Quando terminaram de descer, a grande máquina deu um solavanco, e as portas de correr se abriram. Iam dar numa espécie de recepção de repartição pública. Uma sala quadrangular com um balcão, armários de arquivo e cadeiras de couro com o assento rasgado. O calor era insuportável, e logo entenderam por que: um cartaz colado com fita adesiva na parede, abaixo do split de ventilação, dizia “Ar-condicionado com problema”.
Atrás do balcão, lixando as unhas com expressão de tédio, estava uma solitária Recepcionista. Sua aparência seria idêntica a de uma humana em vida, não fossem os chifres vermelhos e o rabo de seta que ondulava debaixo de sua saia.
— Rapazes... vai ser mais difícil do que pensei. — confessou Chuck Norris, parecendo preocupado pela primeira vez em sua existência — Ela é funcionária pública.
Aproximaram-se em fila, tomando a precaução de parar na linha amarela e de tirar a tradiconal senha. Chuck Norris ia na frente, por isso foi chamado primeiro.
— Formulário? — indagou a mulher fanhosamente.
— Quero apenas falar com seu chefe — respondeu Norris no tom ameaçador que usava em interrogatórios.
— Audiências particulares com o Diabo, somente via formulário. — disse a Recepcionista, impassível — A não ser que já tenha feito contato extraterreno.
— Perdão?
— Macumba, trabalho, oferenda.
— Ah, não.
— Então vai ter de preencher o formulário — ela entregou-lhe um questionário em folha vermelha — E terá de esperar algumas horas, pois é sexta-feira, sou só eu aqui hoje e o sistema está muito devagar.
— Pensei que fosse domingo.
— Na repartição pública do Inferno todo dia é sexta-feira.
— Eu preencho. — ofereceu-se Matt, e Chuck Norris aceitou. Pelo jeito, a situação não seria resolvida com mais um roundhouse kick.
Matt entregou o documento nas mãos da funcionária, e o grupo passou sentado uma boa quantidade de horas, o suficiente para Chuck contar sobre a vez em que foi ao Bob’s e pediu um Big Mac.
— Sr. Matt Liebert? — chamou a Recepcionista, muito tempo depois.
Ele se levantou.
— Ele está pronto para vê-lo. — a mulher abriu uma porta para ele — De acordo com I Coríntios 6:9 e Levítico 18:22, pessoas como você têm entrada preferencial aqui.
Matt olhou para os amigos dizendo “Bom, lá vou eu” e foi. E quando atravessou a porta, teve a impressão de passar por uma cortina de água gelada. Tudo ficou frio, e ele se viu na beira do topo de uma montanha nevada. Metros e metros abaixo, via-se um conjunto de casas feitas em madeira. Não entendeu o que era aquele lugar, mas possivelmente era uma cidade humana.
— Papel de parede do Baixaki.
No que ouviu a voz, virou-se para trás e enxergou um bode monumental equilibrado sobre as patas traseiras, os olhos vermelhos, as patas dianteiras segurando uma foice.
— Toda semana testamos um wallpaper novo. — explicou a fera no bom Português, mas não porque tinha um babel-fish na bunda. Era apenas poliglota pra diabo ==> TU DUN TSS.
— Quem é você? — perguntou Matt.
— Chamam-me de Baphomet. — respondeu o bode — Todos já ouviram falar e já temeram estar em minha presença, menos os losers que jogam Ragnarok. Esses pedem meu autógrafo.
— Certo...
— Sei o que está procurando, Matt Liebert, e recomendo que desista. É um preço alto demais... até para você.
— Mas... — Matt olhou para o horizonte — Pensei que quando eu viesse aqui, você me persuadiria a vender minha alma ou coisa do tipo.
— E realmente é o que vai acontecer, mas não poderia deixar de avisar, já que você é um cara tão ligado na lógica, que no fim não daria em nada. — disse o bode — Para que destruir o GOOGLE, quando ele já fez muito por todos nós, garoto?
— Você não entenderia. Você é dono de tudo isso.
— Ah, entenderia. Até entenderia. Sou EU quem mais compreende os dilemas humanos, Matt Liebert, ao contrário do barulhento que mora lá em cima.
O tom do Baphomet era de revolta ao mencionar seu antagonista.
— Ele nunca aparece, e ainda assim vive despachando ordens. EU apareço quando me chamam. u.u
— Acho que o assunto não era bem esse... — Matt viu que a atmosfera estava ficando pesada — Sabe... mesmo com seus avisos, você deve saber tamvém que eu sou um cara teimoso. Uma alma impulsiva, digamos. E sei que, não importa aonde minhas escolhas possam me levar, não tenho muito a perder.
— Estou ouvindo.
Era a hora perfeita para a barganha, por isso Matt prosseguiu:
— Olhe pra mim, sou uma alma com uma missão. O que vai acontecer comigo depois que eu terminá-la, ou quanto tempo vai levar, ou se vai doer meu pescoço e minhas mãos depois, pouco importa. É assim que se joga videogame. xD
— Já vi humanos se entregarem a mim por motivos menos divertidos. — murmurou o Diabo — Álcool, jogo, sexo, dinheiro. Quando chega a hora de eles pagarem sua parte, sempre acabam amarelando, e aí é que eu literalmente como a bunda deles. Você, Liebert, não parece que vai amarelar. Talvez eu reserve algo mais interessante para fazer com você (ui). O que me pede?
— Qual o preço padrão?
— Você sabe.
— Alma?
— Sim.
— Todinha? =/
— De ponta a ponta.
— Tá, vamo lá. >.< Quero o ponto fraco de Bob.
Os olhos do bode se estreitaram. Ele estava raciocinando.
— Isso não necessariamente nos livra do GOOGLE. — disse Matt — Você está certo, ele é bom demais para o Inferno pelas almas que condena. Mas, sem Bob, pode ser mais difícil atrapalhar a mim e meus amigos.
— Honestamente, sua alma valeria até mais. Por que não pedir para ser o novo Bob, ou o subpresidente da empresa?
— Sou sócio de várias bibliotecas. Google não é bem minha ferramenta principal.
O bode riu satisfeito.
— Done! — exclamou. — O ponto fraco do andróide invisível pela alma de Matt Liebert.
— Tenho uma condição.
— Sim...?
— Pagarei com minha alma depois que a guerra contra as máquinas terminar.
Baphomet estreitou os olhos outra vez.
— Espertinho...
Uma baforada de fumaça saiu de seu nariz, e um pergaminho dourado surgiu no ar.
— Seu sangue, abaixo.
Ele picou o dedo do garoto com a ponta da foice, e Matt traçou seu nome em vermelho no papel. O contrato enrolou-se e desapareceu com mais uma nuvenzinha de fumaça.
— Aos negócios? — Matt.
— Não posso entregá-lo diretamente o que quer — explicou o Diabo —, pois está bem protegido. Mas vou lhe dar a localização exata.
— O que estou procurando exatamente?
— Um chip. Contém toda a programação, toda a memória de Bob, que no entanto ele não consegue levar consigo fisicamente. Tendo-o nas mãos, você teria o coração dele.
— Onde está? *.*
— No endereço que vou dizer. Mas não pense que será fácil. O local foi a primeira área onde o novo Google Earth começou a ser processado. Podem alterar o ambiente a qualquer passo seu. Será como um Inferno na Terra, Liebert.
— Meu pessoal e eu lidamos com isso. ;)
— Não cheguei na parte hardcore ainda. Difícil mesmo vai ser alcançar quem guarda o chip.
— Quem?
.............................Na Sala Principal do QG, Bob contemplava o céu noturno pelo Google Earth antigo, apenas para se distrair. O Agente #1 estivera o dia todo tentando localizar Liebert e seus amigos, sem sucesso. Voltou pela quinta vez de mãos abanando.
— Realmente não vejo como puderam sumir da face da Terra, chefe...
— Não se preocupe mais com isso. — Bob interrompeu-o serenamente — Enquanto você esteve fora, descobri um fato interessante que ocorreu esta tarde.
— O quê?
— O Bob’s do shopping Total, local que, aliás, eu aprecio muito, principalmente por causa do nome (xD), vendeu um Big Mac para um cliente.
O subordinado ficou vivamente interessado na história. Bob continuou falando:
— Só uma pessoa na História conseguiu tamanha proeza, a mesma pessoa que venceu uma queda-de-braço com um conhecido superherói e contou até o infinito duas vezes.
— Está falando de Ch-Chuck Norris??
— Só não consigo imaginar o que um indivíduo tão fenomenal estaria fazendo numa cidade como esta.
— Não está pensando que...?
— Que você nunca termina uma frase? — indagou Bob, bem-humorado, e desligou a tela do GE com o controle remoto — Também. Mas fui levado a crer que Matt Liebert recebeu um visitante muito especial hoje. Resta-nos saber o que eles andaram fazendo.
CONTINUA...
ENCERRAMENTO
http://www.youtube.com/watch?v=TUYwTSzqc30
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