— Amália, tem um portão lá na frente.
KABRUM!
— Tá, tinha um portão.
...........Na sala de número 12, o Agente #1 abriu os olhos e sentiu uma imensa dor na parte de trás da cabeça. Lâmpadas vermelhas piscavam no teto ao mesmo tempo em que um típico alarme de “CODE RED! CODE RED!” soava por todo o prédio. Ele se levantou e olhou em volta, sem saber se se tinham passado segundos, minutos ou horas desde o instante em que desmaiara. Juntou sua pistola do chão, foi para perto da agente Norma e checou sua respiração: estava viva. Tirou o celular do bolso, digitou um número e calmamente aguardou.
— Agente #3 falando.
— Eu tenho um prato cheio para você.
— Como assim? Aonde é que vocês foram?
— Consegue ouvir o alarme?
— Que m...? Onde você está?
— Museu de Tecnologia. Faça o favor de trazer o Tylenol.
Ele desligou, encostou a cabeça na parede e fechou os olhos.
...........KABRUM!²
O Monster Truck acelerava impiedosamente contra a traseira deles, arrancando pedaços de vidro e parachoque, enquanto seguiam sem parar pela avenida (é, sempre uma avenida).
— Ah, porra! — xingou Amália depois de mais uma colisão.
— Acelera! — gritou Pedro desesperado.
— Já enfiei o pé até o fundo, ele não vai mais que isso! — replicou a garota, no que teve uma ideia — Ah, espera aí...
Ela girou o volante com tudo para a esquerda, passando por cima das divisórias de concreto — agora eles estavam na contramão. A reação dos outros motoristas, é claro, foi desviar-se deles, e fazendo isso encontraram as rodas monstruosas do... Monster Truck (‘-‘), que os esmagou como geleia.
— CARALHO, A GENTE VAI MORRER! D= — berrava Pedro com as mãos cobrindo os olhos.
— Cala a boca, porra. — xingou Amália desviando-se de uma van.
— ELE TÁ QUASE EM CIMA DE NÓS!
— Você está tendo um ataque de pânico! Se você não se acalmar...
BLAM!
O carro acertou uma lixeira, e moedinhas de ouro caíram sobre o capô.
— WTF? — Amália.
— O quê? — Pedro descobriu os olhos — Isso são moedas? — pegou uma — É isso, então? Vandalismo dá dinheiro?
— Foda-se, podemos precisar depois...
— CUIDADO, AMÁLIA!
O alvo seguinte foi uma velhinha — ao invés de jorrar sangue, ela simplesmente desapareceu com um PLOFT, e mais moedas de ouro voaram pra cima deles.
— Meu Deus, nós a matamos! — Pedro entrara em pânico novamente.
— Calma, deve estar no modo CENSURA LIVRE. Ela não chegou a sofrer muito.
KABRUM!³
O Monster Truck tratou de interromper o diálogo deles. Estava realmente a fim de esmagá-los.
— Auch! — Amália gritou de dor; com a nova colisão, sua testa bateu contra a tela do velocímetro e voltou — Se ao menos eu conseguisse andar mais rápido...
Enquanto segurava o volante com uma mão, com a outra ela começou a mexer em seu LC.
— O que está fazendo? — perguntou Pedro.
— Comprando Nitro.
Ouviu-se um ruído de caixa-registradora, e um -$250 apareceu no ar.
— Segura firme agora. — avisou Amália.
Ela pisou mais fundo no acelerador, e o carro ganhou uma rapidez descomunal, deixando o Monster Truck vários metros para trás.
— Yuhuuu!
A garota ligou o rádio.
She’s got a smile that it seems to me
Reminds me of childhood memories
……...Na sala do apartamento, Pepito e Pinguin jogavam Wii freneticamente.
— HAAAAA, E FOI MAIS UM FATALITY!
— Pepito, seu fdp!
Num outro canto do cômodo, Matt e Grilo navegavam na Internet.
— Eles estão demorando muito, não acha?
— Hã?
— Eles estão demorando. Pedro e Amália.
— Ah, é verdade, Matt.
Gustavo coçou o nariz e continuou absorto no failblog, enquanto Matt encarava o nada de um jeito pensativo.
— Tô meio preocupado. — Liebert tornou a puxar assunto.
— Com...?
— O Pedro. Ninguém esclareceu ainda como ele... sabe, como chegou até nós.
— E talvez nunca esclareçam.
Grilo esticou os braços e soltou um bocejo.
— Tá tudo fucked up, Matt — disse ele —, e você ainda quer respostas lógicas?
— Não precisam ser lógicas. ‘-‘ Tipo, certas religiões — todas as religiões — tentam te convencer de que as explicações para algumas coisas incompreensíveis seriam demais pra você entender, e que é melhor aceitá-las assim ou fingir que não existem. Mas eu... porra, não faz sentido. Eu queria saber. Se alguém me dissesse “É isso, Matt. Contente?”, eu diria “Ah, claro” e seguiria andando, bem feliz, mesmo que eu não entendesse. O que você acha?
— O que videogame tem a ver com religião?
KNOCK, KNOCK.
— São eles! D= — Matt levantou-se correndo.
— Calma, Matt. — disseram os outros ao mesmo tempo, hipnotizados pelo que estavam fazendo.
Matt abriu a porta e deixou que Pedro e Amália — tensos, cansados e arrebentados — entrassem.
— O que aconteceu? Vocês demoraram.
— Espera, gay, já falo contigo.
Pedro se dirigiu precariamente ao sofá e se sentou murmurando algo sobre “Minhas costas”.
— Ahhhh. Pronto, já posso falar, Matt.
— O que aconteceu?
— Encontramos o Agente #1.
— OMG D=
— E a mulher que estava com ele no shopping.
— O que eles faziam num museu?? — Gustavo.
— Gustavo, eu preciso usar o computador. — disse Amália, cansada, com a caixa roubada debaixo do braço.
— Tá, pera um pouquinho...
— AGORA!
— Pera...
— SAAAAI!
Eles começaram a brigar, e uma nuvem de poeira 3D os cobriu. Naquele momento, Pepito deu mais um Fatality.
=======>OPENING CREDITS<======
...........Com bandagens em volta do crânio, o Agente #1 se ergueu da maca com cuidado e sentou-se na traseira da ambulância. Tirou um maço de cigarros do bolso, acendeu um com o isqueiro e deu uma longa tragada.
Ahh, câncer em tubinhos...
— Onde ele está? — ouviu uma voz ao longe dizer, deu uma espiada no lado de fora e viu o Agente #3 vindo a seu encontro mancando.
— Ah, você está aí! — ele finalmente chegou perto — É a segunda vez que executa uma operação sem me avisar!
— Quem é o chefe aqui, Rodney? — perguntou o outro agente com extrema calma.
— É você, mas isso não muda o fato de que está descartando meus serviços! E não me chame pelo meu nome verdadeiro. =S
— Dessa vez não foi premeditado. Eu só queria estudar os esboços do projeto de Bob. Norma viera comigo, estava tudo bem. De repente, fomos assaltados por uma garota frenética com roupa de ninja. Norma viu mais do que eu, pois desmaiei antes dela. Ela está na outra ambulância costurando a testa, quer falar com ela?
— Esqueça isso agora. Droga... Quando o presidente souber disso, vai ficar muito irritado. Mas... de onde veio essa garota? O que ela tem a ver com quem estamos procurando?
— E eu lá vou saber?
— Vamos ver os vídeos de segurança.
O Agente #1 apagou o cigarro na sola do pé e acompanhou o Agente #3 até a sala das câmeras, onde a polícia (acionada minutos atrás) estava fazendo exatamente o que eles pretendiam — em Gay Harbor, a polícia trabalhava. Assistiram, voltaram a fita, assistiram de novo e, só para ter certeza, voltaram a fita outra vez.
— Como eu suspeitava... — murmurou o Agente #1.
— O quê? Alguma ideia? — perguntou Rodney desesperado.
— Não, nenhuma. Apenas que isso não fazia sentido. E não faz mesmo.
O Agente #1 se sentou na mesa do vigia, entediado e com sono. Nisso entrou Norma, devidamente enfaixada e recomposta.
— O que eu perdi?
— Pouca coisa. Quer um cigarro?
Um policial chegou perto do Agente #3/Rodney/whatever e disse-lhe algo baixinho. Ele então dirigiu-se à dupla de colegas:
— Pessoal, acharam o Monster Truck guiado por computador que fazia a segurança dos itens secretos do Museu.
— Opa, temos um Monster Truck?? — o Agente #1 ficou empolgado — Ninguém me disse que tínhamos um Monster Truck! ¬¬
— Pois é, não temos mais. Encontraram-no no fundo do Arroio Dilúvio — a sorte é que a água é perfumada.
— Pedro escapou de novo. Impressionante...
— Qual sua teoria agora? — quis saber Norma.
— É evidente que não só Matt Liebert e seus outros amigos estão com ele. Esta garota que ninguém sabe onde veio, devíamos nos preocupar com ela. Alguma ideia de quem ela seja?... Estou falando com os DOIS.
Tanto Rodney como Norma balançaram a cabeça negativamente.
— Descubram. — mandou o Agente #1 com os olhos fixos no vídeo da segurança, pausado no momento em que a invasora olhava para a câmera — Vão trabalhar juntos dessa vez, já que está tão ansioso por isso, Rodney.
— Ei, eu não estou... Já pedi pra não me chamar de Rodney!
— Quem é que consegue me explicar por que os LifeControllers vieram parar neste porão?
— Bom, er...
— Sim, Rodney?
— Você se lembra que nós não conseguimos usá-los, e... O pessoal do laboratório se cansou e os mandou pro depósito.
— Pois foi uma grande burrice. Grande, grande burrice.
O Agente #1 fechou os olhos e levou a mão ao rosto, em tom de “Fudeu”.
— O que foi? O que tem de errado? — perguntou o Agente #3 com medo.
— Não percebeu ainda? Os LifeControllers voltaram para as mãos de seus donos.
— E daí?
— Eles voltarão a jogar, como antigamente. E isso vai começar a nos afetar, como antigamente.
...........— Pronto, essa bosta tá salva. — disse Amália saindo finalmente do PC. — Agora que todos têm seus controlezinhos bonitinhos, eu vou tirar um ronco e... Nha, amanhã a gente decide o que fazer.
— Poderia...? — Pedro.
— AMANHÃ!
E bateu a porta do quarto. Pedro desistiu de chamá-la e sentou-se ao lado de Pinguin e Pepito, que ainda jogavam videogame, seu estômago roncando.
— Eu queria que ela me desse comida. Onde é que tem comida aqui?
Ninguém lhe respondeu.
— Maaatt!
— Eu.
— Não sabe onde tem comida?
— Não.
— Gustavo?
— Quê?
— Sabe onde tem comida?
— Essa não é minha casa, dã.
Houve uma pausa.
— Ahhh, eu tô com fomeeee! — berrou Pedro.
— Vai na geladeira, oras. — Pinguin.
Ele foi, mas quando se aproximou do aparelho, um aviso de EMPTY surgiu bem diante de seus olhos.
— A gente tá sem comida! — berrou da cozinha para a sala, pra que todo mundo ouvisse.
— O que quer que a gente faça? — perguntou Matt.
— Sei lá, vamos comprar.
— Da última vez que nós saímos pra comprar comida, uma coisa muito ruim aconteceu.
— Ah, deixa pra lá. Eu vou dormir de barriga vazia mesmo.
Irritado, Pedro voltou para a sala e arrastou um colchão de ar até o corredor, onde deitou-se e caiu no sono quase instantaneamente.
— Arrhh, to cansado de perder. — reclamou Pinguin largando o controle do Wii — Alguém quer jogar?
Matt aceitou o controle e ocupou o lugar dele. Enquanto a partida se desenrolava, Pepito lhe falou:
— Matt, eu tenho uma ideia que pode ser interessante.
— Funciona?
— Eu só disse que é interessante.
— Tá, fala aí.
— Os Cibernéticos são nossos inimigos, certo?
— Certo.
— Assim como o GOOGLE é nosso arqui-super-motherfucking inimigo no momento, certo?
— Também.
— Estive pensando... Os Cibernéticos querem nos destruir pra dominar o mundo. O GOOGLE queria destruir os Cibernéticos para NOS dominar. E agora querem ele quer destruir nós... *contando* seis.
— Errr, tá, tá difícil de acompanhar agora, viu.
— Pense comigo: “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”.
— By Camões?
— Não!! Estou dizendo que nós deveríamos nos unir aos Cibernéticos.
— O quê?
— Pedir uma trégua, um tempo, um coffee break. Sabe, pra derrotar o GOOGLE.
— Eles jamais aceitariam isso.
— Por que não?
— Porque eles são os badguys, ora. o-o Não se conversa com badguys.
— Cara, o GOOGLE já provou que consegue transformar o planeta Terra no que quiser. Acha que se os Cibernéticos pudessem fazer alguma coisa, já não teriam feito?
— ... Pior que faz sentido.
— Devem estar se sentindo tão ameaçados quanto nós — se é que sentem alguma coisa, não sei.
— Porra, Pepito... Nenhum de nós pensou nessa possibilidade até agora.
— Eu sei, por isso que eu sou o Pepito — HAA, FATALITY!
Enquanto isso, Pedro se revirava incomodamente no colchão. Sonhava que estava diante de um espelho embaçado, no meio de um lugar que não conseguia reconhecer. De repente uma vez muito familiar começou a lhe falar, e foi com certo choque que percebeu que a voz era sua.
— Então você acordou. Sente-se bem?
Seu rosto se refletiu no vidro, mas não como estava acostumado a vê-lo. Estava cinza. Sem saber por que, sentiu um receio muito grande. A voz continuou a lhe falar, calma, suave:
— Você pensa que pode escapar de mim? Pensa que pode abrir a Caixa de Pandora e simplesmente sair andando? Você não está sozinho, Pedro. A sua mente é a minha.
CONTINUA...
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