quarta-feira, 13 de outubro de 2010

(2ª TEMPORADA) EPISODE 13 - Oregon [Parte IV - Final]

Meu segredinho

— Já temos uma imagem aérea, senhor — avisou o Agente LoL entrando na sala com o notebook. Na tela via-se da perspectiva de um helicóptero o que costumava ser um terreno da GOOGLE Inc., onde os supercomputadores que mantinham a grande estrutura virtual funcionando eram protegidos. Agora, no entanto, parecia mais uma zona de guerra com prédios e muros desmoronados e crateras escuras de onde emergiam espirais negras de fumaça. Havia também pavilhões em fogo e figuras que, do alto, assemelhavam-se a formigas, movendo-se muito rápido. Em torno delas, cinco gigantes de metal — isso era o que uma primeira impressão diria sobre eles — deslocavam-se pela paisagem destruindo tudo que encontravam. Aqueles que corriam próximo a eles provavelmente os controlavam; a não ser que estivessem lutando entre si. Essa diferença pouco importava, na verdade, do ponto de vista de quem assistia à cena.

O presidente da L.D.M esmurrou a mesa, encolerizado.

— Esses filhos da puta não têm direito! Como isso foi acontecer? Como ninguém previu isso?
— Senhor, a maioria das equipes estava ocupada com a cena do homicídio e nos arredores. — justificou o Agente LoL em tom baixo e servil — Ninguém imaginaria que os fugitivos fossem diretamente para lá. Natural seria pensar que estivessem se escondendo.
— Vou dizer qual é o problema: um idiota chamado Rodney teve tanta dificuldade em fazer o prisioneiro falar a ponto disso ajudar os fedelhos!
— O senhor quer que pressionemos Nikolai com maior firmeza?
— Eu quero Nikolai morto!

O chefe amassou o charuto no cinzeiro e se pôs de pé.

— Eu vou até Oregon. — determinou — Quero a G.P, o BOPE, a SWAT, Ursinhos Carinhosos, toda força militar de peso que você puder encontrar, de prontidão lá no Data Center!
— Sim, senhor.

...........Amália abaixou-se para evitar outro disparo supersônico que destruiu um pedaço da parede atrás dela, executou um rolamento e foi parar dentro da trincheira onde Pinguin havia se abrigado.

— Puta que pariu! — xingou o garoto quando uma cortina de calor infernal se abateu sobre eles, por pouco não queimando suas cabeças: o Gigante metálico, feito do mais duro aço, esquelético e sem rosto discernível, apenas uma parte lisa onde deveria haver olhos, nariz e boca, tentava espantá-los com o lança-chamas.

Encurralados lá embaixo e desprovidos de um bom plano, ouviram impotentes enquanto os outros quatro robôs destruíam o restante do que um dia fora a Área 51 do GOOGLE. Todas as pessoas (funcionários e visitantes) tinham dado no pé àquela altura, e Matt, Pepito e Grilo ainda não haviam deixado a câmara ultra-secreta que deveria levá-los, de dentro de um dos prédios, ao Sistema Central do GOOGLE.

Incumbidos uns dez minutos antes de vigiar a entrada — apenas vigiar a entrada — Pinguin e Amália foram surpreendidos pela visão bizarra de cinco esferas metálicas girando juntas em sua direção, até pararem, vibrarem levemente por um instante e começarem sua assustadora transição para gigantes de aço inteligentes. Desse momento em diante, foram dez minutos de pura alegria... Tempo suficiente para as altas cúpulas do GOOGLE e da Liga de Dominação Mundial olharem o que estava acontecendo através de seus satélites e se perguntarem: “WTF?”.

Agora Amália estava telefonando para alguém ("Ecco Salva, eu espero!" by Pinguin) do seu celular, os dedos trêmulos enquanto digitavam. Ela encostou o aparelho no ouvido, aguardou até a ligação se completar e escutou o alarmante aviso de "Este aparelho encontra-se desligado ou fora da área de cob..."...

— Filho da puta! — xingou, jogando o telefone para longe.
— Com quem você queria se comunicar? — perguntou Gabriel.
— Com o Pedro! Não entendo por que ele não responde.
— Alguma merda aconteceu.

*FLASHBACK*

.........O QUARTO DE HOTEL EM THE DALLES, OREGON (SEM QUALQUER PREOCUPAÇÃO COM FUSO-HORÁRIO [MAS ISSO TODOS JÁ SABEM]):

O forno de microondas fez "BIP". Pedro o abriu e retirou a bandeja de lasanha.

PEDRO APRENDEU: LASANHA
+ 1 CULINÁRIA!

Levou a bandeja à mesa de centro desmontável, separou num prato um pedaço para si e olhou em direção à porta do banheiro, trancada a chave.

— Você vai querer comida, Galarza? — gritou para que o prisioneiro ouvisse.
— Fuck you! — berrou o garoto em resposta; tinha acordado há cinco minutos e estava muuuito furioso.
— Okay, então. — murmurou Pedro serenamente, sentando-se com seu almoço — Sobra mais pra mim.

Seguiu-se um breve silêncio, até quando Galarza gritou:

— Onde estão meus relógios?
— Onde você não poderá alcançá-los. — respondeu Pedro com a boca cheia de comida.

Houve outro vácuo silencioso, no qual Galarza espiou pelo buraco da fechadura e conseguiu identificar Pedro, um prato com lasanha e uma arma em cima da mesa, bem perto dele. Murmurou baixinho consigo mesmo: "Shit".

— Por que você não me deixa sair pra dar uma voltinha? ^^ — pediu ele, usando seu Friendly Mode Tipo 1. — Eu sou claustrofóbico. D=  — completou.
— E eu não sou tão idiota, Galarza. ;) — respondeu Pedro ainda comendo.
— Tá booom, então... u.u Creio que também não adianta eu dizer que preciso sair pra mijar, já que eu estou dentro do... dã!
— Fica quietinho. ^^
— ¬¬

Houve um terceiro vácuo, durante o qual só se ouviu o barulho de Pedro comendo. Depois ele acabou e levou o prato à pia para lavá-lo. Galarza tentou novamente, então, usando o Friendly Mode Tipo 2:

— Eu até compreendo que os outros façam isso comigo. Mas o que eu não consigo entender é VOCÊ concordar com isso, Pedro. Tipo, você é tão foda. D=
— Não adianta... — cantarolou Pedro de costas para a porta, lavando a louça.
— Sério, você é foda! Você foi o que mais se puxou durante os treinos, você acordava mais cedo que todo mundo, você tinha um futuro na organização! E agora, meu mentor está morto. Tudo que ele fez, arruinado.
— A culpa não foi minha nem sua, Galarza.
— Ah, e você acredita que o Matt, o Pepito ou qualquer um do grupo não tenham nada a ver com isso?
— Eu confio neles. u.u Matt não pretendia matar o Negão, ele queria apenas impedir que gente inocente morresse por causa de mais um plano mirabolante dele. E chega de falar nesse assunto.

Assim, Pedro terminou de lavar a louça e foi para o sofá, a alguns metros da mesa onde repousava a arma; Galarza o acompanhou pela fechadura. Não era de desistir facilmente.

— Estranho o seu tom de voz ao falar do Matt. É como se você guardasse algum rancor dele...
— Não torra, Galarza. ¬¬
— Só fiz uma constatação da realidade. E, pelo jeito, você não contou isso a ninguém, digo, o motivo por você estar chateado com ele. Porque talvez seja muito, muito sigiloso...
— O Matt ia entregar o Negão, mas eu não queria que ele fizesse isso porque ele tinha informações importantes pra mim, okay? — soltou Pedro, impaciente. — E, antes que eu pudesse falar com o Negão, o cara morreu. Mas isso não é culpa do Matt. É só que o Matt cuida de tantos assuntos ao mesmo tempo que um deles acabou ficando de fora.
— E qual seria? '-'
— Você não entenderia.
— Wow, wow, não fode. A gente tava começando a se entender aqui. D= Desembucha logo, no que o Matt deveria prestar atenção, mas não prestou?

Ele demorou um bocado para decidir se contava ou não. No fim das contas... contou. (LoL)

— O Negão sabia coisas a respeito do meu passado.
— O seu passado é importante? o-o
— ¬¬
— Desculpa! D=
— Você não entenderia mesmo. É uma longa história. Acontece que ninguém está ligando muito pra isso, a não ser eu. u.u
— Eu ligo. D= A Doom Finger costumava consistir nisso: uns cuidando dos outros.
— Isso soa gay.
— É filosofia, porra. ¬¬
— Tá, okay. Acho que... Nós podemos conversar.
— Me destranca aí, então. ^^
— Não espera que eu faça isso, né. u.u
— Foi mal... É só que eu tenho coisas do Negão no meu computador. Coisas realmente importantes que ele pediu pra eu guardar. Vai que alguma delas é relevante pra você. Mas, se você quisesse ver, eu teria que estar com o PC perto de mim. Pra fazer o reconhecimento e talz.

*CHAN-CHAN* Pedro ficou pensando... Valeria a pena arriscar a segurança da Quest a ser cumprida por Matt, Pepito, Grilo, Amália e Pinguin no Data Center por uma causa puramente pessoal?... Well, era pessoal mas ao mesmo tempo era "pública": não era sobre ele, afinal, era também sobre Bob, Sebastian e todas aquelas merdas que vinham acontecendo com eles.

— Okay, Galarza. Eu vou abrir a porta. — anunciou — Mas você vai ficar quietinho e inofensivo no fundo do banheiro enquanto eu faço isso. De preferência, virado para a parede.
— Alright. ^^ — respondeu Galarza do outro lado, já obedecendo às ordens dele.

Pedro pegou a chave a arma e deu uma olhadela no estreito vão entre a porta e o carpete, no caso da sombra de Galarza denunciar sua presença furtiva do outro lado. Não havia nada.

Com a pistola erguida à altura dos olhos, Pedro esticou a mão e destrancou a porta, empurrando-a com delicadeza até ver Galarza virado contra a parede, como havia ordenado.

— Okay, vire-se devagar e saia.

O outro se virou lentamente, mantendo as mãos vazias no ar, e os dois andaram ao mesmo tempo, Pedro afastando-se para permitir que Galarza saísse do apertado banheiro e chegasse à mesa do computador. Nisso colocou-se atrás dele, a arma apontada para sua nuca.

— Faz a tua mágica agora.

Sem dizer nada, Galarza iniciou a máquina e começou a digitar furiosamente. Telas pedindo senha começaram a aparecer, e ele passou por todas elas com facilidade, abrindo uma infinidade de pastas.

— Voilà. — falou — Está tudo aqui. Documentos, fotos, diários de viagem.
— Comece pela vida acadêmica. Procure por dados de colegas da faculdade. — mandou Pedro, já ansioso pela perspectiva de esclarecer suas dúvidas.
— Sim, senhor... Dow!

A tela escureceu-se repentinamente.

— O que foi isso? — indagou Pedro.
— Bateria. Vou ter que engatar a fonte na tomada. Só um minutinho... — Galarza mergulhou para baixo da mesa a fim de encontrar os cabos corretos, levantou-se e deu a volta na mesa explicando: — Terei que puxar a mesa um pouquinho. Me ajuda?

Bufando, Pedro guardou a arma atrás da cintura e segurou com as duas mãos uma das extremidades da mesa quadrada, enquanto Galarza dava conta da outra.

— Perfeito. ^^ No três...

*KABRUM*

Num impulso rápido, Galarza usou a mesa para empurrar Pedro e prendê-lo contra a parede, suas mãos fora do alcance da arma, logo deitando o móvel de modo que tudo que estava em cima dele caísse por cima do garoto. Logo que a soltou e correu na direção da porta, Pedro desvencilhou-se da confusão de fios e ferramentas de informática, sacou a arma e atirou.

O salto que ele deu sobre a cômoda, onde estavam seus relógios, desviou-o por um triz do primeiro disparo. Com um rolamento, Galarza pôs-se de pé e saiu como um raio porta afora. Um pouco mais lento, Pedro deixou o quarto a ponto de ver sua silhueta longilínea fazer uma curva escorregadia rumo às escadas.

Atirou duas vezes.

*BLAM*
*BLAM*

Ouviu um "Auch" e um baque pesado.

A adrenalina fluindo, o coração batendo depressa, Pedro correu de arma em punho até os degraus, onde viu o corpo do SPY caído em um ângulo bizarro. Estava morto.

Incapaz de segurar o choque, Pedro soltou a arma e cambaleou para trás apoiado na parede. Um segundo baque atrás dele o surpreendeu, não lhe dando tempo para descobrir mais — era o som de um extintor de incêndio contra o seu crânio.

Tão logo ele desmaiou, Galarza foi até o "corpo" que jazia na escada, ajoelhou-se perto dele e pressionou o botão em seu relógio de pulso, o único que conseguira apanhar em milésimos de segundo — felizmente fora aquele, e não outro. A forma cadavérica que era idêntica a ele contorceu-se e descoloriu-se, liquefazendo-se numa substância homogênea que fluiu de volta para dentro do pequeno relógio.

Sorrindo o tempo todo com a vitória, Galarza arrastou Pedro até o banheiro do quarto, trancou-o da mesma forma que haviam feito com ele e jogou a chave fora. Em seguida, apanhou a maleta metálica que só ele conseguia abrir. Aquela que ninguém tinha se atrevido a violar ainda.

*FIM DO FLASHBACK*

Do alto de uma colina, sentado confortavelmente em seu jipe blindado, o SPY via o terreno inimigo queimar com prazer.

— Isto vai honrar os seus intentos, chefe. — sussurrou solenemente, tendo somente a própria companhia para presenciar seu sucesso: e essa talvez fosse a parte mais triste.

............ — AHHH, CALOOOOOR. — praguejava Amália.

O Gigante robô não podia abaixar-se ou alcançar Amália e Pinguin por ser demasiado alto e pesado. Em contrapartida, eles não podiam sair da trincheira enquanto aquele lança-chamas estivesse apontado sobre suas cabeças. Visto de longe, era uma cena muito estúpida, porque enquanto os três permaneciam presos naquele local, o resto do ambiente virava purê sob os ataques dos outros Gigantes.

— Eu não aguento mais ficar aqui, Pinguin. D= — choramingou Amália.
— Eu também não, cacete, mas a gente mal pode erguer a cabeça sem que ela vire churrasco! — praguejou Gabriel.
— E eu não consigo ter ideias. D= Eu to triste, e o Pedro não tá aqui. >.<
— Você tem que fazer alguma coisa, você é a mais porra-louca.
— Não dáá. Eu to desencorajada. Se eu estivesse com raiva, até funcionava...
— Amália — Pinguin olhou bem nos olhos dela —, o Justin Bieber disse que se sente o novo Kurt Cobain da música.

AMÁLIA: RAGE MODE ON

— AQUELE PUTO DE MERDAAAAAAAAA!

Possuída por uma ira grunge que faria dez rottweilers se encolherem de medo guinchando, a garota enfiou-se na parede da trincheira como uma broca industrial, abrindo uma espécie de túnel conforme avançava.

— Amália, o que...?
— Só me segue!

Sem titubear, Pinguin seguiu pelo túnel improvisado atrás dela, que em menos de um minuto cavando, "brotou" do solo atrás do Gigante com o lança-chamas e chutou-lhe o traseiro com força.

— Aí, viado, olha pra trás!

A cabeça do robô deu um giro de 360 graus sem que o resto do corpo se mexesse e "viu" Amália, emitindo um grunhido que em Português quer dizer "WTF".

— VOCÊ É FÃ DE JUSTIN BIEBER, QUE EU SEI!

Ela enfiou a mão no que seria a cavidade traseira do homem de lata e arrancou fora uma peça cilíndrica que deveria ser muito importante: realmente era, porque em seguida a isso o Gigante emitiu um uivo comovente de dor, oscilou um bocado e desabou sobre a trincheira. O lança-chamas continuou ligado, incendiando umas árvores próximas.

— Amália... — ofegou Pinguin aterrorizado — Tu fez um exame de próstata num robô. o.O
— Ou coisa do tipo. — completou a garota, indiferente, desfazendo-se do cilindro — Agora eu to melhorzinha, Gabriel: vamos chutar umas bundas.

KILL THE GIANTS!

— Eu pego dois, você pega dois. — propôs Amália.
— Okay. — concordou Pinguin.

Eles sacaram seus LifeControllers e partiram, cada um, para cima de uma dupla de robôs.

................Diante dos monitores do jipe, que exibiam em cinco quadros o que cada um dos Gigantes percebia, Galarza viu algo que o desagradou: um deles não funcionava mais, e Pinguin e Amália avançavam como herois para quebrar os outros. Ele apenas riu.

— Dentro do meu segredinho sempre tem outro segredinho.

...............Pinguin e Amália pararam de correr quando os quatro robôs, simultaneamente, voltaram-se para eles e formaram um círculo.

— Okay, não seria saudável a gente ficar cercado, então vamos tentar nos esgueirar... — murmurou Pinguin — Ah, fudel.

Raios elétricos vermelhos começaram a fluir dos braços estendidos de cada robô, unindo os quatro numa corrente que envolvia os dois jovens.

— Tá, não perde as tamancas agora. — sussurrou Pinguin para Amália, que não lhe deu ouvidos.
— ESCUTA AQUI, Ô VIADO, O QUE VOCÊ QUER DE NÓS? — ela berrou para um dos robôs, certa de que seu mestre, que ela sabia muito bem quem era, poderia ouví-la — HEIN? Berra comigo, Pinguin, seja homem.
— Ah... Oi, Galarza. ^^ — Pinguin — Ai! *tapa no ombro*
— SAIA DE ONDE ESTIVER E ME ENFRENTE COMO HOMEM, SEU ESCROTO!
— Não dê ouvidos a ela, ela tá estressada hoje, foi um dia muito tenso pra todo mundo...
— EU VOU COMER A TUA BUNDA!
— Vai nada, ela te adora. ^^
— PARA DE TENTAR AGRADAR ELE, PORRA!
— Ele vai nos matar, Amália. D=

O elmo do Gigante a quem eles se dirigiam dividiu-se em dois, e uma mini-metralhadora apareceu apontada para Amália.

— Eu falei...
— É ISSO QUE VOCÊ QUER, ENTÃO? ME APAGA!

Amália abriu os braços.

— ME MATA, SEU PODREEE.
— Amália, não!
— ME MATA!

..............Com uma mão num saco de salgadinhos e a outra segurando o gatilho, Galarza decidiu que era hora de acabar com ela. Depois com Pinguin. Aí ele encontraria os outros e daria cabo deles. E depois tiraria um cochilo. E viajaria para o Japão para encontrar-se com os outros dirigentes da D.F. E reerguiria a organização como a mais poderosa do mundo. E teria uma aposentadoria próspera e feliz com muitos filhos. Ou não.

*CRACK*

A janela à sua direita sofreu uma rachadura e ele gritou de susto, largando momentaneamente o controle das máquinas. Alguma coisa tentava atravessar o vidro blindado.

— Wtf?

Houve mais batidas nos outros vidros e pancadas fortes por toda a lataria. De repente o automóvel começou a tremer: a coisa estava embaixo dele.

— OMFG!

Ele deu a partida no jipe, mas não foi rápido o suficiente; uma força descomunal o ergueu do chão e começou a girá-lo com violência.

— PARA, PORRAAAA.

Nisso, o mundo virou de cabeça para baixo. Alguém ou algo arremessara o jipe colina abaixo, onde capotou sete vezes até emborcar. Atordoado, sentindo que os pés tinham subido para a cabeça, Galarza olhou para o lado e viu uma porta ser arrancada fora. Procurou por sua arma, mas não a encontrou.

— Oh, shit!

Mãos fortes o arrastaram pelos cabelos para fora do jipe e por vários metros sobre a areia causticante do deserto. Ele gritou de dor. De repente as mãos o viraram de peito para cima sobre uma pedra, e ele reconheceu com horror a face de Pedro, seus olhos transfigurados num vermelho demoníaco.

— Você... — a voz dele soou como se houvesse duas pessoas falando ao mesmo tempo — tem ideia do que acabou de fazer?
— Eu... não... D=
— Então eu vou te explicar.

..............Amália ainda estava esperando. Pinguin, incapaz de presenciar o horror iminente, fechara os olhos com uma expressão de "Essa porra vai doer"... Porém, no momento seguinte, a corrente rubra de eletricidade extinguiu-se e os Gigantes abaixaram os braços e curvaram as costas, sem mais se mexerem.

Pinguin abriu os olhos, deu uma olhada na cena e sentiu-se tão perplexo quanto Amália.

— Okay, isto é... Isto foi... O que eu deveria esperar disso? o-o
— Eu não sei, Pinguin. G.G

.............UM POUCO MAIS ADIANTE NO TEMPO:

Não se via uma viva-alma ao longo da ladeira. Melhor para eles! Estacionaram de forma furtiva, aproveitando o espaço escondido embaixo de gigantescas copas de árvores, e foram andando até a casa branca. Dessa vez não havia jardineiro, carteiro ou quem quer que fosse. A propriedade já não interessava mais a ninguém. Tanto melhor para eles...

Na cara-de-pau mesmo, pularam a cerca frágil que envolvia o terreno e cruzaram o quintal até a soleira da porta, onde Norma parou de sopetão.

— Esqueci a chave. '-'

*KRABUM* Andrius arrebentou a vidraça da porta com uma cotovelada, esticou o braço até o outro lado e girou o trinco antigo que a mantinha fechada. Um empurrãozinho para a frente a fez ranger, e os dois entraram. Estava escuro e um tanto empoeirado. Os móveis haviam sido cobertos por lonas brancas.

Andrius deu alguns passos corredor adentro, espiando os interiores de porta em porta, detendo-se ao pé da escada, Norma acompanhando-o em silêncio. Disse à colega em tom de graça:

— Agora que cheguei, não sei por onde começar.

Ela riu.

— Onde acha que ele punha os negócios em ordem? — sugeriu.

Andrius olhou para cima.

— Deve haver um escritório.

E tinha. Encontraram lá pilhas de livros ao redor de armários de arquivos, computadores inteiros ou desmontados, quadros com anotações das mais complicadas para um leigo, uma poltrona e um Nintendo Wii.

— Parece que Dodi conservou a “organização” do amigo. — constatou Andrius.
— Que eu saiba, ele não era cientista. Era um ufólogo. — disse Norma olhando em volta com aguda curiosidade.
— Isso não deve tê-lo impedido de tirar as próprias conclusões. — falou Andrius analisando alguns cadernos anotados; a grafia mudava depois de um tempo, provavelmente porque o novo dono da casa deu continuidade aos projetos — Nem de se divertir. — acrescentou depois, apontando para o Wii.
— Essa é nova pra mim. — disse, então, Norma olhando para cima.
— Que foi?

Ele também olhou. Havia uma portinha quadrangular no teto, trancada a cadeado. A porta em si aparentava ser muito antiga, mas o metal do cadeado, para surpresa dos observadores, estava tinindo de novo.

— Será que a polícia não se deu conta? — indagou Norma.
— É o que descobriremos a seguir. — murmurou Andrius, e subiu numa cadeira para melhor alcançar o alçapão — Alguém — forçou o cadeado com as mãos livres, o que era vão e estúpido — forçou entrada lá em cima antes de matar o dono da casa, viu que era importante manter isto aqui fechado e pôs um novo cadeado. Ah, merda.

Ele desceu.

— Um passinho pra trás, por gentileza, Norma. Obrigado.

Andrius sacou a arma (dela), apontou-a pra cima e disparou duas vezes. O cadeado voou longe, partido em três pedaços. Depois de guardar a pistola no cinto, tornou a subir na cadeira e, com um empurrão descomunal, fez a pequena porta abrir-se.

— Ajuda aqui? Eu sou baixinho. ^^

Por baixo, Norma o empurrou até que ele conseguisse passar a cabeça para dentro do que seria um pequeno sótão. O que descobriu numa primeira olhada quase o fez cair de choque.

— Ah, meu Deus...
— O que foi?

Sem responder, ele içou-se de corpo inteiro para dentro do sótão e esticou a mão para que Norma subisse também.

— Vem.

Ela o fez.

— Cuidado com a cabeça. — ele avisou-a antes de se levantarem, pois o teto era demasiado inclinado.

Finalmente deram uma olhada juntos no ambiente, e Norma mostrou-se tão chocada quanto ele.

Era um quartinho simples, com cama, bidê, estante, televisão, o básico. Mas o que mais impressionava eram o fato de as cortinas serem cor-de-rosa e, nas paredes, haverem colado desenhos de todo tipo; pessoas, animais, veículos, árvores. Desenhos cujo traço denunciavam facilmente a natureza de quem os produzira: outra coisa que eles não conseguiram entender.

— Andrius — sussurrou Norma desconsertada —, alguém... alguém morou aqui?
— É o que parece. — disse Andrius rapidamente, seu cérebro trabalhando num frenesi.
— Mas... se era isso que o Sebastian escondia, por que justamente...?
— A pergunta não é por que ele mandou guardar uma coisa dessas, mas por que o assassino decidiu levá-la.

CONTINUA...

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