segunda-feira, 12 de julho de 2010

(2ª TEMPORADA) EPISODE 08 - Trabalho de Detetive

Quando Norma voltou ao escritório, encontrou o lugar em clima de tensão. Ao longo de uma semana em que esteve fora, segundo notícias da chefia, vários outros episódios de “vandalismo revolucionário” haviam tido lugar em Gay Harbor. Compreendiam incêndios, pichações, saques noturnos, caracterizados sempre pelo cartão de visita dos autores: a icônica frase “GOOGLE LIES”, que já se tornara cult entre a minoria anti-google espalhada entre os quatro cantos do mundo e conectada pela Internet. Isso gerou nas autoridades que investigavam o caso uma certa paranoia quanto a qualquer manifestação de cunho aparentemente contra a empresa e seus serviços, e consequentemente diversas pessoas foram presas, interrogadas e logo soltas sem motivo algum.

Nessa verdadeira salada, Norma admirou-se de ver que, enquanto o agente Rodney corria para lá e para cá comparando provas, recebendo denúncias (nem todas verdadeiras) e berrando instruções para os assistentes, o Agente #1 mostrava-se seu extremo oposto: calmo, silencioso e introspectivo em sua sala. Nem sequer fez alguma crítica após ela voltar do Japão para o seu gabinete com as mãos abanando.

— Eu já imaginava que essa pista era falsa — revelou-lhe, e Norma não pôde evitar uma careta de indignação — Queria mesmo era testar você. Recebi um relatório a cada dia — bateu numa pilha de papeis em cima da mesa — sobre o que você estava fazendo e confesso que estou satisfeito com o que li. Você pode não ter chegado a lugar nenhum, mas às vezes o caminho é o que importa.

Depois que ele disse aquilo, a indignação deu lugar ao entendimento. Para Norma, realmente seria uma imprudência empregar um novato em uma missão solitária sem ter extrema certeza de que tinha atingido todas as competências necessárias ao serviço, e ela estava orgulhosa de ter cometido um acerto.

— Bem, neste caso, eu tenho que lhe agradecer... — respondeu — Pela oportunidade e tudo mais.
— Claro, claro. — disse o chefe de pé, com as costas viradas para ela, guardando os papeis num armário de arquivo — Agora, se quer saber minha opinião sobre o caso, ainda acho que os garotos estão em Gay Harbor.
— Tem ideia do lugar específico?
— Obviamente, não. Mas tenho um leve palpite sobre o que estão fazendo.
— Que seria...?

O Agente #1 serviu-se de uma xícara de café e tornou a se sentar.

— A mais letal arma secreta do GOOGLE dos últimos tempos “escapuliu” das suas mãos e foi parar no corpo de um adolescente de 15 anos. A julgar pela última vez que o vimos, esse garoto não tem a menor sombra de ideia do perigo que é ter Bob operando em seu inconsciente.

*glub, glub* Ele fez uma pausa pra dar um gole.

— Então, se ainda não detectamos um sinal da devastação de Bob (felizmente), quer dizer que Pedro ainda não assumiu o controle sobre ele, nem vice-versa. As duas coisas poderiam ocorrer, mas sou mais a favor da primeira hipótese, já que o dr. Sebastian projetou a coisa para ser comandada por uma mente humana.
— Se for assim, o que o Pedro pode estar fazendo? — perguntou Norma.
— Reintegrando-se. — respondeu o Agente #1 simplesmente — Achando seu lugar no mundo e tentando ficar forte. — de repente ele parou, analisando a própria frase — Estranho, não? É exatamente o que adolescentes fazem e o que Matt Liebert, João Pedro et al estão fazendo também.
— Como assim?
— Ao contrário do que o Rodney pensa, eu faço meu dever de casa.

O agente depositou a xícara no porta-copos, abriu algumas janelas no computador e girou o monitor para a frente de Norma.

— Veja este gráfico. — começou a orientá-la, indicando os objetos na tela com a ponta da caneta — É uma relação do número de eventos estranhos ocorridos em Gay Harbor com o número de dias transcorridos desde que eles fugiram. Você acabou de fazer aquela cara, e eu sei que está pensando que isso tem a ver com os episódios de vandalismo, mas não, não estou falando de eventos lógicos e sequenciais, e sim de coisas... random. Até conheço o Jogo, as Quests funcionam de forma muito random e geralmente chamam muita atenção. Pela minha teoria, se ainda não tivemos outra manada de elefantes nem outro cataclisma natural devastando a cidade, quer dizer que os Players não estão jogando. Eu diria que estão treinando.

Norma torceu o lábio, desconfiada. Era difícil acreditar no raciocínio dele.

— Que certeza podemos ter disso? — questionou — Só conhece o Jogo aquele que joga.

“Nikolai” ergueu as sobrancelhas, surpreso, e perguntou:

— Mas quem disse que nós não jogamos, minha cara Norma?

De repente ele “mergulhou” para debaixo da escrivaninha e retirou um velho livro surrado — era o exemplar do Instruction Book encontrado na casa de Liebert.

— Venho dedicando parte dos meus dias a devorar essa obra, e como é boa! Aqui... — folheou o volume até uma certa página e mostrou-o para ela — Já foi escrito há muito tempo e fala sobre o que seria a vida do homem em um futuro distante: um jogo em escala real. É como se o homem que o escreveu fosse o profeta do RPG que Matt Liebert joga. A parte que mais me surpreendeu foi esta, onde ele fala dos tipos de “personagens”. De maneira geral, todo ser humano é um Character, mas suas ações no Jogo são determinadas pelo quanto conhece sobre sua função. Nós seríamos o que ele chama de Non-Playable Characters, ou Personagens Não-Jogáveis. Vivemos, pensamos e agimos, mas não da mesma forma que os Players. Podemos interagir com eles, porém dentro das situações impostas pelo Jogo.
— Você está dizendo que, por mais que tentemos, se o Jogo “não quiser” que os capturemos, isso não vai acontecer? — Norma pareceu chocada.
— Não é bem por aí. Você sabe como são RPG’s... Ou não? Bem, num RPG o final independe de um planejamento prévio. Literalmente tudo pode acontecer. Mas, se você ainda pensa que estamos perdidos, dê uma olhada neste parágrafo: “A troca de tipos, ou classes, é possível do nível mais fraco para o mais forte; nunca inversamente. Dependendo do conjunto de fenômenos e das probabilidades para esses fenômenos, mesmo um NPC pode chegar a Player”.

Norma emitiu um “Ah!” de espanto, e o Agente #1 disse “Sim, eu sei” e deu uma olhada na foto da contracapa. De repente foi ele quem disse “Ahh!”, e ficou vidrado na imagem, com a mão que segurava o livro tremendo.

— O que foi?
— Essa... essa casa...

Havia no livro a foto de uma imensa casa branca numa região elevada e cercada por vegetação, que lhe era, desde muito tempo, bastante familiar. Agitado, o Agente #1 vasculhou dentro da gaveta até achar um recorte de jornal com uma fotografia idêntica, apenas mais atual, em que se lia “Homem é assassinado na porta de casa”. Norma olhou para o livro, olhou para o recorte e fez “Hã?”. O homem explicou do que se tratava com a voz carregada de agitação:

— Dias atrás eu comprei este jornal porque a notícia me chamou a atenção. Eu cresci no bairro em que esse crime ocorreu e sempre ouvi falar daquela casa como um lugar estranho e proibido, cercado de mitos. Só nunca fui imaginar que este homem... o autor do manual... estava na cidade o tempo todo, debaixo do meu nariz, e o pior de tudo, que eu cresci com a imagem dele me sendo contada pelos meus pais. Agora...

Ele ficou de pé.

— Nós vamos fazer uma pequena viagem, Norma.
— O quê? Para onde? o-o
— Para o passado desse homem.
— Que relevância isso tem?
— Relevância?? O autor do Instruction Book foi morto, e ninguém sabe quem fez!! Como isso não teria relevância para o caso que estamos investigando??... Vamos, pegue o seu casaco. É hora de trabalhar.

==============>OPENING CREDITS<================

.........LITTLE WATERFALL. SEDE DA ORGANIZAÇÃO DOOM FINGER. 8h30.

Pedro conectou o plug do aparelho na tomada, pôs o CD e deu “play”. Conforme os primeiros acordes de Gonna Fly Now ecoaram pelo ginásio vazio, seu coração foi se preenchendo de uma forte sensação de poder. Ele respirou fundo, alongou a coluna e começou a correr em volta do tatame, empenhado em atingir um ritmo que abafasse até o som dos próprios passos. Depois de alguns minutos assim, diminuiu a velocidade e esperou sua frequência cardíaca normalizar-se. Em seguida, foi à barra de ferro suspensa no teto e fez várias flexões — devagar inicialmente, até ir pegando o jeito do exercício e atingir a velocidade 5 (-q). Depois pôs um par de luvas, foi para o saco de areia e conseguiu um 50 HIT COMBO.

— HAAAAAAAAAAAAA!

+ 100 AGILIDADE!
+ 100 FORÇA!


Pedro parou bem no momento em que a música de Bill Conti chegara ao fim. Respirou profundamente — seu coração batia mais rápido que um percussionista marcial —, virou-se na direção do aparelho para retirar o CD e viu Amália, de pé, encostada na porta. Seu pé fez *PAUSE* em pleno ar, sem completar o passo, e eles ficaram se encarando.

— Ah, oi.
— Oi.
— Já se levantou?
— Se eu não tivesse me levantado, não estaria aqui, né Pedro. u.u
— É verdade...

Ela entrou no tatame e passou por ele para apanhar um rolo de corda jogado no chão perto de uma bola de borracha.

— Não é meio cedo pra treinar? — a garota perguntou.
— Sei lá. — Pedro sacudiu os ombros — A gente já usa o tatame juntos todos os dias, mas eu sinto que me concentro melhor nas vezes em que tô sozinho.
— Tá, eu vou sair, então. ‘-‘
— Não, não. >.<

Houve um silêncio meio “de msn”. Ela olhava pra ele, que olhava de volta. Surgiu um balãozinho branco no alto, no qual se lia:

PEDRO ESTÁ PENSANDO NUMA MENSAGEM...

De repente o balãozinho sumiu. Ela ficou se distraindo com a corda; enrolou metade dela no próprio braço, girou-a feito um chicote e acertou a bola, que voou longe e entrou na rede de futebol.

+ 1 AGILIDADE!

Amália desenrolou a corda do braço e jogou-a para o lado. Olhou para Pedro e disse:

— Você tá indo bem, Peter. Continua assim.

Ela foi embora. Enquanto ele a olhava sair, outro balão branco brotou do nada perto de Pedro. Dentro dele estava uma carinha feliz: :)

...........Matt acordou muito bruscamente, num daqueles impulsos inconscientes de se sentar na cama, piscou os olhos e sacudiu a cabeça. Lembrou-se de quem era, de onde estava e das coisas que tinha de fazer. Soltou um gemido e deitou-se de novo, mas não fechou os olhos. No mesmo quarto estavam Pepito e Pinguin, estes ainda dormindo; os outros já tinham começado o dia, provavelmente.

De repente entrou Gustavo dizendo:

— Bom dia.
— Que horas são?
— Quase nove, Matt.
— O que você tá fazendo?
— Acordando você e os outros.

Ele subiu na cama de Pepito e começou a chutar os pés dele, que se revirou incomodado e continuou dormindo. Gustavo deu um big salto sobre sua barriga, e aí ele se levantou com um “AHHHHHHHH”, arremessando o amigo para fora do colchão.

— PORRA, QUE MERDA É ESSA??

Gustavo se pôs de pé com a mesma calma de sempre, sacudiu o cabelo e disse:

— Bom dia, Pepito. Agora eu só tenho que fazer a mesma coisa com o Pinguin.
Nem a pau!

Pinguin saltou da cama totalmente disposto e calçou os chinelos.

— Eu já tinha me acordado há horas e tava só esperando pela primeira gracinha do dia.

Ele disse aquilo em relação a todos os presentes, como quem avisasse “Estou de olho”. Matt e Pepito bocejaram ao mesmo tempo.

— Vão se levantando. — falou Gustavo indo até a porta — O Galarza tá super irritado porque a Amália e eu fizemos montinho nele e quer vir descontar em vocês.
— O Negão está aqui hoje? — perguntou Matt.
— Acho que não. Deve ter passado a noite em casa. Mas parece que ele vai voltar com algumas instruções mega-importantes. Bom, eu vou tomar café...
— Deixa que eu faço o café hoje! — ofereceu-se Pinguin indo atrás dele.
— Eu também quero. — Pepito levantou o dedo.
— [2]. — Matt.
— [3]. — Gustavo.
— Beleza, então são quatro cafés. — contabilizou Pinguin. — Será que a Amália quer?
— Acho que sim. — Gustavo.
— Não esquece o Bob! xD

Houve um silêncio tenso. Todo mundo olhou para Pepito com cara de sério. Ele, que estava rindo da própria piada, percebeu o que acabara de dizer e ficou tenso também.

— Err... Foi mal, gente.

Os outros resmungaram “Tudo bem”, “Nem esquenta”, etc.

— Eu sei que essa piada é tensa, mas eu vivo esquecendo. >.< — justificou-se Pepito embaraçado.
— Tudo bem, eu mesmo esqueço às vezes. — disse Matt — Parece mais uma questão... em aberto, não é mesmo? — ele olhou furtivamente para Pepito e Gustavo, que entenderam.
— É, mais uma questão. Bom, Pinguin... — Gustavo pôs a mão no ombro dele — Cinco cafés. Não, seis; faz pro Pedro também. Com canela.
— Tá, tá. Excluam-me. u.u — falou Gabriel, e saiu xingando baixinho.

Matt desceu da cama, foi até o armário de roupas, onde pusera sua mochila, e retirou a Pen-drive, que ergueu bem alto para os amigos verem.

— Para quem já se esqueceu — falou —, eu estou lembrando. Precisamos cumprir essa Quest logo!
— Como você espera que a gente faça isso sem o Negão saber? — indagou Gustavo.
— O que nos manteve vivos até agora foi nossa capacidade de trabalho em equipe. Sabe o que isso quer dizer?
— Que eu tirei -1 em Companheirismo por expulsar o Pinguin do quarto? ‘-‘
— Não. ¬¬ Quer dizer que os outros têm de ficar sabendo também, antes que o lance da Doom Finger faça a cabeça deles.
— Olha, eu posso não concordar com o vandalismo e coisa e tal — disse Pepito —, mas eu acho que a intenção do Negão tá valendo. Tipo, ninguém faz nada além de nós! É bom ter uma juventude se unindo.
— Também houve uma Juventude Nazista, Pepito. — replicou Matt com seu fervor intelectual — As pessoas que nós conhecemos naquela reunião, que se dizem revolucionárias e tudo mais, de alguma forma estão se alienando. O Negão, então, é capaz de qualquer coisa pra atingir seu objetivo. Não duvido que ele comece a matar gente inocente em breve.
— Não é pra tanto, Matt...
— Por que ele tem todas aquelas armas, então?
— Ele não nos defendeu do BOPE?
— O que garante que ele não vai usar aquilo contra pessoas que não têm nada a ver? Ou pior, nos fazer usar?
— James Brown.

De repente Gustavo (re)entrou no diálogo:

— Eu vou dizer o que eu acho... Eu acho que a gente tem que ir pra cozinha comer croissant, antes que esfrie.

Matt e Pepito olharam para ele, depois um para o outro e disseram:

— Anyway.

E os três foram para a cozinha. Poucos segundos depois, Galarza entrou com uma buzina em spray, dessas de carnaval, rindo diabolicamente. Aí, porém, deu de cara com as camas vazias e parou de sorrir.

— DOW!

...........Depois do café-da-manhã, no qual Pedro veio descansar da sua horinha extra no ginásio, o grupo inteiro (ele, Matt, Pepito, Amália, Gustavo e Pinguin) foi conduzido por Galarza a mais uma sessão de treinamento. A pedido dele, os seis somente se alongaram e ficaram esperando. Dez minutos mais tarde, o Negão de Tapa-Olho cruzou a porta acompanhado pela esposa, Lydia.

— Bom dia, MUTHAFUCKERS! — berrou o chefe.
— Bom dia. — responderam todos em uníssono.
— É muito bom ver todos enfileiradinhos, bonitinhos e disciplinados. Nem parecem os noobs que vieram pra cá dias atrás. Bom, Lydia e eu temos um recado para lhes passar. Acho que Galarza já deve ter avisado que isso era importante.

Fizeram que “sim” com as cabeças.

— Neste domingo ocorrerá a 1ª Feira Tecnológica da GOOGLE Brasil em um importante hotel de Gay Harbor. Virão inúmeras personalidades que representam a empresa mundo afora, inclusive o presidente regional, o small fish. Esse cara reporta tudo que acontece ao big fish, o Big Boss, o presidente do GOOGLE, que também funciona como líder da Liga de Dominação Mundial. Infelizmente ele não estará aqui em pessoa, mas vai assistir tudo em vídeoconferência. Além disso, as imprensas de vários cantos do planeta vão cobrir o evento. Tudo isso nos dá a chance perfeita para fazer o movimento ser devidamente reconhecido lá fora. Entendem, eles precisam ver que nós não somos um bando de arruaceiros chinelões. Nós temos uma causa... E é por isso que vamos explodir o andar da Feira.

*CHAN-CHAAAAAN*

— Explodir? o-o Mas e as pessoas? — indagou Matt horrorizado.
— Eu não vou fazer isso com as pessoas lá dentro, MUTHAFUCKA. u.u — protestou o Negão sacudindo a cabeça. — Vamos apenas... “reformar” o lugar para eles.
— Como isso será feito? — perguntou Pepito.
— Tem de ser à noite (antes da Feira começar, é claro). Há um prédio de estacionamento cujo último andar é paralelo ao andar em que ocorrerá o evento. Nós iremos subir até lá com um lança-foguetes, e KABUM! Claro que certas precauções precisam ser tomadas: o fluxo de carros na região é muito intenso, mesmo no domingo, então nos dividiremos em duas equipes. Uma vai ficar lá embaixo, rendendo os seguranças e bloqueando a entrada, enquanto a outra sobe e executa o serviço. Usaremos dois veículos, sendo que um deles eu mesmo irei dirigir, portanto quem mais souber dirigir vai comandar o segundo grupo.
— Eu sei dirigir. — disse Amália.
— Corrigindo: o Galarza também sabe dirigir, então ele vai cuidar do grupo 2.
— Ei! ¬¬
— Alguma pergunta?

Gustavo ergueu a mão.

— Pois não?
— Onde você comprou o tapa-olho?
— What the...?
— Sério, eu queria fazer cosplay — AI! *pedala da Amália*
— Vamos encerrar por aqui, garotos.

Com um último olhar fulminante em direção a Gustavo, o Negão deu meia-volta e sua esposa o seguiu porta afora. Galarza pigarreou e disse:

— Muito bem, ex-noobs, de volta ao trabalho!!

...........O homem de tapa-olho fechou a porta do escritório, virou-se e deparou com o olhar inquisidor da própria esposa.

— O quê? — indagou enquanto a encarava de volta — Qual o problema?
— Você não disse a verdade a eles. — respondeu Lydia em tom reprovador.
— Bobagem. É só questão de tempo até eles perceberem o que esse trabalho significa. — argumentou o Negão de Tapa-Olho dando passos pela sala despreocupado — Ou você pensa que eu achava que todos sobreviveriam? São como crianças, Lydia. Alguém tem de ensiná-los como ser adultos. Quanto mais cedo aprenderem o MEU jeito, melhor para a Organização. Quantos deles são capazes, só o tempo dirá.

Ele abriu a caixinha de cubanos importados e acendeu um charuto.

— Galarza é leal a você. Por que não diz a ele que pessoas vão morrer no ataque à Feira? — insistiu a esposa.
— Ele já sabe tratar o inimigo a sangue-frio. Não creio que precise ser informado. Lembra-me muito o filho do Dupont. Sabe, o francês?
— Sim.
— Apenas confiarei nesses jovens quando já souberem puxar o gatilho sem hesitar. E eu quero que o primeiro a fazer isso seja Matt Liebert.

Lydia revelou surpresa no rosto.

— Ora, Liebert? Por quê?
— Ele não concorda com o que estamos fazendo. Posso ver em seus olhos. Porém, os outros confiam nele, e seria estúpido demais tentar quebrar essa unidade. Pelo contrário, serei mais esperto se fizer os outros o verem tomar uma ação determinada por mim. Por causa disso... o tiro certeiro precisa ser dele.

..........Norma estacionou o carro a meio caminho de terminar a subida da rua, que era o ponto exato onde ficava o casarão branco, silencioso e intocado desde o evento trágico noticiado pelos jornais. Ao lado daquela residência, ficava outra um pouco menos suntuosa, cujo jardim estava sendo podado por um empregado, um senhor na meia-idade, careca e atarracado.

A mulher e seu chefe desceram do veículo e se dirigiram a ele, que parou o que estava fazendo quando os viu se aproximando e disse-lhes “Bom dia”.

— Bom dia. — retribuiu o Agente #1 — Gostaria de saber se o endereço que me deram está correto... — tirou um pedaço de papel do bolso e consultou-o — É “Outra Rua Random, 257”?
— É a casa ao lado, moço. — indicou-lhe o homem — Mas... — uma expressão de espanto misturado com horror surgiu em suas feições — vocês não estão sabendo?
— Do quê? — perguntou o visitante como se não soubesse de nada — Minha esposa e eu — ele passou o braço em volta de Norma para reforçar a frase — viemos de muito longe para visitar um velho amigo.
— Ah, então... — o jardineiro apoiou-se na cerca da casa e prosseguiu com pesar — Vou ter que lhes contar a história. A pessoa que morava nessa casa aí ao lado morreu faz alguns dias.

Os dois ouvintes fingiram estar chocados quase ao mesmo tempo, mas foi bem convincente.

— Como isso foi acontecer? — Norma.
— Foi muito trágico e também muito covarde, senhora. — disse o jardineiro — Nas primeiras horas da manhã, decerto quando ninguém estava olhando, alguém tocou na campainha e atirou no dono assim que ele atendeu a porta. O coitado morreu na hora. Deixou todo mundo chocado, porque o sujeito jamais incomodou ninguém e esta é uma região tranquila.
— Sabe se levaram alguma coisa? — Agente #1.
— A polícia achou a casa revirada, então acreditam que foi assalto.

Norma encostou a cabeça no ombro do chefe, que ainda a abraçava, e fingiu soluçar. Ele sussurrou-lhe: “Não exagera...”.

— É uma grande surpresa vocês aparecerem procurando por ele, pois parece que o finado não tinha parentes vivos. — explicou o empregado — Foi-se solitário, coitado.
— Como ele estava? Desculpe a insistência, mas é que isso nos choca muito. Depois de tantos anos, um amigo tão valoroso... — encenou o Agente #1 em tom desolado.
— Eu trabalho aqui há vinte anos, senhor, e vi a propriedade mudando de dono.
— Mudando...?
— A pessoa que morreu não foi a primeira a possuir o imóvel. Fazia pouco tempo, na verdade, desde que o dono antigo tinha saído. Entendem, quando se trabalha para uma mesma vizinhança anos a fio, acaba-se conhecendo a fundo os moradores. Segundo o último dono me disse (que Deus o tenha), aquele que lhe vendeu a casa era seu amigo.
— Entendo.
— Bom, acho que falei demais. Não deve ser fácil viajar tanto, como disseram, depois vir e descobrir que um amigo... bom, se há qualquer coisa que eu possa fazer...
— Sabe em qual cemitério o enterraram?
— Erm... Meu patrão deve saber. Gostariam de falar com ele?

...........Meia hora depois, os dois talentosos mentirosos caminhavam por entre túmulos à procura de uma lápide em particular.

— Aqui, Nikolai. Eu achei.

O investigador parou junto de Norma defronte a uma pedra simples com um nome e as datas de nascimento e morte inscritos.

— Eduardo Costa Nunes. — leu o Agente #1 — Não é nosso cara. Porém... — ele ajoelhou-se perto da lápide, olhando para ela como se o ato fosse esclarecer tudo — Alguém que foi amigo do autor daquele livro não é assassinado à toa.
— Vamos puxar a ficha do cara. — sugeriu Norma — É mais fácil do que ficar neste lugar estranho especulando.

A despeito da ansiedade em solucionar o problema, o Agente #1 concordou em voltar para o escritório.

.....LITTLE WATERFALL. SEDE DA ORGANIZAÇÃO DOOM FINGER (AGAIN):

*assobio de enfermeira do Kill Bill*

— Tem alguém aí? — perguntou Matt em voz alta entrando na cozinha.
— Ah, oi, Matt.

Era Pinguin que estava lá, usando um avental florido igual ao de Gustavo na casa de Amália.

— Pode sentar aí. — falou o roqueiro animado — Eu to fazendo uma pizza. — ele abriu a porta do forno, e Matt sentiu um cheiro hipnotizador de comida que o faz babar sem perceber.
— Errr...
— Quer alguma coisa? — Pinguin fechou o forno, e o efeito passou.
— Não, nada. Só queria bater um papo sobre a Doom Finger e tudo mais.

Gabriel se exaltou de repente.

— Ahh, quer saber? Tá todo mundo se gabando aí, mas eu to pouco me fodendo pra esses pontos de força e resistência. Eu tenho Culinária, man! u.u
— Claro, claro... o-o Mas eu não ia falar nisso.
— Então...?

Matt coçou a cabeça pensando no melhor jeito de iniciar o tópico, mas isso não o ajudou muito, exceto a perceber que não havia tomado banho o dia inteiro.

— Err... Sabe aquela noite em que nós nos separamos?
— Sei.
— E você e o Pedro foram com a Amália para a escola de karate?
— Eu sei, eu sei. *come um pedaço de aipo*
— É que... O que é isso?
— Aipo.
— Ah, certo... O Pepito, o Gustavo e eu ficamos no shopping torrando nosso dinheiro, e depois o Pedro nos ligou e nós fomos pra casa do Negão.
— Isso. Não tem nada de novo até agora.
— Acontece que o que ninguém sabe ainda é que nós visitamos outro lugar antes.
— Tipo...?

...........Alguns minutos depois, os gritos exaltados de Galarza e uma segunda pessoa atraíram todos os moradores até a sala da sede, a começar por Matt e Pinguin, que se encontravam no aposento ao lado no momento do acontecido. À primeira vista, o SPY empurrava a porta no sentido da rua, ao mesmo tempo em que alguém do outro lado fazia de tudo para entrar e protestava coisas sobre o “Estatuto do Idoso”.

— O que está acontecendo aqui? — perguntou Amália.
— Tem uma doida tentando entrar, e eu não posso deixar isso acontecer!! — respondeu Galarza em estado de histerismo.
— Já experimentou espiar quem é a pessoa?
— Jáá, e ela não é bem-vinda aqui! Eu nunca a vi na minha vida!! ISSO É PROPRIEDADE PRIVADA, MULHER!
Meu neto está aí dentro!

Todo mundo fez “Hã” ao ouvir a palavra “neto” e, de repente, Pinguin deixou escapar um grito de surpresa misturada com pavor.

— Porra, é minha avó!! D=
— O quê? — perguntaram Galarza, Amália, Matt, Pedro, Gustavo e Pepito.
— Minha avó! De alguma forma ela me achou. Deixa ela entrar, Galarza.

Galarza soltou a maçaneta e foi arremessado para trás pela porta que se abria. Uma senhora baixinha de cabelos brancos, usando óculos, entrou fula da vida.

— Eu conheço meus direitos! Eu te processo e te deixo só de cueca!
— Vó...
— Onde vocês esconderam meu...?
— Vó!
— Gabrieeeeel.

O tom dela mudou instantaneamente. De fera enfurecida ela partiu para... uma avó com seu netinho (o.O).

— Por que você saiu de casa daquele jeito???
— Vó...
— Olha o estado das suas roupas e do seu cabelo...
— Vó...
— Você comeu alguma coisa, seu Gabriel??
— VÓÓÓÓ! *tr00*

Ela parou de falar. Todos olharam para Pinguin, espantados com o alcance de seu grito. Imediatamente constrangido, ele limpou a garganta e tentou falar num tom mais ameno:

— Me desculpe, vó... Eu esqueci de avisar que ia dormir na casa de um amigo por uns dias. Eu estou, er... de férias.

Ele olhou para os outros em tom de “Não é mesmo??”, e estes disseram “Sim, claro”, “Absolutamente”, etc.

— Mas tão longe de casa, Gabriel! — protestou a avó — E tão longe de um supermercado, de uma farmácia... Vocês têm tudo que precisam aqui mesmo? — ela dirigiu a pergunta aos amigos deles, ultradesconfiada.
— Mas é claro! — disse Matt, tomando a iniciativa de pegá-la pelo braço como um cavalheiro — Inclusive, se a senhora me permitir a gentileza, eu vou lhe mostrar as instalações da casa. Apenas espere um segundo para que... arrumemos tudo. — ele lançou um olhar escondido para Amália, Gustavo e os demais, que eles entenderam como “Escondam as bombas, escondam as armas, limpem os quartos” e saíram em disparada, cada um para um cômodo, para organizar as coisas.
— Isso é muito gentil, amigo. — sorriu a avó de Pinguin — Por que não segue esse exemplo, Gabriel?

Gabriel resmungou uma coisa qualquer. Saíram os três rumo ao “tour” pela casa de aço, deixando Galarza sozinho com as mãos na cintura e cara de quem ainda não entendeu nada.

— Como é que a senhora nos achou? — ele ouviu Pinguin perguntar à avó, que meramente disse “Uma avó sempre sabe onde o neto está”.
— Mas que putaria! — exclamou o SPY consigo mesmo — Isso é uma fortaleza secreta! o.O Puta falta de sacanagem...

Ele fechou a porta de entrada e voltou para o próprio quarto.

...........Horas mais tarde, a visitante repentina concordou que aquele ambiente era suficientemente seguro para seu neto passar as semanas de férias (claro que ela não viu as armas) e foi embora deixando uma cesta de pasteis que restauravam a Life.

— Até que enfim... — suspirou Pinguin aliviado no quarto. — Acho que agora a gente pode continuar a conversa, Matt.

Matt era o único que deixara a sala de TV para vir com ele até o dormitório, justamente com a intenção de terminar o diálogo. Por precaução, fechou a porta antes de falar.

— Bom, você já sabe tudo que precisa saber, Gabriel. O cogumelo, a viagem extrafísica, o Pen-drive... Só me resta saber se posso contar com você.
— O quê? Tipo, com a minha ajuda e talz...? Quando é que eu não fiz isso? u.u
— Perfeito. =D Agora somos quatro. Faltam a Amália e o Pedro.
— Você já sabe como vamos fazer — depois que eles já souberem disso também — pra deter o Negão? Tipo... O cara mata pessoas.
— Não esqueci dessa parte, Pinguin. Mas você sabe que no finalzinho sempre tem um jeito. Afinal...

Liebert pôs a mão no bolso e retirou o LifeController.

— Skills pra isso a gente tem.

...........— A espera valeu a pena. — disse Norma ao Agente #1 depois de entrar em sua sala — Pesquisei o histórico do Eduardo Nunes, e não havia nada que parecesse relevante. Mas aí, quando eu fui na imobiliária checar os registros da casa...

Ela lhe entregou uma pasta com certidões, contratos, fotos, etc. Ele foi olhando as evidências devagar e sem muito entusiasmo.

— Ah, e eu deixei a parte interessante pro final.

O Agente #1 chegou no final e seu rosto fez “OMG”.

— É quem eu estou pensando...?
— Sim... O antigo dono da casa, que ao se mudar registrou o imóvel no nome do melhor amigo, cujo apelido, diga-se de passagem, era Dodi. Ele não vendeu, como o jardineiro pensava. Foi um presente. E agora o seu amigo morreu... e ninguém sabe onde o primeiro proprietário foi parar. De qualquer forma, o nome está aí: Damião F. Schneider.
— Mas... Não pode ser... Se o nome dele é esse...

Ele mostrou o documento com uma foto 3x4 colada na frente para Norma, que sacudiu a cabeça positivamente.

— Eu sei. Também me fiz a mesma pergunta. Se o nome é Damião, o mesmo do autor do livro, por que o rosto na foto pertence ao dr. Sebastian?
— Precisamos entrar naquela casa, Norma. o-o

2 comentários:

Unknown disse...

— Bom, você já sabe tudo que precisa saber, Gabriel. O cogumelo, a viagem extrafísica, o Pen-drive... Só me resta saber se posso contar com você.
— O quê? Tipo, com a minha ajuda e talz...? Quando é que eu não fiz isso? u.u
— Perfeito. =D Agora somos quatro. Faltam a Amália, o Gustavo e o Pedro.
— Você já sabe como vamos fazer — depois que eles já souberem disso também — pra deter o Negão? Tipo... O cara mata pessoas.
— Não esqueci dessa parte, Pinguin. Mas você sabe que no finalzinho sempre tem um jeito. Afinal...



Pois é né senhor matt xDDD ali tah errado, o certo seria Amália, Galarza e Pedro e não o Gustavo pq ele já sabia de tudo... u.u mas ta afude, e bem no inicio tem um parte q o "etc" ficou apenas "et"

Matt Liebert disse...

Oops xD

Bem lembrado, Pedro. Já foram feitas as devidas correções. Mas lembre que o Galarza é muito ligado à Doom Finger, então Liebert ainda não pensou em incluí-lo no plano porque ninguém sabe o que esperar dele. ;)

Aquele "et al" foi de propósito. É uma expressão latina que quer dizer "e outros". Mas eu errei de qualquer jeito, pq botei um l a mais.. skspakspaks