terça-feira, 14 de dezembro de 2010

(3ª TEMPORADA) EPISODE 02 - O Pregador

O sol da segunda-feira raiou, e com a luz e o calor vieram também as reclamações...

— Essa é a MINHA caneca, Gustavo!
— Cssss!

Como de costume, Amália e seu irmão estavam brigando. Por sorte, isso para os outros substituía o despertador quando este, por algum motivo, não tocava.

— É a caneca dos gatinhos! Ninguém mais gosta de gatinhos...
Eu gosto. ^^
— Cala a boca, Galarza! Eu tomo café nessa caneca há séculos, não há nenhuma razão lógica pra eu não fazer isso hoje, então me dáá...

*CRACK*

Pausa dramática: os gatinhos viraram cacos no chão da cozinha.

— Well... — Gustavo olhou do estrago para Amália e da Amália para o estrago sem saber muito bem o que dizer. — Se você queria uma razão lógica, aí está. ^^

E correu como um raio para pegar sua mochila e dar o fora da casa, antes que Amália saísse do nível “CHOQUE” para o nível “VOU-TE-MATAR”.

— Ele é... TÃO idiota. u.u

Galarza terminou seu achocolatado e foi atrás de uma pá para recolher os cacos.

— Olhe, Amália, se serve de consolo ouvir um problema de outra pessoa...
— Não serve. ¬¬
— Ontem à noite, enquanto você brincava com a Aiko, eu quase morri.
— Ah, é, me contaram. Na verdade, o Pedro me contou como você caiu e todos pensaram que tivesse empacotado, mas no instante seguinte se levantou e arrancou fora o colete de chumbo. Ex-colega de quadrilha, hein?
— De quadrilha e de Academia.
— Você malhava? o-o
— Okay, Amália... a conversa acabou. ^^

Ele jogou os cacos no lixo, guardou a pá e foi para a sala ver se conseguia jogar um pouco de Wii. Não conseguiu, pois no momento Pedro assistia TV com Aiko adormecida em seu colo.

— Pedro, eu pos...?
— Shh. A Aiko tá cochilando — disse Pedro com o olhar perdido na reportagem que passava.
— Mas eu jogo sem volume.
— Agora, não. Senta aqui comigo e assiste.

Galarza sentou-se também. Era um programa matutino da Rede Bobo, uma emissora recente de POA muito parecida com um outro canal brasileiro de fama internacional. Depois de um tempo Pedro perguntou a Galarza, em tom baixo para que Aiko não despertasse:

— Alguma novidade sobre o Dupont?
— Do fim da noite de ontem pra hoje, Pedro? u.u
— Sorry. A gente fica ansioso com essas coisas.
— Eu não. Já fui quase assassinado tantas vezes que até já perdeu a graça.
— O que me deixou intrigado foi essa sua visão, sabe? Que você disse que teve, com o Liebert...

O SPY se remexeu no sofá com desconforto.

— A-aquilo?... Não foi uma coisa tão assustadora — desconversou.
— Você quase urinou nas calças.
— Admito que foi chocante num primeiro momento, mas eu já superei. Experiência de Quase-Morte.
— Experiência de Quase-Morte?? Ele foi realmente pro Inferno, Galarza.
— Eu seeei!
— E se houvesse uma forma dele voltar para nós?
— Como Anjo da Morte? Ah, sim, seria muito positivo...

Pedro ia retrucar quando Gustavo veio do quarto dele inteiramente pronto para a escola.

— Tô indo, gente — ele lembrou-se da cozinha — A Amália por acaso está pronta?
— Só Deus sabe — falou Galarza, já alheio à conversa e ocupado com o celular.
— Shh! — fez Pedro.
— Sei, sei, a Aiko...
— Não é isso, é que eu quero ver essa matéria.

Pedro aumentou um pouco o volume da TV. Agora eles transmitiam o que parecia ser um sermão de pastor da Igreja Universal, mas não era bem isso. Um homem maduro e sério, de vestimenta impecável, falava para uma plateia enorme atrás de um púlpito, de costas para uma espécie de monumento do qual só se via a base quadrada feita em mármore.

“A vontade humana de se preservar e se corrigir é muito bonita. É uma dáááádiva da natureza, mas você não deve pensar que ela não é capaz de destruir. Essa mesma vontaaaade, meu caro, pode te levar à enganação!...”

— Puta que me pariu! — exclamou Galarza rindo-se todo.
— Shhh! — fizeram Gustavo e Pedro apontando para a menina que dormia.

O sermão continuava:

“É por isso que eu estou aqui, meu caro, para te mostraaaar...” — o homem parou para tomar água. “Te mostrarei que a única vontade verdadeeeeira é do Deus... A do Great Bossss!”

Galarza explodiu em risadas.

— Não acredito que ele disse isso!
— Shh!

Mas Galarza continuou rindo.

Agora a voz de uma repórter se sobrepunha à do pregador, enquanto as imagens da palestra permaneciam na tela.

“O Prof. Ichabod Finger já vendeu 1 milhão de exemplares de livros, além de ter dado mais de 100 palestras pelo mundo inteiro. Sua recente chegada a Porto Alegre confirmou os boatos de que nesta cidade será aberto o primeiro templo brasileiro da mais nova seita religiosa de que se tem notícia: o Fingerismo”.

— Okay, isso foi SINISTRO — com isso, Galarza parou de rir e concentrou total atenção à TV dali para frente. A repórter continuou falando:

“Na marcha em que está, Finger pretende reunir pelo menos 15.000 fieis na região até o Natal. Para os que criticaram sua campanha de divulgação e seus trabalhos literários, equiparando-os à venda barata de material de Auto-ajuda, Finger responde com um agradecimento e um convite...”.

A edição cortou para Finger diante de um microfone, parado no centro do mesmo auditório, agora sem pessoas. Atrás dele via-se, fora de foco, o monumento de mármore.

“O meu ‘muito obrigado’ aos que levantaram essas críticas: é sempre bom receber acréscimos e exortações das pessoas que acompanham o meu trabalho, e fiquem sabendo que serão muito bem-vindos na cerimônia de abertura da nossa sede em Porto Alegre, segunda-feira, dia 4 de Outubro. O Fingerismo é universal. Não faz distinção de cor, classe social, sexo, nem de outros credos. A única condição para seguir seus ideais é admitir a presença de Deus na natureza e na vida do homem, pois há tantas coisas incríveis, extraordinárias ocorrendo no mundo que seria muito presunçoso e até muito triste atribuí-las unicamente ao acaso. E é isso que tentamos enxergar com nossa fé. Tudo que Deus tocou está destinado a grandes maravilhas. Por isso que o chamamos O Grande Dedo”.

Ele apontou para o monumento atrás de si, que finalmente entrou em foco em sua totalidade: uma mão gigante de mármore com o dedo indicador em riste, direcionado para o ceu, para os grandes mistérios além do espaço.

O jornal mudou para uma matéria sobre coloridos. Pedro apertou “MUTE”, depois voltou-se para Grilo e Galarza para discutirem a questão. Nenhum dos dois, porém, parecia ter algo a dizer. Estavam tão tontinhos quanto ele.

— Isso sim quase me fez mijar — disse Galarza tenso.
— OK, vamos pensar racionalmente — disse Pedro, ainda mantendo a voz baixa por causa de Aiko — O nome dele é Finger, a seita se chama Fingerismo, eles têm um enorme DEDO como seu Deus: precisa dizer mais alguma coisa?
— Eu vou pra escola — disse Gustavo.

E foi.

— Por mais óbvio que pareça, Pedro, não consigo imaginar como o Dupont encontraria a seita, ou vice-versa — disse Galarza cansado.
— Isso é questão para investigarmos — disse Pedro — Seria interessante se nós fôssemos a essa cerimônia no templo hoje.
— ‘Tá louco? É suicídio!
— Você não precisa ir. A gente vai por você.
— E morrem na brincadeira? Sem chance. Eu vou, nem que seja disfarçado.
— OK. ^^ Que bom que mudou de ideia.
— Eu mudei de ideia?... Monstro, você me fez mudar de ideia!

O SPY mudou-se do sofá para a cadeira do computador e entrou na web procurando alguma coisa. Um minuto depois, falou:

— Eles têm o site oficial. Os Fingeristas. A abertura do Templo de Porto Alegre será à noite. Acho que eu conheço o endereço. Vamos eu, você e...?
— Se o Gustavo quiser, também pode. Ei, tem outra coisa.
— Mm?
— Quem eram aqueles velhos na oficina ontem à noite? Com as UZI’s? Você ficou bem tenso quando viu eles.
— Ah, Os Quatro?
— Não eram dois?
— Digo, eles são de um grupo que nós chamávamos Os Quatro, porque são os quatro grandes fodões da organização, tipo, eram capazes de cumprir qualquer ordem, a qualquer custo, desde que beneficiasse a D.F. Além do Fogg e da Paula, que você viu ontem, existe outro casal: o Albert e a Stephanie. Mas eles não são casados no rigor da palavra. Parece que têm filhos com pessoas diferentes, todos jovens e já dentro da organização. Não imaginei que continuassem na ativa. Se eles estão com o Dupont para me matar, então a coisa é realmente urgente. Querem a MINHA cabeça para poder executar um plano muito maior.
— Que envolve o Fingerismo, é claro.
— É.

Pedro soltou um bocejo e tirou uma mecha de cabelo de cima do rosto de Aiko.

— Cuidaremos disso esta noite. O que você vai fazer o resto do dia?

O SPY encolheu os ombros. Pedro disse:

— Arrume o que fazer, então. Você vai ficar ansioso e ninguém vai ter paz — depois ele gritou na direção da cozinha: — AMÁLIAAAA!
Quêêê?
— VOCÊ NÃO TINHA QUE IR PRA ESCOLA?

Amália botou a cabeça para fora da cozinha.

— Eu tinha? Pensei que, tipo, a gente tinha “se aposentado” dela.
— Você tem uma vida normal agora, gata. u.u
— PQP!

Ela saiu desasada pela casa a pegar suas coisas.


..........Na rua, rumo à escola, Gustavo foi surpreendido por um ser que brotou sem aviso de um arbusto e pulou nas suas costas, puxando-o pela alça da mochila. Ele sentiu os ossos da coluna estalarem dolorosamente e fez força para não cair para trás.

— AAAUCH, AUCH, AAAUCH! Gustavinho! ¬¬

O garoto saiu dos ombros dele e veio para a sua frente, apontando-lhe um dedo severo.

— Você mentiu pra mim ontem, Beckmann!
— Oi?
— Eu liguei pra sua casa depois de chegar na minha, e quem atendeu foi o Pinguin!
— O Ping...? Ah. Shit.
— Vocês tinham dito que ninguém além do Galarza podia dormir na casa de vocês. Mas por que ele ficou lá até tarde, então? u.u Eu podia ter ficado também! ¬¬
— Não foi questão de poder ou não poder, Gustavinho, é que meus pais estão em Cingapura e...
— O Pedro tá lá todos os dias! Ele e aquela menina que tá sempre de cosplay.
— É que eles são... eles são...

Bem quando Gustavo pensava numa explicação convincente a dar para o amigo que não o obrigasse a entregar toda a verdade, Pepito chegou perto dele, a caminho da mesma escola, falando sem ver Toshiro.

— A pior parte de ser normal é ter de dar satisfações à sua mãe... Auch!

Ele levou um pisão de Grilo e finalmente notou a presença de Gustavinho.

— Mas oi, Gustavinho! =D Beleza?
— Oi, Pepito. Sabia que seu amigo Beckmann me excluiu da casa dele ontem à noite?
— Que merda pra você, hein. Porque ontem eu tava lá e...

Ele parou ao ver a cara de Gustavo, que por trás da sutileza dizia claramente “VOCÊ NÃO ESTÁ AJUDANDO”. Gaguejou um pouco e corrigiu-se:

— Pois é, Gustavinho... É que era domingo, tá ligado, e fica chato dormir nos outros um dia antes do recomeço das aulas. Porque... erm... a pessoa, no final de uma contagem de duas semanas, teria 14 dias. Acontecendo esses 13 dias do mês, a pessoa tá mais desgastada do que se fechasse a chave das duas semanas...
— Assim tá bom, Pepito — falou Gustavo sorrindo amarelo — Que tal irmos pra escola? Aposto que o Gustavinho está atrasado pra dele.
— Ah, eu vou pro mesmo colégio de vocês =D — disse Toshiro — Fiz a transferência semana passada.

Pepito e Gustavo se entreolharam com caras de “QUE BOOOM”. Por fim, os três andaram juntos até a escola do presidente que tinha a vara grande.

.........Por volta das sete da noite, Galarza acordou de um cochilo longo e foi até a sala de estar ver se Pedro já estava pronto. Estava ajudando Aiko a montar um quebra-cabeça, enquanto Amália navegava na Internet. Pigarreou.

— Ah, você acordou! — Pedro ficou de pé e pegou o casaco — Vamos?
— Aonde vocês vão? — gritou Amália de onde estava, no momento em que Gustavo chegava da rua.
— A gente vai dar uma olhada naquele Templo Fingerista que abriram.
— Ah, vocês vão? — Gustavo entrou na conversa — Custa alguma coisa?
— Um quilo de alimento não-perecível. Caridade e talz.
— Se o Gustavo for, eu vou também! — disse Amália se levantando.
— Mas quem vai cuidar da Aiko? D=

Naquele momento ele sentiu um puxão na jeans. Era Aiko chamando sua atenção.

— Que foi, maninha?
— Pede pra moça da guitarra ficar comigo. *.*

Todos se perguntaram ao mesmo tempo: “Moça da guitarra?”. De repente Amália começou a rir.

— Ai, meu deus! Aiko, querida — ela falou em tom gentil à criança —, o Pinguin é meninO. Ele é Gabriel. Não Gabriela.

Galarza contorceu-se de tanto rir.

— Você acha graça porque ela ainda não confundiu você. u.u
— Okay, então a Amália chama o Pinguin pra cuidar da Aiko enquanto a gente vai no Templo — disse Pedro — Gustavo, você dá uma olhada nos alimentos. Veja se não tem nada faltando.
— Alright...
— O Galarza e eu esperamos lá embaixo.

.........Quinze minutos depois, os quatro estavam a bordo de um táxi rumo ao prédio do Templo, que segundo o site ficava perto do Centro. Chegando ao local, perceberam que não seria pouca coisa: havia imprensa, fotógrafos e gente da alta sociedade atravancando a entrada ao mesmo tempo que a população comum. Na fachada havia pilastras de ouro e uma escadaria com um tapete vermelho conduzindo o visitante aos portões centrais, que mediam pelo menos cinco metros de altura cada.

— O cara sabe mesmo vender livros — comentou Gustavo quando eles desciam do táxi.
— Os Antigos faziam suas construções mais importantes com portões gigantescos pensando que, dessa forma, os deuses poderiam entrar nos edifícios e residir neles — contou Pedro.
— Onde você achou isso?
— Matt me disse. Há muito, muito tempo. Vamos entrar na fila.

Diferentemente do que pensavam, a espera não durou muito tempo e nem houve confusão por causa de furos na fila ou por melhores lugares na plateia. Todos receberam a mesma atenção. A única restrição feita, coincidentemente logo depois que Pedro, Amália, Gustavo e Galarza (disfarçado com uma calça branca e uma estranha touca à lá Chaves) entraram, foi devido ao número de assentos.

— Sinto muito — disse a moça que cuidava da porta aos que haviam ficado de fora — Pelo menos esta noite haverá limite de pessoas.

Os jornalistas também foram barrados, para horror dos seus egos.

Lá dentro, os quatro adolescentes escolheram assentos os mais próximos possíveis do palco, onde havia um púlpito e a tradicional escultura que eles viram na T.V. Para completar, um telão logo acima da mesma exibia uma foto promocional do Prof. Ichabod Finger, com uma citação: “O Reino Dele não era deste mundo. O meu, porém... quem sabe”.

Pinturas renascentistas recobriam o teto e as paredes, mas eles não puderam olhar por muito tempo porque logo em seguida as luzes se apagaram, e o homem alto e elegante da imagem surgiu de carne e osso no palco defronte a eles, sendo recebido por uma chuva de aplausos. Ele sorriu modestamente e acenou pedindo que “Pelo amor de Deus, parem”, visivelmente embaraçado. Quando se fez silêncio total, ele começou:

— “Viver, morrer, renascer, progredir sempre. Tal é a lei”. “Fala a verdade, mesmo que ela esteja contra ti”. “Felizes são os que ouvem a palavra de Deus e a guardam”. “Conhece-te a ti mesmo”... Quanto conhecimento o homem já produziu e quão pequeno ele ainda é!

No telão uma nova imagem surgiu.

— Creio que a maioria de vocês conhece essa obra. Concebida por Michelangelo, o gênio renascentista, ocupa o imaginário humano até os dias de hoje. É uma obra que não envelhece, por mais que os séculos corram, assim como o tema que ela retrata. Notem que, apesar da grandiosidade visual do cenário — Deus, os seres celestiais, Adão sentado sobre a Terra —, o ponto central da obra é muito simples.

A imagem recebeu um ZOOM.

— A real preocupação do artista era mostrar esse espaço diminuto, quase imperceptível, entre a perfeição divina e a inferioridade do homem, entre O que tudo pode e o mero mortal, entre o saber completo e a eterna dúvida. Há várias oposições que eu poderia citar, mas vocês ficariam com sono, e eu não queria causar a impressão de ser um grande chato logo na minha primeira visita a Porto Alegre.

Os portoalegrenses riram.

— Em minhas viagens pelo mundo eu vi muita coisa. Muitas coisas belas e outras tantas... não tão belas. Tentei registrar um pouco da minha experiência, como se isso significasse alguma coisa (mais risos), em dois livros cujas vendagens foram muito bem-sucedidas, sinal de que, afinal, para alguém o meu blá-blá-blá fez sentido. Mas a verdade, meus caros, era muito maior do que isso. Eu a estive segurando, com medo de que, ao expôr minha voz e minhas ideias ao grande público, fosse rotulado de louco ou pilantra como tantos outros são. Mas parece, pelas boas recepções que venho tendo, que a hora de dizê-la enfim chegou.
— Meus amigos, o mundo como conhecemos está em estado de emergência. Nunca nos vimos tão ameaçados por nossa própria ganância, nossa própria tendência à violência. Torna-se cada vez mais necessário reaproximar nosso espírito com Aquele de onde tudo provém. Fazer o que o Adão de Michelangelo jamais conseguiu: alcançar Seu divino dedo. Eu me perguntava como fazer isso e, desesperado como muitos de vocês, eu quase desisti. Foi quando Ele veio até mim em sonho e me disse que a resposta pela qual eu tanto implorava finalmente viria. Mas não seria fácil. Eu teria de lidar com Seu Saber antes de transmití-lo ao resto do mundo. Então Ele me deu — e aquilo materializou-se diante de mim mesmo após o sono acabar — uma chave para Seus enigmas. Uma que, se eu aprendesse a usar, traria enormes tesouros para o espírito do homem. Ele entregou-me, meus caros presentes, seu Cetro Branco do Saber: o Controle da Vida!

Aplausos. O professor acenou com a cabeça e continuou:

— É essa ferramenta, amigos, que tem me orientado desde o início de minha peregrinação. Ela envia-me luz, e da luz me vêm os desígnios Dele. O que fazer. Quando fazer. Eu me sinto mais livre, amigos, estando mais perto d’O Grande Dedo. E essa sensação eu queria compartilhar com vocês de agora em diante, aqui em Porto Alegre, em mais este Templo Fingerista, que é o primeiro a ser instalado no Brasil!

Mais e mais aplausos.

Hipnotizada, a plateia o escutou por mais meia hora até o início do “Coffee Break”, quando o professor retirou-se por uma porta ao lado do palco e as pessoas foram petiscar biscoitos e pães enquanto jogavam conversa fora.

Pedro, Amália, Gustavo e Galarza primeiro procuraram um canto longe das beatas e dos ricos, aí então começaram a conversar.

— Precisa ficar mais óbvio? — sussurrou o SPY em tom nervoso — Eles querem fazer lavagem cerebral no planeta inteiro. Por isso eu tenho que estar morto!
— Espere, ainda não vimos a conexão com a Doom Finger.
— Precisa, Pedro? O nome do puto é FINGER, tem a porra de um DEDO de mármore em cima do palco, a maldita seita...
— OK, OK. Mas, enquanto eu não vir o Dupont novamente, não vou ficar tranquilo. Não era ele o verdadeiro boss da organização agora? Você devia saber disso. u.u
— Eu nunca ouvi falar de um Ichabod.
— Mas isso não impede que Dupont tenha achado o cara e trabalhado a ideia junto com ele — disse Gustavo — Tipo assim, o francês tá doido de pedra por causa da perda de memória. Todos eles estão. Não é de admirar que tenham apelado para a fé.

Os outros concordaram.

— Fora essa história de “Controle da Vida” — continuou Grilo — Será que só eu fiquei impressionado com isso?
— Sei láá, o que a gente faz em seguida? — indagou o SPY — Sequestramos ele?
— Tenho uma ideia melhor — disse Amália.

Eles seguiram Amália por uma das saídas de emergência, a única parte do Templo no lado de dentro que não estava vigiada por seguranças (Ichabod era religioso, mas não burro). Uma vez fora, deram a volta no prédio até acharem uma entradinha pelos fundos.

— Eu sabia! Este lugar já foi um clube gay durante os anos 1980! — disse a menina.
— O Matt também te disse isso? — perguntou-lhe Gustavo.
— Não, essa eu achei sozinha no Google Maps. Agora, esperem um momento que eu vou... consegui!

Ela forçou a maçaneta de ferro até ela ceder, e a porta se abriu para um corredor vazio e pouco iluminado.

— Fiquem os três aqui, que eu vou dar uma olhada nos bastidores.
— Não seja louca! D= — reprovou Pedro apreensivo — Você não é a Hermione Granger!
— Shh! Eu vou e já volto. Segurem a porta.

Assim ela foi. Os guris cruzaram os braços e esperaram.

.........O corredor dava para várias salas vazias — ex-banheiros e depósitos desativados —, terminando num lance de escadas pelo qual Amália subiu após checar cada compartimento do piso de baixo.

Caminhando pelo andar superior, ela quase esbarrou num segurança de terno, que felizmente vinha apressado demais para se dar conta de qualquer pessoa no seu caminho. Escondida atrás de uma lona, Amália esperou até não ouvir mais os passos dele à distância e continuou sua caminhada.

Uma placa de latão em uma das portas dizia “PROF. FINGER – GABINETE”. Ela chegou perto da porta, encostou o ouvido na madeira, pegou a maçaneta e a girou devagar, com o mínimo de ruído possível, depois empurrou-a um tantinho para dentro, apenas o suficiente para entrever o que o homem fazia lá dentro.

Finger falava de pé para um viva-voz em cima da sua mesa. Andava para lá e para cá, orgulhoso e humorado.

— Agradeço o elogio, senhor. Garanto que não se decepcionará com meus resultados aqui, em Porto Alegre.

A voz do outro lado respondeu em um inglês carregado de pronúncia francesa:

— I am hopefully waiting for that, Professor. Besides that, I would like you to inform me about your advances on the Youth Project…

Amália ouviu passos muito próximos dela e congelou de pavor. Não ouviu o que o francês disse depois, pois ficou ocupada em se esconder, mas quando virou-se já era tarde. O mesmo segurança que passara por ela, um homem com o dobro do seu tamanho, olhava-a do alto de um jeito ameaçador, seus corpos a poucos centímetros de distância.

— A senhorita deseja...?
— Er... Erm...

Ele a pegou pelo braço e a levou para dentro à força. Finger acabava de se despedir do francês. Quando viu a garota, ficou muito desconcertado.

— Com licença, professor. Esta senhorita estava espionando atrás da sua porta.
— Tava, nada. u.u
— Acalmem-se, por favor — pediu Finger placidamente — Minha jovem, por gentileza me diga o que veio fazer aqui. Por acaso tinha algo a dizer ou a me perguntar?

Amália olhou dele para o segurança, e deste para o professor, e limpou a garganta.

— Na verdade, eu... Eu estou tão confusa!

Ela se atirou aos pés do homem num choro convulsivo.

— As paredes estão se fechando em volta de mim, toda a vida parece tão sem-sentido, eu acho que não vou durar muito tempo!

Ela chorava como uma donzela de cinema. Sem-jeito, Finger dispensou o guarda e fez com que ela se levantasse e se sentasse numa cadeira.

— Pronto, pronto. O pior já passou. Agora veja, minha filha, você veio até nosso Templo, não veio? Você vai achar algo que lhe dê sentido.
— Eu não sei... ‘Tá tão difícil de acreditar nas pessoas hoje em dia! D=
— Não pense assim! Confie no Deus! Você não precisa de mais ninguém se estiver com Ele...
— Mas... eu... — Amália soluçava, mantendo a interpretação — ... não... tenho... a ferramenta p-pra isso...
— Como assim?
— O senhor sabe... O senhor disse lá em cima que tinha o Controle...
— Mas, minha jovem... — incerto, Finger pigarreou e arrumou o cabelo atrás da orelha para ganhar tempo — Isso é algo que nem eu ainda consegui entender completamente.

Amália fez beicinho.

— Mas o senhor prometeu que compartilharia com o mundo! =( Por que não comigo?
— É mais complicado do que parece, querida. Escute: eu estava falando com um amigo meu, um sócio muito generoso, que me deu uma ideia extraordinária que pode lhe fazer se sentir melhor. Você por acaso gostaria de participar da Juventude Fingerista?
— Juven...?
— Você teria a honra de ser uma das primeiras a se inscrever...

Uma lembrança veio de assalto à mente de Amália, que afastou o homem com um empurrão e saiu correndo da sala. Confuso, Finger olhou para baixo e viu que ela deixara algo cair: um documento de identidade. O professor o juntou do chão e observou-o por alguns instantes. A foto não lhe disse nada a princípio, mas o nome e o sobrenome o fizeram cair para trás.

— Armando! Armando! — ele saiu chamando o segurança que há pouco estivera em sua sala — SOCORRO! GUARDAS!

Três deles, além do tal Armando, vieram correndo.

— A menina que veio aqui! — mostrou-lhes o RG — Não a deixem escapar! Ela saiu pelos fundos!

.........Amália acelerou a corrida até sentir uma ardência abaixo das costelas. Aos tropeços atravessou a porta da maçaneta de ferro, atrás da qual, conforme ela pedira, os garotos a esperavam.

— Wow, wow, wow! — Pedro teve de colidir com ela para que diminuísse o passo — Calma aí, Amália. O que aconteceu?
— VAMOS... EMBORA... — a garota ofegava tentando falar — O FINGER... ME DESCOBRIU... JUVENTUDE... FINGER... Ah, vamo, porra!

Ela correu na direção de um ponto de táxis, e os três a seguiram na mesma velocidade. Naquele instante a porta se escancarou de novo, e os quatro guardas do Templo saíram à toda pelo mesmo caminho.

— Ela tá acompanhada! — gritou um deles.
— Não interessa. Não deixem escapar! — gritou Armando.

Amália tropeçou a centímetros do táxi e caiu por cima do capô, quase matando o motorista de susto.

— Desculpa! D= — pediu Pedro ajudando a namorada a se levantar. As duplas se apertaram como podiam dentro do carro, e o garoto disse o destino: — Botafogo com a Érico.

O táxi partiu um microssegundo antes de os seguranças alcançarem o ponto. Cansados e frustrados, só puderam assistir enquanto o carro da fuga desaparecia no meio do tráfego noturno.

.........A porta foi aberta com tanta força que Pinguin deu um pulo no sofá. Seus amigos voltavam mais cedo do que ele esperava — e muito mais tensos também.

— Eu pensei que eu ia morrer! D=
— Calma, Amália!
— Mas Pedro, eles podiam ter nos pegado e... sei lá!

Pinguin lançou a Gustavo um olhar de “Hã?”, ao que ele respondeu encolhendo os ombros.

— Vocês me explicam direito o que aconteceu, por gentileza? — pediu Galarza com certa impaciência.
— Eu não sei, a Amália ainda não me disse! u.u — disse Pedro alterado.
— Assim, eu fui até o escritório dele e o ouvi conversando com um cara pelo viva-voz. Mas o cara falava em inglês, então eu não entendi porra nenhuma...
— Como era a voz dele? Rouca, aguda, jovem, velha?
— Era normal, eu acho... Parecia jovem, e ele tinha um sotaque meio francês.

Galarza fez um facepalm e disse:

— Dupont.

Pedro assentiu e continuou falando com Amália:

— E depois?
— Um segurança me viu e me confrontou com o Finger. Eu fiz uma encenação lá, fingi que tava chorando, disse a primeira coisa que me passou pela cabeça.
— O que você falou pra ele?
— Eu comentei o Controle da Vida, e ele ficou muito nervoso, desconversou e começou a me falar sobre uma Juventude Fingerista. Foi aí que eu saí correndo.

Galarza esmurrou uma mesa.

— Eu sabia! — exclamou — O Dupont vai usar a religião para recrutar jovens, como pretendíamos fazer nos velhos tempos.
— Como assim? — indagou Gabriel.
— O Negão tinha bolado um plano junto com os representantes internacionais da Doom Finger para atrair jovens à nossa causa. Na época, ninguém sabia muito bem como fazer isso, mas agora o Dupont arrumou um jeito de tentar. Também é por isso que eu tenho que morrer: o Negão me escolheu como líder da Juventude no Brasil.
— Então, a organização está saindo do anonimato pra fazer a cabeça do grande público — disse Pedro em voz baixa e preocupada — É mais perigoso do que pensávamos.
— Também não vai dar mais pra eu ficar aqui — disse Galarza raciocinando depressa — Quanto antes eu sumir do mapa, melhor pra vocês.
— Você não precisa...
— OH, FUUUCK!

Eles olharam confusos para Amália, que botou as mãos na cabeça e disse com horror:

— Esqueci meu RG no Templo!

Todos fizeram facepalm.

— Ele vai saber onde eu moro e vai me matar! Vai matar todo mundo!

Ela se recolheu em posição fetal no sofá. Pinguin se esquivou com medo. Galarza fungou de cansaço.

— Isso só piora as coisas.
— Não tem outro jeito, então — falou Pedro — Eu, você, a Amália e o Gustavo precisamos desaparecer. Mas não pode ser em Porto Alegre. E não podemos deixar a Aiko sozinha. A propósito, onde ela está? — perguntou a Gabriel.
— No quarto da Amália desenhando.
— Bom. Você ou outra pessoa terá que levá-la pra minha casa. Neste apartamento ninguém fica, porque não é seguro. Entendeu?
— Mas pra onde vocês vão? Não podem simplesmente se atirar em qualquer lugar.

*DING, DONG*

Todos olharam assombrados para a porta, até mesmo Amália, que disse:

— Cara... essa campainha só pode ser mágica!

Gustavo espiou quem era e disse:

— É o Bruno.

Fulgêncio entrou com a alegria e o uniforme de sempre.

— GUSTAVOOO! E aí, pessoal, beleza?
— O que você veio fazer aqui dessa vez, Bruno? o-o — indagou Pedro.
— Sei lá, eu tava em casa sem fazer nada, liguei pro Pepito, mas ele tá com um trabalho do colégio pra fazer e... Sei lá, como eu não tinha o número daqui, resolvi vir. Vai que vocês precisavam de algo. ^^
— Éé... tipo, a gente tava atrás de um bom lugar para se esconder — falou Galarza em tom amigável, apoiando o cotovelo no ombro dele.
— Vocês vão se esconder? Não tentaram te matar de novo, tentaram? D=
— Não exatamente...

Galarza explicou muito sucintamente a Bruno por que ele estava sendo perseguido e como Amália, Gustavo a Pedro haviam se envolvido, excluindo qualquer menção a Google, videogames, Bob e similares. Fulgêncio o compreendeu com facilidade e disse prontamente:

— Então, vocês vêm pra Bagé comigo! *.*

Amália fez “Oi?”.

— Minha cidade natal. Duvido que eles suspeitem da minha ligação com vocês. Esse é o melhor lugar, sério. Se vocês estão pilhados, eu estou.

O quarteto pensou um pouco a respeito — que outra opção eles teriam?

— Okay, Bruno, nós vamos com você — disse Pedro finalmente.
— YUPEEEEEE.
— Ahh, eu queria ir pra Bagé. =D
— Você vai ficar na MINHA casa com a Aiko, sr. Pinguin.
— Tá, sorry. =[
— Eu vou te dar as chaves e o dinheiro pro táxi. Todo mundo arrumando as malas! O resto vem comigo e com o Bruno.

.........Levaram ao todo dez minutos para se aprontar. Ao final disso, o táxi que eles pediram por telefone veio e parou na frente do condomínio. Apenas Aiko e Pinguin, por segurança, entraram nele depois de uma longa e dramática despedida feita por Amália.

— Jamais esqueça a mamãe! *.* — dizia ela, com lágrimas nos olhos, abraçando a criança.
— Amália, vâmo nessa — sussurrou Pedro entre dentes — O taxímetro tá correndo, e você tá sendo melosa demais. Ninguém tá indo pra guerra.

Mas ela não ligou. Só terminou quando terminou.

Depois que o táxi partiu levando os dois amigos, os cinco que restaram seguiram a pé pelo caminho oposto, com o Cabo Fulgêncio na liderança. Iam pegar um ônibus para a rodoviária, e de lá... Bagé. ;)

Do nada, quando dobravam uma esquina, uma sombra pequena trazendo algo nas costas saltou de um arbusto e prostou-se na frente deles. Todo mundo gritou, exceto Bruno, que abaixou-se com curiosidade.

— Ora, o que você tá fazendo aqui?

Era Gustavinho. Ele trazia sua mochila. Com o pijama dentro.

— Eu sabia que vocês iam me excluir de novo! — disse em tom acusatório, apontando para os quatro atrás de Bruno — Mas por quê? Não faz sentido festa numa segunda-feira!
— Jumento, alguém aqui te parece no clima de ir a uma festa? — praguejou Galarza.
— Não temos tempo, pessoal — alertou-lhes Pedro de olho no relógio — Podemos perder o ônibus se continuarmos aqui discutindo.
— Okay, então... — Gustavo deixou o grupo um instante e foi falar com Toshiro — Escute, Gustavinho: nós estamos com um problema de vida ou morte. Se levássemos você junto, você provavelmente morreria também. Você ficaria feliz com isso? Imagino que não. ^^ Então, deixa a gente passar.

Ele não deixou.

— Eu vou me lembrar disso, Grilo!

Uma van preta parou no sinal vermelho, à esquerda de onde eles estavam. Abriu a porta lateral.

Agora as cinco vozes se misturavam na mesma gritaria. Com exceção da de Bruno, que tomara a precaução de vigiar as redondezas e agora gritava olhando para o semáforo:

— CORRAM! CORRAM PRA DENTRO JÁ!

Dois encapuzados com metralhadoras começaram a abrir fogo de dentro da van preta. Os jovens se abaixaram e foram puxando uns aos outros para o interior de um barzinho atrás deles. Os clientes e o dono também tiveram de se jogar no chão enquanto as balas peneiravam o balcão, as paredes, os vidros...

Pedro rastejou para perto de uma mesa de sinuca, virou-a de lado com os pés e se abrigou atrás dela. Gustavo e Galarza juntaram-se a ele na barricada improvisada.

— Aqui, Amália! Bruno! — chamou Pedro.

Os dois amigos vieram se arrastando para perto deles e se protegeram também.

— Cadê o Toshiro? — berrou Grilo.
— Eu não sei!

Ele estava atrás do balcão com os olhos cobertos, incapaz de se mover. Galarza sacou a pistola e gritou o seu nome até que ele abrisse os olhos.

— GUSTAVINHO! EU VOU TE DAR COBERTURA!

O SPY esticou a arma para cima da borda da mesa.

*BLAM! BLAM! BLAM!*

Os homens na van pararam momentaneamente de disparar. Foi a deixa para Gustavinho sair de perto do balcão e se abrigar junto aos outros. Um segundo depois, o chumbo comeu de novo.

— Meu Deus, Galarza, onde você arrumou...?
— Cala a boca agora — disse o SPY tirando outra pistola da cintura — Bruno, pega essa. Nós vamos dar tempo aos outros. No 3: 1... 2...

Os dois se levantaram atirando. Imediatamente os outros foram saindo pelos fundos: primeiro Amália, depois Gustavo, depois Gustavinho, por fim Pedro.

Galarza sentiu o gatilho fazer “CLICK”. Sem munição.

— Se esconde! — gritou para Bruno, tomando cobertura atrás de uma estante de bebidas.

O Cabo foi para trás do balcão e continuou disparando enquanto o outro recarregava.

*BLAM! BLAM!*

— A minha acabou, Rafael!
— Espera!

Um dos homens com a metralhadora pegou uma granada e arrancou o pino com a boca. Preparou o arremesso.

Quase em câmera lenta, Galarza viu a granada girando em pleno ar, perto de tocar o chão. Atirou um pente cheio nas mãos de Bruno, que recarregou, e os dois ergueram as armas ao mesmo tempo.

.........Amália, Pedro, Grilo e Gustavinho se abaixaram de novo quando ouviram a explosão. Ouviram gritos distantes e alarmes de carros.

Amália levantou-se com terror nos olhos e fez menção de correr para o foco das chamas, mas Pedro a puxou de volta pela cintura.

— Não, Amália! D=

De repente vieram Bruno e Galarza pela porta dos fundos, os dois bastante chamuscados, mas felizes.

— Nóis é foooda! — exclamou Fulgêncio.
— O que aconteceu?
— A gente pegou eles, Predo! =D
— Alguém no bar morreu?
— Sei lá. o.o

Galarza veio e disse:

— O meu RG diz “Rafael Galarza”, não “Jesus”.

Uma caminhonete preta de quatro portas parada na mesma rua acendeu seus farois, como um ser inanimado que de repente ganhasse vida, e acelerou para cima da calçada, exatamente onde eles estavam.

*VOOOOOSH*

Eles correram todos juntos no último momento. O carro acertou o muro.

— ‘Tá brincando comigo u.u — reclamou Amália.

Pedro puxou-a pelo braço e gritou para todo mundo:

— Vamos, rápido!

Os seis dobraram a rua e entraram na avenida, onde um School Bus da Cultural vinha vindo em baixa velocidade, cheio de crianças dentro. Bruno foi para o meio da pista, abriu os braços e gritou:

— PAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAARA!

O ônibus parou de súbito, quase encostando o parachoque no peito dele. Feliz, Bruno bateu na porta até ela se abrir e entrou no veículo.

— Excusez moi!

Do lado de fora, ignorando os gritos e as buzinadas dos outros carros, Pedro, Amália e cia. esperavam por ele. Gustavinho cutucou Grilo e perguntou:

— O que ele tá fazendo???
— Falando francês com um monte de estudantes de inglês.

Finalmente a porta de trás se abriu, e dezenas de crianças de uniforme desceram aos gritos para a avenida, seguidas por último pelo motorista. Bruno enfiou a cabeça para fora da janela e gritou a plenos pulmões — “ENTREM!” —, ao que os outros obedeceram sem titubear.

Sendo o último a subir, Pedro lacrou a porta traseira e foi até Bruno para ralhar com ele:

— Estamos roubando um ônibus escolar!
— Réplica de ônibus — corrigiu Bruno sorridente — Agora... onde é o freio? o.O

Ricochetes de tiros atingiram a frente do ônibus sem, no entanto, danificá-la. Aparentemente, a lataria era blindada. Bruno esticou a cabeça acima do volante e enxergou a caminhonete que quase os atropelara parada no meio da avenida com as portas abertas. Na frente dela, quatro homens de capuz e coletes à prova de balas atiravam contra eles com fuzis e metralhadoras.

Bruno não se preocupou.

— Ora, ora ^^
— VAMOS FICAR PARADOS AQUI?? — protestou Gustavinho com medo na voz — ATÉ ELES NOS MATAREM?
— Não, só até eu descobrir como faz pra essa coisa andar — disse Bruno tranquilamente — Além do mais, o ônibus é blindado.
— Por que alguém faria um School Bus blindado?
— Ué, as crianças ricas da América são o futuro do mundo...
— ANDA LOGO COM ESSA PORRAA! — berrou Pedro.

Bruno engatou a terceira e pisou com tudo no acelerador. O ônibus saiu do lugar com o ruído angustiante de pneus riscando o asfalto. Os atiradores saltaram para fora do seu caminho quando ele passou, colidindo em cheio com a caminhonete.

*KABRUM!*

O veículo menor voou pelos ares com o impacto. Os encapuzados ainda dispararam a esmo enquanto o ônibus seguia rua acima, mas as balas apenas ricochetearam na traseira blindada.

CONTINUA...

2 comentários:

Anônimo disse...

Hummm
Interessante gostei mesmo!

Jorge disse...

Ahh eu adorei ate te add no msn
mas vc enm fala cmigo!