domingo, 31 de julho de 2011

(3ª TEMPORADA) EPISODE 04 - S.V. [Parte II]

Os dois garotos acordaram quase ao mesmo tempo, deitados em colchões de lona com agulhas intravenosas espetadas nos braços. Sentindo-se um pouco zonzos, ergueram metade do corpo e olharam ao redor, descobrindo um ambiente que desconheciam. Estavam numa espécie de câmara circular fortemente iluminada, sem janelas, apenas uma porta cinza sem maçaneta nem puxador. Não fazia nem muito frio nem muito calor. Era apenas — agradável. Olharam um para o outro, reconhecendo-se, e beliscando-se mutuamente a fim de terem certeza de que aquilo não era um sonho. Não era.

Imediatamente, em seguida, eles arrancaram as agulhas dos braços e saíram explorando a pequena câmara à procura de uma saída. A única, pelo jeito, deveria ser a porta cinzenta, mas eles não conseguiam imaginar um jeito que fosse para abrí-la. Depois de examiná-la atentamente, tocá-la com os nós dos dedos, socá-la, chutá-la, dizer nomes feios a ela, Bruno Fulgêncio apenas disse:

— Ah, que porra, ABRE! =(

Ela abriu.

Os dois se olharam achando graça na obviedade e saíram para uma espécie de saguão, também circular, que dava para várias portas da mesma cor da que tinham atravessado. Tal como no ambiente anterior, mais luzes fortes e nada de janelas. Escolheram uma porta aleatoriamente.

— Abra — ordenou Gustavo, que tinha apreciado a praticidade do mecanismo.

A porta deslizou para cima, e eles se viram de frente para uma escada vertical com uma saída em cima e outra embaixo. Resolveram subir para cima (dã), onde acharam um belo aposento na mesma forma que a câmara hospitalar, porém em proporções maiores. Era uma espécie de depósito com todo tipo de tralha humana que eles jamais haviam visto — bom, ver eles já viam, mas não com o mesmo valor — em delicadas redomas de vidro.

Calotas de carro, guarda-chuvas, candelabros, varas de pescar, patins de criança, lixeiras... Mas também coisas um tanto mais impressionantes: uma pilastra intacta do Partenon, um fragmento de meteoro, uma armadura medieval completa brilhando de nova, entre uma infinidade de relíquias, e um recipiente que lhes chamou a atenção mais do que todas as outras bugigangas.

Era uma caixa quadrada feita em metal muito parecido com titânio. Na tampa trazia grafadas as letras “S. V.”, e foi isso que atraiu Bruno e Gustavo, porque as letras emitiam um brilho verde-esmeralda que ao segundo fazia lembrar as letras dos Objetivos que saíam de seu Life Controller. Para o primeiro, era apenas verde. E ele gostava de verde.

Uma porta atrás deles se abriu. Na mesma hora os dois se viraram assustados, mas um gigante azul disse a eles para não se alarmarem.

— Sou apenas eu! Por favor, nada temam.

Aquele eles ainda não conheciam. Era muito parecido com T’dunt^s, ainda que uns centímetros mais baixo.

— Não estamos com medo — disse Gustavo dando um passo à frente para observar a interessante criatura. — Apenas acordamos com fluídos sendo injetados nas nossas veias e nos sentimos um pouquinho perdidos.
— Eu entendo! ^^ Aconteceu comigo quando fui contratado... Pois bem, vocês devem estar querendo falar com o Doutor.
— Você quer dizer T’dunt^s?
— Por acaso existe outro Doutor?
— Não sei, diga você. ‘-‘
— Ora, não vamos deixar as perguntas esperando. Tenho certeza de que vocês têm várias. ^^

O Nâur’nbvangert fez um gesto em direção à porta, pedindo para que o acompanhassem. Os garotos assim fizeram, sendo conduzidos por um saguão similar ao de baixo até um elevador.

— A propósito — acrescentou o gigante enquanto eles subiam dois andares —, eu sou K’lûf. Diplomata de formação E pesquisador do Projeto Terra.
— Projeto Terra? — repetiu Bruno.
— Já, já isso será explicado.

O elevador fez um “PING”, as portas se abriram e eles entraram diretamente numa câmara ampla que devia ser a cabine de pilotagem. Sentados próximos a um painel com muitos botões, Bilaw, Olga e T’dunt^s tomavam chá em xícaras delicadas de porcelana. Quando viram os garotos, soltaram ao mesmo tempo um “Ah” de satisfação, e o enorme anfitrião azul veio recepcioná-los.

— Que bom que acordaram! Eu estava certo quando disse que ia ser desse jeito, não estava? Bem-vindos à minha nave: o Compacto.
— A aparência não condiz muito com o nome quando a gente corre o olho por aqui, sabe? — Gustavo disse a Bruno pelo canto da boca, o que o alienígena escutou e o fez rir.
— Quem dera o estranhamento entre povos diferentes fosse apenas pela escala dos seus aposentos! — exclamou. — Nós não temos veículos desse tipo em nosso planeta, compreendem? O Compacto é uma criação totalmente minha, com a ajuda de meu fiel aluno K’lûf. Ajuda-nos a percorrer o Universo em nossas missões científico-diplomáticas sem consumir energia em demasia. Mas chega de conversa fiada, sentem-se! O professor Bilaw e sua irmã estavam me contando sobre a sua inesperada chegada ao Museu.

Bruno e Gustavo foram convidados a se sentar próximos aos dois humanos e o segundo E.T., que lhes ofereceu chá, o que eles recusaram, tamanha a ansiedade que sentiam.

— Desculpe... Doutor... Mas onde nós estamos agora? — perguntou Bruno.
— Apenas circundando o seu planeta — disse T’dunt^s em tom banal, fazendo um gesto a K’lûf para que apertasse um botão qualquer. Uma fenda se abriu na parede atrás do painel de controle, revelando um vidro através do qual eles puderam ver a imensidão azul da Terra, o que os fez babar. — Pois é, eu também ficava assim nas primeiras vezes em que vinha — falou o cientista, pedindo em seguida para o aprendiz fechar a janela. — Desculpem privá-los da paisagem, mas é que o tempo é curto. O professor Bilaw, aqui, estava me falando de vocês, de como vocês chegaram até ele esta noite. Bilaw...?
— Oh! — Bilaw percebeu que era sua vez de falar, largou a xícara que usava em cima do painel e disse: — O seu amigo Galarza demonstrou uma enorme coragem recusando-se a prestar serviços para aquela Academia medonha. Acredito que, como amigos dele, vocês sejam tão formidáveis quanto Galarza.

Bruno e Gustavo se entreolharam, lembrando as partes sobre o SPY que o professor não conhecia.

— É por aí — murmurou Grilo.
— Então, vou pedir que tenham a mesma fibra para escutar o que tenho a dizer — disse T’dunt^s com sua voz agradável. — Nós pousamos aqui hoje, Bilaw, para dar um recado não muito positivo.
— Sou todo ouvidos.
— Fizemos observações suficientes para acreditar que a sua raça se encontra às vésperas de uma grande e terrível guerra.

O professor e sua irmã inclinaram-se para a frente, absolutamente atentos. Os garotos fizeram o mesmo. O E.T continuou:

— Uma guerra de exterminação como nenhuma outra já vivida por terráqueos. Nós, é claro, reportamos essa informação aos poderes que regem nosso povo. Acontece que, pelo que manda uma lei de cooperação galáctica, uma espécie inteligente como a dos Nâur’nbvangerts não possui o direito de interferir em conflitos internos de uma espécie tão... — ele pareceu hesitar antes de escolher o termo — primitiva.
— O que quer dizer? — indagou Bilaw com uma sobrancelha erguida.
— Nós não podemos fazer nada para evitar. Sabe, isso seria uma forma de impedir que planetas mais fortes e avançados penetrem as defesas de povos menos avançados a serviço de interesses mesquinhos. Vocês costumam ver isso acontecer entre suas nações.
— Mas... mas... Isso quer dizer que, se uma luta em escala global começar, se nós destruirmos uns aos outros sem controle — disse Olga com a voz trêmula —, não há nada que vocês possam fazer? Terão apenas que... assistir?
— Na verdade, a ordem imediata foi para que nos retirássemos. “Abortem o Projeto Terra” foi o que nos disseram. Meu assistente e eu viemos aqui hoje com a incumbência de apagar suas memórias, de você e do seu irmão, e de recolher todas as informações que comprometam a existência dos Nâur’nbvangerts.

O professor e sua irmã pareceram entrar em choque por um momento, apertando os braços das suas cadeiras com força e recuando o mais que podiam contra os encostos, mas T’dunt^s acrescentou:

— Tivemos uma conversa séria no caminho, K’lûf e eu, e decidimos não obedecer. Não vamos fazer isso com vocês. Queremos permanecer o máximo que pudermos perto da Terra, atentos como sempre, e... se as circunstâncias exigirem uma intervenção direta, que assim seja.

Por um momento ninguém falou. De repente, os olhos de Oskar Bilaw marejaram e ele se precipitou da cadeira para cima do gigante azul — Gustavo pensou que ele fosse agredí-lo, mas o professor o abraçou com tanta força que pareceu que o alienígena ia sufocar.

— Muito bem... Bilaw... Já chega... ^^

Bilaw o largou, as lágrimas lavando seu rosto.

— É tão... tão nobre da sua parte, tão... não-humano! Saber que uma raça tão... formidável como a sua é capaz de voltar seus olhos para seres tão... tão pequenos como nós... Diga-me, T’dunt^s, o que podemos fazer? Qualquer coisa, qualquer coisa que estiver ao meu alcance para salvar meu planeta dessa violência, eu farei!

O Nâur’nbvangert pigarreou, recuperando sua postura séria e polida, e disse:

— Vamos começar com uma re-organização. Com essa determinação da Ordem Galáctica, nossos encontros se tornarão cada vez menos frequentes. Eu queria poder lhe fornecer a data do próximo, mas eu simplesmente não tenho certeza. No entanto, K’lûf lhe dará instruções para levar adiante os estudos que vínhamos realizando enquanto eu estiver ausente. Não se preocupe, Oskar. E você também, Olga. Ainda temos tempo, mas por ora precisamos fingir que estamos obedecendo.

Uma suave nota musical soou de algum lugar.

— Hora de partir. Devolveremos vocês à Terra em um instante. K’lûf, por favor, tenha a gentileza...

Quando K’lûf se aproximou com um aparelho que parecia um laptop para mostrá-lo a Oskar e Olga, Bruno e Gustavo levantaram as mãos, ansiosos. O Nâur’nbvangert concedeu-lhes a palavra:

— Pois não?
— Com licença, senhor... Tio... Naurenbanger... — começou Bruno. — Será que nós, digo, o Gustavo e eu, não podemos... fazer qualquer coisa? Tipo... se precisarem de alguém pra servir café... *o*
— Ora, de maneira alguma! — disse Oskar Bilaw preocupado. — Vocês estão em outra missão. Uma missão de fuga! Não será nada bonito se os malfeitores que querem ver vocês mortos os encontrarem na minha residência. Haverá um outro momento para que ajudem.
— Bilaw está certo — disse o alienígena serenamente, impedindo os garotos de protestarem. — Esse não é o caminho de vocês agora. Acredito... que saberão guardar o segredo?
— Com certeza! =D — disse Bruno emocionado, olhando depois para Gustavo. O Grilo não pareceu muito feliz em se abster da luta, mas reiterou o que o amigo disse: — Eu também, whatever.
— Sendo assim... — disse T’dunt^s correndo os olhos pelos rostos dos humanos. — Boa sorte a todos nós.

...........Em pouco tempo os irmãos Bilaw já tinham todas as informações de que precisavam em um pequeno computador fornecido pelos Nâur’nbvangerts. Em seguida, foi a hora de eles dizerem “Adeus” aos incríveis visitantes, depois que o Compacto trouxe os quatro de volta ao terreno atrás do Museu de Ufologia de Logo Ali. Naquela noite, todos voltaram para a cama e não conversaram mais sobre o que vivenciaram. Ao fecharem os olhos, Bruno e Gustavo sonharam com Avatar.

...........No dia seguinte, o Prof. Bilaw havia abastecido uma velha caminhonete há muito usada para fazer entregas de exemplares de livros, que ele lançava de forma independente, pela cidade de Logo Ali, e o veículo estava pronto para o grupo de Galarza. Foi uma verdadeira Odisseia fazer Amália, Pedro e Gustavinho acordarem, usarem o banheiro e se vestirem a tempo, mas depois que esse desafio passou, todos respiraram aliviados em seus assentos dentro da van.

Bruno, como sempre, iria dirigir. Antes de partirem, Bilaw veio à janela de Galarza, sentado ao lado de Fulgêncio, para entregar-lhe um exemplar do seu livro.

— Aqui. Autografado.

Ele olhou demoradamente para o rapaz como quem fitasse um filho prestes a partir e disse:

— Tomem cuidado, sim? Não precisam de mais dinheiro?
— Não se preocupe, vovô, estamos bem — falou Galarza, que usava óculos escuros, em tom displicente. — Vê se te cuida aí, e... tenta não morrer.

Bilaw se afastou da caminhonete e se juntou à irmã na porta da casa. Os dois acenaram. A caminhonete deu a partida e se foi pela estradinha de chão batido.

Depois de alguns minutos sozinhos na estrada, os adolescentes pensaram que seria bacana ligar o rádio. E ligaram. Junto com um chiado chato, ouviu-se um pedaço do programa matutino de Ichabod Finger, em que ele gritava:

“Salve-nos, ó Dedo! Faça-nos compreender a Sua divina lei. E se não compreendermos... esmague-nos como piolhos!”

Galarza desligou o aparelho enojado. Pedro e Amália já dormiam. Subitamente, a caminhonete passou por cima de algo e eles ouviram os pneus da frente estourando. Bruno freiou assustado, mas era tarde demais. Logo os de trás estouraram, e o veículo escorregou em ziguezague de forma angustiante até parar com uma sacudida perto do acostamento. Todo mundo se segurava em alguma coisa, sem mexer um músculo, sem dizer uma palavra.

Então as árvores lá fora se mexeram, e de trás delas saíram homens armados. Cinco, dez, quinze. Todos com rifles e metralhadoras. Eles rodearam a caminhonete a uma distância segura, e um deles gritou:

— Saiam! Não têm saída dessa vez. A não ser que prefiram morrer aí dentro!

Nenhum dos jovens respondeu ou se mexeu. Era medo demais correndo em suas veias.

— Ninguém... se mexe — sussurrou Bruno.

O homem que gritara perdeu a paciência e fez sinal aos companheiros para que abrissem fogo. Em questão de segundos, a caminhonete foi depenada, e um largo perímetro ao redor dela ficou envolvido na fumaça dos tiros. Dentro dela, ninguém se mexeu. Mas não foi porque a Morte havia tocado aqueles seis adolescentes. Aquele dia, ela resolvera cair sobre outras pessoas.

Quando a fumaça se dissipou, nenhum homem se mexeu em volta da caminhonete. Foi porque os atiradores estavam mortos.

CONTINUA...

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