segunda-feira, 19 de julho de 2010

(2ª TEMPORADA) EPISODE 09 - Ponto de Virada

Percorreu o corredor de várias portas sem olhar para trás, pois sabia exatamente aonde queria chegar. No final do caminho, escancarou as cortinas vermelhas de veludo e o que encontrou foi novamente aquele salão quadrangular com paredes de mármore preto, fracamente iluminado por velas. No centro estava o velho espelho, do qual ele se aproximou para esfregar a poeira que lhe cobria a superfície e, assim, poder mirar o próprio rosto naquela coloração cinzenta. O rosto falou com ele:

Estava esperando você, Pedro. Por que se atrasou?

O garoto respondeu com convicção:

— Quero que isso pare!
Por quê? Por que justo agora, que estava prestes a descobrir mais?
— Não estou ganhando nada com você. Há várias noites você vem me enrolando, e para quê?
Falta-lhe paciência. É típico dos humanos. Mas nosso santuário mental comporta várias capelas, todas conectadas por diferentes portas. Como espera explorar todas elas se nunca passou da entrada?
— Tenho medo do que posso encontrar.
Do que vai encontrar, ou do que eu possa fazer com você?

Pedro não respondeu.

Nós estamos juntos nessa, Pedro.

Mesmo assim ele hesitou.

— Como posso repousar minha confiança em você... quando todos que já fizeram isso se machucaram?
Você está nos considerando isoladamente. Esqueceu o que somos em conjunto. Confiar em mim agora, Pedro, seria como confiar em si mesmo. Será tão ruim assim?

Seu cenho franziu-se, os lábios contrairam-se de angústia. O garoto teve de escolher. E escolheu. O outro no espelho entendeu isso sem que ele precisasse falar, sendo que logo em seguida a parede atrás do móvel ruiu e alongou-se para dentro, formando um novo corredor escuro. Pedro olhou para ele com interrogação e, pela primeira vez, medo.

Seu eu do espelho lhe disse:

Apenas vá em frente.

Pedro saiu da frente do vidro e andou em direção ao caminho inexplorado. Ouviu os próprios passos ressoarem no escuro, de certo ponto em diante a única pista que tinha de que ainda estava sobre terra firme, pois a luz do aposento anterior começava a ficar cada vez mais distante. Por fim, teve a impressão de estar num novo ambiente: mais claro, mais fresco, mais perfumado. E, à medida em que essas sensações o atingiam, o espaço ia tomando forma: de repente havia grama, um pomar e uma árvore nos fundos de uma casa branca. Um homem, munido de tesoura de podar e regador, cuidava dela. Ele fazia o serviço com zelo, apesar da árvore parecer muito decrépita. Sem querer, o pé de Pedro esmagou uma folha seca, o que quebrou sua concentração e o fez olhar para o lado. O homem, porém, não se incomodou com isso.

— Mas que bom que você chegou! Não se preocupe, você não interrompeu nada. Eu só estava dando atenção a uma velha amiga...

O jardineiro deu alguns passos para trás para fitar a árvore, pois esta era um tanto alta, e Pedro discerniu melhor sua fisionomia, reconhecendo-o.

— Sebastian!
— Sabe, há muito tempo... — o doutor lhe contou — um monge plantou uma árvore seca no alto de uma montanha. Era uma árvore mais ou menos como esta. Qualquer um diria que ela não tem nenhum atrativo, mas... Ele dizia ao seu aprendiz, cujo nome não consigo lembrar, para que a regasse todos os dias até ela voltar à vida. Então, todos os dias, o aprendiz enchia um balde com água, subia a montanha, regava a árvore e só retornava ao anoitecer. Ele fez isso durante três anos, e eis que um dia, quando ele subiu a montanha outra vez, a árvore estava coberta de flores. Você pode dizer o que quiser — ele apontou o dedo diretamente para Pedro —, mas o sistema é uma coisa impressionante! Sabe, às vezes eu digo a mim mesmo que... se você faz algo todo dia, à mesma hora, sempre o mesmo ato, como um ritual, sistematicamente... bem, algum dia o mundo irá mudar. Tem que mudar.

O homem ficou em silêncio por algum tempo, imerso nos próprios pensamentos, até soltar uma gargalhada.

— Mas você deve estar cansado desse meu blá-blá-blá! Se me permitir, eu fico falando, e falando, e esqueço o verdadeiro motivo de ter te trazido aqui. Pois então, Pedro, acho que é hora de você conhecê-la. Ela anda tão ansiosa desde que eu falei que iria trazê-lo aqui. Espere um pouco.

Ele largou as ferramentas e entrou na casa. Enquanto o esperava, Pedro olhou para cima e viu um par de olhos incrivelmente azuis encarando-o de uma janela. Seu coração disparou — ali estava a pessoa que precisava encontrar. Uma mão encostou no vidro, transmitindo um “Olá”, e ele ergueu a sua em resposta.

De algum lugar, uma voz chamava seu nome, trazendo-o de volta, coisa que ele não queria. Tentou lutar. Não conseguiu.

...........— PEDRO!

O garoto abriu os olhos e viu Amália debruçada sobre ele. Um de seus passatempos preferidos atualmente era ir à biblioteca durante a noite, em companhia de Matt, que sempre lhe indicava um número considerável de livros sobre tecnologia, física, história e ciência forense. Dessa vez, porém, ele adormeceu antes da hora, por isso Liebert resolveu não incomodá-lo. Quem encarregou-se de acordá-lo, então, foi a garota.

— Boa... noite?
— Você pregou o olho na poltrona. Vem, levanta. O Negão mandou apagar as luzes mais cedo por causa do racionamento.

Pedro se levantou, repôs o livro na prateleira e acompanhou Amália até o andar dos quartos.

— Você não parecia bem. — ela comentou no caminho — Pesadelo?
— Pior que isso. — murmurou Pedro.
— Eu posso ajudar?

Eles pararam à porta do dormitório masculino, olhando-se. Para Pedro, era raridade ela fazer uma pergunta como aquela.

— Não sei. — ele respondeu com sinceridade — Ando... desligado ultimamente, mas não é por essa história de combater o GOOGLE. Acho que tem a ver com meu passado.
— Hmm.
— Às vezes eu passo a noite em claro estudando, e isso me faz perguntar: que porra o dr. Sebastian queria que eu fizesse?
— Sei como é...
— É tão difícil ter um pedaço da sua vida, uma coisa que pertence só a você e mais ninguém, apagado!... *suspiro* Eu sou um cara muito complicado.
— Eu também...
— Hã? o.O
— Er... Sksoaksoaksoaksoakskaoskoak!
— Saksoksoaksoaksak!
— Sksoaksaoksaok, desculpa, eu não tava prestando muita atenção! Saksoskaoskoak...
— Tudo bem, já é tarde mesmo. xD
— Saksoskaoksoaska.
— De qualquer maneira, você é um cara legal, Amália. xDD

Pedro abriu a porta do quarto, enquanto ela foi se afastando de costas para entrar no seu, que ficava logo em frente.

— Boa noite, Pedro.
— Boa noite.

AMÁLIA FOI DORMIR
PEDRO FOI DORMIR

==============>COFFEE BREAK<=============

O Agente #3 foi incapaz de reprimir um suspiro de “Lá vamos nós outra vez”, assim que saiu do elevador e viu quem é que estava esperando por ele à sua porta — melhor dizendo, acampando em pleno corredor, com cobertores e tudo.

— Sabia que você não desistiria tão fácil, Nikolai.
— Ora, é claro que sabia, não?! Somos ambos brasileiros!
— Levanta daí agora, que eu preciso entrar na minha sala.
— Nam...
— Quê?

O Agente #1 não deu o menor sinal de que voltaria atrás. Do contrário, afofou o travesseiro para deixá-lo mais confortável e recostou-se nele com os dedos entrelaçados atrás da cabeça. Rodney franziu a testa, admirado.

— Não vai me deixar entrar na minha própria sala?
— Não até que admita a relevância das informações que colhi.
— De novo esse assunto? Você por acaso bebeu?... Certo, deixa eu ver se entendi: você acha que se eu te der permissão para entrar na casa do Nunes, isso vai ajudar a achar Liebert?
— Não necessariamente.
— Certo, então, se a nossa responsabilidade — SUA responsabilidade, é achar Liebert e Pedro, o que isso tem a ver com a história?
— Diz respeito ao passado de Sebastian. Melhor dizendo, o passado de Schneider. O GOOGLE sabia que ele tinha publicado aquele livro, sabia também que ele tinha amigos por aí.
— Sabíamos que SCHNEIDER tinha escrito livros e que possuía amigos no meio científico. Mas, no dia em que se tornou Sebastian, isso tudo foi deixado para trás.
— E quanto a família? Alguém que se importasse com ele?
— Ele era um homem reservado. Os cientistas que o conheciam deixaram de falar com ele depois da tese maluca, e isso o fez se isolar cada vez mais.
— A tese deste livro?

O Agente #1 estava com a cópia do Instruction Book debaixo do edredom — seu livro de cabeceira. Mostrou-o a Rodney, que não manifestou muita surpresa e apenas falou com indiferença:

— É, é esse mesmo.
— Já o leu? — perguntou o outro agente.
— Ora, por favor! Lê-lo? Isso é um verdadeiro “Eram os Deuses Astronautas”! — respondeu Rodney impacientemente.
— De fato, para a época foi, mas você sabia que isso está intimamente ligado aos fenômenos provocados pelo RPG de Liebert? Sabia que Nunes, o último dono da casa de Schneider, assassinado este ano, não era cientista e mesmo assim mantinha uma sólida amizade com ele? A ponto de ganhar a casa de presente? Foi mais ou menos quando... Ora, bolas! Foi quando Schneider virou Sebastian e veio trabalhar para nós!

Agora ele se levantara, influenciado pelo calor do discurso e empolgado em pôr Rodney contra a parede.

— Sou levado a suspeitar que Schneider/Sebastian planejou direitinho o que seria da sua vida depois que entrasse para o Projeto Bob e que, inclusive, deixou algo nas mãos de Nunes, o “Dodi”. Veja isto.

Ele tirou do bolso um recorte de jornal velho, de uns doze anos atrás, e o entregou nas mãos do Agente #3.

— Leia em voz alta pra mim.
— Não vou te dar o gostinho...
— Vamos!

O Agente #1 parecia um viciado em abstinência. Para não contrariá-lo, Rodney começou a ler a reportagem:

— “Mistério no sumiço do dr. Schneider: há dois meses se desconhece o paradeiro do outrora famoso especialista em robótica, dr. Damião F. Schneider, desacreditado pela crítica depois de publicar um livro chamado ‘Instruction Book’, no qual expunha uma controversa tese sobre o destino das sociedades humanas na Era da Automação. Na época, embora alguns comparassem seu gênio ao de Marshall McLuhan, a maioria o apontava como mais um Erich von Däniken. Um amigo próximo do cientista, Eduardo Costa Nunes, alegou recentemente ter recebido dele um bilhete anunciando seu isolamento voluntário. ‘Eu não diria onde ele está mesmo se soubesse. Acho que merece ser acolhido por ET’s, se for o caso, depois do descaso do qual foi vítima simplesmente por ter exposto suas ideias mais revolucionárias’, declarou Nunes, que também se descreve como adepto da Ufologia.” OK, Nikolai, pra mim chega.

Rodney devolveu-lhe o recorte e tentou passar por ele, em direção ao escritório, mas Nikolai não deixou.

— Pense comigo! Pense comigo: tentaram importunar o homem numa ilha deserta que ele teria comprado, assim como Saramago, mas na verdade ele estava com o GOOGLE trabalhando, não estava? Alguma vez deixamos de vigiar o amigo Nunes?
— Não havia necessidade. Schneider trocou de nome, disse a Nunes que ia viajar para longe e veio cuidar do Projeto Bob. O que esse Nunes poderia saber?
— Alguma coisa!
— Schneider não teria motivos para nos delatar, pois só veio a nos trair anos depois.
— Exato! Mas para onde ele foi quando fugiu?

O Agente #3 empacou. Não sabia a resposta. Indignado em perceber isso, o Agente #1 veio com a pergunta:

— Vai dizer que o perderam?
— Fala baixo! É complicado...
— Me disseram que Sebastian, ou Schneider, ou que nome tenha, tinha sido “apagado” pela empresa.
— Apagado dos relatórios.
— O quê?

Rodney disse aquilo com uma tremenda cara de fracassado:

— O plano era acabar com a vida dele, mas o desgraçado sumiu, deixando aquela mensagem no computador de Pedro.
— Sumiu?... WTF, ele está vivo?
— Não me olhe assim...
— Eu trabalho pra vocês! Eu estou no comando aqui! E brincam comigo como se eu fosse palhaço!
— Bem-vindo ao clube...

Nikolai começou a andar nervosamente de um lado para outro, no que Rodney tentou aproveitar para entrar no escritório, mas não conseguiu, pois cada vez que dava um passo adiante, ele entrava no seu caminho.

— OK, então... Se Schneider/Sebastian fugiu de nós, deve ter visitado um amigo de confiança. Um amigo como Nunes. Vocês cogitaram isso, na época???
— Não nos ocorreu que Nunes soubesse de algo. =/ Nós simplesmente “pulamos” o cara. Aí veio a merda com os Cibernéticos, Pedro foi libertado e... você já sabe o resto.

Havia uma certa culpa no tom de Rodney, que não era pra tanto, afinal, ele fizera merda de novo (?!?!).

— Ah, então tá. u.u Deixaram tudo isso acontecer, agora Pedro está solto nas ruas, Nunes morreu e você me diz que isso não é relevante!

Nikolai sacudiu os braços, como quem diz “tá, e agora?”. O Agente #3 respondeu:

— Se acha que dando uma olhada na casa de Nunes vai encontrar alguma coisa, fique à vontade. Mas não creio que isso trará alguma luz que leve a Liebert ou Pedro. Por exemplo, você não acha que um deles matou Nunes, acha?
— Não vejo Nunes sendo morto por um garoto. Ou garota. Isso me parece consequência de algo mais antigo que eles, que nós deixamos passar. Schneider confiou mais NESSE cara que em qualquer outro. Por quê?... Estou pensando que ele deixou algo aos cuidados do homem.
— Tipo...?
— Algo de extremo valor, que nós não pudéssemos encontrar. Seja lá o que for, a pessoa que matou Nunes levou isso embora.

O Agente #1 sentou em cima dos cobertores com as mãos cobrindo o rosto, murmurando consigo mesmo:

— Se tiver restado alguma coisa na casa... algo que indique o segredo de Schneider...

Depois de muito pensar, ele ficou de pé e disse ao subordinado:

— Eu quero o relatório policial sobre Nunes.
— Tá, o que você pensa que eu sou? Mata Hari?
— Você SABE que pode me dar isso. E quero as chaves da mansão branca. Deixe tudo na minha mesa.
— Aonde você vai agora?
— Chamar a Norma.
— Ei, espera aí! Eu também tenho dever de casa! Tem ideia do quanto esse grupo de vândalos tem aterrorizado a cidade? Alguém pode acabar se machucando!
— Não tenho a menor ideia, Rodney. Por isso é que não trabalho com esse caso. Bye.
— Ora, seu... ¬¬

...........Matt sentou-se na beira da cama com a mochila no colo, abraçando-a como a uma pedra firme na correnteza. O dia seguinte seria domingo. Dia do BIG evento. Ele prendeu o fôlego com o pensamento de que sua “hora da verdade” estava mais próxima do que nunca. Todos têm uma hora da verdade, certo? Até mesmo...

— JAMES BROWN!

Pepito entrara de repente, fazendo Matt instintivamente empurrar a mochila para debaixo do colchão.

— Que merda, Pepito! >.< Ninguém te ensinou a bater na porta? — ele fingiu estar irritado pra desconversar.
— Uii, que menino temperamental... — disse Pepito com o ironia mode ON.
— E qual seria o motivo da nova frase?
— Que frase?
— “James Brown”, e etc.
— Não é uma frase, é um tique!

Pepito pareceu repentinamente ofendido.

— Tique? — Matt.
— Nervoso! Algumas pessoas roem unha, outras piscam várias vezes por minuto, eu grito “JAMES BROWN!”, entendeu? — Pepito.
— Como agora?
— Não, agora não foi espontâneo... JAMES BROWN! Agora foi, viu?
— Tá, eu não tenho tempo pra isso...

Matt fez menção de sair, mas Pepito o segurou.

— Ah, não é hora de vazar, não. O senhor vem pro treino com a gente!
— Mas eu pratiquei leitura a noite inteira!
— Tem que exercitar o CORPO, ou não ganha skills. Te liga, Marcelinho!
— Hã?... Eu tenho coisas pra fazer. Trabalhos pra entregar.
— No sábado?

Matt encarou Pepito, que o encarou de volta, e cuspiu a primeira mentira que lhe passou pela mente:

— Recuperação. Esqueci de entregar durante a semana e, se não entregar agora, tô ferrado. Eu ainda estou estudando, sabe... à distância...
— Sei... Vai encontrar com um amiguinho em Gay Harbor, vai? — Pepito fez a voz do Freddie Mercury e foi se aproximando de forma assustadora — Vai encontrar com um amiguinho, vai? Vai sair com ele, vai sair com ele, vai saiiiiiir com eeeeeele, vaaaaai?

Matt fez a cara mais impiedosa possível e disse: "NÃO".

— Então tá. =D — falou Pepito, “voltando ao normal” — Só não volta muito tarde, que o Pinguin vai preparar Penne pro almoço. — e saiu.

Enfim sozinho, Matt retirou a mochila de debaixo da cama, deu uma última arrumada no cabelo e partiu para sua “Quest” pessoal.

...............*DING DONG*

Nikolai tocou a campainha e esperou, mas ninguém abriu.

*DING DONG AGAIN*

Houve um ruído de chinelos arrastando-se no chão, de uma chave girando na fechadura e então a porta se abriu alguns centímetros, deixando entrever um par de olhos vermelhos e inchados. Por um momento, o Agente #1 pensou ter procurado o apê errado, mas em seguida viu que era mesmo Norma, sua aprendiz, que estava apenas... diferente.

— Bom... dia? — ele a cumprimentou sem ter muita certeza do que dizia.
— Olá, olá. É... sinto muito por me atrasar. — ela falou com embaraço — Importa-se em esperar um pouco?
— Na verdade, não.
— Entre, então.

Ela abriu totalmente a porta para ele, que finalmente viu o interior de sua confortável, cara, habitação. Norma estava quase vestida para o trabalho, tirando os chinelos e os cabelos de quem acabou de se levantar da cama. Sem, no entanto, se abalar pela primeira impressão causada, fechou a porta e tratou de ir ao quarto continuar o que estava fazendo.

— Estou terminando de me aprontar. — foi a única coisa que disse.

O Agente #1 sentiu que algo não estava nada bem, mas preferiu não comentar até o momento certo. Não deu cinco minutos, ela estava de volta, cabelo escovado, face recomposta, pronta.

— O que temos para hoje? — perguntou, no tom eficiente de sempre.
— Falei com Rodney, e ele vai nos descolar o arquivo policial da morte de Nunes, além de permissão para entrar na casa.
— Perfeito. Isso vai clarear nossa visão dos fatos, não vai?
— Espero que sim. Interessante foi a expressão dele ao ter que ENGOLIR a minha teoria sobre o Instruction Book e o assassinato. Mas o que vai te deixar de cabelo em pé é o fato de que Sebastian não está morto.
— Quê?

Ela fez a mesma cara de choque que ele ao receber a informação.

— O homem sumiu das nossas vistas depois de sabotar o Projeto Bob, traindo o GOOGLE. Decerto falou com Nunes uma vez mais, o que me levou a acreditar que o motivo para sua morte tenha sido um segredo confiado a ele por Sebastian. A sua verdadeira natureza eu não sei. Podia ser um objeto, uma informação, não sei, isso permanece nebuloso para mim enquanto não acesso a casa. Você andou chorando?...

Ele fez questão de falar tudo rápido, apenas para incluir a pergunta no final de maneira desinteressada. Norma dissimulou:

— Não exatamente... Seria relevante se eu dissesse que sim?
— Seria. — disse o Agente #1 de imediato.
— Bom... Como posso explicar?... — ela cruzou os braços e fitou as paredes, certamente para não ter que encará-lo e expôr sua tristeza — Você tem um dever a cumprir. Cumpre-o todo dia. No entanto, às vezes coisas da sua “outra vida” acabam lhe afetando tanto que você nem consegue ficar de pé para... começar a merda do dia e cumprir o maldito dever.

O Agente #1 a fez ficar de frente para ele, olhando-a, analisando-a.

— Você parece nova pra terminar um casamento. Foi parente?

Norma fechou os olhos.

— Minha mãe.

O Agente #1 se afastou um pouco. Nunca foi de dar tapinhas nas costas de ninguém, muito menos abraços de consolo, mas também não queria parecer duro e insensível diante de um semelhante.

— Nossa, isso é... Deve ser terrível...

Aquilo lhe soou falso, e ele se odiou por isso, mas para Norma foi o bastante. Ela deu um sorriso fraco de quem aceita o tombo e agradece a ajuda para se levantar.

— Tudo bem. O que eu posso fazer? Ela tinha idade e... essas coisas acontecem... Mas...
— Mas...?
— Você é meu chefe, não seria apropriado eu te contar isso...
— Conte-me como a uma pessoa qualquer.

O homem insistia demais. Ela cedeu:

— Bem, eu fui educada num sistema onde o que você faz é obedecer, e se você obedece, alguém fica orgulhoso de você. Quando eu deixei minha cidade para perseguir esta posição que ocupo, sabia que estava fazendo alguém na minha casa sentir orgulho de mim, mas agora... — seus olhos lacrimejaram um pouco quando finalizou: — O trabalho só costuma fazer sentido quando tem uma pessoa pra te receber de volta.
— Você estava certa.

O Agente #1 andou até a porta sem demonstrar nenhum sentimento.

— Não é apropriado mesmo.

Assim ele abriu a porta e disse:

— Ao trabalho, então?

...........Matt mandou o táxi parar à beira da calçada oposta ao grande complexo de escritórios da GOOGLE (disfarçado, é claro, com óculos escuros, boina e barba malfeita), pagou a corrida, desceu e ficou sentado num banco da praça ali perto, onde uma velhinha jogava pipoca para os pombos.

Para sua sorte, não houve muito que esperar. Um veículo preto de quatro portas parou à frente do edifício e um office boy veio correndo prestar seus serviços. Desceu a mulher, cujo nome Matt não sabia, e o Agente #1.

Deixe que eu estaciono, senhor.
Aff, não é preciso...
Cortesias da empresa, senhor.
Deixa ele, Nikolai.

O casal passou direto pela porta giratória do edifício, enquanto o funcionário começou a manobrar o carro para dentro do estacionamento subterrâneo. Matt teclou “SHIFT” para dar um zoom, focalizou a placa do automóvel e anotou o número. Um passo já estava dado.

..........MINUTOS DEPOIS, IN THE PARKING LOT:

Nikolai abriu o carro, esticou a cabeça até o banco de trás para ver se estava tudo em ordem e deparou-se com um pacote. Norma, que estava de pé em frente à outra porta esperando que ele a abrisse, perguntou:

— Que foi?
— Alguém deixou uma surpresinha pra mim.

O homem apanhou o pacote e brincou com ele como se fosse uma bola.

— Que isso, e se for uma bomba?? — Norma.
— Já teria explodido.
— Vou chamar a segurança...

Mas Nikolai já tinha rasgado o “presente” e removido seu conteúdo: um cd-rom. Sem titubear, inseriu-o no rádio do carro e deu “play”, baixando o vidro do carona para que Norma pudesse ouvir também.

Na Feira de Tecnologia. Estacionamento ao lado. Pessoas vão morrer. Eles passaram dos limites! Inocentes podem morrer! Eu só queria que fizessem alguma coisa... Não é justo...

E era só isso.

— Nikolai? Nikolai, você está bem? — indagou Norma, intrigada pela cara de pamonha que o Agente #1 fez.
— Eu tenho a impressão que... conheço essa voz.
— De quem é, então? o-o
— Não posso ter certeza.
— Isso é coisa pro Rodney, não é? “GOOGLE LIES”?
— Certamente.
— Mas ele falou em morte. Nenhuma das ligações falsas que recebemos no escritório falava em atentados com mortos, então não pode ser outra pegadinha, pode?
— É o primeiro aviso direcionado a MIM. Tecnicamente, eu não estou trabalhando no mesmo caso que o Rodney. Sim, acho que é verdadeiro sim.

O Agente #1 ficara tenso.

— Vamos entregá-lo, não vamos? Ao Rodney? — perguntou Norma enfaticamente.
— Também, também...
— O que você tem em mente?
— Eu... conheço aquela voz, Norma.
— Por que não me diz...?
— A casa do Sebastian vai ter que esperar.

...........DOMINGO. 19H30:

A van preta passou pela cancela de segurança sem levantar suspeitas. Em seguida andou vários metros, estacionando em um ponto discreto e devidamente distante da entrada do edifício-garagem. Primeiro desceu um homem, todo trajado de preto, com uma touca do tipo “vou-fazer-algo-muito-criminoso-agora”. Ele abriu a porta de correr, deixando os três adolescentes descerem. Eles também usavam preto. E tinham backpacks.

— Okay, gurizada, LET’S DO IT! — disse o Negão de Tapa-Olho.

Gustavo olhou para Pepito, que disse:

— Está bem, está bem, eu sento o dedo nos guardas. Mas tu e o Pinguin vão ficar selando a entrada depois.
— Pode deixar comigo. — concordou Gabriel, que estava junto com eles.

Pepito virou-se e foi, uma parte de si mesmo ainda encucada com algo que acontecera àquela tarde...

........................................*FLASHBACK*...........................................

Depois que Pepito entrou no dormitório com Matt, viu o amigo fechar a porta e ironizou:

— Mas que honra ser trancado no quarto junto com Matt Liebert! Pensei que só o Pinguin tinha esse privilégio.
— Não viaja! Eu falei com o cara em particular porque era realmente importante! Era sobre o Backup.
— Então ele já sabe também?
— Sim. Ele vai nos ajudar.
— E quanto ao Pedro e à Amália?
— Ainda estou pensando numa maneira de abordá-los. Eles andam mais... juntos ultimamente. Enfim, preciso falar de algo tenso.

Ele foi pegar sua mochila de dentro do armário.

— É sobre o encontro que você teve ontem?
— Por George Carlin, eu não tive um encontro! — Liebert tornou a negar o fato impacientemente — Toma aqui, ó. — ele entregou a Pepito o Pen-drive.
— Pra que isso? Não era você que devia guardar?
— É para o caso de algo ruim acontecer hoje.
— Como assim?
— Se qualquer coisa acontecer comigo, se eu ficar fora de ação, quero que siga adiante com a Quest. Detenha o Negão. Pegue o Backup. Salve o mundo.
— Isso não é um pouquinho dramático?
— É que eu to resumindo as coisas. Preciso MUITO ir ao banheiro.
— Ah, tá.
— To confiando em você, Pepito.
— Tá legal. Ouça, Matt...

Pepito olhou o amigo profundamente nos olhos.

— Se em algum momento futuro você achar que precisa de ajuda novamente...
— Sim?
— Se tiver um problema difícil, se precisar de socorro em um momento difícil...
— Sim?
— Por favor, não hesite em se danar.

....................................*END OF FLASHBACK*.........................................

— Aí, seu guarda, tudo bem?

*PUNCH*

Guarda #1 caiu.

— OMG! O que você...?

*PUNCH AGAIN*

Guarda #2 caiu também. Pepito agarrou um pé de cada e arrastou os corpos inconscientes para um cantinho atrás da guarita de segurança, onde nenhuma pessoa de fora poderia enxergá-los. Depois assobiou alto, e Gustavo, Pinguin e o Negão vieram até ele.

— Beleza, pessoal. Vou fechar a saída. Vocês cuidam aqui da entrada. — disse o chefe rapidamente, correndo em direção ao extremo oposto do estacionamento.
— Pinguin e Grilo — chamou Pepito —, vocês vão trocar de roupa com esses dois idiotas aí. — ele apontou os guardas desmaiados.
— Mas eu odeio o uniforme da Rudder. Coça. >.< — reclamou Gabriel.
— NÃO INTERESSA! Rápido.

GUSTAVO PEGOU: UNIFORME DE GUARDA
GABRIEL PEGOU: UNIFORME DE GUARDA

— Mais rápido!

Os dois terminaram de se vestir, Pepito baixou a grade de ferro que guardava a entrada do edifício-garagem e ergueu a placa de “LOTADO”.

— Como combinado, vocês ficam aqui brincando de vigia. Ô, NICK FURY, A ENTRADA TÁ FECHADA!
A SAÍDA TAMBÉM!... E EU NÃO SOU O GODDAMN NICK FURY, GODDAMNIT!
— Certo, pessoal, agora eu vou até lá com o Negão, e ele vai dar o sinal pra Equipe 2 poder agir. — explicou Pepito aos dois amigos.
— Beleza, mas... por que você tá citando todo o procedimento em voz alta OUTRA VEZ? — perguntou Gustavo — AUCH!

Pepito estava apertando a orelha dele.

— Porque senão a narrativa ficaria confusa!
— Tá, entendi. >.<

Ele soltou a orelha do Grilo e foi passear na direção do Negão, que, vindo a ele no mesmo sentido, berrou:

Vocês se armaram?
— O QUÊ? — Pepito não ouvira na primeira.
Vocês se armaram?

*ZUUUUUUUM*

Um tiro errou por pouco a cabeça do Negão, acertando um pilar ao invés disso.

*BLAM*

Protejam-se!

O Negão sacou sua arma e pulou para trás de um Fusca amarelo à sua esquerda, ao mesmo tempo em que Pepito se abrigava atrás de uma parede de concreto. Seis homens abriam fogo contra eles de um ponto próximo ao portão de saída, que o Negão tinha fechado momentos antes. Deviam estar esperando por eles há muito tempo.

LOADING...

KILL THE BADGUYS!

No momento em que o homem de tapa-olho começou a responder, o sexteto dividiu-se em dois; cada trio pegou cobertura onde dava, e meta-lhe chumbo (ui).

*BLAM! BLAM!*

Son of a bitch!

Furioso porque os pedaços de vidro do Fusca choveram sobre a sua cabeça, o Negão deu um assobio (era o sinal para a Equipe 2) e ficou berrando enquanto atirava:

— Equipe 1, CADÊ VOCÊ??

Gustavo e Pinguin vieram correndo para perto da cena, ambos com pistolas, e ajudaram a fazer frente contra os seis badguys. Pepito fez a mesma coisa de onde estava abrigado. Isso deu tempo para o jipe militar, que estava estacionado a poucos metros dali, acender os farois, acelerar e cruzar o corredor de vagas paralelo àquele em que os garotos estavam para subir a rampa que levava a... bom, se tá subindo, há de ser pra cima. u.u

— Atrás deles! — gritou o Agente #3, que era o cabeça-de-chave do Trio Pistoleiro Number 1, para o Trio Pistoleiro Number 2.

O Trio Pistoleiro Number 2 saiu abaixado da linha de tiro e alcançou a rampa, porém uma rajada de tiros matou um de seus integrantes — agora eles não eram mais o Trio Pistoleiro Number 2. E os tiros continuaram, vindos do segundo andar, onde Lydia atirava com uma AK47. Isso fez os dois agentes restantes recuarem, incapazes de mirar sem expor suas cabeças.

HEADSHOT!

O Agente #3 soltou um grito de horror ao ver o homem ao seu lado cair com um buraco na testa, produto de um tiro certeiro de Pepito. Apavorado, pegou o rádio para chamar reforços.

— MAYDAY! MAYDAY!

Do outro lado da linha, os que captavam o sinal se perguntavam “O que diabos é Mayday??”, enquanto Rodney gritava por socorro feito uma menininha:

— NÓS VAMOS MORRER AQUI! ALGUÉM MANDE ALGUÉM PRA CÁ! ISSO É LOUCURA!
LOUCURA??

O Negão de Tapa-Olho deu uma gargalhada insana (o calor da batalha o transformara completamente) e respondeu com um tiro por palavra:

ISSO... É... DOOM... FINGER!

Ninguém realmente acertou ninguém por um bom tempo, mas aquilo decididamente fez estragos. Vidros, parachoques e pneus por toda parte estavam em frangalhos, alarmes de carros disparavam sozinhos.

Lydia matou mais um badguy (agora nem Dupla Pistoleira eles eram), no que o colega dele gastou toda a munição e saiu correndo. Ela o matou também.

PORRA, LYDIA, NÃO DEIXA NENHUM PRA MIM!
DESCULPA, AMOR! MAS AÍ PARECE BEM MAIS DIVERTIDO!
VENHA PRA CÁ, ENTÃO!
— Não vem, não, desse jeito eu também não vou pegar nenhum! — reclamou Gustavo, que agora estava ao lado do Negão atrás do Fusca amarelo.
— É, eu também não! — berrou Pinguin, ao lado de Gustavo.
AGORA JÁ ERA!

Lydia continuou no segundo andar, porém mudou de ângulo para poder mirar melhor, e eis que achou o ponto perfeito para acertar Rodney direto no traseiro. Porém, quando ia puxar o gatilho, um projétil esmigalhou a mira de sua AK. Ela disse “FUCK!” e olhou para baixo para identificar o responsável. Seu corpo gelou de medo ao reconhecê-lo.

— Nikolai???
— Cala a boca e se abaixa, Rodney!

O Agente #1 atirou outra vez para o alto, e Lydia teve de sair dali. Junto a ele estava Norma, também armada e ready for action. Agora eram eles dois, Rodney e um Badguy Random do lado dos malvados (ou não). Do lado dos Ursinhos Carinhosos bonzinhos, Pepito, Grilo, Pinguin e Negão.

ESSA É A MINHA ESPOSA, SON OF A BITCH!

Ele atirou contra Nikolai, disposto a vingar o quase-headshot de Lydia, e errou.

AUCH! FUCK!

Um único tiro de resposta acertou seu ombro direito, que sangrou abundantemente. Ele virou de costas para o carro e foi escorregando até o chão, incapaz de continuar.

— Porra, Negão! — Gabriel.
— Não dá, to malz. =S Só espero que os noobs lá em cima consigam alguma coisa.

...........O jipe parou cantando pneus no último andar, e desceram Matt, Galarza, Amália e Pedro. O SPY sacou as duas glocks e disse aos outros três:

— Vocês sabem o que fazer.
— Vem, Matt! — disse Amália empolgada.

Ela, Matt e Pedro abriram o porta-malas e tiraram um lança-foguetes de uso militar, pesado, de modo que os três tiveram de carregá-lo até o parapeito do prédio, de onde se visualizavam as janelas do nono andar do Hotel de 8 (MIL!) Estrelas de Gay Harbor.

— É esse o nosso alvo, Matt! — disse Amália — Manda ver!
— Por que eu?
— Porque você é gay! Agora vai, atira!
— Tem que...
— Pronto, tá carregado. Atira!
— Não dá! Galarza, por que eu??
— PORQUE VOCÊ É GAY! AGORA ANDA! OOOPA...

A porta de acesso às escadas escancarou-se e duas pessoas entraram (ou saíram, já que é ao ar-livre... enfim...): Nikolai e Norma. Logo que os viu, o SPY abriu fogo e a dupla se abrigou atrás de um carro qualquer. Galarza abrigou-se atrás do jipe, e os três iniciaram uma gunfight.

— Eu sabia que não daria certo! D= — disse Matt, em pânico, para Amália e Pedro — Vamos parar com isso!
— VAMOS PARAR COISA NENHUMA! VOCÊ TEM QUE EXPLODIR A PORRA DO NONO ANDAR!
— Calma, Amália...
— VAI!
— PESSOAS VÃO MORRER, PORRA!
— VÃO, NADA!

*BLAM!*

— AHHH!
— Yuhuuu! — Galarza vibrou. Atingira o braço de Norma. — Querem mais?? — recarregou — I’m a SPYYYY!
— A guerra muda as pessoas, Amália... — disse Matt à amiga — Mas não deveria mudar a gente. Olha o que nós estamos fazendo.
— Acho que ele tá meio certo, Amália. — disse Pedro, que andara observando as coisas atentamente.
— Meio certo? Nós temos uma MISSÃO! — bradou a garota indignada — E VOCÊS — tapa no Pedro — NÃO ESTÃO — tapa no Matt — CUMPRINDO! MATT, SE VOCÊ É HOMEM, ATIRA NESSA PORRA LOGO, QUE EU TO COM FOME E QUERO IR PRA CASA!

Com uma cara de profundo desgosto, Matt pegou o lança-foguetes, mirou na janela do hotel e apertou o gatilho. Subitamente, o mundo virou uma tela em Widescreen e uma música fodônica tocou no cenário. Um rápido videozinho mostrou o míssil viajando no ar até que *KABUM!* o nono andar do hotel ardeu em chamas.

*FIM DO FILMEZINHO*

— Vem, vamos embora!

Pedro sacudiu Matt até ele sair do estado de choque em que se encontrava.

— Hã?
— Temos que ir embora! Vem, não faz essa cara de pastel!

Amália e Pedro pularam para dentro do jipe enquanto Galarza mantinha o casal de agentes sob fogo cerrado. Liebert não se mexeu. Ainda olhava para o prédio pegando fogo.

— Entra no carro, Matt! — berrou Galarza, parando de atirar por um instante.
— Não posso. D=
— Entra!
— Deixem-me aqui! Salvem-se!

Nikolai encontrou a chance e aproveitou-a. Num movimento rápido, saiu de trás do esconderijo e atirou três vezes contra Liebert. Atingido no peito, ele caiu.

— NOOOOOOO! — Amália e Pedro.
— FUCK! — Galarza.

Galarza fez menção de se virar para vingá-lo, mas o Agente #1 foi mais rápido.

*BLAM!*

O tiro seguinte acertou-o no estômago, mas ele não caiu de primeira. Ao contrário, parecia não ter nem percebido a bala entrar e sair de seu corpo.

*BLAM!*

O segundo tiro foi na perna.

— AAAAAAAAAAAAAAAUCH!
— Isso ele sente? — Pedro ergueu as sobrancelhas.
— Eu cansei desses filhos da mãe!
— Amália?

Num movimento dramático, Amália puxou o revólver da cintura de Pedro e apontou-a para Nikolai.

— DIEEEEEEEEEEE!

Ela atirou seis vezes... e errou todas. Naquele instante, todas as pessoas lá em cima (até Matt, que estava meio-morto no chão) pararam e olharam para Amália com cara de... “Amália, que é isso?”.

— Er... xD.

Galarza caiu de joelhos próximo ao jipe. Pedro arrastou-o para dentro do carro, fechou a porta e disse a Amália:

— Você dirige.
— Hã? *Amália surdinha*
— Anda!
— Ah, tá.

Amália deu a partida no jipe e desceu a rampa.

— Norma! — o Agente #1 correu primeiro até a colega — Norma! Consegue me ouvir? AI! *tapa*
— É claro que consigo, foi só meu braço. ¬¬ Dá uma olhada no Liebert!

..........O jipe descendo a rampa era o sinal que eles esperavam.

— VAZANDO, CAMBADA! — berrou o Negão, amparado por Pinguin, que lhe oferecia um ombro como apoio.

Os quatro — Pinguin e o Negão, mais Grilo e Pepito — correram até a van, dando tiros a esmo pelas costas para ganhar tempo. Logo em seguida Lydia se juntou a eles, mais preocupada com o marido do que com qualquer outra coisa. O Negão de Tapa-Olho, mesmo ferido, ocupou o banco do motorista e acelerou antes mesmo que Gustavo terminasse de fechar a porta.

*KABLAM!*

Destruíram a cancela e a grade de ferro ao passar. Em seguida saiu o jipe. Rodney e seu badguy tentaram correr, mas alcançá-los agora seria estupidamente impossível.

— Filhos da putaaaaaaaaa! — Rodney gritou, o mais alto que pôde, e ainda assim a raiva não foi totalmente embora. — Assassinos! Porcos! — seu celular tocou e ele atendeu: — Porra, que ééé??... Nikolai!
Chama o reforço. Tenho algo pra você aqui em cima.

...........O Agente #1 desligou antes que o outro perguntasse qualquer coisa. Chegou perto de Norma, cujo braço estava amarrado com um torniquete improvisado, e disse:

— Segura firme.
— Não sou eu quem precisa de ajuda agora. — ela disse feliz, apesar da dor.

Os dois baixaram o olhar para Matt, vivo e algemado no chão. Seu colete, agora à mostra, exibia os três projéteis nos pontos onde o inimigo tentara alvejá-lo. Ele encarou de volta os dois agentes e levou um sidekick de Norma.

— Ninguém te deu permissão para olhar pra mim!

O Agente #1 se afastou dos dois sem dizer nada, sentou no parapeito e acendeu um cigarro. A noite ia ser looooonga.

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