terça-feira, 4 de maio de 2010

(1ª TEMPORADA) EPISODE 07 - A Disputa: Parte II

A poucos segundos de atingir o asfalto em meio a uma avenida movimentada, Matt pensou “Quem dera essa jogabilidade não fosse tão realista”. De fato, como uma resposta a sua reflexão, um caminhão que passava em alta velocidade amorteceu sua queda, e ele agarrou-se com força à beirada da carroceria para não escorregar para fora. Ficou algum tempo ali em cima, imóvel e borrado de medo, até o veículo parar num novo semáforo. Desceu, o coração batendo depressa, e pegou correndo um caminho aleatório. Estava no que percebeu ser o Largo dos Açorianos, àquela hora assustador e deserto.

Apoiado nos próprios joelhos enquanto tomava fôlego, ouviu o ronco de um motor às suas costas. Olhou para trás e viu o Andróide dentro de um carro qualquer, cuja uma das portas fora arrancada, provavelmente pelo trabalho de arrancar o automóvel de seu dono. Havia determinação nos olhos da máquina. Ele acelerou e investiu sobre o gramado na direção de Matt, que atirou-se para o lado no último instante e ouviu duas toneladas de aço sobre rodas colidirem com o Monumento aos Açorianos. Houve uma súbita explosão, que impeliu seu corpo para longe com força.

Matt levantou-se com dificuldade. Devia ter quebrado algo, pois respirar doía. A outra porta do veículo em chamas escancarou-se, e o Andróide veio para fora. Grande parte de seu corpo tinha queimado e deixado à mostra o revestimento metálico, mas ele não parecia se importar. Iniciou uma vagarosa caminhada na direção de Liebert, que, aproveitando-se de sua momentânea fraqueza, apanhou uma barra de ferro que havia se soltado no instante da explosão.

— Humains... — a fala do garoto emitiu um ruído estático ao mudar de idioma — Humanos... fedem...

— Você... — começou Matt, notando em seguida que debaixo da profunda raiva com que falava havia uma certa tristeza — não era o que eu esperava.

E atravessou-o com a barra de ferro no ponto onde devia ser o coração. O Andróide emitiu um grito lancinante de dor, ou seja lá o que estivesse detectando, e caiu. O golpe de Matt apenas terminou de inutilizá-lo.

.......................ENQUANTO ISSO, NO OPINIÃO:

— Aproximamo-nos do Gran Finale! — anunciou o MC — BARATAS SANGUINOLENTAS acaba de perder de forma... sanguinolenta para o famigerado DELÍRIO ENCEFALOPÁTICO. Parece que este é o grande vencedor da noite!

Houve uma explosão de gritos, aplausos e batucadas em homenagem aos três finalistas.

— Mas ainda não acabou. Senhoras e senhores, é hora de Uruk, da banda MADNESS, introduzir (ui) a última apresentação desta noite!

Uruk subiu ao palco — as grades que cercavam a arena já haviam sido recolhidas —, puxou o microfone e falou, com certa indiferença, aos músicos presentes:

— Parabéns.

E lançou um olhar significativo aos companheiros de banda na platéia VIP, que deixaram seus lugares para juntar-se a ele.

— Vamos ver do que são capazes.

Cada grupo apanhou seus instrumentos. Gabriel inclinou-se para a frente, ávido em acompanhar cada detalhe. Apesar do sangue e de algumas musiquinhas ruins, o espetáculo até que não estava tão péssimo quanto parecera no início. Uruk pegou sua palheta, lambeu-a delicadamente e começou a tocar. O que se ouviu em seguida foi do mais puro, mais sagrado ROCK. Ondas perceptíveis de energia, de início suaves, mas, à medida que a música avançava, cada vez mais violentas, emanaram dos instrumentos que a MADNESS tocava, propagando-se por todo o ambiente. Sem saber por que, ao mesmo tempo em que era envolvido pela atmosfera musical, Gabriel sentiu um certo desconforto. Talvez fosse pela aparência do líder da banda motherfucker, que parecia nutrir nada mais que profundo ódio por todos ali presentes. Quando o som da DELÍRIO invadiu o ambiente para complementar o da MADNESS, a platéia realmente enlouqueceu. Aplaudiam de pé agora, loucos por um pedaço da alma dos músicos.

Dez minutos depois, eles terminaram. Ninguém se atreveu a aplaudir desta vez. Esperavam a reação de Uruk, que, de olhos fechados, ainda parecia estar sentindo a música. Abriu os olhos, fitou os vencedores e disse:

— Isso foi TRAAAAAAAAASHHHH!

Um horror se abateu sobre o público quando o bar começou a tremer, os holofotes ficaram vermelhos e o chão abriu-se em fendas de onde saía fumaça. A própria face de Uruk mudara: ele tinha outro chifre agora e soltava fogo pelas ventas e pela boca.

— EU FALEI QUE ÍAMOS TODOS PARA O INFERNO!!

As pessoas se pisotearam para chegar até as portas, mas não tiveram sucesso, pois ninguém conseguia tocá-las: estavam quentes como aço derretido.

— VOCÊS NÃO SABEM O QUE É ROCK, PORRA!

Começaram a gritar.

— EU COMI O OZZY!

Alguns se mataram.

— E CUSPI NA CARA DO HETFIELD!

E, pela primeira vez, havia metaleiros rezando.

Vamo parar com essa porra?

Houve um súbito silêncio. A voz viera do microfone que o Mestre de Cerimônias, em pânico, havia abandonado em cima de sua mesa. Era a voz de Pinguin. Uruk lançou-lhe um olhar desvairado e perguntou:

— E quem é você?

— Não interessa quem eu sou. Eu só vou te arrebentar.

Uruk deixou à mostra uma língua de cobra ao gargalhar histericamente.

— Desculpe — fingiu ficar sério de repente —, é que quando fiz o pacto com meu amiguinho lá debaixo ele disse que EU arrebentaria todos os outros... com sangue.

— Eu não preciso de pacto pra comer o seu rabo.

Os membros remanescentes da platéia gemeram. Deviam estar pensando: “Agora que ele provocou, vamos nos foder mais”. Mas Gabriel foi até o palco, até diante de Uruk, e pegou a guitarra das mãos do cara da DELÍRIO.

— Primeiro as damas. — debochou.

PINGUIN COMEÇOU UMA FIGHT!


— Vai ser um prazer. — Uruk.

Apenas a guitarra dele soou naquele momento, mas foi suficiente para fazer as pessoas se abaixarem com as mãos na cabeça gritando de dor, enquanto Gabriel permaneceu impassível, firme em seu lugar, apesar das ondas sonoras quererem empurrá-lo para muito longe. E terminou.

— Pense rock, pirralho. — rosnou Uruk.

Sem dizer nada, Gabriel tocou uma variação do mesmo riff, devolvendo aos demais a coragem de olhar para o palco, e Uruku encarou-o com cara de bunda.

— SEJA rock. — Pinguin disse a ele — E a única genialidade do seu riff são os efeitos colaterais, porque com um pouco de prática qualquer um saberia isso.

Uruk sorriu outra vez daquele jeito psicopata.

— Quer que pegue pesado? Que seja.

E dessa vez ele pegou pesado. O som demoníaco tirou Pinguin do chão e ele caiu sobre a bateria, um pouco atordoado. O público que assistia voltou a gritar de dor.

— E então? Vai implorar por uma aula ou já posso queimar tudo isso aqui? — perguntou Uruk.

Gabriel se levantou, ajeitou a guitarra, afinou-a.

— Você... — estava suado e cansado, mas não muito para o que faria a seguir — não precisa... disso tudo.

E dedilhou os primeiros acordes de “Faroeste Caboclo”. Todos ficaram meio que “WTF”, mas logo em seguida ele emendou com um solo próprio, e a DELÍRIO ENCEFALOPÁTICO ficou encorajada a seguí-lo. Durante cinco minutos, Uruk e os membros da MADNESS pareceram sofrer dores indescritíveis que os forçaram a largar os instrumentos. Nos segundos finais da música, Uruk soltou um grito terrível e explodiu em chamas, restando apenas um esqueleto disforme. As luzes voltaram ao normal, as rachaduras no chão se fecharam e as portas esfriaram. Os que haviam restado da MADNESS de repente perderam sua aura mística, e então eram apenas músicos. Ruins.

........................QUARTO DE MATT:

— Não, a noite não foi boa pra mim, e é só isso que eu vou dizer. ¬¬ — disse Matt em voz alta antes de atender o celular. Estava estirado na cama como um morto. Atendeu, e era Pinguin com as novidades da noite.

........................NOVO QUARTEL-GENERAL DO GOOGLE, EM POA:

O Agente #1 se aproximou triunfante do chefe. Era madrugada, mas Bob jamais dormia, como era de se esperar.

— Conseguiu algo? — perguntou o andróide fitando-o pelo canto do olho. Estava sentado mais uma vez diante de seu mapa digital.

— Acompanhei um dos garotos esta noite. — respondeu o agente, eufórico — Você estava certo. Não é desta época.

Bob girou a cadeira para vê-lo melhor.
— Prossiga.

— Houve uma Batalha de Bandas num bar chamado Opinião. Aquele garoto, Gabriel...*FASTFORWARD*.........................................................E, depois de telefonar para o amigo, foi correndo para a casa dele. Eles conversaram no portão do prédio, então pude ouvir perfeitamente. Em determinado momento, surgiu um homem...

..........................MAIS CEDO NAQUELA NOITE, QUANDO MATT E PINGUIN SE FALARAM:

— As ocorrências de hoje provam que nem sempre vocês deverão agir juntos. — explicou o Ruleador do lado de fora do edifício — Podem ser surpreendidos em lugares e momentos diferentes, daí minha preocupação com suas backpacks. E parece também que não há uma frequência fixa para as quests aparecerem. Elas simplesmente... surgem. Como tudo neste universo louco. No futuro, a Resistência aprendeu que nem sempre é possível ter planos para tudo, portanto, às vezes, é preciso usar a criatividade... como Gabriel, aqui, fez.

— É, MANOLOOO. xD — Gabriel.

Matt perguntou:

— O que acontece se morrermos?

O Ruleador fitou-o seriamente.

— Se morrem... bom, acabou. A não ser em casos especiais, como de uma Extra Life, que, você disse mais cedo, aconteceu com seu amigo Pepito.

— Para que salvamos, então?

— Para garantir que o transcurso de seus atos não seja manipulado. Evita que os Cibernéticos “trapaceiem”. Por mais que teimem, não podem ignorar o que JÁ aconteceu no jogo.

Matt não disse mais nada.

— Tratem de ficar alertas. O tempo todo. — o Ruleador ajeitou a gola do casaco, deu uma olhada rápida nas extremidades da rua e desapareceu.

......................DE VOLTA AO QG DO GOOGLE:

O Agente #1 não podia dizer com certeza se Bob era capaz de sorrir, mas ficou claro que as informações que trouxera exerceram um forte efeito reanimador no chefe.

— Interessante. — ele começou a andar muito rápido, seus passos ecoando pela sala — Muito, muito interessante. Percebe o que está acontecendo?

A pergunta era retórica mesmo, então o agente não se deu ao trabalho de responder.

— O grupo está sobrecarregado. — continuou Bob — As regras do “jogo”, tão complexas e cheias de desvios, começarão a cansá-los. Nem as vitórias servirão para animá-los. Entrarão num ciclo vicioso do qual não conseguirão sair, a menos que... deixem o serviço para nós.

— O que, você acha que é possível eles escolherem não lutar? Pelas palavras daquele mentor, sua missão pareceu bastante clara, além de irrevogável.

— Tenho minhas dúvidas. Essa tal Resistência Humana futurística devia estar em desespero, por isso pediu auxílio a pessoas do passado. Uma última cartada: tentar fazer um jogo limpo. Quem faz o jogo? Quem cria as regras? De quem é essa mão que conduz os garotos a missões letais e aparentemente sem sentido? Por enquanto, só posso imaginar...

— Mas do ponto de vista prático?...

Bob parou de andar.

— Iremos até eles. — falou, e sua poderosa voz pareceu emanar de todos os cantos da sala, não de apenas um ponto. O Agente #1 sentiu um calafrio (ui). — Ofereceremos nossa lealdade, mas de uma forma melhor que a anterior. Se estiverem suficientemente exaustos, se forem espertos, aceitarão. E entregarão seu poder a nós. E nós jogaremos... pra vencer.

— Vai se revelar a eles? — indagou o Agente #1 erguendo uma sobrancelha.

— Se esse verbo é possível no meu caso, sim.

— E se, apesar de todas as tentativas, eles recusarem?

Foi friamente que Bob respondeu:

— Ah, eles não gostariam de fazer isso...


CONTINUA...

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