O dono do mundo
Para o presidente da L.D.M., acordar com o canto dos canários era o suficiente para fazê-lo se sentir um homem completo. Em seguida, um banho na sua piscina de água mineral. Uma salada de frutas acompanhada pela leitura do jornal do dia. Por último, o recosto confortável de uma esteira na varanda. Sem antes ter todos esses prazeres realizados, ele não fazia absolutamente nada.
No entanto, aquela manhã de calor intenso iria surpreendê-lo como nada antes em sua vida, levando-o às mais extremas decisões. Começou com um...
— Senhor!
O homem ainda estava nadando quando veio seu guarda-costas pessoal, Agente LoL, segurando um laptop.
— Que é? — rosnou o presidente vindo até a borda da piscina e sacudindo os cabelos molhados para melhor enxergar.
— Estamos com ele online. Ele ainda não falou...
LoL virou a tela de LCD na direção do chefe, que se viu cara a cara com aquele que o tinha traído: Nikolai parecia inteiro — por enquanto a tortura era apenas psicológica, com alguma privação de sono e uma sala 2x2, talvez —, mas era só uma questão de tempo até que sua relutância em falar obrigasse o chefe a dar uma ordem muito desagradável.
— Agente #1... — disse o presidente com um estalar de beiços desgostoso: — Tsk, tsk, tsk... Como estamos nos sentindo hoje?
— Não vai tirar nada de mim. — pronunciou o prisioneiro filmado pela webcam, mecanicamente.
— Como eu tenho pena de você, rapaz. Falo sério! Jogar fora uma carreira tão promissora por causa de um bando de delinquentes juvenis (-Otakus, ainda por cima. by LoL)!
— Não vai tirar nada de mim. — repetiu o agente-secreto com a mesma, monótona resignação na voz.
— Não adianta fingir que não dá a mínima. — disse o presidente com austeridade, sem no entanto perder o controle; tinha o mundo a seus pés, apesar de tudo — Você é peça-chave na resolução deste caso: com os líderes da Doom Finger mortos, e os garotos foragidos, nossa única fonte vital de informações sobre os seus planos terroristas está olhando para mim neste momento. Você treinou, você sabe as regras do jogo: continue com este teatrinho e irá sofrer mais do que o necessário.
Desta vez o outro não disse nada; nem piscou.
O presidente chegou perto da tela com um olhar feroz, como se pudesse transcender os pixels e realmente grudar a cara contra a do prisioneiro, ameaçando-o:
— Vou descobrir algo... qualquer coisa... e vou te fazer sofrer com isso. Vai ver só. Não vai demorar muito...
Passaram um tempo ainda se encarando, até que o rico encheu-se de nojo e disse ao segurança:
— Não quero mais olhar pra esse traste. Mande o Rodney continuar fazendo seu trabalho, mas que, dessa vez, seja firme! Ninguém segura tanto tempo assim...
...........DO OUTRO LADO DA REDE:
Posto numa cadeira, pés e mãos algemados, sem poder se mexer, Nikolai deixou de olhar a câmera apontada para si e pôs-se a fitar Rodney, que, de braços cruzados e encostado na parede, o olhava de volta.
— E agora? — perguntou o Agente #1 em tom banal e despreocupado, como se ele e o amigo estivessem num café discutindo a questão.
— Sabe o que estou esperando e o que não quero ter de fazer. Onde eles se escondem? O que pretendem a seguir?
— Lamento te desapontar, amigo. — e foi a primeira vez que o prisioneiro manifestou algum sentimento além de apatia; dessa vez sorria sinceramente — Foi ótimo trabalhar com você, mas... — sacudiu a cabeça ao acrescentar: — este é o fim da linha. Não direi mais nada.
— Ora, give me a break! u.u Qual o grande problema em ser leal a nós? Ao GOOGLE? Que mal na Terra nós causamos para que você, um dos agentes mais leais que conhecia, tenha se convertido ao outro lado?
Nikolai meramente olhou para o teto, novamente entediado.
— Não espero que você entenda, mas eu descobri que sou movido por um critério universal no que diz respeito a salvar vidas.
— Wtf?
— Fui soldado missionário. Um missionário não diferencia cor, raça, credo, sexo. Ele apenas dá o melhor de si para tirar outra pessoa do inferno. A empresa para a qual trabalhamos, essa sim faz distinções. Então, não, eu não acho mais insano depositar minha esperança de salvação do mundo nas mãos de sete adolescentes do que cooperar com uma corporação que teve a ousadia de brincar com a estrutura atômica do planeta.
...........NORMA ocupou o escritório vazio e sentou-se na cadeira giratória do chefe. Sem perceber, começou a brincar com ela, rodopiando, exatamente como ele fazia. Quando se deu conta disso, parou e riu. Em sua mão tinha o celular que Nikolai lhe entregara, momentos antes de os dois terem de se separar, com a orientação de enviar uma mensagem a um número específico e esperar. Por que ela estava fazendo isso... tinha uma história interessante.
*FLASHBACK*
Rodney olhou para baixo, para o rosto do prisioneiro, com expressão de nojo.
— Você tirou Liebert de lá. — disse, entre dentes — Achou que poderia ser melhor do que eu. Você sabotou todo o nosso trabalho!
— Leve este traste daqui. — ordenou o Agente #4 a Norma. Esta fez Nikolai se levantar, para conduzí-lo a uma viatura próxima.
Com ele no banco de trás, ambos separados por uma grade divisória, Norma foi dirigindo sozinha rumo ao escritório, local propício aos futuros interrogatórios. Até afastarem-se da cena do crime, nenhum de ambos falou. Então Nikolai quebrou o silêncio, rápida e temerosamente:
— Norma! Sabe o que está fazendo?
— Pelo amor de Deus, não me confunda, Nikolai. — retorquiu Norma imediatamente, de olhos fixos na estrada.
O homem chegou mais perto da grade, o máximo que as algemas lhe permitiam, e falou próximo ao ouvido dela:
— Eu não sei por que isso aconteceu, mas aqueles garotos têm um plano, Norma, e talvez eles sejam os únicos capazes de evitar que centenas de milhões morram!
Ela afundou o pé no freio, fazendo o carro parar no meio da estrada vazia com um ruído alarmante de pneus escorregando no asfalto. A força da parada fez Nikolai bater com a testa na grade à sua frente e voltar de costas contra o banco.
Rapidamente Norma escancarou a porta, desceu, de arma na mão, e abriu a porta traseira. Nikolai recuou até onde pôde, assustado, quando se viu sob a mira dela.
— Saia. — ordenou a atiradora — AGORA!
Sem outra saída, ele obedeceu e ficou de pé, com as mãos presas atrás das costas, na frente da mulher, que passou a mirar sua cabeça. Nervosa, trêmula, parecia tentar dizer alguma coisa. Ele achou melhor não interrompê-la, em situação para a qual não possuía solução inteligente, e esperou. Enfim, falou Norma:
— Eu sou uma agente especial com treinamento militar e sólida formação intelectual. Estou prestes a trair a corporação mais poderosa do mundo, para a qual trabalho, arriscando não só uma promissora carreira, mas talvez minha própria vida, simplesmente porque... eu amo você, seu miserável!!
Ela abaixou a arma e caiu de joelhos, mais confusa e atordoada que o próprio homem algemado.
— Er...
— Não se atreva a dizer qualquer coisa inteligente agora! u.u
Tendo interrompida sua tentativa de trazer a conversa para um nível mais racional, Nikolai desistiu e sentou-se sobre o asfalto ao lado dela. Houve um silêncio que durou bem uns três minutos. Em seguida ela falou com amargura:
— Tem alguma chance de eu entender definitivamente o que está acontecendo?
Nikolai suspirou. Pensou: “Ok, vamos tentar.”
— A Doom Finger quer detonar o Data Center do GOOGLE em Oregon, destruindo os arquivos de configuração da Terra, o que destruiria a...
— Nós.
— É. =/ Os garotos estão... impedindo isso.
Dessa vez foi ela quem suspirou.
— Diz aí... eu estava do lado errado o tempo todo, né?
— Nós dois estávamos.
— Eu me odeio. >.<
— Essa sensação de culpa passa depois.
— O que nós vamos fazer?
— Não sei. Tecnicamente, você tem que me prender.
— É... Acho que nem que eu quisesse eu conseguiria... ou conseguiria?
— Tá brincando? Você chegou perto de me matar.
— Ah, é verdade. Sinto que isso me deixa melhor. Alguma ideia mirabolante?
Nikolai pediu a Norma, depois de uma profunda reflexão, que guardasse seu celular e o conduzisse como prisioneiro ao escritório do GOOGLE, onde seria interrogado. Em horário determinado, ela deveria enviar uma mensagem para o número de Liebert. Este enviaria uma resposta, quando pudesse, e só depois fariam alguma coisa para livrar Nikolai do xadrez.
Contra todos os seus instintos mais profundos, ela concordou, com apenas uma condição:
— Seu nome.
— Hã?
Confuso, ele parou com um pé dentro do carro e outro fora.
— Seu nome verdadeiro. Quero saber. — exigiu Norma.
Ele a olhou nos olhos e soube que não era uma questão da qual pudesse se esquivar.
— Andrius.
*FIM DO FLASHBACK*
CONTINUA...
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