sexta-feira, 4 de junho de 2010

(2ª TEMPORADA) EPISODE 01 - Google Rises

.....................HOSPITAL GERAL DE GAY HARBOR. 22h30.

O famoso neurologista, dr. Claude, era coordenador do Departamento de Pesquisa do maior e mais equipado hospital da cidade de Gay Harbor, que, em tempos não muito distantes, já havia sido chamada de Porto Alegre. Como tudo na economia mundial, as atividades daquele setor eram financiadas e supervisionadas pelo complexo empresarial multinacional GOOGLE, que, em tempos não muito distantes, já fora muito menos importante que isso — agora, no entanto, as coisas tinham mudado drasticamente. O grande problema era que ninguém via aqueles fatos como mudanças. Na verdade, para a grande massa era como se o mundo sempre tivesse funcionado assim. O dr. Claude estava particularmente orgulhoso de si mesmo àquela noite, porque a maior aquisição científica de seu laboratório em muitos anos estava prestes a chegar, a bordo de uma ambulância.

— Sim, nós o receberemos com toda a segurança. — assegurou por telefone à pessoa importante que possibilitara aquela transferência — Estou confiante de que minha pesquisa dará um grande empurrão à Bioengenharia Genética no Brasil.
E nós estamos confiantes de que o senhor vai tratar suas descobertas com extremo sigilo. — disse a voz grave e imponente do outro lado da linha.
— Quanto a isso podem ficar tranquilos, sr. Nikolai. Conheço tanto os valores quanto os riscos de uma informação científica.
Nesse caso, acho que a escolha foi acertada.
— Muito bem acertada.
Uma boa noite, doutor.
— Passe bem, sr. Nikolai.

........................O homem de voz grave pressionou o botão “OFF” do telefone e girou sua cadeira em direção ao presidente da LDM, de pé à janela, olhando a imensidão da metrópole que habitavam, que tinha acompanhado toda a conversa pelo viva-voz. Estavam na sala maior do último andar de um arranha-céu, em Chicago. O presidente franzia a testa, em sinal particular de meditação, o que podia ser visto pelo reflexo do vidro à sua frente. Eis que perguntou ao outro sujeito:

— O que mais aprecia em sua nova vida, Agente #1? Além da nova identidade, é claro.

O presidente se virou, interessado em captar a expressão do colega enquanto respondia.

— Não sei. — disse “Nikolai” encolhendo os ombros — No início, poder expôr meu rosto, ir aos festivais de tecnologia e jantares de gala, essas coisas foram muito boas. Nunca pude fazer isso antes; antes do eclipse, minha vida era a de um James Bond sem as bondgirls.

O presidente achou graça.

— Mas, se reformulasse a pergunta — acrescentou o Agente #1 depois de pensar mais profundamente — para “O que mais lhe faz falta em sua nova vida?”, por exemplo, eu falaria... daquela sala subterrânea.

Houve um silêncio.

— Está falando do QG em Porto Alegre? — indagou o presidente.
— Sim. Entrar naquela sala e ouvir aquela voz... que ecoava por todos os cantos, era... Não sei definir. Só quem esteve em sua presença sabe como era. Disso eu tenho um pouco de saudade.

O presidente bocejou de tédio.

— Você pareceu muito gay agora.

O Agente #1 não gostou muito da observação. Talvez fosse o uísque, talvez a chuva pesada que caía. Não se sentia muito bem. Na Nova Terra, onde tudo era vinculado à GOOGLE, ele não tinha muitas obrigações. Na maior parte do tempo, fazia pose de braço-direito do presidente nas fotos oficiais. Depois que os eventos sociais terminavam, dirigia decrepitamente de volta à sua luxuosa residência, onde ninguém que realmente se importasse o esperava. Ninguém com coração.

— Só lamento que uma mente tão incrível como a de Bob tenha terminado assim, aprisionada dentro de um corpo fraco. — disse ele, como que para justificar as afirmações anteriores.
— Continua aprisionada PORQUE Pedro está aprisionado, o que, a bem dizer, nunca foi uma coisa muito difícil de se manter. — disse o presidente com desdém enquanto passeava pela sala — O único motivo de estarmos mandando-o para aquele hospital é sintetizar para sempre o seu cérebro. O dr. Sebastian foi esperto dando suas “injeçõezinhas” mágicas, mas podia ele imaginar que nós sedaríamos Pedro a tempo?
— Nós não apenas o sedamos, nós o induzimos a um coma profundo! — corrigiu o Agente #1 em tom de protesto — E eu já cansei de dizer a todos vocês o quanto isso era antiético e perigoso.

O presidente meramente abanou as mãos, em sentido de “O que posso fazer?”.

— Tudo em nome da ciência, meu chapa. Para nossa sorte, o garoto não pode controlar Bob nem fazer qualquer coisa sendo um peso-morto numa cama.

O Agente #1 não disse mais nada. Era inútil discutir com o Big Boss. Ficou quieto lembrando a noite antes do eclipse, a noite em que, na Enfermaria do Quartel-General, viu Pedro pela última vez. Tinha sido três meses atrás...

.............................— Está me ouvindo? Está bem, se não puder falar, apenas pisque para eu saber que está me entendendo.

Estou vendo e ouvindo você.

A voz de Pedro soou fraca, mas lúcida. Após um delicado procedimento cirúrgico que despendera horas do trabalho dos médicos e da paciência do agente, que teve de se abastecer de café para não perder o foco do trabalho, o garoto estava salvo. Olhava o teto e as paredes da ampla sala com certa indiferença, talvez pela quantidade de sedativos que lhe tinham administrado. Só manifestou emoção quando discerniu a vestimenta do homem à frente do seu leito.

— Porra, outro homem de terno. u.u

Ele falava como se estivesse com sono, ou bêbado. O Agente #1 se aproximou mais.

— Bem-vindo de volta, Pedro. Você está numa Enfermaria. Eu sou o Agente #1.
— Deixa eu adivinhar: também é capacho do GOOGLE.
— Está se sentindo bem? — o homem ignorou a frase irônica.
— Eu não to sentindo nada, caralho. Vocês me entupiram de morfina.
— Bom, isso parece positivo. — o Agente #1 olhou sorridente para uma enfermeira ao lado, que balançou a cabeça em reprovação — Ouça, Pedro: você foi baleado duas vezes, mas nós o resgatamos e o socorremos a tempo. Em breve estará em casa.
— Casa? Eu não tenho casa... — o jovem começou a rir amargamente — Vocês tiraram isso de mim.
— Certo. Por favor, dê uma olhada nisto aqui. — o Agente #1 mostrou-lhe uma prancheta com duas fotos de um mesmo rosto — Está enxergando bem? Isso é importante, Pedro. Este homem aqui está fazendo uma expressão. Consegue dizer que expressão é?

Pedro ainda não havia parado de rir. Sem dar muita importância, disse:

— Ele tá triste.
— Muito bem. Nas duas imagens ele faz cara de triste, mas em apenas uma ele está fingindo. Há uma leve, leve diferença. Você consegue dizer em qual das situações este homem está mentindo? Pedro? Preste atenção, Pedro. Consegue dizer em qual delas ele está mentindo?
— Vai se foder.
— Isso é tudo. — disse o Agente #1 à enfermeira, entregando-lhe a prancheta — Pode pô-lo pra dormir.

O homem de terno virou-se para sair e, ao chegar à porta, ouviu a voz de Pedro:

— Cadê as minhas coisas?

O Agente #1 parou e respondeu:

— Nós confiscamos seu computador, as pílulas e a maleta. Tente descansar, por favor.

Mas, enquanto a mulher tentava sedá-lo, Pedro fez o esforço de se sentar na cama, enfurecido e grogue ao mesmo tempo.

— Cadê meus amigos?? Vocês não podem me tirar isso, seus f...zzzzzzZZZzzzzzZZZZ

.....................— ... e sabe outra coisa que me deixa satisfeito? — a conversa do presidente despertou subitamente o Agente #1 de seu flashback.

— Hã? O quê?
— Saber que o Agente #3 está fazendo o transporte.
— Hum.
— Digo, você tem que admitir que ele é um cara que FAZ as coisas.

...................A ambulância trafegava em alta velocidade, aproveitando o pouco movimento do horário para ultrapassar todos os sinais vermelhos. No compartimento atrás do motorista, um paramédico gordo e tagarela, sentava o Agente #3 de braços cruzados, sério. Seu único dever era garantir que o jovem em coma e firmemente preso à maca, Pedro, chegasse sem nenhum arranhão ao Hospital Geral de Gay Harbor; tarefa que seria muito mais fácil se ele não tivesse de escutar o papo do motorista.

— Antes de cursar Enfermagem, eu dirigia carro funerário. — contou o gordo orgulhoso — Tá certo que a faculdade nos abre portas e tudo mais, mas sabe do que eu sinto falta do trabalho antigo? — perguntou.
— Hum? — o outro homem simplesmente resmungou.
— O passageiro ficava quietinho, quietinho... — respondeu o motorista, completando com uma insuportável gargalhada que fez o Agente #3 se lembrar das técnicas militares de Defesa Pessoal, que infelizmente não poderia usar naquele momento sem ter de se complicar com as autoridades mais tarde — Ainda que esse aí — o gordo se referiu a Pedro — seja de poucas palavras.

O Agente #3 revirou os olhos para o teto, entediado, e consultou seu relógio.

— Quanto tempo até chegarmos no HG?
— Mais uns vinte minutos.

O segurança desejou internamente um desmaio súbito, assim a conversa terminaria ali.

— Ei, eu já lhe contei a vez em que a seleção da minha cidade ganhou o campeonato interestadual, em 73?
— Deus, não!
— Bom, foi um episódio longo...

Num átimo, o jovem na maca esticou o braço e agarrou o pescoço do Agente #3, apertando-lhe a traqueia.

— Ei! Está tudo bem aí? — o motorista indagou, sem enxergar muito bem pelo espelho.

O segurança contorcia-se e tentava repelir o braço forte que o estrangulava, em vão. De alguma forma, o membro “ganhara vida”, enquanto o resto do corpo de Pedro permanecia adormecido.

— P-pare... agora! — ofegou o Agente #3.
— O quê?

O homem gordo olhou pra trás, preocupado, e enfim descobriu o que estava acontecendo.

— Meu Deus!

Esticou a mão livre para ajudar.

— Olhe pra frente! — berrou o homem estrangulado.

Foi tarde demais. Um caminhão em sentindo contrário desviou-se rapidamente da ambulância, mas a carroceria arremessou-os violentamente para fora do meio-fio. Atravessaram uma cerquinha de arame e capotaram várias vezes, tombando por fim com as rodas viradas pra cima.

O Agente #3 piscou os olhos, atordoado. A maca, agora vazia, tinha se revirado toda lá dentro. Instrumentos metálicos e remédios haviam caído e se quebrado por toda parte. Caído com um pedaço de vidro cravado em sua coxa, virou a cabeça para trás e viu o motorista de olhos cerrados, talvez já morto, um filete de sangue escorrendo-lhe da testa. Ouviu uma pancada forte: uma das portas traseiras tinha sido aberta. Rapidamente rastejou para fora, disposto a pegar o garoto que fugia.

Ele está quase morto, pensou. Isto não é possível!

Alcançou o gramado além do acostamento, levantou-se com dor e arrancou o pedaço de vidro da perna. Olhou para o lado, em direção a um denso matagal, e avistou aquele vulto de branco correndo extremamente rápido.

— Filho da mãe.

Sacou a arma e atirou cinco vezes, mas em todas errou o alvo. Praguejou consigo mesmo e, fraco, deixou-se cair de joelhos no chão. Pedro havia escapado.

=========>OPENING CREDITS<========

— Tá, deixa eu ver se entendi... O cara é canadense, se apaixona por uma americana e tem de enfrentar vilões pra ficar com ela?
— Isso. Sete.
— Sete supervilões?
— Sete Ex-namorados Maléficos.
— Ex-namorados?
— É. Maléficos. E ele ganha pontos de vida, como no videogame.
— Lol.

O bom das sextas-feiras é que, mesmo tendo um plano para a diversão do dia, você pode levar o tempo que quiser pra começar, já que é sexta-feira. Matt Liebert parecia levar isso ao pé da letra, pois a ideia naquele dia era que Pepito passasse às duas e meia em sua casa para irem ao PDB, mas já eram quatro horas e Matt ainda estava se “preparando”, enquanto ambos falavam merda à toa.

BZZZ.

— Deve ser o interfone — disse Matt.
— Vai lá — mandou Pepito, ocupando o computador antes que o outro pudesse dizer “Bazzinga!”.

Matt foi até o porteiro eletrônico e descobriu que Pinguin já estava lá embaixo. Devia estar puto com ele por demorar, mas não deu pra ouvir muita coisa devido ao chiado do maldito aparelho. De qualquer forma, teria de descer para abrir o portão. E ele também teria de esperar.

— Gustavo, não sabia que vc tava aqui também!
— Eu achei o Pinguin no caminho — explicou Grilo, segurando o pino de segurança do portão para que ele não fizesse BIP, e os dois entraram.

.......................Dominar o mundo nos levou dez minutos, mas um voo de Chicago a Porto Alegre ainda demora uma eternidade, pensou o Agente #1 ao desembarcar no terminal brasileiro. Era a primeira vez que botava os pés naquela terra desde que tinha, digamos assim, “se aposentado”. Quem o aguardava após o check-out junto a uma limusine preta, segurando uma plaquinha escrito “NIKOLAI PAVEL”, era uma mulher bonita de uns trinta anos.

— Creio que esse nome feio seja meu — disse o homem ao se aproximar, com um sorriso amarelo e olheiras da falta de sono causada pelo fuso-horário.
— Sr. Pavel — a mulher abaixou a plaquinha e estendeu-lhe a mão —, eu sou Norma. Serei sua assistente daqui para a frente. Sou nova na corporação, portanto meu dever é obedecer e observar.
— Excelente. Comece observando onde tem um comprimido para dor de cabeça.

O Agente #1 adiantou-se à menção dela de abrir a porta e fez isso sozinho, embarcando com sua mala no bando de trás do veículo preto. A mulher acompanhou-o, bateu a porta e disse ao choffer que partisse. O homem não sabia aonde estavam indo, mas também não questionou isso. Fazia parte do jogo.

Na tarde anterior (noite no Brasil), deslocara-se de volta a seu apartamento, a fim de dormir pela primeira vez em muitos dias, quando recebeu uma mensagem no celular. Alguém precisava dele online. Ligou o computador e a câmera, e em questão de segundos viu-se conectado ao presidente da LDM, que parecia tenso.

— Nikolai!
— Esse não é meu nome.
— Tanto faz. Temos más notícias.
— Sou todo ouvidos.

Uma segunda tela se abriu ao lado da do presidente, mostrando um homem que ele não via há bastante tempo, todo machucado, com curativos na testa.

— Agente #3, é você?

O colega meramente fez que “sim” com a cabeça.

— Pensei que você estava conduzindo Pedro ao Hospital Geral — disse o Agente #1 — Estranho imaginar que te fizeram isso dentro de uma ambulância.
— A ambulância saiu da estrada e capotou.
— Porque você estava nela...?
— Não — o agente ferido demonstrou impaciência — Pedro me atacou.
— Está vendo? — indagou o presidente num princípio de cólera — Quando estava tudo bem... quando menos imaginávamos... o filho da mãe “acordou”!
— Não pode ter simplesmente acordado — replicou o Agente #1 imediatamente — Ele estava em coma há três meses. Deve ter acontecido outra coisa.
— Eu estava lá e vi muito bem — disse o Agente #3 — Mexeu-se de repente, tentou me estrangular e, na confusão, o motorista perdeu o controle do volante. Assim que capotamos, ele empurrou as portas e saiu correndo. Não tive condições de seguí-lo.
— Isso é inexp...
— Inexplicável ou não, aconteceu — interrompeu o presidente, enérgico — Quero ver uma ação prática agora. Se isso vazar... se ele entrar em contato com alguém... vai sobrar para todo mundo, entenderam? Todo mundo.

O Agente #1 cruzou os braços, impassível ante à ameaça, embora já soubesse que teria de obedecer.

— Vocês dois vão encontrá-lo — sentenciou o Big Boss — Nikolai, estou despachando-o imediatamente ao Brasil. E, já que você — dirigiu-se ao renegado na outra tela — foi incapaz de agir por conta própria, mandarei mais uma pessoa auxiliar o Agente #1. Desligo.

.........................— Vistoriamos o matagal por onde se embrenhou depois que saltou da ambulância, mas não havia nenhum sinal dele — explicava a agente feminina com um laptop aberto no colo, contendo fotos tiradas no local que descrevia.

O Agente #1 ouvia tudo de olhos fechados, cansado, ainda praguejando mentalmente por ter descido daquele avião.

— É incompreensível. Até agora, dificilmente as pessoas não notariam alguém com roupa hospitalar vagando por aí, mas ninguém sequer pôs os olhos nele em parte alguma... O senhor está me ouvindo?
— Perfeitamente. E não me chame de senhor. Temos pouquíssimos anos de diferença.

O Agente #1 abriu os olhos, tomou-lhe o computador e começou a digitar.

— Uma pessoa que estava em coma de repente acordou e saiu para passear longe das nossas vistas. Um adolescente, Nikita.
— É Norma.
— Anyway. A primeira coisa em que temos de pensar é seu estado psicoemocional a partir do momento em que “despertou”, e isso só podemos imaginar. Você está a par do histórico de Pedro?

Ele olhou para Norma, esperando a resposta. Ela balançou a cabeça.

— Certo. Se falarmos hipoteticamente, Pedro está guardando neste momento um fragmento de inteligência artificial com habilidades extrasensoriais inimagináveis, e, se falarmos hipoteticamente, sim, estaremos certos. Em outras palavras, ele tem superpoderes. A pergunta é se ele já sabe disso.

Ele parou de falar para mostrar-lhe a tela do computador.

— Partindo do fato de que ele ficou três meses inconsciente, sem saber de porra nenhuma que aconteceu no mundo até então, a reação natural a qualquer pessoa em sua condição é ater-se ao que conhecia, às coisas ou pessoas que lhe transmitiam segurança. E, para a nossa felicidade, sabemos quem são as pessoas que ele gostava, inclusive onde encontrá-las agora.

Enquanto Norma absorvia as informações, “Nikolai” gritou para o motorista:

— Leve-nos ao Shopping Praia de Belas!

...........— Pepito, para de me encoxar! ¬¬

— Deixa de ser gay, Matt.
— Pra eu fazer isso, comece me ajudando e saia de trás de mim.

Ainda era dia, e todo mundo estava circulando pela praça de alimentação do PDB. Pepito, para variar, estava irritando Matt.

— Quando eu terminar de cumprimentar conhecidos Random — disse ele —, vamos reunir o clã para uma reunião.
— Que clã?
— O clã. Nosso clã.
— De quê?
— RPG.
— Mas nós não jogamos RPG. Sempre planejamos, mas nunca acontece. Né, Pinguin? — perguntou Matt ao ver Gabriel passar por eles com outras pessoas.
— É mesmo! — ele respondeu, sem saber do que se tratava.
— Isso é porque alguém sempre interrompe quando é a sua vez ou a de outra pessoa no grupo — insistiu Pepito — Quando é a minha, eu consigo.
— Porque você é o Pepito.
— Mas foda-se, o clã tá formado e a reunião vai ser hoje, na casa da minha avó. No terraço.
— Wow, terraço é massa.
— É por isso que vai ser lá.
— Eles já sabem disso?
— Não. o-o
— Porra, avisa o pessoal u.u Né, Pinguin?
— Ééé! — Pinguin respondeu de novo ao passar (de novo).

Daquele momento em diante, Pepito correu o shopping atrás dos membros do clã que não sabiam pertencer a um clã, deixando Matt vegetando sozinho por aquele andar. Quando chegou perto de uma livraria, sentiu um puxão no capuz do casaco e virou-se para trás esperando que fosse um de seus conhecidos, mas, do contrário, deparou-se com um garoto desconhecido usando casaco de inverno e um par de óculos Rayban.

— Matt! Matt! — ele o segurava ainda pelo casaco, como se tivesse encontrado seu salvador — Pelo menos você eu encontrei!
— Er... eu te conheço? — perguntou o garoto sem se mexer de onde estava.
— Não lembra de mim? Pedro! — ele tirou os óculos.
— Olha, sem óculos você não parece menos desconhecido pra mim. Bota de novo.

Pedro recolocou os óculos.

— É, continua o mesmo. Tira.

Pedro tirou de novo.

— Desculpa, mas eu não te conheço. Deve estar confundindo com outro Matt. Solta meu casaco? =)
— Não estou confundindo! — Pedro soltou-o, mas não saiu da frente dele — Você é Matt Liebert! Nós nos conhecemos na minha casa. Havia você, o Pepito, o Gustavo...
— Ah, você é amigo deles? Por que não disse antes? Eles estão meio que dispersos por aqui, mas eu posso te ajudar a encontrar...
— Não, você me conhece. Só não consegue se lembrar, e não entendo por quê... Não pode ter se passado tanto tempo assim. Que dia é hoje?
— Sexta.
— Não, não, mês.
— Ah, sei lá. Estamos em junho.
— Junho?

Pedro fez as contas. Dormira três meses e de repente despertara num beco do centro da cidade, deitado no chão com um traje hospitalar, imerso num mundo totalmente desconhecido em que outdoors gigantescos espalhados pela cidade exibiam o mesmo rosto masculino feliz e a mesma mensagem publicitária: “Escolha um serviço Google. Porque nós queremos o seu bem.”

Julgando estar em um pesadelo, correu por vários quarteirões com a parte de trás do avental aberta — mas isso era comum no Centro, então ninguém deu bola — até cair em si. Aquilo era real.

— Cara, você tem que se lembrar. — disse Pedro, quase em pânico.
— Quer falar com eles? Liga pro Pepito aí. — Matt atirou-lhe seu celular — Mas liga a cobrar, que eu tô numa pior...

Matt deu-lhe as costas enquanto ele digitava os números e, nisso, avistou Gustavo falando com um casal de aparência importante.

— Ah, o Matt?? — ouviu-o dizer em voz bem alta — Tá ali, ó. Ei, Matt! Esses caras aqui dizem que te conhecem.

Pedro olhou para o casal ao mesmo tempo em que este olhou para ele, e seguiu-se uma fração de segundo apenas antes que ele saísse correndo, com Matt a perseguí-lo gritando:

— Você tá com meu cel!

Eles adentraram uma loja de roupas, sem verem que o homem e a mulher desconhecidos tentavam alcançá-los metros atrás.

— Pare. — ordenou o Agente #1 — Fique aqui em cima, e não perca de vista quem está lá embaixo.
— Pode deixar. — respondeu Norma, indo para perto dos parapeitos.

O Agente #1 entrou na loja e vislumbrou dois reflexos num espelho descendo a escada rolante às pressas.

— Eles sairão pelo primeiro andar — comunicou, via rádio, à assistente — Esteja lá.
Positivo.

Norma correu até uma escadaria situada à frente da saída inferior da loja, a tempo de ver os adolescentes dobrando à direita. Gritou isso no rádio e em seguida viu o Agente #1 saindo em disparada atrás deles.

Pedro e Matt entraram no supermercado, o segundo ainda preocupado apenas em recuperar seu celular, tomaram o acesso aos funcionários e descambaram na estreita rua atrás do shopping. Lá dentro, o Agente #1 parou de correr e apoiou-se nos joelhos, já coberto de suor e muito frustrado. Maldita hora aquela em que deixaram os quatro garotos viverem — ainda que desmemoriados. Adolescentes só causavam problema.

— Suspender a operação. Eu os perdi. — ofegou no bocal do rádio.
Droga! Onde você está? — quis saber Norma.
— Me encontre na frente do Nacional.

...........— Nunca... mais... pegue... uma coisa... minha... sem... — Matt ofegava ao falar, novamente com seu celular na mão, sem conseguir terminar a frase.

— Foi mal. — disse Pedro, igualmente exausto. — Nós tínhamos que fugir. Estavam procurando por você também.
— Quem?
— Não sei quem era a outra, mas o cara eu conheço. Ele é da GOOGLE.
— E o Kiko? Todo o mundo é GOOGLE.
— Como é possível?
— Ora, eles são um complexo empresarial enorme, não são? Eles têm os serviços online, as firmas de Marketing, as fazendas, os hoteis, as empresas de segurança...
— Tá, tá, isso é suficiente pra mim.
— Cara, nessa confusão que você provocou, eu até me perdi dos outros... — Matt começou a mexer no celular — Vou ter que gastar o que me sobrou de crédito. Alô, Pepito... Pepito, não grita!... Onde você está?... Tá, eu já vou indo pra lá, então. Até mais. — desligou — Ouça, er... Pedro: eu tenho um compromisso com meus amigos, então me desculpe se eu tiver de te deixar no vácuo a partir de agora. Falou.
— Espera, espera! — Pedro começou a seguí-lo na travessia da rua — Desse jeito, eu vou com você. Quero falar com eles.
— Falar com eles??
— É.
— Bora lá. ^^

...........Enquanto isso, noutro canto da cidade, a limusine preta que trazia o Agente #1 e sua assistente estacionou em frente a um imponente edifício de vidro com uma fonte na entrada. Segundo Norma, o antigo QG subterrâneo da GOOGLE transferira suas atividades para dois andares daquele prédio comercial de Gay Harbor. Lá se cuidava do setor de telecomunicações, intercâmbio informativo mundial e preservativos extra-largos.

Eles desceram do carro, subiram de elevador até o quadrigésimo nono andar e foram recepcionados pelo Agente #3, com um dos braços envolvidos numa tipóia e a mão livre apoiada numa bengala.

— Bem-vindo de volta... chefe. — disse com toda a amargura do mundo ao rever o Agente #1. Este sorriu e deu-lhe um tapinha irônico nas costas.
— É bom estar de volta, Agente #3. Diga-me uma coisa: quantos milhões de dólares custaram essas instalações?
— Muitos pixels e nenhuma argamassa. Mas, para que o mecanismo funcionasse, foram muitos zeros no cheque, e é só o que posso lhe dizer. Venha, preciso lhe mostrar os ambientes de trabalho antes de começarmos. Dr. Claude está em estado de choque...
— Isso pode esperar. A caminho daqui, Norma e eu tivemos um encontro acidental com Pedro.
— O quê?? Onde??
— Aparentemente, depois de se disfarçar como pessoa comum, ele se dirigiu a um shopping da capital para encontrar seus velhos amigos. Exatamente como eu suspeitara, Pedro foi procurar Matt Liebert e os outros garotos que nós mesmos prendemos e soltamos, após lavagem cerebral, três meses atrás. Você se lembra, não, de como o mesmo método de hipnose em massa que utilizamos globalmente durante o eclipse funcionou com eles?
— Sim, sim, mas e agora? Para onde Pedro foi?

O Agente #1 encolheu os ombros.

— Não faço ideia. Mas você tem uma pista, “detetive”. — brincou, encostando-se relaxadamente em uma cadeira — Ele está com Matt Liebert. Use isso agora.

Furioso, o Agente #3 caminhou para outra sala, a fim de iniciar a procura. O Agente #1 riu baixinho.

— Está sendo mais divertido do que pensei. — confidenciou a Norma, que observava em silêncio.

...........No terraço do edifício em que a avó de Pepito morava, funcionava um amplo salão para festividades, no qual Matt foi o último a chegar naquele dia para a reunião do grupo, acompanhado por Pedro, que foi recebido estranhamente como Random pelos outros presentes. Além de Gustavo e Pinguin, havia um maior número de pessoas conhecidas que Pepito conseguira reunir de última hora. A zueira era infernal, e levou tempo até que todos fizessem silêncio para que o anfitrião explicasse-lhes a situação.

Ao final da tarde, perto das 18h30, quase todos foram embora sem que o tal “clã” recebesse um nome, mas isso era algo que Pepito estava disposto a pensar mais tarde... Enfim sentaram-se Pedro, Matt, Gabriel, Pepito e Gustavo à grande mesa e o primeiro contou a eles sua história inteira (até onde conseguia lembrar), com todos os detalhes importantes evidenciados. No fim, ficaram todos meio “Hã”.

— Olha, cara, esse lance de videogame e tal até seria foda como ideia, mas é meio impossível na prática, não acha? — disse Pinguin lentamente.
— Seria foda mesmo! — Pepito.
— Dorgas, mano. Dorgas. — Grilo.
— Vocês têm que acreditar em mim! — implorou Pedro — Fizeram algo na cabeça de vocês, de todo o mundo. É um grande plano maligno de dominação global, oras.
— Éé... mas não existe. =X — Pepito.
— O mínimo que a gente podia fazer era ajudá-lo a ir embora, não acham? — sugeriu Matt, e os outros acabaram por concordar — O cara veio até aqui só pra nos contar isso, pô...
— Não fale como se eu fosse esquizofrênico! — protestou Pedro zangado.
— Não estou... tá, estou.

Ficou decidido que eles fariam uma vaquinha (MUU) para comprar a passagem de ônibus para Wayhand (antiga Viamão), onde era apropriado se esconder porque ninguém dava bola para o lugar de qualquer maneira, e que pagariam o táxi até a rodoviária. Já era noite, por isso todos desceram juntos para levar Pedro ao ponto de táxi.

— Matt, quem eram aqueles que procuravam por você hoje no shopping? — perguntou Gustavo no caminho.
— Nem pensei nisso ainda. — respondeu Matt — Fiquei ocupado demais correndo atrás do Pedro. Mas agora que mencionou, isso é realmente estranho. Por que uns tipos daqueles me procurariam, tipo...?
— Devem ser traficantes internacionais de órgãos.
— u.u
— Tá, traficantes internacionais gays de órgãos.
— Andem mais rápido. — sussurrou Pepito aos demais — Tem um pessoal suspeito nos cuidando.
— Corrigindo: tem um pessoal suspeito vindo atrás de nós. — Gustavo.
— Isso mesmo, tem um pessoal suspeito vind... CORRAM!

Foi tarde demais. Estavam sozinhos, cercados por sete Tchuntchás.

— Não entrem em pânico agora! — sussurrou Pepito aos demais.
— Podem ir passando celular, carteira, tênis, tudo que tiverem. — exigiu um deles, o que estava armado.
— Tá, comecem a entrar em pânico...

FALCON... PUNCH!

O Tchuntchá armado foi violentamente atingido e voou para fora do acostamento, no que foi atropelado por uma kombi. Antes dos seus amigos gritarem de pavor, uma série de chutes e cotoveladas foi derrubando-os um a um. Era tão rápido que parecia que eles simplesmente caíam em fileiras, subitamente alvejados por golpes invisíveis. Mas a compreensão logo veio quando, horrorizados em meio àquela pilha de bandidos nocauteados, os garotos ouviram uma voz feminina zombando-lhes:

— Mas vocês são NOOBS!

A garota se aproximou do grupo e tirou o capuz, permitindo que seus cabelos sacudissem ao vento (em slow-motion). Estava toda de preto e trazia uma mochila minúscula nas costas.

— WTF? — Pinguin.
— OMG! — Pepito.
— o-o — Grilo.
— OMG!² — Matt.
—  ♥0♥ — Pedro.
— Quem é você, em nome de Chuck Norris?? — perguntou Matt primeiro.

A garota levou a mão ao próprio decote e tirou um pequeno e leve joystick, semelhante ao controle de Wii, com vários botões. Disse-lhes:

— Pouco interessa quem eu sou. A grande pergunta é se sabem quem são VOCÊS.
— Hã? — Matt.
— ♥¬♥ — Pedro.
— É, imaginei que não. u.u Meu nome é Amália, e meus parabéns, pois vocês acabam de entrar na segunda rodada do jogo.

Ela apertou um botão, e o ambiente em volta escureceu.

CONTINUA...

Nenhum comentário: