sexta-feira, 28 de maio de 2010

(1ª TEMPORADA) EPISODE 12 - Cogito Ergo Sum (Season Finale)

Com sua enfermeira encostando uma bolsa de gelo atrás da sua cabeça, o Agente #1 andava de sala em sala pelo QG, gritando com qualquer um que estivesse sentado sem fazer alguma coisa, enquanto um time de homens especialmente qualificados para tanto tentava esclarecer o que acontecera. Não deu três minutos, um segurança apareceu e informou-lhe que Bob deixara dois vigilantes e um estagiário feridos antes de sair do prédio. Para piorar, o sistema interno de comunicação sofrera pane generalizada, possivelmente um “presente de despedida” do androide.

Dito isso, o agente dispensou a enfermeira e foi se reportar ao presidente da LDM, que já o esperava do outro lado da linha telefônica (numa chamada a cobrar).

— O que houve? Acabamos de perder todas as conexões com vocês. — disse a autoridade.
— Foi o Bob, senhor. Ele quebrou a segurança e se foi.
— Como? Isso é inadmissível!
— Eu sei muito bem, senhor.
— Você tem noção do quanto isso é sério? Agente #1, Bob não pode ficar livre num momento como esse!
— Sim, senhor. Já estamos trabalhando para encontrá-lo, mas devido à própria natureza dele... Bom, o senhor sabe como é difícil.
— Façam o impossível, então! Enquanto isso, não se desvie da operação. Resgatem o menino, e teremos uma chance.
— Sim, senhor. O Google Earth dará conta disso. Agora preciso desligar, porque os técnicos estão me chamando e meus créditos vão acabar. Sabe, a mãe enche o saco depois...

Era na Sala dos Técnicos que boa parte da ação estava se desenrolando. O Exército de Hackers Sedentários trabalhara ferozmente no painel de controle do poderoso software para criar uma Blank Area na cidade de Porto Alegre, esforço que aparentemente tinha dado certo.

— Os pontinhos vermelhos — explicou um dos técnicos ao Agente #1, que acabara de entrar, apontando para um monitor — são eles. Agora que delimitamos o espaço, vamos tirar um print...

A quilômetros dali, dentro do shopping, Matt, Pepito, Gabriel, Gustavo, Pedro e o Ruleador sentiram uma onda de energia atravessar-lhes o corpo tão bruscamente que perderam o equilíbrio. No instante seguinte, o mundo havia parado. As pessoas, as máquinas, os ruídos, a água no chafariz, os pássaros empoleirados nas janelas, tudo congelou-se, com exceção deles seis.

— O que significa isso? — perguntou Matt.
— Tá, eu juro que nunca mais digo “Para o mundo, que eu quero descer.” — gemeu Pepito.
— Está tudo... — Gabriel estendeu a mão para tocar um homem petrificado e surpreendeu-se ao constatar que seus dedos o atravessavam — irreal!
— Estamos num PRINT. — concluiu Pedro depois de uma rápida análise do ambiente. Todos o olharam com surpresa — O prédio tinha um sistema de segurança parecido — explicou —: bastava projetar a imagem falsa de um ambiente para que a pessoa “pisasse” sem querer e fosse parar na toca da spider.
— Então, isso tudo aqui é uma imagem? — Matt.
— Sim.
— Como entramos aqui?
— Não tem como dizer. Simplesmente tivemos esse azar.

Houve um silêncio mórbido durante o qual todos pensaram no pior — o que foi uma atitude esperta, já que as coisas logicamente não estavam caminhando para uma resolução feliz. Na verdade, pensar no “pior”, esse fantasma de nome quase impronunciável, às vezes é a sacada mais inteligente que alguém pode ter.

— Pois é, pessoal — Matt sentiu que deveria dizer algo, por mais estúpido que soasse, por isso disse —, pelo jeito eles nos cercaram. E, err... Acho que vamos morrer. =D
— =D — Pepito.
— =D — Gabriel.
— =D — Gustavo.
— o-o — Pedro.

Ouviram uma respiração forte e descobriram que o som vinha do Ruleador. Ele andou agitado de um lado para o outro, ainda com a pasta de metal debaixo do braço.

— Não. — protestou — Não aceito. Não vou morrer. Tenho que descobrir a verdade!

Ele saiu mancando, e Matt lhe indagou, perplexo:

— Aonde você vai?
— Abrir o arquivo do dr. Sebastian.
— Mas é inútil! Larga isso, Ruleador.
— Não posso.

E subiu para o segundo andar sem dar ouvidos a mais ninguém. Os outros se entreolharam, impotentes pela ausência de um mentor.

— Certo, ignorem ele, rapazes. — disse Matt pensando rapidamente — Vamos raciocinar. Isso é videogame. Realidade alternativa. Se isso aqui é o “reflexo” do verdadeiro interior do shopping, então debaixo disso aqui — ele bateu com o pé no piso — está o mundo real.

Os outros pensaram junto com ele e, por fim, entenderam. Imediatamente ideias loucas foram se formando em suas cabeças.

— Matt... Matt! Acho que sei! — exclamou Pepito, empolgado — Mais vai levar um tempo pra eu conseguir. Já volto!

E saiu correndo.

— O que ele foi fazer?? — perguntou Gabriel.
— Não sei. — respondeu Matt — Mas, nesse meio-tempo, vão pensando em algo! Qualquer coisa!

Os garotos começaram a pensar, cada vez mais adrenalizados por saberem que o perigo estava perto. No andar de cima, o Ruleador tinha aberto o computador de Pedro em cima de uma mesa ao lado da pessoa de um gordo com um laptop e digitava furiosamente. Depois que o sistema rejeitou sua senha pela enésima vez, torceu os nós dos dedos tentando encontrar uma palavra ou frase que representasse melhor todo o contexto da criação de Bob, das experiências com Pedro e tudo mais. Algo que fizesse sentido para o criador do arquivo. Só conseguiu chegar a uma conclusão, e prometeu a si mesmo que aquela seria sua última tentativa. Por acaso deu certo.

Se fosse totalmente humano, teria morrido do coração no momento em que o vídeo se abriu na tela. Aumentou o som, pois queria compreensão total da mensagem.

Eis que um homem de jaleco branco apareceu olhando para a câmera, com uma parede de cor neutra atrás de si. Parecia calmo e decidido. Fazendo os últimos ajustes no ângulo, ele limpou a garganta e disse:

— Olá, Pedro. Sou eu, dr. Sebastian. Quando você estiver vendo esta mensagem, eu já terei partido por motivos de força maior. Não sei se lembra muita coisa de mim; eles lhe aplicaram inúmeras substâncias, e eu temo que não saiba lhe dizer o que se passou com você antes que chegasse ao laboratório. Não me permitiriam isso. O importante é o que tenho a lhe dizer sobre o futuro. Não é justo para comigo, para com você nem para com a ciência o que eles estão fazendo. No início, acreditei estar fazendo a coisa certa, estar fazendo um bem para a humanidade, mas só tarde demais percebi que não há limites para a destruição que ele pode causar se cair nas mãos erradas. Bob é um verdadeiro monstro.
“Mas ele é vulnerável num ponto, Pedro. Ele não pode ser senhor de si mesmo. Talvez em seus planos e manifestações de poder, ele possa ser o chefe, mas não tem controle sobre seu próprio caráter. Não pode deixar de ser inteligente porque ALGUÉM o fez inteligente; não pode deixar de ser cruel porque ALGUÉM determinou que agisse assim. Esse alguém sou eu. Eles esperavam que eu facilitasse as coisas, Pedro, que eu escondesse o chipe num meio físico vulnerável. Mas eu fiz mais do que isso. Eu o transformei em fluído nanotecnológico e o implantei em sua corrente sanguínea. Aonde quer que você vá, o que quer que façam com você, não podem machucá-lo sem danificar a invenção. E também não podem extraí-lo de nenhuma maneira.

O homem fez uma longa pausa para respirar.

— A essência do monstro — continuou — está em você, Pedro, para que a controle na hora certa. Assim como todos temos luz e trevas em nosso interior, você guarda a vida dele. Não tenha medo de fazer o que é certo quando o momento chegar. Ele virá até você um dia, e nesse dia meus superiores terão perdido o controle. E você deverá encontrar Bob... para acabar com isso de uma vez por todas. Se agora mesmo eles estão me “apagando”, me descartando para que o mundo não saiba a verdade, pelo menos você saberá de tudo por esta mensagem. Trate de fazer o que eu não fiz, Pedro. Finalize-o.

E a tela escureceu.

.....................QUANDO OS OUTROS PENSAVAM que não voltaria mais, Pepito apareceu com um pacote pardo.

— Foi mal pela demora! Eu assaltei uma lojinha de games pra conseguir isto, e na saída percebi que tinha um segurança me olhando. Mas aí eu lembrei que ele não é de verdade. E ri muito.
— TÁ, PEPITO, VAI LOGO! — gritaram os outros.
— Calma! Formem um círculo ao redor de mim (ui). Certo. Agora, fiquem parados.
— Devemos nos “concentrar” em alguma coisa, dizer palavras bonitas? — perguntou Matt.
— Não, apenas olhem!

E ele revelou o que havia no pacote.

......................O VERDADEIRO PDB, logo abaixo (ou atrás, difícil especificar) daquela dimensão artificial, estava lotado como de costume. Era segunda-feira, e por isso circulavam principalmente idosos, famílias e pessoas que você não esperaria encontrar fora da sexta-feira com suas famílias. Também havia mais alguém.

Alguém que tinha atravessado a cidade em busca daquele lugar e agora estava sensivelmente irritado por não achar o que procurava. Como esperava, não conseguiu se teleportar para dentro da Blank Area. Nem depois que ela se dissipou, e toda a área ao redor do shopping voltou ao normal, não encontrou os garotos. Alguém devia ter tirado um PRINT, e agora eles estavam fora de seu alcance. Era péssimo, sendo como era, ter de enfrentar limites físicos.

Repentinamente, na área em frente às Lojas Americanas, as pessoas começaram a ouvir fortes pancadas, que eram como se uma bigorna estivesse esmagando alguma coisa bem sólida. Um minuto depois, um clarão seguido de uma explosão — e dezenas de pessoas saíram correndo aos berros para a porta mais próxima. Afinal, não é todo dia que um portal dimensional se abre dentro do PDB, muito menos com o Pepito do outro lado brandindo o martelo de Thor.

— URRRAAAAAH! — o garoto comemorou.
— Pepito, o que você fez? — Matt.
— Achei a saída pra nós, ué. Foi só quebrar um pouquinho o piso. — Pepito.
— Meu... nunca percebi como é estranho lá fora. — Gustavo.
— É a mesma coisa, Gustavo. — Gabriel.
— Ahh, é. xD Por que as pessoas correram? — Gustavo.
— Acho que elas se assustaram. — Pedro.
— Nunca viram um portal dimensional na vida? Cagões... — Pepito.
— Shh, vejam. — Matt.

Ele apontou para alguém que os observava ao longe, parado enquanto todos fugiam. O homem sem rosto que não tem alma e nem coração. Ambos os oponentes se mediram por alguns momentos. Matt olhou para Pepito, que olhou para Pinguin, que olhou para Gustavo, e todos sacudiram a cabeça em tom de concordância. Estavam prontos.

DEFEAT BOB!

— Pedro, fique aqui dentro. — mandou Matt, sacando seu LifeController e saltando para fora do portal aberto.

Os outros o imitaram. Bob chegou mais perto, seu corpo todo tingido de um vermelho cor-de-sangue. Mediram-se de novo.

— Matt Liebert — disse o androide suavemente, não tão alto, mas o suficiente para que os ruídos das pessoas ao fundo não interferissem —, enfim nos encontramos.
— Bob... — disse o garoto — não sei que frase de efeito usar.
— Não use. Então, seus amigos e você conseguiram invadir o prédio altamente protegido onde residia o guardão do meu segredo. Destruíram a casa...
— O Gustavo destruiu. — disseram Matt, Pepito e Pinguin.
—E ainda correram até aqui. De fato, vocês são criativos. — admirou-se Bob.
— Você também, Bob. — disse Matt cordialmente — Mas diga, você veio aqui sozinho ou está com alguém na retaguarda?
— Estou perfeitamente independente, e é assim que vou continuar depois que terminarmos aqui.
— Ótimo, então...
— Vamos...
— ... terminar.

O corpo semihumano envolveu-se em chamas, para espanto de seus inimigos, que, no entanto, permaneceram firmes. Bob disse:

— À vontade, cavalheiros.

Atacaram-no ao mesmo tempo. Tão rápida foi a defesa que eles nem sentiram ter saído do lugar para atacar, mas a diferença é que voltaram extremamente machucados. Avançaram novamente, dessa vez um de cada lado. Bob dividiu-se em 4, defendendo-se separadamente de cada um. Arremessado contra uma escada, Matt lembrou-se de um detalhe importante e gritou para os outros:

— Saiam! Separem-se! Mantenham ele ocupado!

E cada um correu com “seu Bob” para um ponto diferente do shopping. Matt tentou subir a escada rolante, foi agarrado pelo colarinho e arremessado contra um pilar, que quebrou-se. De pé novamente, uma boa porção de Life ainda intacta, viu Bob dar-lhe as costas e correr na direção do portal — resolvera trapacear. Num speed burst, Matt jogou-se contra ele para desviá-lo do alvo. Os dois colidiram com um balcão de sorvetes.

........................ Pepito correu até uma das saídas do shopping, a dos caixas eletrônicos. Parou e virou-se com honra para combater Bob, que tornou-se invisível. Dúzias de socos vindos do nada o atingiram até deixá-lo atordoado, e, mesmo nos momentos em que conseguiu bloqueá-los, aquilo não significou muito para o oponente, que claramente podia tornar-se mais ou menos denso quando bem entendesse. Por fim, com um chute, Pepito voou e caiu contra a caixa de uma mangueira de incêndio, estilhaçando a porta de vidro. Isso lhe deu uma ideia.

Foi até um punk encostado à porta pelo lado de fora — àquela altura, as pessoas que fugiram tinham se aglomerado perto da entrada para ver a luta, os olhos ávidos por ação colados no vidro — e perguntou-lhe:

— Tem fogo?

Automaticamente, numa reação biológica própria à sua espécie, o punk ofereceu-lhe um isqueiro aceso. Pepito jogou-o para o teto, acertando um dos splinkers anti-incêndio. O calor da chama acionou todos os splinkers espalhados pelo prédio ao mesmo tempo, derramando água na cabeça deles. Isso permitiu que Pepito visse os contornos de Bob, mesmo invisível.

+2 EM INTELIGÊNCIA!

Pepito, então, o atacou com ferocidade antes que perdesse a solidez. Bob cambaleou um pouco para trás, ainda assim bastante forte, e disse:

— Estou esperando você começar a luta!
— AHHHHHHHHHH! — Pepito se jogou contra ele, e os dois atravessaram engalfinhados as portas do elevador.

........................Gustavo e Pinguin fizeram um verdadeiro parkour pelo shopping até se encontrarem por acaso entre dois lances de escadas. De costas um para o outro, viram seus respectivos Bob’s subirem os degraus prontos para o ataque.

— Ideia, Pinguin, ideia. — murmurou Grilo.
— Segura o teu, que eu seguro o meu. — disse Gabriel rapidamente.

O primeiro Bob converteu-se numa grande bola de fogo e lançou-se contra Pinguin, que abriu o guarda-chuva para se proteger (precariamente consertado com fita adesiva desde a última vez em que o tinha usado). Aquilo conteve o calor, mas provavelmente levaria poucos minutos para o objeto derreter e Bob incendiá-lo completamente. O segundo Bob usou a mesma tática contra Gustavo, que, inspirado pelo plano do outro, engoliu um Halls de menta que tinha no bolso e soprou na direção do fogo. As duas duplas mediram forças.

— Ahhhhrgh, geralmente a gente só apertava A pra bloquear! — gritou Pinguin, mas Grilo obviamente não pôde responder naquele momento.

..........................Matt machucou o cotovelo ao desviar-se de um carro arremessado por Bob — tinham caído no estacionamento subterrâneo há mais ou menos três minutos. O veículo atirado atingiu uma parede e explodiu. Seria impossível medir o nível de caos que eles haviam causado lá embaixo, mas nada mais importava para ambos.

— Posso perguntar uma coisa, Bob? — gritou Matt, escondido atrás de uma coluna de concreto.
— Certamente. — a voz de Bob ecoou de muito longe.
— Por que, quando tentou nos recrutar, não veio falar comigo? Por que tentou apenas me matar?
— Porque eu sabia que você iria cumprir a missão. Eu sou um bom leitor de perfis, Liebert, e sei que o seu não é de alguém que se desviaria da missão. Somente aprisionando-o ou tirando sua vida eu conseguiria mantê-lo fora de combate. Escolhi a opção mais segura.
— Por que acha que eu sou tão fiel à missão?
— Porque você não parece ter outra coisa na vida.

Houve um silêncio muito longo. Depois, Matt gritou:

— Aposto que o seu você não pode ler, Bob. Apenas tente me responder: quem é você?

Ele esperou, mas não houve resposta. Arriscou esticar o pescoço para espiar atrás da coluna, mas não viu ninguém. Aparentemente, o androide tinha batido em retirada...

A diferença entre ficção e vida real...

Um par de mãos firmes apertou seu pescoço por trás, fazendo-o sufocar e cair de joelhos.

... é que, na vida real, se parar a luta para conversar, você morre.

.........................Pepito acessou o Inventário e pegou uma katana. Com ela cortou o cabo de aço do elevador, que despencou pesadamente sobre Bob, este que jazia deitado no fundo do poço depois de uma série de violentos golpes. Ouviu-se um estrondo e um alarmante ruído de esmagamento. As pessoas lá fora aplaudiram.

Sabendo que o inimigo ficaria fora de combate por um tempo, Pepito largou a espada e correu de volta para a área ao redor do portal, onde não havia ninguém. Os outros, ou ainda estavam lutando, ou já estavam mortos. Não tinha jeito nem tempo de verificar. Encontrou o martelo de Thor jogado a um canto e o apanhou, indo até o portal para falar com Pedro.

— Pedro! PEDRO! Ainda está aí?
— Sim! — berrou o garoto, aparecendo do outro lado para vê-lo — O que aconteceu?
— Tomei um couro do Bob, mas meio que contornei a situação. Só não sei onde os outros foram parar.
— O que faremos, então?
— Não sei. Faça o seguinte: suba e chame o Ruleador. Diga a ele que o grupo vai se separar por um tempo.
— E depois?
— Vão embora. Vão para bem longe. Ele vai saber te ajudar.
— Mas...
— Se te pegarem, fodeu. Com ou sem Bob aqui, não é seguro pra você. Vá. Eu espero daqui.
— Er... Está bem. Foi bom conhecer vocês.

Pedro esticou a mão para fora do portal, e Pepito a apertou.

— Tem ideia de quando vamos nos reunir novamente? — perguntou o primeiro.
— Não. — respondeu Pepito — Mas sempre tem o domingo na Rede, não é?
— É, acho que sim.
— Do jeito que trabalhamos hoje... nós tínhamos tudo pra ser uma superliga ou clã de RPG. xD
— Pior. xD Bom, lá vou eu.

E Pedro foi correndo fazer o que ele havia lhe dito. Logo em seguida, Pepito ouviu estampidos fortes atrás de si e virou-se empunhando o martelo. Os quatro Bob’s tinham se teleportado de volta para lá, três deles com reféns imobilizados a seus pés: Matt, Gabriel e Gustavo. Estavam bastante fracos. O quarto Bob veio até ele e disse:

— Serei objetivo com você: entregue Pedro, ou eles morrem.
— NÃO! — gritou Matt, imobilizado por uma chave de pescoço — Você tá com o martelo, Pepito. Feche o portal!
— Muito bem, muito bem. — disse Bob tranquilamente — Você pode fazer o que bem entender — dirigiu-se a Pepito, que recuara indeciso —, mas já sabe o preço a pagar.
— Não importa o que ele te disse, Pepito — berrou Matt histericamente —, FECHA O PORTAL!
— Eu... — Pepito hesitou — Gente, tá foda.

Gustavo levantou o dedo. Todo mundo olhou pra ele, e Bob fez sinal para que falasse.

— Olhe, apesar de eu não concordar oficialmente com a decisão do Matt, obviamente porque isso envolve nós três morrermos dolorosamente, quero que todos saibam que, moralmente falando, se eu fosse o Pepito eu faria o que ele mandou.
— Eu também. — disse Gabriel.
— Valeu, gente. *.* — agradeceu Matt.
— Neste caso, então — disse Bob —, quem vai morrer primeiro?

Instantaneamente Matt apontou para Pinguin, que apontou para Gustavo, que apontou para Matt. Bob suspirou de cansaço.

— Valha-me, Deus... Beckmann, você é o primeiro.

Todos olharam para Gustavo com uma careta de horror. Sabendo o que viria a seguir, Grilo olhou para o teto dizendo:

— Tá bom, lá vamos nós. Foi divertido enquanto durou, gente.

.............................— RULEADOR!

Pedro chegara suando ao andar de cima. Tudo o que achou foi um assento vazio diante do computador. Uma imagem na tela arrebatou sua atenção como num choque, desviando-a do verdadeiro propósito de sua subida: era o rosto do dr. Sebastian.

— Doutor...? Mas... Como?

O Ruleador saiu mancando de trás de um pilar. Sua fisionomia estava irreconhecível: vazia, dura, sem emoção.

— Ruleador...? Ruleador! Você conseguiu? Realmente conseguiu? — perguntou Pedro, incrédulo, apontando para a tela do PC.
— Eu... consegui. — falou o androide vagarosamente.
— E então...?
— Estou tentando entender por que... isso não me deu... uma resposta!!

Ele deu um soco na parede; seu punho atravessou o concreto, abrindo um largo buraco.

— O que houve? O que tem de errado?
— TUDO! — o homem biônico suava de nervosismo, mancando em círculos e sacudindo as mãos enquanto gritava — Tudo que eu imaginei como certo, como lógico caiu por terra hoje!
— Do que está falando?
— DE MIM! DE VOCÊ, DE BOB! NÃO CONSEGUE VER O QUANTO ISSO É INTRIGANTE?

Pedro deu um passo para trás, levemente assustado.

— Estou desapontado — o outro continuou seu monólogo —, muito desapontado. Mas pelo menos consegui enxergar um horizonte hoje. A névoa se dissipou um pouco para mim.
— O que exatamente você viu na mensagem? — perguntou Pedro encarando-o atentamente.
— Sebastian. O gênio inventor de Bob. Ele não deixou apenas um recado para você; ele lhe deixou uma missão.
— Como assim?
— Você sabe o que tem dentro de si, Pedro?
— Da minha cabeça? Um chipe. o-o
— Não, não só na sua cabeça! Está em seu corpo todo! Em suas veias corre a essência de Bob, a alternativa mais inteligente e mais infalível que Sebastian encontrou para proteger sua criação sem que ela escapasse ao controle.
— O quê...? Como isso é possível??
— Não importa como, mas o que isso significa! Você é dono da mente de Bob, Pedro. Você encerra o segredo. Você pode controlá-lo, quem sabe até... explicá-lo.

Pedro teve de se sentar. Uma de suas pernas tremia.

— O dr. Sebastian... deixou... missão...? Eu...?

O Ruleador o olhava como se ele fosse uma relíquia de museu.

— Você é mais importante do que pensa. Em algum lugar do seu subconsciente está a resposta para ele... e para mim.
— Pra você? Não... não entendo.
— Você sabe o que eu sou, garoto?

Pedro não respondeu.

— Sou de carne e osso. — ele chegou bem perto, para que o garoto visse os ferimentos em seu rosto — Sangro, tenho dor e cansaço, mas não sou humano. Tenho um cérebro com a capacidade de um supercomputador militar, mas não sou uma máquina.

Ele se afastou e observou o céu através do teto envidraçado.

— Há tempos venho me interrogando — contou —, tentando compreender minha existência, sabe. Nunca tive sucesso. Talvez tenha — tornou a olhar para Pedro —, agora que assisti àquele vídeo. Antes Bob era apenas um inimigo para mim, mas agora vejo que temos muito em comum: ambos estamos no limite entre homem e máquina. Ambos temos perguntas não-respondidas. Matá-lo seria — posso dizer pecado? — uma falta de educação. Você entende?

Pedro não disse nada. Só o que conseguia pensar era “WTF?”.

— Nós dois precisamos ir até ele. Você, principalmente. É hora de desvendar o mistério, Pedro. — os olhos do Ruleador brilhavam de forma insana — Vamos!

Pedro se levantou, desligou seu computador e recolheu a maleta. Olhou profundamente para o androide e disse:

— Cara, você é louco.

Com isso deu-lhe as costas, disposto a descer e chamar os outros o mais rapidamente possível.

— PEDRO!

Ele ouviu um clique atrás de sua cabeça, virou-se e deu de cara com o cano de um revólver.

— Ruleador, tira isso da minha cara!
— Fique onde está.
— Cara...
— Cale a boca, ou eu arrebento seu cérebro.

Pedro ficou quieto. A única saída era ouví-lo.

O homem com a arma afastou-se um pouco sem perder a mira.

— Você ainda é novo e isto deve ser um choque para você. — falou num tom mais calmo, tentando tranquilizar a si mesmo também — Mas é preciso que entenda: você É Bob! Ao menos numa parte de sua personalidade, melhor dizendo. Logo, deve ter as respostas!
— Quem disse? — indagou Pedro nervosamente — Por que necessariamente eu tenho que saber o que isso significa? Eu não tenho memória, cara! Eu não sei como vim parar aqui, nem o que eu era antes! Se em parte eu sou Bob, sou tão indefinido quanto você!
— EU TENHO MELANCOLIA! — o Ruleador cuspiu-se gritando; algumas lágrimas tinham-lhe escapado — TRISTEZA! Se eu olho para uma obra de arte, é quase como se eu entendesse o que o artista sentiu quando a fez. Não, eu não posso ser uma máquina! Mas também não sou humano! Olhe do que sou capaz, olhe essa maldita perna! QUERO... SABER... MEU LUGAR... NO MUNDO!

A arma tremia diante de Pedro, que meramente sorriu.

— Quem é que sabe? — perguntou de volta.

O Ruleador pareceu atingido pela frase como por uma bofetada. Transtornado, abaixou a arma e deu as costas a ele, apoiando-se no parapeito. De alguma forma, Pedro sentiu que agora era seguro conversar e pôs a maleta no chão.

— Escute. Se nem as pessoas sabem, talvez você não encontre a resposta entre elas.

O outro virou-se rápido. Talvez fosse dizer alguma coisa. Houve um estampido, e Pedro sentiu uma dor forte no estômago. Teve apenas o instinto de levar a mão aonde doía e sentiu uma coisa úmida. Olhou, então, para as pontas dos dedos: sangue.

Caiu de costas ainda lúcido. O Ruleador deu algumas voltas em torno dele, confuso, incerto sobre o que fazer, enquanto Pedro grunhia e tentava se levantar em vão. O androide tomou uma decisão. Parou ao seu lado e tornou a lhe apontar a arma.

— Eu... — Pedro esticou a mão para cima — não quero...

O Ruleador atirou de novo.

.............................NO PRIMEIRO ANDAR do shopping verdadeiro, algo muito estranho acontecera. De olhos fechados para o que aconteceria com Gustavo, Pepito, Matt e Gabriel custaram a perceber que os três Bob’s tinham se reincorporado ao quarto, e que este agora jazia no chão com dois buracos escuros em seu tronco. Estava entre a vida e a morte.

— O que houve com ele? — perguntou Gustavo se levantando.

Os outros que estavam ajoelhados se levantaram também e formaram um círculo ao redor do ferido, junto com Pepito.

— Não faço ideia. — respondeu Matt, perdido.
— Será que houve algo com o Pedro? — perguntou Gabriel, alarmado.

Ouviu-se um estrondo de porta caindo e barulho de passos. De repente, dezenas de soldados armados até os dentes, vestidos de preto, invadiram a área e mandaram os quatro se jogarem no chão. Eles obedeceram, foram rapidamente revistados, algemados e encapuzados.

— Levanta! — berrou um dos soldados.

Os quatro foram erguidos do chão e levados para fora. Em seguida, entrou um homem de terno portando uma maleta executiva. Ele viu soldados rodearem Bob, viu o portal aberto e ordenou:

— Chamem paramédicos para ele. Achem o refém.

A ação veio rápido. Os médicos vieram e recolheram Bob. Depois que o outro lado do portal foi devidamente vistoriado, trouxeram Pedro para fora, numa maca, e o conduziram às pressas até a Emergência. Também trouxeram uma maleta de metal, que foi marcada e levada como evidência. Segundo o capitão da tropa, não havia mais ninguém no recinto.

— Mantenha a vigilância lá fora enquanto aguarda as minhas instruções. — disse o homem de terno.
— Sim, senhor. — respondeu o capitão, batendo continência e saindo com parte de seus homens.

Com um gesto displicente, o homem de terno sentou-se num banco próximo e abriu a maleta em cima do próprio colo. Havia um laptop ali dentro com webcam embutida. Assim que o ligou e mandou conectar a câmera, a face do Agente #1 apareceu na tela.

— Como está a situação, Agente #3?
— Sob controle. — respondeu o dono do laptop — Ambiente vistoriado, quatro dos captores apreendidos. No entanto...
— O quê?
— O refém foi resgatado com vida, mas se encontra gravemente ferido.

O Agente #1 respirou fundo.

— Isso é ruim. Algum sinal de Bob?
— Foi encontrado aqui também, nas mesmas condições que o garoto.
— Curioso... Enfim, não há mais o que fazer aí, Agente #3.
— Sim, senhor.
— Darei aos técnicos a ordem para deletar o PRINT. Diga aos homens lá fora para limparem a cena e afastarem a imprensa. O resto irá se consertar em breve.
— Sim, senhor.
— Até a próxima.

A câmera desligou-se. O Agente #3 guardou seu computador e preparou-se para sair, quando um soldado o parou exibindo um objeto.

— Encontramos isto aqui perto, senhor. — disse — O que fazemos com ele?

Era um martelo. Por acaso o homem o reconheceu e tomou-o rapidamente.

— O lugar dele não é aqui. — disse — Esqueça que o viu, soldado.

— Sim, senhor...

.......................O Agente #1, após fechar a conversa via webcam com seu subordinado, soltou um suspiro de preocupação.

— Mas que dia!

Ligou novamente a câmera, desta vez para conectar-se com o presidente da LDM.

— A operação chegou ao fim, senhor. — avisou, assim que o homem apareceu em sua tela.
— E...?
— Não foi como esperávamos, senhor. Um dos sequestradores conseguiu fugir, e Pedro está bastante ferido.
— Maldição.
— No entanto, temos Bob conosco.
— Pelo menos isso, eh. Trate de descobrir tudo sobre os prisioneiros e avise-me assim que souber de uma melhora no estado de saúde de Pedro.
— Sim. Aparentemente, os ferimentos dele também afetaram Bob.
— Ora, eis uma coisa que ainda precisamos entender... É um trabalho para nossos pesquisadores, com certeza. Agora, não podemos parar por causa disso. Há um outro assunto importante a ser tratado no momento, Agente #1.
— Qual, senhor?
— O Google Earth. Temos grandes planos para sua inicialização amanhã. É preciso que todos os QG’s estejam sincronizados, pois, depois que o eclipse solar se encerrar, a velha Terra terá se tornado nossa Terra.
— Eclipse solar?
— Ah, os recursos desse brinquedinho ainda vão surpreender muita gente. Apenas mantenha-me informado sobre o que pedi.
— Sim, senhor.
— Desligando...

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As próximas horas daquele dia e as primeiras do dia seguinte foram marcadas por intenso sensacionalismo na mídia. Assim como os jornais locais falavam repetidamente da “invasão do Shopping Praia de Belas por uma organização criminosa secreta”, enchendo o saco das autoridades para ter maiores detalhes, os jornais de todo o mundo comunicavam um iminente eclipse solar, que poderia ser visualizado pela maioria dos países. O que fez todo mundo parar para acompanhá-lo no dia seguinte, fosse por telescópios ou pela Internet, não foi o fenômeno em si, mas o fato de os cientistas não o terem calculado meses antes. Um acontecimento daqueles simplesmente não “brota” do nada, ou brota? Muitos acreditaram tratar-se de um sinal dos céus, um presságio para o início de uma nova era mundial...

Movida por essa mesma curiosidade, uma garota de Porto Alegre chamada Amália matou aula de manhã para visualizar o eclipse através do telescópio de seu pai. Segundo os jornais, o Sol ficaria coberto durante mais ou menos dez minutos, período relativamente longo para um fenômeno dessa natureza. Assim como outros milhares de pessoas, esotéricas ou não, ela sentia que, assim que a sombra da Lua descobrisse a estrela, o seu mundo já não seria mais o mesmo. Realmente não foi mais.

CONTINUA...

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