atingiu o gramado, observando tudo com muita curiosidade, até que olhou para baixo e viu aquela criaturinha com menos de 1/3 do seu tamanho parada na sua frente com cara tacho: esse era eu.
O ente coçou a cabeça, provavelmente incerto sobre o que fazer (se fugir, atacar ou me comer), e então falou no mais claro português: ‘Olá. Sabe onde vendem ceva?’.

O discurso deixou todos muito impressionados. Após uma breve salva de aplausos, o orador continuou:

Depois disso eu desmaiei e acordei no quarto sem a minha revista. Décadas depois, deixei esta cidadezinha para iniciar meus Estudos Ocultos na Universidade Federal do Acre. Bancá-los nunca foi um problema, dada a boa situação financeira de minha família. Difícil foi ACHAR o lugar. Depois de dez anos, concluí meu Doutorado em Parapsicologia com uma tese sobre o Gasparzinho e retornei à minha cidade natal para fundar este Museu de Ufologia, dedicado ao estudo das aparições de OVNI’s em Logo Ali. Como sabem, depois que começamos a produzir nossa própria cerveja os contatos triplicaram nesta região. Foi visando a incitar novas pesquisas e a informar a população leiga que eu reuni uma parte desse vasto conhecimento em um livro, intitulado “Coisas Que Aparecem No Ceu Quando Você Não Está Olhando”, cujo lançamento acontece hoje. Agradeço solenemente a presença de todos... mas por favor, comprem o livro. A gente tem bolinhos de chuva. ^^

Eis que a multidão se dispersou — bolinhos exercem um forte apelo psicológico. Finalmente os garotos, que até agora escutavam a conferência sem se aproximar dos acadêmicos, puderam ver a quem pertencia aquela voz carismática. E, para surpresa de Bruno, Galarza manifestou-se:

— Prof. Bilaw!

O cientista virou a cabeça ao ouvir o próprio nome e, vendo Galarza, abriu a boca num grito que não chegou a sair. Ele olhou em volta à procura de outra pessoa para conversar e assim não ter de confrontar o garoto, mas era tarde demais. O SPY foi até ele acompanhado por Bruno e tocou-lhe o braço.

— Professor! O senhor por aqui?
— Eu... erm... Veja você que... — o ancião viu que não tinha saída e suspirou, passando a mão pela parte calva da cabeça — Muito bem, Rafael. Você me achou.
— Quem ser esta pessoa? — cochichou Bruno ao ouvido do SPY.
— Ele era professor de Ocultismo na Academia SPY — explicou-lhe Galarza, notando um rubor de arrependimento na face do mestre quando ouviu o nome da instituição — Sumiu misteriosamente... — acrescentou olhando fixamente para o velho — Sem deixar UM BILHETE.
— E-eu tinha outras coisas, você entende! D= — o senhor gaguejava e sacudia as mãos procurando defender-se — Eu estava sob pressão!
— Não interessa. u.u Você foi embora do nada, todo mundo pensou que você tinha morrido ou sido sequestrado, eaindamedeunotabaixa, porra!
— Entenda, Rafael, não foi nada pessoal... — disse o homem andando até a mesa de canapés. Os garotos colaram nele para garantir que não escapulisse — Eu sempre fiz meu trabalho na Academia com rigor. É só que... havia outras coisas. Você não vai fazer isso comigo, vai? D= Mesmo eu tendo lhe dado aquele conceito baixo. Esta é uma noite importante, estou apostando o trabalho de uma vida nela. Eu lhe suplico!
— Mas, hein?

Galarza franziu a testa.

— O que você acha que eu vim fazer aqui?
— Ora, capturar-me, não? E me levar até a maligna Diretoria! D= — sussurrou o velho com pavor.
— Quê?... Ah, não, não. Lol... Na verdade, meu amigo e eu nem sabíamos que essa cidade existia. Caímos de paraquedas aqui.
— Não foi de ônibus?
— Foi, Bruno, só espera um pokito. u.u

De repente o professor pareceu extremamente aliviado.

— Por todos os deuses astronautas! Nunca pensei que fosse receber clemência de um aluno da Academia! — ele pareceu assombrado, na verdade, e passou a estudar Galarza minuciosamente através de seus óculos de lentes quadradas — Você está diferente, meu rapaz. Por onde andou?
— Por aí...
— Mas o que o traz até um lugar tão insignificante como Logo Ali?

Galarza e Bruno entreolharam-se.

— Eu não sei se você merece a versão resumida ou a completa da minha história. Vamos ver, primeiro... por que você saiu da Academia?
— Ah, meu garoto, por onde começar?... Antes de lhe dizer qualquer coisa, tenho que ter certeza de que isso não é um truque. u.u Qual o ser humano mais fodão em toda a face da Terra?

Galarza riu.

— Tá me tirando, velho? u.u Está na cara que sou eu! *.*

O professor coçou o queixo, pensativo.

— Acho que posso confiar em você.

Galarza fez um “positivo” com o polegar.

— Eu não entendi ‘-‘ — disse Bruno.
— É que somente alguém sem qualquer laço de fidelidade com a Academia responderia uma coisa dessas. Um verdadeiro SPY, digo, a serviço dos interesses da instituição, diria “O Diretor é o mais fodão”, entende? Do contrário, teria de cometer Seppuku.
— Oh.
— Além do mais, quem é que não percebe que eu sou o cara mais fodão do universo? *o*
— Okay, acho que isso é suficiente, Rafael — disse o professor — Vamos conversar os três em particular.

Aproveitando a distração dos demais com os canapés, pasteis e bolinhos, os dois garotos e o mestre recolheram-se a uma sala ao lado.

CONTINUA...

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