O motorista diminuiu a velocidade da van ao alcançar a estreita rua, deu uma checada nos espelhos para ver se não tinha ninguém — por sorte, não tinha — e assobiou de leve para o banco de trás. As portas se abriram sem que o veículo parasse de andar e duas pessoas cobertas de preto desceram correndo. Atravessaram a via a passos de ninja e se abrigaram embaixo da estrutura de aço que suportava o imenso painel publicitário.
Uma delas ficou vigiando, enquanto a outra subia a escadinha de manutenção até a base do painel. Chegando lá em cima, levou a mão ao bolso e retirou um delicado pacotinho retangular com alguns fios presos por fita adesiva. Depositou-o aos pés do painel. Fez sinal de positivo para o colega lá embaixo, desceu, a dupla correu de volta para a van, que agora estava fixa do outro lado da rua, esperando.
Eles embarcaram, e mais duas pessoas desceram do veículo, correndo em direção ao mesmo ponto. A sua parte seria mais difícil: tinham de alcançar o telhado do prédio ao lado. Despertar a atenção de vizinhos não era o problema, pois lá dentro funcionava um banco que só abria durante o dia. O perigo estava na altura da construção.
Mas, com agilidade e precisão, foram escalando as saliências e reentrâncias da superfície do edifício até alcançarem o telhado. Dali, ataram cordas a uma antena qualquer, certificaram-se de que o nó era firme e fizeram rapel para descer alguns metros com os pés apoiados no paredão lateral. Munidos com temíveis latas de spray colorido, concretizaram o vandalismo — esperando que ao menos o significado nobre da ação justificasse o crime.
Desceram, soltaram-se das cordas e retornaram à van. Na cabine da frente, a pessoa no banco de carona tomou nas mãos um aparelhinho com antena, semelhante a um rádio de pilha vagabundo, e acionou um botão. O painel explodiu, e a cor das chamas realçou o contorno das palavras pichadas na parede. O motorista calmamente engatou a ré e tirou a van daquele lugar.
...............................AGORA, NO BOM DIA GAY HARBOR..................................
— OW, aumenta o volume! — gritou o Negão de Tapa-Olho com a boca cheia de cereal.
Galarza pegou o controle remoto e fez o que ele pediu. O âncora feminino do jornal matutino, que era a mesma mulher do noturno (não pergunte como ela fazia isso), deu início ao programa com um habitual sorriso.
— Bom dia. Os primeiros transeuntes a passar pelo Centro de Gay Harbor esta manhã se depararam com uma cena chocante: o maior outdoor da GOOGLE Inc, com cerca de 40 metros de altura por 20 de largura, amanheceu pegando fogo próximo a uma zona comercial. Por sorte, o incêndio não se propagou por todo o quarteirão, mas toda a extensão do painel e um pedaço da estrutura onde estivera erguido estão irremediavelmente perdidos. Mas o que mais chamou a atenção dos curiosos e dos bombeiros e que já gerou perguntas entre a polícia foi uma mensagem de cunho agressivo pichada na lateral de um edifício bem ao lado da estrutura. A frase, como podem ver no vídeo, foi escrita em inglês e diz “GOOGLE LIES”. As autoridades estão investigando o acontecido.
O Negão pegou o controle das mãos de Galarza e teclou “MUTE”, dando então um grito que fez todo mundo à mesa pular de susto.
— MAZAAAAAA! Vocês foram muito bem!! — parabenizou Pedro, Amália, Matt, Pepito, Gustavo e Pinguin, respectivamente, que naquele momento compartilhavam com eles o café da manhã da fortaleza (melhor que o colonial) — Depois que terminarmos essa refeição não-capitalista, eu vou abrir um vinho proletário e nós vamos comemorar!... Ei, ninguém aqui é menor de idade, né?
Houve um silêncio.
— É... todo mundo aqui é menor de idade. — falou Pepito.
— JESUS CHRIST, garoto, ainda bem! Pensei que não fossem. Galarza, vai buscar o vinho...
Galarza saiu e voltou com uma garrafa, que eles abriram e começaram a meter pra dentro (ui); exceto por Matt, que ficou entretido desenhando carinhas felizes no cereal.
...........— QUE MERDA VOCÊ PENSOU QUE ERA PRA FAZER EM GAY HARBOR, RODNEY??
O presidente não dava as caras há muito tempo na webcam do Agente #3, certo? Pois naquela manhã ele resolveu aparecer para dizer “Oi” do seu jeito amável de sempre.
— Não jogue a culpa em cima de mim! — defendeu-se o homem — Eu não sou o chefe daqui, lembra? Caso não se lembre, escalou outra pessoa...
— Pare com esses ataquezinhos temperamentais de rancor. u.u O responsável por monitorar o trabalho da polícia local na manutenção da ordem e da disciplina durante o sexo é VOCÊ! Aí eu recebo um telefonema e me dizem o quê? Que um investimento publicitário de milhares de dólares foi depredado por vândalos! E aquela mensagem... DEUS, VOCÊ VIU A MENSAGEM?
— Claro. Por gentileza, tente não gritar...
— EU NÃO MANDEI IR ATRÁS DAQUELES FEDELHOS? ISSO É OBRA DELES! CADÊ O NIKOLAI?
— Agora você fala do Nikolai, não é? Se me deixar falar... obrigado. Os fedelhos não têm nada a ver com isso. Ontem mesmo recebemos uma pista de que eles estão no Japão.
— JAPÃO?
— JAPÃO!
— JAPÃO?
— JAPÃÃÃO! Nikolai está cuidando disso. Temos certeza de que este é um caso isolado. Provavelmente não tem muita importância, mas... Nunca se sabe também. Se precisasse de alguém para... para conduzir uma investigação... eu ficaria grato em ajudar.
— Sei bem o que você está querendo. ¬¬ Ah, vá... Está bem. Assuma esse caso e dê-me notícias de Nikolai.
..........Rodney abriu a porta da sala e encontrou o Agente #1 jogando paciência.
— O que você está fazendo aqui? — indagou, surpreso — Pensei que estivesse no Japão atrás daquela pista.
— Mandei Norma fazer isso. — falou o chefe bem despreocupado — E você, o que está fazendo? Puxe uma cadeira aí. ^^
— O presidente falou comigo há pouco. — disse Rodney com voz firme — Quer que eu assuma a investigação sobre o incêndio do painel.
— O quê? Ele quer que você corra atrás de vândalos? Vejo que o nível anda realmente descendo por aqui estes dias...
— Se anda, é por causa de você.
A mão do Agente #1 parou no ar a caminho de deitar uma carta. Ele olhou fixamente para o Agente #3, que não aguentou sustentar o olhar e abaixou a crista, mas disse o que esperava dizer:
— Ele ficou preocupado com o teor da mensagem. Realmente, “GOOGLE LIES” é uma coisa que ninguém se atreve a dizer há muito tempo. Como você está “ocupado”, o presidente me incumbiu de descobrir quem está por trás disso.
— Hmm. Divirta-se. =)
O Agente #1 largou o baralho, pegou seu casaco e foi embora.
===========>PAUSA PRA MIJAR<==========
*BOOONG!* Galarza tocou o gongo e todos prestaram atenção. Já tinham comido, enchido a cara e “ressaqueado” à vontade em questão de minutos (exceto por Matt, que não bebia). Agora era hora de trabalhar seriamente.
— Muito bem, bandinoob, formem uma fila na minha frente.
Eles obedeceram, todos vestidos em quimonos e com os pés descalços. Fez-se o silêncio à espera da próxima ordem.
— Agora, não sei o quanto cada um de vocês sabe, então, para não perder o meu tempo, quero que os mais experientes dêem um passo à frente — disse o SPY.
Apenas Amália obedeceu.
— Só pode estar me tirando. u.u Pepito, Matt, ninguém mais?
Pepito levantou a mão, meio acanhado, e disse:
— Eu ia dar um passo pra frente também, mas fiquei com medo de que ela fosse me bater.
Todos os olhares se voltaram para Amália, que, séria, ficou perguntando “Que foi?” até não se controlar mais e começar a rir alto. Galarza suspirou.
— Bom, quem mais, além da Amália, se habilita? — perguntou.
Matt e Pepito deram um passo à frente.
— Certo, vocês ajudarão uns aos outros enquanto eu lido com os menos experientes — determinou o treinador, apanhando um apito — Atenção, NOOBS: quero ver vocês correndo em volta do tatame como se fossem porquinhos-da-índia cutucados por bambus. Agora! — soprou no apito.
Gustavo, Pinguin e Pedro puseram-se a correr como ele havia dito. Em seguida, Galarza chamou os três alunos remanescentes e conduziu-os até uma mesa de frente para uma parede.
— Ouçam bem, agora — disse — Um soldado da Doom Finger sempre identifica as ferramentas corretas para cada situação. Temos aqui... — ele apertou um botão no tampo da mesa, o que fez se abrir um grande compartimento quadrangular na parede lisa, mais ou menos do tamanho de um quarto de dormir, recheado com o armamento mais foda que eles já viram: pistolas automáticas, submetralhadoras, fuzis, canhões, lança-foguetes, granadas, tachinhas (tachinhas??), facas, espadas, bastões, anzois e a última edição da Veja — ... algumas dessas ferramentas. O trabalho de vocês hoje será entender como e para que cada uma funciona. Então, quero que as desmontem e remontem três vezes.
..............O Negão subiu ao palanque, diante de uma audiência de mais ou menos cinquenta pessoas, entre brasileiros, americanos, russos, japoneses e refugiados de Capela etc, ajustou o microfone na altura adequada e falou no mais perfeito Inglês:
— Senhoras e senhores, agradeço solenemente sua presença aqui hoje. Como sei que o tempo de cada um é muito curto, vamos direto aos negócios. Trago aqui nossos mais novos membros...
Uma porta à esquerda dele se abriu, e todos esticaram os pescoços para observar uma fila de sete adolescentes, encabeçada por Galarza, entrar na câmara de reuniões. Eles se posicionaram lado a lado embaixo do estrado onde ficava o palanque, de modo a ficarem de frente para os visitantes brasileiros e estrangeiros. Seguiu-se a isso uma torrente de cochichos rápidos e exclamações exaltadas de espanto. O líder pediu silêncio, e eles se aquietaram.
— Estou confiante — continuou — de que esses jovens serão os precurssores da Juventude Sem Google, a juventude OF THE FUTURE!
Houve aplausos empolgados, aos quais o Negão agradeceu com reverências. Então, atrás dele, num telão, projetou-se o logotipo da DF, que todos passaram a encarar com um respeito discreto e sem exaltações.
— Chamei-os aqui hoje também — anunciou o palestrante — para oficializar o início de nossa mais importante ação revolucionária pelo futuro da humanidade: a Operação Mata-GOOGLE!
Aplausos.²
— Para quem ainda não viu, esta manhã todos os jornais e noticiários de relevância mundial transmitiram com choque o nosso primeiro aviso...
A imagem na tela foi substituída pela foto do outdoor queimando, com os dizeres “GOOGLE LIES” gravados na parede do prédio ao fundo. A audiência vibrou como um pai dizendo “Muito bem, meu filho”.
— Acostumados a um mundo de ordem, mas uma ordem mantida à base da hipocrisia e da escravidão intelectual, não é à toa que os donos do GOOGLE sentiram-se moralmente ameaçados, tanto que já começaram a nos procurar. Ora, mas esse é só o começo! — o Negão não pôde conter o riso nessa parte — É apenas a parte soft. Quando o hell mode começar, eles vão sentir na pele um pouco daquilo que nossos finados e queridos amigos, vítimas, literalmente da “queima de arquivo”, sentiram. — o tom dele mudou: não estava mais para Nick Fury, mas para Pulp Fiction — Lavaremos a honra de todos os gênios cujas vozes foram caladas, de todos os presidentes injustamente depostos após aquele eclipse maldito... se preciso for, com SANGUE! (CHAN-CHAAAAAAAAN)... E agora, petiscos e um pouco de música ambiente até a próxima atividade. ^^
Come on, baby
Let’s do the twist
Come on, baby
Let’s do the twist
………Enquanto a dança e a comilança rolavam soltas na sala ao lado, o dono da mansão de aço retirou-se para um escritório reservado no piso anterior ao observatório. À espera dele, sentada na beirada da escrivaninha com um copo de Jack Daniels, estava a bela Lydia.
— Foi um belo discurso, honey — disse ela ao marido quando este entrou —, o que eu acompanhei pelo computador. Estou orgulhosa.
O Negão de Tapa-Olho beijou a esposa, pegou um cubano de dentro da caixa (o charuto, não o cidadão de Cuba) e acendeu-o, soltando várias baforadas, enquanto a mulher o observava com respeito e fascínio. De repente ele coçou o queixo, pensativo, e perguntou:
— O que acha se eu deixar a barba igual ao do Fidel?
— Hmmm. Não ficaria bom, não. — Lydia sacudiu a cabeça, servindo-se de mais Jack Daniels — Melhor é a do Che.
— E qual a diferença?
*KNOCK, KNOCK*
— Entre!
Foi Galarza quem abriu a porta.
— Você queria me ver?
— É. Feche a porta.
O SPY obedeceu e ficou perto do casal, ao redor da escrivaninha.
— Isto é informação sigilosa, então está proibido de comentá-la com os novatos. — adiantou-lhe o chefe.
— Tudo bem.
— O Projeto Juventude Doom Finger já começou a ser executado em outros países. Apesar de eu ter sido o criador da ideia, quem tirou do papel primeiro foram nossos aliados europeus. Então, não quero ficar para trás, ou isso danificaria minha reputação.
— E onde é que eu entro?
— Quero que seja o coordenador da Juventude Doom Finger no Brasil, percorrendo mais lares e aliciando mais jovens.
Galarza pegou um cubano também e o acendeu.
— “Aliciar” soa pedófilo.
— Foda-se.
O Negão de Tapa-Olho sacudiu as cinzas do fumo no cinzeiro (dã) e continuou:
— A esta altura do campeonato, confio em você o suficiente para ocupar o posto. Você dá conta?
O SPY ficou em silêncio por longos momentos, pensando, pensando, enquanto fumava, e então disse:
— Do que estávamos falando mesmo?
O Negão sussurrou para Lydia sorrindo-lhe pelo canto da boca:
— Sabia que ele serviria.
...........Enquanto isso, no ambiente de reuniões, os seis jovens novatos ficavam cada vez mais surpresos com as criaturas exóticas que vinham cumprimentá-los — um português inteligente Matt até entendia, mas umas figuras que não conseguiu decifrar foram a de um francês e um punk que alegadamente era seu filho. O primeiro falava a língua deles, embora tivesse o sotaque bastante carregado, mas o segundo não dava uma palavra.
— Meu filho é punk, mas não é um zumbi. — explicava — Como se diz?... O punk está “vivo” dentro dele. Eu não o alimento apenas com musique. Ele lê Molière, La Fontaine... Entendem?
Gustavo acabara de se juntar à conversa de maneira muito random, apenas para ouvir.
— Desde criança. — prosseguiu o velho — Eu não o deixaria curtir qualquer coisa, deixaria? O quê?... Você quer dizer algo, filho?
Quando falou, foi a Matt e Gustavo que o punk se dirigiu:
— Les époques changent, mais pas le coeur de l’homme.
Gustavo foi embora. Matt continuou ali, boquiaberto.
— O que ele disse?
— Que os tempos mudam, mas o coração do homem não.
...........Depois que a festa acabou, Matt, Pepito e cia foram excepcionalmente liberados da segunda sessão de treinamento do dia, o que foi muito bom, pois já estavam inteiramente doloridos e exaustos. Uma vez que os outros tinham se trancado na sala de TV, Matt chamou Pepito e Grilo para uma conversa séria no aposento dos garotos.
— Agora que ninguém está ouvindo (espero eu), o que vamos fazer a respeito do Backup? — perguntou ao dois, um tanto nervoso.
— Você ouviu o cara, não? — disse Grilo referindo-se, obviamente, aos discursos anteriores do Negão de Tapa-Olho — Ele quer explodir o Data Base do GOOGLE. Por mim, não ficaria muito triste... apesar de não poder mais usar Orkut.
— Usa a cabeça. — replicou Pepito — Os arquivos com a configuração das duas Terras estão lá, como o Imperador nos explicou. Se qualquer coisa física acontecer com o lugar, nós estamos ferrados! Toda a nossa realidade entraria em colapso!
— Dow. >.<
— Por isso mesmo, não podemos deixar que o plano do Negão dê certo. Custe o que custar. D= — Matt.
— Custe o que custar o quê?
Naquele momento Amália entrou fazendo trancinha no cabelo. Os guris ficaram parados, meio “Errr”.
— Ora, é... Custe o que... custar, ora... É... O que você tá fazendo aqui? — Matt confrontou-a, mudando de assunto.
— Eu moro aqui agora. — respondeu Amália em tom óbvio.
— Mas esse é o quarto dos garotos. u.u
— Então... u.u
Ela ia voltar ao assunto de quando invadira o quarto, mas então vieram Pedro e Pinguin, este com um violão, e as atenções se voltaram para eles.
— Minhas skills subiram. =D — comemorou Pedro — E eu sinto a endorfina... percorrendo o meu corpo. *.*
— Relaxa, cara, a gente só correu. — falou Pinguin — Ei, pessoal, olha só...
Ele tocou um Riff rápido no violão, que fez todo mundo dizer “Woow”.
— Mazaaaa. Skill em Música é o que há!
— *cof* Ou em Culinária! *cof* — Grilo.
Matt aproveitou para arrumar um pretexto de sair do cômodo.
— Então, vocês estavam vendo TV? Acho que eu tô afim de ir tbm.
— [2]. — Grilo.
— [3]. — Pepito.
— [4]. Ei, eu já tava. o.O — Pedro.
Os garotos saíram juntos rumo à sala de TV, Amália saltitando atrás deles enquanto fazia mais uma trança no cabelo. De repente ela perguntou, tão alto que sua voz aguda retumbou pelos corredores:
— Vocês acham que a gente deve contar pro Galarza sobre o RPG??
Todos berraram “CALA A BOCA, AMÁLIA” imediatamente, e ela parou de seguí-los sem entender nada. O grupo parou também, quase na porta da sala de entretenimento.
— Escuta, Amália — falou Matt —, ninguém de fora do grupo pode saber que somos personagens de videogame.
— Por quê? o.O
— Porque nós trabalhamos para uma causa diferente da Doom Finger.
— Eles nos salvaram, Pedro, Pinguin e eu!
— Eu sei, mas...
— Não era você que tava correndo perigo na rua àquela hora. u.u
Matt, Pepito e Grilo trocaram olhares. Matt decidiu ser paciente.
— Só não menciona nada, ok.
— Mas e aí... o... Galarza vai estar no Jogo sem saber que está? Wtf? — questionou a garota.
— No Instruction Book dizia que há diferentes graus de consciência da pessoa que joga. — Liebert explicou-lhe — É como se ele ainda não tivesse “despertado” para sua missão.
— Tanto que ele ainda não tem LC. — acrescentou Pepito.
Amália viu que eles estavam certos, mas meramente olhou para o teto e murmurou consigo mesma, como se não estivessem ali: “Vocês são tão chatos...”.
— Vamo, gente, vai passar Laranja Mecânica na HBO! — Pedro chamou, e todos foram junto com ele.
...........Apesar do frio no ar, o sol brilhava forte sobre o Redemption Park. O Agente #1 caminhou um pouco sobre a relva, respirou o ar puro da natureza e agradeceu por coisas assim ainda existirem. Mas aí se lembrou de que nada era real: tecnicamente, o mundo ao seu redor era uma Matrix construída pela empresa para a qual trabalhava. Deprimido, recolheu-se a uma sombra e lá ficou durante muito tempo, vendo os casais solitários passeando de mãos dadas.
Depois foi comprar um jornal. Abriu-o aleatoriamente, e uma notícia prendeu sua atenção. Um senhor de idade que era dono da banca, talvez por já ter detido o olhar sobre a mesma edição aquele dia, fez um comentário:
— Espantoso, não? Matarem o dono de uma casa num bairro tão seguro como esse.
— Realmente, realmente. — murmurou o Agente #1 de olhos pregados na matéria.
— Na porta de casa, a sangue-frio, em plena luz do dia! Mal dá pra acreditar... Os tempos mudam, e a índole do homem vai piorando. — concluiu o homem com melancolia na voz.
— Sim... Vou levar este. — avisou o Agente #1, e atirou-lhe um punhado de moedas.
— Algum interesse mais especial na história? — quis saber o vendedor guardando o dinheiro na caixa registradora.
— Sim. Aconteceu bem na vizinhança onde eu cresci.
— Chocante...
CONTINUA...
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